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Full text of "O Brazil mental, esboço critico"

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Premiada nas Expo^irf.c.s de Paris do 
1878, 1880 e 11)00, com 2 CBAKDS 
PBIX na Exposição do Rio de Ja- 
neiro de 1008 e com o grande di- 
ploma de honra na Exposição da 
Imprensa em Lisboa. 



V/versitv nr Mirt 




Eça de Qmiini?., Camillo Cuslello 
Branco, Coelho Nello, Theophilo 
Draga, Sylvio Homero, Guerra Jun- 
queiro, Razilio Telles, Euclydes da 
Cunha, Ahcl Botelho, José. Sam, 
(Bruno), JoSo do Rio, João Grave, 
José Caldas, Júlio Brandão, Garcia 
Redondo, Thomnz Lopes, Luiz Murai, 
Benlo Carqueja, Pinlo da Rocha, 
Alcides Mtiin, Anlhcro de Quenlal, 
Cármen Dolores, Alfredo Pimenla, 
Teixeira Rastos, Rocha Peixoto, Tho- 
mnz Riheiro, Padre Anlonio Vieira, 
Padre Manoel Bernardes, Flaobert, 
Shakespeare, Renan. Slraiiss, Haeckel, 
Buchner, Darwin, ele, ele. 




jpganaaaai 



O BRAZIL MENTAL 

ESBOÇO CRITICO 



DO MESMO AUCTOR: 



Analyse da crença christã. 1 volume. Porto, 1874? Typ. de Ar- 

thur José de Sousa. 

» 

A Geração Nova — Os Novellistas. 1 volume. Porto, 1886. Ma- 
galhães & Moniz, editores. 

Manifesto dos emigrados da revolução republicana portuguesa 
de 31 de janeiro de 1891. Opúsculo. Paris, 1891. Imprime- 
rie Sclnller. 

"Notas do Exilio — 1891-1893. 1 volume. Porto, 1893. Lugan & 
Oenelioux, editores. 

NO PRELO 

Os publicistas portugueses' contemporâneos. 1 volume. Lello & 
Irmão, editores. 

EM PREPARAÇÃO 

Depoimento á"um vencido. 

O theatro nacional. 

Theoria da evolução portuguesa. 






BRUNO 



1 1 . L- i "« 






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Brazil Mental 



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ESBOÇO CRITICO 




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The officc of mind is 
to direct socicty... 

LtSTEK F. VVahd. 



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PORTO 

LIVRARIA CHARDRON 

Be UIU á lrai«, e^iUres 
1898 

Tufe* Cl d»r*rtO» IIMMdct 



/ ^ A »' 






Propriedade dos editores 



Porto — Impren' 



k ~ 



Nota preambular convinha que, aqui exarada, ella 
registrasse que no decorrer das paginas que vão se- 
guir alguns lapsos de revisão se encontram, em de- 
trimento da perfeita transcripção ou de vocábulos de 
línguas estranhas ou do sentido de passagens no, mes- 
mo, texto. 

Mas, confessado isto, insistir, organisando qualquer 
pormenorisada resenha, seria ingénua impertinência, 
affrontosa, aliaz, para a espécie de publico à sentença 
de cuja cultura se propõe a obra. 

Lâ-fóra, a primeira coisa que faz o comprador de 
um livro, depois de lhe haver cortado as folhas, é 
transportar da tabeliã as erratas para as respectivas 
paginas. Em Portugal, até hoje só deparamos com uma 
pessoa tendo esse habito e exercitando essa pratica. 
Assim, na praxe de nossa leitura, o rol repositivo re- 
sulta sempre inútil. Nos compêndios de aulas é que se 
sentem effeitos maus, ou inoculando absurdos nos que 
aprendem ou, por inadvertência, obrigando-os a um 
trabalho de rectificação escusado, qv& to\i& ^ Nscs^b 






VI NOTA PREAMBULAR 



que, precioso, poderia aproveitar-se no avance de pro- 
gressivas acquisições. 

Mas aqui òs alumnos estào sabidos. Elles é que 
são os mestres, afinal. Elles é que tem de julgar e de- 
cidir, constituindo ojury, espontâneo, de exame: — ao 
auctor admittindo-o ou reprovando-o. Por isso, a fri- 
sada tarefa era, mais que muito, dispensável. Dispen- 
sou-se. 

De resto, os enganos que, n'este volume, escapa- 
ram são, de si, quasi todos, insignificantes. * 

Porto — Fevereiro, 1898. 



J. Pereira de Sampaio. 



* Á hora, final, de entregar este seu novo trabalho ao 
mercado, o auctor deseja cumprir o dever que, em seu prece- 
dente volume, notas do exílio, no lance análogo, cumpriu já 
também. O mais honroso logar cabe, de direito, á leal solida- 
riedade de quem quer que proporcione ao tarefeiro as condições 
moraes em que sua actividade se exerça. O auctor encontrou 
essa penhorante cumplicidade psychica. Para com três distin- 
ctos cavalheiros, entre outros, sua gratidão o força a um in- 
discreto procedimento, melindrando-os, mercê de irresistivel 
impulso, no escrupuloso timbre de sua modéstia; mas a audá- 
cia' derivou da confiança em que, relevando-o da falta, lhe dêem 
vénia os seus prezados e distinctos amigos Eduardo de Paiva, 
José Maria de Carvalho e dr. José Ventura dos Santos Reis, 
cujos nomes lhe é immensamente grato inscrever em paginas 
que mui lhe devem, por ao seu auctor as tornarem, da arte 
dita, possíveis. 

Assim volve o rythmo da nota das primeiras laudas do 
preambulo do volume de 1893. Poisque nem sempre o exilio 
seja destefro; e a proscripção se exerça, mesmo, a dentro de 
^fronteiras. 



ADVERTÊNCIA EXPOSITIVA 



Conhecer as condições especificas e próprias da so- 
ciedade politica e económica brazileira : não é para o 
publico culto portuguez um escusado dillettantismo de 
ociosidade litteraria ; antes, importa interesse decisivo, 
desde que esteja demonstrado que Portugal não possa, 
na phase histórica não só ainda não conclusa mas ape- 
nas esboçada, prescindir da tradiccional correlaciona- 
rão com o Brazil. 

O asserto produzido legitima-se, de golpe, pelas na- 
turaes considerações que brotam d' um simples relance 
«obre elucidativos quadros estatísticos. 

Assim, para 1893, um negociante illustrado da pra- 
ça do Porto, o snr. Calem júnior, registrou, n'um es- 
tudo commercial, que o Brazil nos levara, pela expor- 
tação nacional, productos na importância de 7.155 con- 
tos. Ora, sendo o total d'aquella, em idêntico exercício, 
■de 23.408 contos, seguia-se, logicamente, que similhante 
paiz contribuíra com quasi um terço, ou sejam 30,5 por 
eento, ao passo que apenas do Brazil recebêramos para 
consummo 2.428 contos, ou sejam 6,30 da totalidade 
L da importação. 
i Ás considerações de ordem geral ecoxvomvç,^ çvvx&- 



K - 



TUI ADVERTÊNCIA EXPOSITIVA 

pre additar aquellas que, mais particularmente, se re- 
portam do feitio psychologico das populações america- 
nas com as quaes havemos de entreter um forçoso com- 
mercio de amizade. E, dada a natural reciprocidade de 
relações, se a Portugal convém saber o que seja o Bra- 
zil e como é que elle pensa, análoga noticia ao Brazil 
interessa, egualmente, pelo que a nós se refere e pela 
que nós d'elle ajuizámos. 

Inspirado n'este critério, o brazileiro Augusto de 
Carvalho publicou em Portugal um farto volume de 
informação, que promoveu os encómios dos portugue- 
zes Alves Mendes, Innocencio Francisco da Silva, Ca- 
millo Castello Branco. Também no Brazil, não só ex- 
plicando Portugal como rehabilitando os luzitanos, de 
cá e de lá, das accu sacões que alli lhes assacam, por 
vezes têm sahido a lume obras especiaes e, quando não 
seja senão pelo intuito, meritórias. No Rio-de-Janeiro, 
em 1857, publicava João António de Carvalho e Oli- 
veira A defesa dos portuguezes na provinda do Mara- 
nhão. No mesmo anno apparecia também na capital do 
Império um opúsculo, curioso, em cujas laudas Um bra- 
zileiro sustentava o característico thema de A utilidade 
dos portuguezes no Brazil. 

De então para cá, apezar de tudo, se o Brazil mal 
aprecia Portugal, Portugal, em certa maneira, comple- 
tamente ignora o Brazil. 

Entendemos verdadeiro serviço publico o tornar- 
lh , o, na medida do pouco que sabemos e podemos, co- 
nhecido. E, para conseguir o scopo a que convergimos, 
deliberamo-nos pela adopção e uso d'um processo que 
fizesse nossa lição não só mais accessivel como menos 
fatigante. Isto é : em vez de agglomerarmos uma co- 
piosa missanga de miúdas informações, entendemos 
que melhor conviria desenhar as grandes correntes cri- 
ticas geraes alli dominantes. O Brazil mental, implici- 
tamente contendo-o, explicaria, interpretativamènte, o 



ADVERTÊNCIA EXPOSITIVA IX 

Brazil social. Essa precedência pareceu-nos não so- 
mente lógica como indispensável. 

É claro que este critério se presta a objecções, fa- 
cilmente emergindo. Pode, com effeito, dizer-se que elle 
tende a dar a prevalência ás funcções superiores do es- 
pirito, attribuindo uma predominância abusiva aos fa- 
ctores sociaes mais altos, incontestavelmente, mas de 
influxos mais intermittentes, menos efficazes. Este mo- 
do-de-vêr é muito trivial ; a sua expressão mais corri- 
queira está em certo logar, excedentemente, commum. 

É aquelle que corre expressando-se pelo conceito 
de que a pratica valha mais do que a theoria, pois que 
só os práticos sejam que governem effecti vãmente, era- 
quanto os theoricos outra coisa não façam senão cahir 
em abusões e enganos, que até os tornam ridículos. 

Sob este critério, se pinta os ;philosophos a cahi- 
rem em poços, embevecidos na contemplação das es- 
treitas. Assim se rabiscam comedias a caricaturar os 
ma them áticos e as suas famosas distracções. Ora, a 
proposição orientadora, de que originariamente se de- 
riva, não é exacta rigorosamente, ou antes ella confunde 
duas coisas dissimilhantes, estando, mais ou menos, 
na verdade a certos respeitos, mas encontrando-se com- 
pletamente em erro a outros. 

Com effeito, toda a pratica presuppõe uma theoria 
anterior, visto que o que é praticar? É, por definição, 
realisar uma idéa previamente concebida. Por isso, não 
ha senão theoricos, no rigor da palavra e feição miúda 
da analyse. Todos o são. O caso é de quantidade. Uns 
são-o sufficien tem ente ; outros, insufficientemente. To- 
da a differença está aqui; mas somente aqui. 

D'isto se deduzem consequências valiosas. Uma 
d'ellas é que não ha conflicto essencial entre sciencia e 
arte. Refutando a classificação hierarchica de Augus- 
to Comte, o philosopho inglez contemporâneo Herbert 
Spencer viu, com penetrante perspicácia, q\ie e&to^<àfeTVr 



ADVERTÊNCIA EXPOSITIVA 



cia, cada parte da sciencia representa ou pôde repre- 
sentar para todas as outras o papel servil de instru- 
mento. 

Elle estabelece a irrefragavel certeza de que nin- 
guém negará que a arte seja o conhecimento applicado. 
Assim, tal parcella da investigação scientifica que con- 
siste em conhecimento applicado é arte. De sorte que 
podemos dizer que, logo que uma previsão em sciencia 
sahe do seu estado originariamente passivo e é empre- 
gada na obtenção de outras previsões, passa da theo- 
ria á pratica, torna-se sciencia em acção, transforma-se 
em arte. 

N'esta conformidade se vê, segundo Spencer, quan- 
to a destrinça ordinária entre a sciencia e a arte é pu- 
ramente de convenção ; e, ao contrario, a difficuldade 
que ha em lhes descriminar um real separatismo. 

Na verdade, não só a sciencia e a arte resultam 
unas na origem ; não só, de perpetuo, as artes se as- 
sistem uma d'outra ; não só as sciencias e artes se pres- 
tam incessantemente mutuo soccorro — mas ainda as 
sciencias representam o papel de arte uma para a ou- 
tra, e a porção estabelecida de cada sciencia volve-se 
n'uma arte para a porção que crescendo vae. 

As considerações preliminares, e incontestáveis, 
justificam, em cheio, o programma d'este volume. Com 
effeito, a inspecção d'urna doutrina resulta, por com- 
pleto, utilitária, visto como toda a doutrina seja ten- 
dencialmente um acto. No Brazil se exhibe o exemplo 
integralista da objectivação de similhante affirmativa. 
Uma corrente mental concretisou em instituições poli- 
ticas ; e o republicanismo fluminense é a simples ap- 
plicação do positivismo parisiense. De resto, escusado 
era o ensino do facto, pois que, quando o pensamento 
se move na esphera sociológica, a evidencia da intuição 
do prolegomeno torna-se então flagrante. 

Para avaliarmos o grau de civilisação, a prosperi- 



ADVERTÊNCIA EXPOSITIVA XI 



dade effectiva, as presumpções de futuro d 'uma socie- 
dade determinada, cumpre saber qual seja a doutrina 
alli dominante nos espíritos. Pelo momento, sem inves- 
tigarmos mesmo as origens d*essa doutrina, ha, eomtu- 
do, que inquirir do processo de esquivar uma possível 
petição-de-prineipio, qual a que exigisse o entendimento 
de phenomenos sociaes pelo exame de critério, já de 
per si, destacando-se d'esses phenomenos mesmos. 

A difficuldade im manente é irresoluvel dentro da 
categoria, consuetudinária e fixa, a que os lógicos alle- 
mães chamam : a metaphysica. A solução só pode com- 
prehender-se caso se acceite o processo de evolução, de 
desenvolvimento, de complexidade e continuidade, que 
esses mesmos tudescos denominam : a dialéctica. 

Na sequencia das doutrinas que se succedem na 
posse do mando sobre a alta mentalidade d'um qual- 
quer aggregado culto, cumpre ir distinguindo esta flu- 
ctuação continua. No Brazil moderno, ella se apercebe 
nos traços que caracterisam a mudável ph\ sionomia do 
positivismo francez, do monismo aliem ão, do evolucio- 
nismo britannico. 

E, pela consideração ainda, fundamental e previa, 
que estabeleça a forçosa correspondência entre a scien- 
cia e a arte, convém attentar em que, com esse exa- 
me, nós entendemos o porquê subjacente das mudan- 
ças, politicas e sociaes. 

O conceito é geral, e, mesmo, correntemente intel- 
ligivel ; todavia, se é preciso, elle se exhibe com desta- 
que imperativo quando o enxerguemos no seu aspecto 
restrictamente económico. Então, ahi, a doutrina em 
geral professada pelos philosophos e acceite pelos di- 
rigentes d'um povo, redunda no corpo-de-delicto de 
toda a chronica da nacionalidade. 

Se fosse opportuno o lance, Portugal exemplifica- 
ria aqui; e a primeira coisa que houvesse, assim, a 
apurar para comprehender e decidir sobre a \ft.\OTQ*&. 



XII ADVERTÊNCIA EXPOSITIVA 

crise, patente, luzitana seria de que geito se amostrasse 
o caracter da elaboração mental synthetica que presi- 
diu até agora ao desenrolar da vida económica colle- 
ctiva. Mais comesinhamente : nos domínios da econo- 
mia politica, que doutrina hemos professado, com que 
trabalhos orientadores nos hemos atido ? 

Não seria fácil a tarefa de o determinar, com as de- 
vidas peças justificativas em comprovante documenta- 
ção ; pois, como para todas as coisas em Portugal, os 
empecilhos abrolham debaixo dos passos, desde o pri- 
meiro instante. Não existem entre nós tabeliãs analy- 
ticas, Índices methodicos, bibliographias racionaes. Es- 
tá tudo a monte ; e quem quizer trabalhar ha-de fazer 
tudo, a começar por descobrir e ajuntar os materiaes. 

Iniciadores, pela descoberta do caminho marítimo 
para as índias, do movimento mercantil e industrial 
moderno; creadores do systema colonial; fundadores, 
com nossas descobertas, do regimen capitalista que 
attinge o alto momento ascencionante de sua curva evo- 
lutiva em nossos cançados dias, não nos fatigamos, 
aliaz, com estudos, e descuramos, por completo, a nos- 
sa educação como commerciantes e industriaes. Não 
desmentimos os assertos do embaixador Caverel e do 
viajante Linschoot, quando, um e outro, a distancia no 
tempo e no espaço, ou em Goa, sobre palanquins, ou, 
no Terreiro do Trigo, bifurcados em mulas pomposas, 
descrevem os negociantes portuguezes dessas epochas 
como o typo da indolência, do fausto, dos addiamentoa 
e da embofia. 

A nossa litteratura económica é pobríssima; e não 
se tem cuidado em organisar uma resenha por ordem 
de auctores ou por ordem de assumptos. 

Ha-as (mesmo) n'esta visinha e, parallelamente, 
tão decadente Hespanha. Sem nos reportarmos ao ar- 
tigo Economistas espanoles do Diccionario de Arguel- 
)ea, coteje-se a preciosa Biblioteca de los economistas 



ADVERTÊNCIA EXPOSITIVA XIII 

espaholes de los siglos XVI, XVII y XVIII, compen- 
dioso archivo de Colmeiro. 

Entre nós não apparecem mais do que monogra- 
phias isoladas, como a excellente, aliaz, que, depois de 
Lopes de Mendonça, consagrou ao publicista portuguez 
Oliveira Marreca outro illustre publicista, Rodrigues 
de Freitas. 

Estudos systematicos sobre os arremedos da supe- 
rior especulação económica luzitana antigamente entre- 
tecidos, não deparamos mais do que com os ensaios es- 
tampados nas columnas do Instituto, revista de Coim- 
bra, pelo professor da cadeira de finanças na nossa 
Universidade, snr. dr. José Frederico Laranjo. Este 
foi um, senão o único, representante do socialismo de 
cathedra no alto ensino entre nós. Isto até o advento 
da nova, ultima geração, em que se distinguem, prin- 
cipalmente, os snrs. Affonso Costa, com o seu livro de 
analyse critica da encyclica pontifícia « De conditione 
opificum», de 15 de Maio de.1891, e o snr. Silva Men- 
des com a abundante e excellente exposição, que fez, da 
historia e doutrina do socialismo libertário ou anar- 
chismo. ' 

Mas (revertendo), como vista de conjuncto, não 
nos chegaram á outiva, sobre o painel schematico da 
nossa litteratura económica, mais do que as copiosas 
paginas que ao thema dedicou o snr. José de Arriaga 
em um dos capítulos de introducção á sua Historia da 
Revolução de 1820, á qual o critico politico francez 
Seignobos qualificou de prolixa em demasia. 

Se esse trabalho preparatório estivesse feito, nós 
marcaríamos com rigor as datas do advento successi- 
vo das doutrinas económicas que teem orientado os 
nossos estadistas . . . para nossa calamidade e ruína. 

Com effeito, Portugal parece destinado a esgotar 
os absurdos, como em justo castigo das suas depreda- 
ções, violências e injustiças seculares. E &'e\\&aT&& to\ 



XIV ADVERTÊNCIA EXPOSITIVA 

o Brazil, de que óra nês occupemos, das victimas a que 
menos soffreu. 

Fartamo-nos, então, de viver do monopólio ; e esta- 
mos, hoje; ameaçados de morrer da concorrência. De- 
pois de nos empobrecermos pelos effeitos do erro implí- 
cito no systema mercantilista, agonisamos agora sob as 
garras do systema industrialista. 

Feriu-nos a protecção e fere-nos o livre-cambio. 
Poz-nos o destino á beira dos lábios gretados o cálice 
das contradições económicas. Proudhon enchera-o do 
vinho amargo das antinomias kantianas. A nossa febre 
sorveu-o até ás fezes. 

Dos sophismas de alguns cândidos proveio a der- 
radeira illusão. Victimou-nos a espantosa mystifica- 
ção da eschola oriunda de Manchester. Descendentes 
dos antigos orthodoxos do catholicismo, depositamos 
a mesma intolerância e, apaixonada, fanática supersti- 
ção em outros dogmas, menos veneráveis, os do econo- 
mismo chamado liberal. 

Na sua accessibilidade, a apparente clareza do sim- 
plismo da theoria seduzia-nos. Era moda sêr-se livre- 
cambista, como reacção contra os botocudos calças-de- 
coiro que pitadeavam o seu simonte ás ramalhoças dos 
lenços de Alcobaça. Cobden foi biographado; narra- 
ram-se as campanhas da anti-corn-law league; e o hu- 
mor, de bôa feição e excellente companhia, de Frede- 
rico Bastiat deslumbrou. 

Os Sophismas económicos são, das obras typicas da 
economia clássica, uma das raras vertidas em portu- 
guez. A coexistência d'esta syinpathia com a ausência 
de transplantes para livros decisivos, fundamentaes, 
como o d'um Adão Smith ou o d'um Ricardo, demons- 
tra, ao mesmo tempo, a mediocridade da cultura e a 
corrente da ideação. 

Seguia no plano indicado, que era, de resto, sym- 
pathico á indolência nacional. Para que havíamos de 



ADVERTÊNCIA EXPOSITIVA XV 



ser industriaes, se a industria estrangeira nos fornecia 
melhor e mais barato ? Para que havíamos de ser nave- 
gadores, se os paquetes estrangeiros eram maravilhas 
de conforto que nunca attingiriamos ? Para que havía- 
mos de sacrificar o consumidor aos tentamens imper- ■ 
feitos da producção ? Porque esta era a preoccupação : 
o consumidor. Como se houvesse consumidor que, 
para o ser, não tivesse de ser, de per si ou de per ou- 
trem, previamente productor ! 

Pela ladeira, fomos resvalando. Empurraram-nos, 
com suave sabor, João-Baptista Say, Michel Chevalier, 
Garnier, toda a scientifiquice que grulha nas publica- 
ções postas em vasta circulação pela casa Guillaumin. 
Resume-se no Diccionario de Coquelin, condensador 
notório que nos saturou, a todos, de chimeras e emba- 
lou de visões, quando, moços, preludiávamos, no offi- 
cialismo das aulas, themas áridos em importunas dis- 
sertações de aguadas férias. 

Ao movimento não se oppuzeram óbices idóneos. 
Podia sêl-o o excessivo exaggero d'um Gouraud, tam- 
bém vertido, aliaz, para nossa linguagem, por quem 
quer que converso das corredias prelecções do livre- 
cambio, á emigração, em Inglaterra, manhosamente 
ciciado ? Podia sêl-o convenientemente ? Não, decerto. 

De modo que a conclusão resultou esta tremen- 
da realidade histórica : a crise, financeiro-economica, 
actual. 

Eis como é bom e como convém estudar as doutri- 
nas e eis, ainda r por que cumpra aturar as massadas. 
Vae ahi o melhor e maior dos nossos interesses. 

E não se pense que, assim julgando, contrariamos 
a intuição, geral, conhecida pelo designativo nome de *a 
concepção materialista da historia», á qual, no corpo do 
volume, ao diante, nos haveremos de reportar. 

Porque, do que, aqui, nos occupamos é do ç,oto\W 
rio pratico do theorema abstracto e não da. ot\^m 



XVI ADVERTÊNCIA EXPOSITIVA 

concreta do axioma elementar de que esse theorema 
derive. 

N'este sentido, o effeito da idealidade sobre a rea- 
lidade, da transcendência sobre a immanencia, do sub- 
jectivo sobre o objectivo, não só é primacial como não 
pôde ser nem sequer diminuído, quanto mais, contesta- 
damente, negado. 

Cumpriria exemplificar? Decerto que seja escusado. 
Mas desde os tentamens (não obstante, entendendo-os, 
os reparos de Menendez Pelayo), desde os tentamens 
do capitão Blasco de Garay, em 1545, no porto de 
Barcelona, passando pelas amostras da nobre mancha 
psychopathica de Salomão de Caux, ao rudimentar 
apparelho seguindo-se successivamente os outros, mais 
e mais aperfeiçoados, de Worcester, de Papin (o inven- 
tor da válvula de segurança), de Thomaz Savary e de 
Newcomen, adregou que um rapazito, por nome Hum- 
phry Potter, encarregado do devido trabalho em uma 
machina de Cornwalles, ideou atar as válvulas por 
meio de barbantes que passassem, atravez de roldanas, 
ao balance por tal maneira que este, no seu movimento 
alternativo, abria e cerrava as válvulas, sob infallivel 
exactidão, nos momentos precisos. Com este invento 
ficou aberto o caminho ao definitivo Jayme Watt, do 
qual a serie abundante de maravilhosas descobertas 
se fundamenta na, imprescindível, que deriva de 1749, 
pela construcção famosa do cylindro fechado em am- 
bas as extremidades, havendo-se garantido o escrú- 
pulo de, em vez de mandar baixar o embolo pela 
v pressão do ar atmospherico, fazel-o também com o 
vapor, ordenando-lhe que entrasse no cylindro alter- 
nativamente, por baixo e por cima do embolo ; com o 
que a machina resultou de effeito duplo. 

Todos os que vivemos hoje em dia, exclama o ger- 
mânico Otto von Leixner, havemos já nascido n'esta 
éra, a do vapor, e não podemos figurar-nos toda a mu- 



ADVERTÊNCIA EXPOSITIVA XVII 

dança que similhante invenção produziu na vida do 
homem. 

Concomitante e consequentemente é que a delibe- 
rativa graça preestabelecera que fosse Jorge Ste- 
phenson, natural de Wyglam, na Northumberland, 
onde nasceu em 1781, o destinado a ser o fundador 
dos caminhos de ferro, depois que Blanket fora o pri- 
meiro que teve o valor de fazer opposição aos dictames 
dos sábios e á preoccupação geral do publico, provan- 
do que com certa quantidade de pezo da machina se 
attingia o bastante para a adherencia entre os carris e 
as rodas lisas, de molde a dispensar qualquer género 
de engrenagens ou alavancas, realisando sem attrictos, 
simples e naturalmente, a propulsão. Apezar de tudo, 
foi uma pessoa leiga em machinaria quem deu a Ste- 
phenson o conselho de inverter o principio atélli in- 
contrariado, e de atravessar a caldeira com tubos de 
pouco diâmetro, por meio dos quaes, em vez da agua, 
circulasse a chamma da fornalha. Dito e feito ; a nova 
disposição surtiu resultado, consentindo na extraordi- 
nária rapidez com que a nova locomotora produzia va- 
por facilitando uma velocidade que Stephenson jamais 
havia sonhado conseguir. 

« Desde Papin, quantos génios haviam tido (excla- 
ma o Leixner citado) que applicar as suas faculdades, 
sacrificar o seu tempo e seus recursos para que se 
chegasse á locomotora pratica, que tão colossaes mu- 
danças provocou na vida e modo de ser das nações !» 

Sem embargo, tanto Watt como Stephenson se não 
preoccupavam nem attendiam mais do que a questões 
de engenharia de inachinas, cujo repercussivo effeito 
(económico, politico, social, jurídico e moralista, reli- 
gioso e esthetico) lhes escapava inteiramente. Faziam 
um mundo novo, de cima a baixo, sem darem por isso. 
Na Escossia, o companheiro e amigo de Adão Smith 
não poderia prever que, das suas sh\\p\es £0\\£fcm\x\a.- 



XVIII ADVEKTENC1A EXPOSITIVA 

ções acerca do meneio de êmbolos em gavetas de va- 
por, houvesse de irromper, mais tarde, o incêndio das 
Tulherias, arrazadas pelos batalhões federados que, na 
praça da Casa da Camará, proclamaram, em Março de 
1871, a Communa de Paris. 

Mas, nem por isso, ao ensaísta critico deixa de ca- 
ber a responsabilidade de inquirir da fonte analytica 
dos successos, afim de, desenhando o caracter das na- 
ções, retratar a physionomia dos tempos. E* a obriga 
que, consoante dissemos, mais relevantemente se anto- 
lha para o que toca á orientação genérica superior da 
marcha das sociedades civilisadas. 

Depois, a necessidade, imprescriptivel e fundamen- 
tal, de se apurar a doutrina por que se orientaram, syn- 
creticamente, os estadistas que geriram os negócios 
d'um paiz — é condição indispensável para, mesmo, se 
lhes derimir, com equidade, o grau de suas responsa- 
bilidades moraes, quer n'uma obra de utilidade quer 
n'uma marcha de desastres. 

Seria injusto que se tomasse á conta de deslealda- 
de civica ou de traição patriótica o erro que redundou, 
todavia, em prodigiosos desastres collectivos. Pode 
acontecer que um homem seja funesto, com a melhor 
sinceridade no coração; poisque já a carolice professa 
de que de boas intenções esteja o inferno vestido e cal- 
çado. • 

Poderíamos citar exemplos de casa, celebres por 
mais de um motivo. Assim : o diplomata nefasto que 
negociou o tractado da índia e o tractado de Lourenço 
Marques. Sao dois diplomas de tal natureza que só se 
explicariam por inépcia irremissível ou por má fé ma- 
nifesta. Ora, como ninguém é vil por prazer, a não ser 
em casos de degenerescente aberração, deduzir-se-hia 
que o ministro se vendeu. 

A democracia é desconfiada, de seu natural; e, in- 
felizmente, a experiência histórica tem demonstrado 



ADVERTÊNCIA EXPOSITIVA XIX 



que, por via de regra, possue para isso razoes de sobra. 

Comtudo, muitas vezes se engana, como o infeliz 
delirante que perseguem hallucinações, auditivas ou 
visuaes. Discutindo a theoria da balança do commercio, 
enganou-se Proudhon, attribuindo á seducção do oiro 
inglez a sympathia doutrinaria provocada áquem do 
«anal pelos sophismas inanchesterianos. Illudir-se-hia 
a critica lusitana que imaginasse inconsciência da parte 
do estadista, homem de illustração vasta e de ampla 
cultura. Enxovalhar-se-hia na presumpção de moveis 
infamantes, desde que do leito resvalou o diplomata 
para a sepultura, desabonado e pobre, consoante vivera. 

Quer dizer que estamos em presença d' um pheno- 
meno typico, d'um caso perfeito da situação, moral e 
mental, que pretendêramos definir. 

Victima da sua doutrina, o motivo que levava An- 
drade Corvo a assignar o tractado de Lourenço Mar- 
ques era o mesmo que o levava a não assignar o rela- 
tório da exposição industrial, elaborado, com tanta pro- 
fundeza e segurança de vistas, por Oliveira Marreca. 
Era a theoria que altamente proclamaria a dentro do 
parlamento, nas palavras dogmáticas que recolheu o 
snr. Luciano Cordeiro e pozde alicerce ao seu livro que 
da circulação fiduciária se occupa. 

Não causa espanto, de resto, que o estadista referi- 
do se embaraçasse em malhas ostensivas e reluzentes. 
Com as suas aptidões litterarias e o seu saber techni- 
«o, vistas as coisas de alto, no fim, não passava de um 
medíocre. 

Por «isso, da alôrpada indiscripção de suas ingé- 
nuas sabedorias se aproveita a ambiciosa esperteza, sem 
escrúpulos, do estranho. E aos seus quatro tomos de 
Estudos sobre as províncias ultramarinas, o bretão ra- 
pace, rapozadoramente, os desbulha. Funda-se na sua 
tuctoridade (triste coisa para um auctor poTX^YAfeiA^ 
sua — por elle deplorando — auctori&a&e sfc íyxwôa 



XX ADVERTENX1A EXPOSITIVA 



J. Scott Keltie, como os rotos de Tolentino, já distri- 
buindo fatias para a sonhada bambocha que vota a The 
partition o f Africa. Em aguçar òs appetites, recorre a* 
seus informes J. Theodore Bent, quando no recôncavo 
felpudo das orelhas cabelludas do tijolo so amigo John 
Buli já tilinte o ouro, imaginado escorrendo das próxi- 
mas e decisivas excavações e explorações da ophiresca 
região onde uma archeologia interesseira esquadrinhe 
The ruined cities of Mashonaland. 

Quanto, porém, ao absurdo critico de cujo conspe- 
cto, analyticamente, derivamos, elle não deve, de rea- 
to, grandemente, estranhar-se, pois que n'uma abusão 
similhante, n'um engano do mesmo género, prove- 
niente de idêntico erro, cahiu nada menos do que um 
verdadeiro génio, o fundador incontestado da econo- 
mia politica, promovida, tão só, por elle, ao rigor 
d'uma sciencia regular e definitivamente constituída: 
Adão Smith, em duas palavras, para que esse grande 
nome registremos. 

De sua obra na secção em que debate o schema dos 
tractados de commercio, assombra a candura theorica, 
a ingenuidade doutrinaria do eminente escossez. 

Ahi, pretende elle provar que o tractado de Methwen 
foi uma enorme desgraça . . . para quem ? Para a Ingla- 
terra ! E que, graças a esse incomparável erro dos es- 
tadistas britannicos, Portugal floresceria sobre as ruí- 
nas de Albion sacrificada . . . 

Eis um exemplo da incapacidade histórica do me- 
thodo, deductivo, peculiar do economismo clássico. Não» 
pôde ser mais flagrante nem mais decisivo. 

Comtudo, veja-se o que seja o aferro ás doutrinas e 
quanto o fanatismo scientifico cega, como o fanatismo 
religioso ! 

Depois que Adão Smith escreveu aquellas barbari- 
dades, a evidencia dos factos mettia-se pelos olhos den- 
tro, conforme vulgarmente sóe dizer-se. Despidos de 



ADVERTÊNCIA EXPOSITIVA XXI 

preconceitos sectaristas, os simples historiadores, rela- 
tando a decadência successiva de Portugal e o succes- 
sivo engrandecimento concomitante da Inglaterra, re- 
feriram o connexo phenomenò ao duplo effeito, pro- 
gressivo e regressivo, do tractado de Methwen. Tor- 
nou-se truísmo na polemica dos jornalistas e nos estu- 
dos dos publicistas. Um norte-americano, Carey, de- 
monstrou minuciosamente que a Inglaterra é uma 
creação de Portugal. Um allemão, Hartmann, procla- 
mou essa demonstração como irrefutável. 

Pois bem ! Abra-se o Diccionario de Economia po- 
litica, da casa Guillaumin, valhacouto de quantos cas- 
tanhas-piladas, género Molinari, brotam ainda da sa- 
fara leiva do egoismo conservantista. Nas ultimas, mais 
recentes edições, busque-se o artigo especial, e pas- 
me-se. Porque, em suas bojudas columnas, um sar- 
rafaçal qualquer, solerte, papagueia ainda, no serviço 
da burguezia mercantil, a tantos cêntimos por linha, 
acerca do tractado de Methwen, os mesmos descon- 
chavos, sediços do ranço de todo um século. 

Pois menos conviria ao critério gaulez supposição 
similhante, desde que, por egual, applicasse ao vinho 
do Porto, todo, o phantasmagorico juizo contra elle as- 
seteado por Michelet quando. lhe chamou <• essa famosa 
tinta de escrever tão grata ao paladar dos inglezes.» 

Se o dislate mereceria sarcasmos congéneres aos 
que homologam os autos do processo por Camillo Cas- 
tello Branco movido contra análoga « bestialidade in- 
gleza », não se comprehende como profissionaes — visto 
que em tudo os haja — attribuam as adulterantes fal- 
sificações ao corollario supposto do supposto embuste 
do referido convénio por Methwen, em Lisboa, nego- 
ciado a prol da industria dos lanifícios londrinos. 

Assim occorre na, naturalmente tão curiosa e pro- 
veitosa para o leitor inglez, Ilistory and description of 
modem wines, com uma insinuante rom\)fe\&x\&Y&. && 



XXII ADVERTÊNCIA EXPOSITIVA 

copo, escripta pelo snr. Cyrus Redding, já, em 1833. 

Mas este caso typico e famoso do tractado de Me- 
thwen demonstra bem a exacção do asserto de que 
procedemos em estas perfunctorias considerações. 
Mette a verdade pelos olhos, dissemos. Brutalmente. 
A* maneira anglica. A box. 

Mostra, irrefragavelmente, que, como escrevemos, 
cumpre não perder de vista as doutrinas que profes- 
sem os que governam, poisque o mal e o bem de cima 
vêem, diz o nosso povo, aquecendo-se á lareira, nos dias 
chorudos de matança de porco, ou, no adro, pela qua- 
dra calmosa, refrescando da soalheira. 

Certo é que possa contestar-se o conceito, poisque, 
pelo que toca á symbolisação d'uma sociedade, no que 
ella tenha de basilar, intimo e profundo, no que significa 
a sua ordem de raiz ( o modo económico, a lei civil, a 
affectividade moral, o estimulo religioso), todo o go- 
verno é representativo. Pelo suffragio indirecto, tão 
representativo é, n'este sentido, Félix Faure como, pelo 
absurdo do nascimento, Nicolau II. 

Mas entenda-se bem. Só n'este sentido; de certa 
maneira amplo, e restricto á vez. No processo geral 
politico, a necessidade da ordem, a tendência a obe- 
decer (isto é, a inércia do átomo, no grave a affinida- 
de para o repouso ), a ignorância e dispersão das mas- 
sas entregam-as aos governantes, que são, effectiva- 
mente, n'esse tanto, dirigentes. Ora, esse tanto, assim 
como pôde conduzir á gloria, pôde também guiar 
para a catastrophe. D'ahi, as responsabilidades dos 
governos e a justiça das revoluções. 

Na verdade, é fácil e commodo dizer que os povos 
teem o governo que merecem. Isso, como indignada- 
mente o observa o moderno sociólogo belga Guilherme 
de Greef, justifica todas as reacções, garante todas as 
palinodias. 

Todavia, com ef feito, na serie das causas e suas 



ADVERTÊNCIA EXPOSITIVA XX III 



consequências, a consequência reage sempre sobre a sua 
causa, e é, assim, causa da causa. Em politica, os gover- 
nantes dependem do caracter dos governados ; mas, 
por sua vez, actuam sobre estes e modificam-os a seu 
geito e similhança. 

D'aqui succede que não só a sua importância cres- 
ce, como a sua responsabilidade se avoluma. 

Por este desvio, eis-nos de regresso. Isto é, assen- 
tamos (parece-nos que sem ensejo de duvidas ainda) 
que do caracter das doutrinas, as mais abstractas, as 
mais theoricas, as mais confinadas no seu isolamento 
8CÍentifico, pôde, para os povos, governados por ho- 
mens cujo cérebro essas doutrinas, até meramente es- 
peculativas, mandem — ad virem calamidades ou benefí- 
cios, segundo o caracter particular ( racional e exacto ) 
d'essas doutrinas alludidas. 

São banalidades, verdadeiros truismos ? E estive- 
mos com o afan de ennegrecer as tiras, collocadas 
deante de nós, para, no fim de contas, attingirmos si- 
milhantes logares-communs ? 

Mas, banalidades-banalidades, o facto é que, del- 
ias, e em seu ef feito salutar, se não attenta. Por in- 

■. ter médio d'ellas não vemos, por exemplo, esmerilhar a 
explicação do caracter especifico da evolução, financei- 
ra e económica, da historia portugueza. Sem embargo, 

t cumpria. Não é verdade ? 

Todavia, o exemplo estava dado, e o ensino inicia- 
ra-se. No final do quarto volume da sua Historia de 

, Portugal nos séculos XVII e XVIII, Rebello da Silva 

' promovera, modernamente, a analyse histórica do es- 

r tado económico e social da monarchia. 

Ahi votara promptos e pegados capitulos ás theses 

\ concernentes á população e agricultura ; á industria fa- 

\ bril ; ao commercío até ao xv século, nos séculos xvi 

6 XVíl. 

Mas, com a jMjnjxi desenxabida do seu es\,\;\o, wo 



XXIV ADVERTÊNCIA EXPOSITIVA 

seu academismo tam perfeito (tam perfeito que não 
presta para nada ), o nosso illustrè correligionário ex- 
tincto Latino Coelho — cuja erudição era prodigiosa — 
dedicou-se, mais restrictamente, a, ao effeito das dou- 
trinas preconcebidas, o observar na physionomia, mo- 
ral e social, das culminantes figuras politicas. São ex- 
cellentes, por similhante moti,vo, as paginas que, em 
sua Historia politica e militar de Portugal, desde os 
fins do XVIII século até 1814, elle consagra á legisla- 
ção económica do marquez de Pombal ; aos princípios 
em que se firmava ; ao conceito do Estado considerado 
como emprezario e fabricante universal : aos monopó- 
lios etc. 

Ainda assim, repetimos, a este aspecto da nossa 
questão colíectiva, não se tem attendido com o minu- 
cioso melindre que elle exige. Salvo se exceptuarmos, 
na aliaz curta bibliographia provocada pela crise fi- 
nanceiro-economica actual, o volume, que passou des- 
percebido, do snr. Silva Cordeiro, e que archiva reaes 
méritos, aliaz, para o tornarem mui notório. 

As illusões de um doutrinarismo criticamente in- 
consistente mantiveram-se, comtudo, atravez das flu- 
ctuações das crises politicas successivas, formando 
substancialmente a trama ( apezar de todas as inter- 
mittentes divergências de detalhe ) do programma com- 
mum dos dois grandes partidos conservadores em 
Portugal, os chamados progressistas e os regenerado- 
res chamados. 

Estes abdicaram provisoriamente, é certo. Abdi- 
caram á força, mercê do estimulo creado pelas recla- 
mações n'um instante de perigo cornmum, sentido, por 
egual, na opulência e na penúria, homologas, de indus- 
triaes e de operários. Em collectivos comícios, requere- 
ram, com effeito, pela reforma — n'um sentido de pro- 
tecção ás industrias nacionaes — das pautas vigentes, á 
data, na metrópole e nas colónias. 



ADVERTÊNCIA EXPOSITIVA XXV 



Mas era á sobreposse. Viu-se. 

Regressaram. 

Encontram-se, pois, de vez, parece, como quando 
rebentou o debate theorico entre o seu leader periodi- 
queiro, Duarte Gustavo Nogueira Soares, na Revolução 
de Setembro dissertando, e o defensor estrénuo do tra- 
balho nacional, impolluto Joaquim Henriques Fradesso 
da Silveira, no Jornal do Commercio combatendo. 

Vencedor em Inglaterra, Cobden avançava sobre 
o continente. Era a consequência lógica, o desfecho da 
sua campanha no interior. Conferenciara com Michel 
Chevalier. No seu chimerico anglicismo, o imperador 
escrevera ao ministro-de-estado a famosa carta que ini- 
ciou a nova politica commercial da França. Lunatica- 
mente, rebusca n'ella os seus princípios queridos o 
obstinado Fradesso da Silveira ; e o opúsculo, valioso 
como documento histórico, encerra-se com curtos ar- 
tigos de Sebastião Bettamio d'Almeida, notabilidade da 
epocha. 

Conclusão : 

O bom filho a casa torna. A Regeneração não olvi- 
dara os seus precedentes. Br.eve recahimos no fatal bar- 
ranco em que afocinhara, de bruços, o conde de Casal 
Ribeiro, quando, em 1867, negociou o tractado com- 
mercial com a França. 

Mas então este rhetorico tinha desculpa. A econo- 
mia politica clássica estava no apogeu do r seu triumpho. 
Quem diria — a essa hora já remota — que poderia ser 
presidente do conselho de ministros um estadista, il- 
luminado, que, em matéria de pautas, professasse as 
ideias do snr. Méline ? List era um retrogrado ; e o zoll- 
verein uma chimera. 

Todavia, o snr. Hintze Ribeiro, esse, volveu a lêr 
hoje .pela cartilha do padre-mestre Adrião Forjaz. 

Como pela mesma voltou a soletrar o styy. ^w& 
'Luciano de Castro, com minativam ente en&fcTe^axv&o *s> 



XXVI ADVERTÊNCIA EXPOSITIVA 

trabalho nacionalista ( e, por consequência, ao futuro, 
politico e económico, de Portugal ) o cartel tremendo 
que se dissimulou nas blandícias do retirado, attenua- 
do projecto de lei ao exclusivo da montagem de fa- 
bricas em a nossa Africa Occidental referente. 

Estes casos concretos, .os trouxemos, todos, em 
nossa corroborante confirmação. EUes mostram o ri- 
gor do thema que, tomando philosophos e estadistas 
como succedaneos representativos do paiz, demons- 
tram que as nações (consoante a phrase contracta de 
Littré) não aperfeiçoam nunca o seu estado mental sem 
aperfeiçoarem concorrentemente o seu estado Social. 

Concluindo: ficou, parece-nos, provado que preli- 
minarmente cumpria, para o caso, conhecer, pois, o 
Brazil mental. 

No propósito, justificar-nos-hia uma lição famosa. 
Foi a de m. mc de Stael, com respeito á Allemanha. Che- 
gou esta dama insigne até ás minúcias psychologicas 
sobre a influencia do espirito cavalheiresco sobre o 
amor e a honra, e discorreu acerca da acção do en- 
thusiasmo sobre o que, ao tempo, se chamava « as lu- 
zes » e sobre a felicidade. 

Na revertencia symetrica, do conceito social inci- 
dindo sobre a ideação personalista, o critico românti- 
co Schlegel deixara estabelecido como é que o ponto- 
de-honra explica o theatro hespanhol. Fechando o cy- 
clo, o moderno Forneron comprehende na amplitude 
do critério toda a sociedade hespanhola, quando rese- 
nha a historia de Philippe II. 

Da mesnVarte se devem apreciar as previsões po- 
liticas, conforme as chimericas do ultramontano Mon- 
talembert, gisando o futuro da Inglaterra. Mesmo as, 
mais positivas, conjecturas económicas, como quando, 
a propósito de Sydney Smith, o snr. Chevrillon, em 
nossos dias, estuda o renascimento das ideias liberaes, 
no século xix, na Inglaterra também. 



ADVERTÊNCIA EXPOSITIVA XXV II 



Pôde, até, o critério orientador desenrolar-se em 
corollarios de feitio immediata mente pratico. 

Com effeito, em 1889, como consequência d'um 
concurso aberto na Eschola das sciencias politicas em 
Paris, informa-nos o snr. Emilio Boutmy que o anti- 
go alumnjo d'essa eschola Max Leclerc fora encarregado 
d'uma missão especial na Inglaterra. 

Ora, o assumpto do inquérito que lhe haviam sol- 
licitado emprehendesse pôde resumir-se nMsto, a saber : 
que cumpria elle apurasse quaes as correntes mentaes 
sob cujo influxo, do outro lado da Mancha, as classes 
superiores e medias se formam e constituem, ellas, 
essas camadas prevalecentes onde (pensava-se e diz-se) 
a politica recruta os seus parlamentares e os seus di- 
plomatas, a administração os seus funccionarios, a guer- 
ra e a marinha os seus officiaes, a industria os seus di- 
rectores technicos, o commercio os seus agentes, a phi- 
losophfa tão profundos pensadores, a litteratura, a his- 
toria e a sciencia tantissimos talentos originaes e in- 
tensivos. 

De conta própria, nos dêmos a inquirição análoga 
pelo que toca á grande republica transatlântica que 
fala a nossa lingua e onde pullula a gente de nossa es- 
tirpe. 

D'ahi, O Brazil Mental. 

Incompleta assim, a obra cumpriria que, logica- 
mente, terminasse por O Brazil Social. 

Se nos seja licito, ou não, abalançar-nos á escriptu- 
ra d'esse novo volume, é ao publico de Portugal e do 
Brazil que ( com o género de acolhida a este dispensa- 
do) compete decidir. 



INTRODUCÇÃO 



i; Das coisas, da intelligencia ou da acção, é signal 

f curioso que nós outros, portuguezes, das classes cul- 
t- tas, nos não interessemos senão restrictamente pe- 
las que nos vêm de França e mais particularmente 
á França se referem. 

Não podemos negar a nossa procedência, e a gra- 
tidão inconsciente da origem sobreleva a todos os 
conceitos que uma observação critica ou uma reíle- 
. xão inaffectiva possam e tenham tentado erigir con- 
tra essa sympathia, que resulta irresistivel, porque, 
•, como vulgarmente se diz. nos está na massa do san- 
gue. 

Nenhumas relações de convenieqcia económica, 

de afíinidado ethnica, de contiguidade territorial ou 

de próximo parentesco, até, logram vencer essa pre- 

erente prevalência da França, nas nossas sympathias 

em nossas meditações. 



O BRAZIL MENTAL 



Assim é que o visinho de ao pé da porta nos nâo 
merece o cuidado de uma attençâo escrupulosa; e, 
odiando-a, nós ignoramos a Hespanha. Debalde, a es- 
peculação mercantil tentou, por vezes, vulgarisar, no 
nosso publico ledôr, o conhecimento da litteratura do 
pretendido inimigo tradiccional. Tomou, é <certo, a 
obra de fancaria dos faiseurs madrilenos; mas essa, 
era, naturalmente, a mais de prompto accessivel, vis- 
to como o grande publico, em toda a parte do mun- 
do, se deixa arrastar melhor pelas visualidades d'uma 
phantasmagoria extreme. Mas, ainda assim, o effeito 
surtido nâo correspondeu á espectativa. 

As bibliothecas populares, de Lisboa e Porto, 
quasi que esgotaram o repertório. Traduziam-se as no- 
vellas sentimentaes de D. Wencesláo Ayguals d'Iz- 
co, de D. António Neira de Mosqueira; transplan- 
tou-se para mascavado lusitano a invenção, já com 
intuitos democráticos, de Fernandez y Gonzalez ou 
francamente intencional de Tarrago y Mateos. 

Foi-se mais longe e abordou-se os dominios da ar- 
te pura, ainda que em forma elementar e modelo pri- 
mevo. Assim, o Archivo PUtoresco, da capital, ence- 
tou a ingenuidade montanheza de D. António True- 
ba; e um empregado da alfandega do Porto, o snr. 
Castro Monteiro, consagrou os ócios da repartição a 
organisar um volume com alguns dos contos mais 
agrestes e saborosos do insigne improvisador navar- 
ro. Houve um momento fugitivo .em que parecia 
querer acelimar-se definitivamente entre nós a in- 
ventiva poética dos nossos visinhos. Deu-se quando 
principiaram a circular as cadernetas das edições ba- 
ratas do livreiro Mattos Moreira. Todos se recordam 



r 



O BRAZIL MENTAL 



do prodigioso successo da Mulher adultera, por Pe- 
rcz Escrich. Foi durante alguns mezes verdadeira 
maravilha o attractivo beato d'estas combinações he- 
teroclitas, em que o bedum do sangue dos assassí- 
nios se casa com o incenso mystico da liturgia ca- 
tholica. Afinal, porém, houve uma reacção de bom- 
senso e o fundo voltairianista das novas gerações 
portuguezas rebellou-se victoriosamente contra essa 
invasão derradeira da incorrigivel superstição cas- 
telhana. Escrich passou, o que foi magnifico; mas 
ninguém o substituiu, o que resultou péssimo. 

Iníructiíeros destacaram, também, os esforços 
realisados por vezes para proporcionar ao leitor lu- 
sitano uma" vista de conjuncto da arte hespanhola, 
dada á palavra arte a ampla expressão que lhe con- 
vém e entendendo a litteratura no sentido, vasto e 
profundo, que lhe cabe. Todavia, alguns dos traba- 
lhos effectuados com a mira em alvo similhante 
eram, na verdade, excellentes. Citaremos, por me- 
moria, o livro do snr. José Simões Dias, intitulado A 
Hèspanha Moderna. Elle propoz-se representar, para 
nós, o papel útil dos volumes congéneres estampados 
em França por Ch. de Mazade, por António de Latour, 
mais modernamente por Gustave Hubbard. Primiti- 
vamente dados á estampa nas columnas da revista 
Htteraria conimbricense, A Folha, os capitulos de que 
se compõe o livro do snr. Simões Dias são, em geral, 
completos, sempre exactos na informação c alumia- 
dos por luz critica, senão intensa, pelo menos nitida 
e clara. A obra, porém, seguiu quasi despercebida, 
não obstante as suas qualidades reaes e sem embar- 



O BRAZIL MENTA I, 



go dos serviços que poderia prestar á nossa cultura, 
restricta e insufficiente. 

Com respeito á Hespanha, pôde, talvez, allegar-se, 
para desculpa da nossa exquisita incuriosidade e in- 
crível desleixo, o facto da antipathia histórica, que 
recorda de continuo os perigos da absorpção recea- 
da e se repasta das lembranças cruéis de Aljubarro- 
ta e de Montes-Claros. Mas, se para nos garantir da 
Hespanha, é que nos lançamos nos braços da Ingla- 
terra, trespassando-lhe Tanger e Bombaim; se o nos- 
so amor pela gente britannica nos esteve, por um fio. 
a fixal-a de vez em casa, cedendo-lhe, como depois 
de Rebello da Silva nol-o registra, em sua preciosa 
collecçào de nossos tratados, o snr. Júdice Biker, 
cedendo-lhe nada menos do que Setúbal; se, de pés 
e mãos, a ella nos entregamos, pelos convénios com- 
merciaes, no typo d'esse famoso de Methwen cujos 
perniciosos corollarios se solveram já n*um logar- 
commum da rhetorica jornalística; se tudo isto se 
deu e se a influencia ingleza em nossa politica e vi- 
da social, no que de indestructivelmente orgânico 
ella possue, continua a ser preponderante, como inin- 
terruptamente até aqui: parece que nos deveria ser 
thema de estudo persistente e duradouro a existên- 
cia mental da Inglaterra. Nas suas manifestações mais 
interessantes e agradáveis, ao menos; já que a frivo- 
lidade do nosso cérebro meridional não nos conce- 
desse alcandorar-nos ás culminancias das especula- 
ções philosophicas ou das investigações scientificas. 

Tal, porém, não succede, como é notório; o mes- 
mo idioma inglez é aqui raro e mal conhecido, até da 
cJasse mercantil, que quasi não negoceia, aliaz, seu tra- 



O BRAZ1L MENTAL 5 



fico exterior mais do que com as praças de Londres, 
de Manchester, de Birmingham, de Liverpool. Esta 
contradicçào feriu, em tempos, o ensaísta Carlos de 
Mazade, que a archivou entre os soporiferos doutri- 
narismos da Revista dos dois-mundos. Nâo surge, de 
resto, viajante, doestes que legislam sobre a psycho- 
logia cTum paiz, com a habilitação de quinze dias de 
residência pelos "hotéis da sua capital, — que nâo con- 
signe em seus calepinos siinilhante surpreza, exhibi- 
da logo de chofre pelos portuguezes aos olhos do fo- 
rasteiro mettedico e intromettido. 

Tudo estará dito, quando se disser que Portugal 
é das raras nações civil isadas que nâo possuo uma 
versão completa de Shakespeare. Mais: só muito mo- 
dernamente é que começaram a ser transplantadas 
para nosso vernáculo algumas das peças do colossal 
poeta. Abriu a carreira o eterno traductor Castilho, 
mestre incomparável da linguagem. Natureza incom- 
pleta, infelizmente, elle possuia como ninguém o ins- 
trumento; mas, nâo vencendo a ingenita difíiculdade 
da ideação, assimilhava-se a um Dusautoy esthetico, 
alfaiate exímio, que só a alheio figurino, inerte e im- 
movcl, hirto e gélido, podcsse tornar as medidas, fa- 
zendo envergar a um manequim vestimentas luxuosas, 
mas desageitadas, por subjacentemente as nâo afeiçoar 
a vida intrínseca. Seguiram a iniciativa o fallecido rei 
Dom Luiz e o poeta Bulhão Pato; porém, por ahi se 
ficou e as composições de Shakespeare postas em por- 
tuguez nâo excederam a conta minima de cinco ou 
seis, se tanto. 
, Quanto aos escriptores contemporâneos, wavw <* 

p bom fállar. Nas colhcçôes de romances, uhvmymscw 



6 O BRAZIL MENTAL 



mandados correr pelas bibliothecas económicas das 
duas grandes cidades do norte e do sul do paiz, não 
se descobre, para amostra, o nome de um único lit- 
terato que, indigena, houvesse recebido a consagra- 
ção do publico londrino. 

Em epocha affastada, alguém tentou acclimatar 
Carlos Dickens, cuja notoriedade se insinuara seu 
tanto, mercê da meiga popularidade de Júlio Diniz. 
Compaçava-se um com o outro, graças a esta balda 
estéril dos parallelos, que constituíram detestável gé- 
nero litterario no ensino clássico. Como quer que o 
romancista portuense houvesse escripto o seu livro 
typico de costumes da sua terra, Uma família ingleza, 
cuidou-se, logo-logo, de pôr em relevo a persona- 
lidade do auto-biographo de David Copperfield. Mais 
achegada pareceria a lembrança de As memorias de 
Pisis trato Caxton, de Bulwer-Lytton; mas este ap- 
pellido bárbaro é que era justamente ignorado ou 
desdenhosamente se refugava, consoante o merecia 
o seu ar intonso, apezar do aristocratismo de sua pro- 
génie, estylo, maneiras e costumes. Ficamos por Di- 
ckens ; .traduziram-se algumas das suas enternecidas 
loas do Natal, essa commovente historia de Scrooges, 

. o avaro cuja dureza um sonho moralista converte e 
diverte, o que é o interessante. Mais tarde, a intelli- 
gente esposa do publicista Oliveira Martins illustrou o 
rodapé, como se diz no Brazil, do Commercio do Por- 
to com a exhibiçào de algumas das physionomias ca- 
racterísticas do mestre eximio, quaes sejam Nicolau 
Nickleby e Oliveiros TVist. Com a anterior versão da 
bizarra novella anonyma de Ginx's baby, que, da 

penna de Ramalho Ortigão, foi dada em brinde pela 



O BRAZIL MENTAL 



gazeta portuense .4 Actualidade, de Anselmo de Mo- 
raes,*— é quasi tudo; com pouco mais, pôde descer o 
panno. 

Ora, nào admira que este abandono se verifique 
para com a Hespanha e para com a Inglaterra : quan- 
do um paiz existe que, naturalmente, parece que de- 
veria captar, desde o primeiro momento, todas as 
attonções e promover entre nós as mais vivas e per- 
manentes curiosidades, por isso que a elle tudo nos 
prende e com indissolubilidade liga. Esse paiz, evi- 
dentemente, é o Brazil; escusado seria que o no- 
meássemos; prolixo resulta fazel-o. Bastaria, com ef- 
feito, designal-o; mas, explicita ou implicitamente, o 
facto é que a nossa ignorância a respeito d'ello corre 
parelhas, se não mede meças com a de que sofíremos 
acerca das duas naçòes por cuja lição encetamos as 
tiras brancas que se amontoam diante de nós. 

Do Brazil nada se sabe em Portugal, senão que 
venceu o Lopez, do Paraguay, que exporta café e 
que possue o condão especialissimamento mimoso de 
uma arvore das patacas, a qual, sacudida a tempo e 
horas, desata em fructos de dobrões e cruzados, des- 
prendidos sem fim e sem termo, n'uma prodigalidade 
tropical luxuriante e absurda. 

Quanto á vida espiritual "do Brazil, nada ou quasi 
nada se apurara. 

Sabia-se, sim, mas vagamente, que florescia no 
Rio um romancista de invenção e descripção, por 
nome José de Alencar. Este homem escrevera uma 
espécie de poema em prosa, chamado o Guarani/, o 
qual íôra musicado por um mulato Cartou Gtya\fc&. 
Soubera-se que a obra recebera a cotvsagYa.e&& to« 
plateias entendidas da ítalia; e, quando ww=> fcwafc 



O BRAZIL MENTAL 



tos, ou pelas bandas regimentaes nos jardins, se ou- 
viram trechos da opera, conveio-se em que o raio do 
macaco tinha sua habilidade. 

Mais ao deante, n'um dos barracões que no Porto 
usurpam o titulo de theatros, a audácia eraprehen- 
dedôra de Cyriaco de Cardoso poz em scena a peça 
do maestro paulista. Houve certo assombro, depois 
da primeira audição. A frescura da melodia, a graça 
e a paixão de que a obra palpita surprehenderam e 
commoveram. Admirou-se a notável sciencia de com- 
posição de que o moço auctor dera provas cabaes. 
Concordou-se em que elle tinha logar distinctissimo 
entre os compositores de segunda plana, perfeita- 
mente ao par d'um Marchetti ou d'um Ponchielli. 

A novella, porém, que o librettista versificara era 
desconhecida. O enredo da opera sabia-se pelos folhe- 
tos achamboados que, a dinheiro de contado, se dis- 
tribuem no camaroteiro, antes de romper o espectá- 
culo. Ainda estava longe a data em que, entre nossa 
gente, havia de circular o elegante opúsculo, redigido 
n'ura léxico túrgido pelo talentoso e mallogrado pe- 
riodista portuguez, Francisco Pacheco. 

Se o romance de José de Alencar, sem embargo 
da toada europeia que lhe facultou a dramatisaçào 
lyrica de Carlos Gomes, era desconhecido, que dizer 
do tain ignorado quam abundante Joaquim Manuel 
de Macedo? 

Todavia — caso raro, único talvez — uma das 
obras iniciaes, e das mais typicas, de Macedo fora 
reproduzida, quiçá por contrafacção, em Portugal. 

Com effeito, n'esta nobre e sempre leal cidade 
da Virgem, o editor da Bibliotheca daa Damas , José 



O BRAZIL MENTAL 9 



Lourenço de Sousa, intercalava na sua collecçào, pe- 
los annos de 1855-1856, em dois tomos bojudos, o 
Moco loiro. Eis aqui um facto que só muito mais tarde 
se havia de repetir quando os periodistas portuenses 
Emygdio de Oliveira e Gualdino de Campos repro- 
duziram, respectivamente, nas suas gazetas, Folha 
Nova e Jornal da Manha, o primeiro : As Memorias 
posthumas de Braz Cubas, por Machado de Assis: 
o segundo: Philomena Borges, por Aluizio de Aze- 
vedo. 

Nenhuma tentativa análoga a do snr. José Simões 
Dias relativamente á Hespanha se esboçou com res- 
peito ao Brazil senào muito moderna, isto é em nos- 
sos actuaes instantes e graças precisamente á inicia- 
tiva intellectual dos mesmos beneméritos editores que, 
com menos acerto, este volume também publicam. 

Alludimos ao opúsculo do snr. Teixeira Bastos, 
acerca dos Poetas brazileiros contemporâneos. Com- 
prehende cuidadosos estudos de personalidades insi- 
gnes, taes como Raymundo Corrêa, Alberto de Oli- 
veira, Valentim de Magalhães, Fontoura Xavier, Theo- 
philo Dias, Mucio Teixeira, Isidoro Martins Júnior. 
Sylvio Homero, Filinto de Almeida e Hugo Leal. 
Esta obra tem a data de 1895; e antes circulara, um 
pouco, em Portugal um volume impresso ein Campi- 
nas em 1888. Pertence ao padre, batalhador e inquie- 
to, Senna Freitas, e intitula-se Observações criticas e 
descripçòes de viagem. É o primeiro volume, Critica. 
d'uma série implicitamente annunciada. Encerra um 
capitulo que condiz com o assumpto n'estas paginas 
ventilado. É o xxvh; denomina-se: Uma revoada de 
[ littera/oò' /jrrfzt/e/ros. São elles: FiVinto vte ^ttvtiAvv 



10 O BRAZIL MENTAL 



(que, aliaz, é portuguez e portuense), Raymundo Cor- 
rêa, Luiz Guimarães, Luiz Murat, Theophilo Dias. 

O sacerdote-jornalista extrema-se pelas galas de 
uma oratória emphatica e pela virulência d'um tem- 
peramento brigão e injurioso. Nada mais repugnante 
do que a phrase pejorativa que endereça ao seu an- 
tigo condiscipulo Anthero de Quental. Ninguém ha- 
via que ignorasse que esse homem estava soffrendo 
cruelmente de enfermidade tarde reconhecida, a qual 
o fizera andar em penosa carreira pelas clinicas de 
Portugal e da França. D'ahi, o seu retrahimento; a 
sua abstenção litteraria ; o silencio, só d'onde a onde 
interrompido pelos gritos fúnebres dos seus desolados 
sonetos. Pois, com christã caridade, o saudável, rijo 
Senna Freitas declara julgar que elle não tractava 
mais de fazer philosophia nem poesia, mas simples- 
mente boa hematose ou boas carnes. 

Habitando o Brazil, o atrabiliário sacerdote me- 
nos cura de fazer-lhe a critica do que de fazer-lhe a 
corto. Reserva as suas grosserias para os distantes 
litteratos luzitanos; todavia, os seus panegyricos dos 
jovens poetas brazileiros nada de novo ou original 
nos ensinam. Não passam de declamações pomposas, 
pelas quaes se não fica fazendo ideia de seus méritos 
peculiares e específicos. 

Quanto ás obras, expositivas, de largo fôlego, el- 
las são, conhecidamente, o Brésil litteraire, de Fer- 
nando Wolf, e o Resumo de historia litteraria pelo 
cónego doutor Joaquim Caetano Fernandes Pinheiro. 

O livro do erudito austriaco tem ainda hoje uti- 
lidade real para o estudioso, sem embargo dos sar- 
casmos de Tobias Barreto, cuja eschola o snr. José 



O BRAZIL MENTAL 11 



Veríssimo, na Revista brazileira, qualifica de péssi- 
ma. A elle se refere elogiosamente o snr. Theophilo 
Braga, que no seu Parnaso portuguez moderno, edi- 
tado em Lisboa, em 1877, encerra composições dos 
vates brazileiros Alvares de Azevedo, Gonçalves Dias, 
Casimiro de Abreu, Junqueira Freire, Gonçalves de 
Magalhães, Fagundes Varella, Castro Alves, Joaquim 
Serra, Sousa Pinto (o qual é portuguez e portuense, 
também, aliaz), Bernardo Guimarães, Machado de As- 
sis, Bruno de Seabra, Lúcio de Mendonça, Narcisa Amá- 
lia, Bettencourt Sampaio, Dias Carneiro, Vieira de Sou- 
sa, F. de Mattos, Franco de Sá, Filgueiras Sobrinho, 
Gonçalves Crespo (que adoptou a nacionalidade por- 
tugueza), Quirino dos Santos e Octaviano Hudson. No 
estudo da poesia moderna portugueza, que precede 
a colleccão referida, o sábio lente de litteraturas mo- 
dernas no Curso superior de lettras de Lisboa dedica 
o seu segundo capitulo á analyse da poesia lyrica do 
Brazil, a qual considera superior em vehemencia sen- 
timental e em novidade de formas ao lyrismo portu- 
guez. Ahi fixou, segundo elle, o motivo da persistên- 
cia da serranilha portugueza na modinha brazileira 
e no seu lyrismo moderno. Esta secção de alta cri- 
tica litteraria foi retomada e desenvolvida pelo epí- 
gono José António de Freitas, no seu trabalho espe- 
cial sobre o Lyrismo brazileiro. 

Todavia, publicações como esta ultima e a do 
cónego Pinheiro teem, para sua comprehensão, o de- 
feituoso contra de presuppòrem conhecido o assum- 
pto. Referem-se a obras, que imaginam já lidas, e 
apreciam escriptores, cujo texto consideram ^\e\ T \sv.- 
mente adquirido. 



12 O BRAZ1L MENTAL 



Quando a hypothese, porém, não se confirma, o 
ensino de livros taes resulta inteiramente perdido e 
a sua leitura torna-se d' um fastio mortal. É por isso 
que os modernos críticos additam uma selecta de 
trechos das melhores composições, em prosa e verso, 
pertencentes aos auctores julgados. Assim o fez o já 
citado Fernando Wolf, cujos quilates ainda ultima- 
mente, na Revhta da Sociedade de Instrucção do 
Porto, a vasta competência de D. Carolina Michaelis 
de Vasconcellos cotejou e aferiu. Todavia, similhante 
processo destaca como artificial e superficial; elle 
desarticula as composições e onde o seu empirismo 
resalta flagrante é pelo que toca ás narrativas segui- 
das, históricas ou de ficção. 

Os ensaistas contemporâneos recorreram ao, mais 
simples e natural, procedimento da demonstração suc- 
cessiva, de par e passo que se vai expondo e referin- 
do. Estudando Carlos Dickens, por exemplo, o insi- 
gne Taine desenha o plano schematico da sua ana- 
lyse. Estabelece, perante os olhos do leitor, que, pri- 
meiramente, elle se propõe tractar da lucidez e inten- 
sidade da imaginação em Dickens; depois, da audácia 
e vehemencia da sua phantasia. Elle dirá como é que 
no inglez os objectos inanimados se personificam e 
se apaixonam. Logo deduzirá como a sua concepção 
se avisinha da visão. E, consequentemente, em como 
se approxima da monomania. Para isso, exemplifica- 
rá, comnosco aprendendo como é que elle pinta os 
allucinados e os doidos. 

Ora bem. Havendo d'est'arte bosquejado o seu 

plano, Taine principia de desenrolar diante de nós o 

tecido fino de sua especulf ração. E desde 



O BRAZIL MENTAL 13 



que um momento ideativo, preciso e recortado, deter- 
minado e categórico, se defina, elle tracta, immedia- 
tamente. de comprovar o asserto que adeantara mos- 
trando, por um exemplo do seu auctor, que o critico 
cfeste não inventa nem desvaira. 

Assim, vai intercalando no próprio texto as trans- 
cripções que de Dickens entende idóneas e oppor- 
tunas. Nâo se contenta; isto lhe não abasta. E, em 
notas, pòe no original inglez as passagens aproveita- 
das. Para que nâo possa restar sombra de duvida, 
concernentemente a fidedigna exacçâo que se preten- 
de. Desfilam, pois, da acurada edição Tauschniz, os 
personagens fundamentaes nas situações decisivas, 
aqui Martinho Chuzzlewit, logo o banqueiro Dombey. 

Entre nós, uma obra d'esta espécie, regular e 
systematica, nâo se tentou sequer. Pelo contrario, um 
livro surgiu, que, involuntariamente porventura, ten- 
deu para falsificar o critério portuguez acerca da pro- 
duccâo litteraria brazileira. 

Estamo-nos recordando do Cancioneiro aleyre, 
de Camillo Castello Branco. Foi uma compilação ar- 
ranjada precipitadamente, em hora amarga da amarga 
caligem moral que entenebreceu os últimos annos do 
primacial escriptor. Elle riu alli um riso cruel, que 
cerce dissimulava muitissimas dores. As suas aprecia- 
ções foram injustas quasi sempre, como injustíssima 
a que, precisamente mais desastrada, foi mais inten- 
samente sarcástica. Calcula-se que nos referimos ás 
linhas votadas a Fagundes Varella, cujo Ímpeto ly- 
rico é de soberba pujança. Diurna idealidade ma- 
ravilhosa, o estro de Fagundes Varella tem a pureza 
transcendente do conceito platonista, aíYiimskv \vw- 



14 O BRAZIL MENTAL 



manado na incarnação do génio sul-americano. Todo 
o avatara é, etymologica e ontologicamente, uma des- 
cida. Mas a intuição tornou-se-nos affim, abando- 
nando a fria iramobilidade da rasâo pura. Recebeu a 
transfusão do sangue das paixões: 

O que eu adoro em ti não são teus olhos. 

Para que confesse: 

O que eu adoro em ti, ouve, è tu' alma. 

O volume de Camillo Castello Branco provocou no 
Rrazil uma tempestade de cóleras; gemeram os prelos 
com a pressa de folhetos, mais ou menos arrieirados, 
remettidos á sobranceira maestria do solitário de S. 
Miguel de Seide. D'aqui resultou essa opulenta serio 
de objurgatorias contra Os críticos do a Cancioneiro 
alegre.» Nunca a ^invectiva attingiu tam vibrantes, 
extremes effeitos; raramente, o desprezo encontrou 
nota litteraria mais perfeita, em sua enxovalhante 
mira. Essa collecçâo é uma obra-prima de insolência : 
cila marca, na triste historia dos desmandos da po- 
lemica indigena. 

Mas o conhecimento da physionomia mental bra- 
zileira é que escapara; anjes, os traços se confundi- 
ram e a perspectiva se falseou. 

Entretanto, o editor David Corazzi, de Lisboa, 
engenhoso e constante, iniciara a publicação da sua 
Bibliotheca Universal, antiga e moderna, copiada, 
manifestamente, . do plano da Bibliotheca Nacional. 
íranceza; mas com outra probidade, reproduzindo 



O BRAZ1L MENTAL 15 



os textos em sua integra exacçâo e sem os muti- 
lar, como os livreiros parisienses não escrupulisam 
de fazer, para que, no numero de paginas prefixo, 
caibam. N'esse archivo se topa com o Poema do 
frade, de Alvares de Azevedo; com as Sextilhas 
de Frei Antão, de Gonçalves Dias; com os Poemas 
eróticos, de Alvarenga; com a Iracema, de José de 
Alencar. 

A breve trecho, porém, a empreza sossobrou; e, 
mais uma vez, a idea de tornar conhecido o Brazil 
a Portugal se perdeu, pelo insuccesso connexo. 

Confessemos, francamente, no lance, que, até 1889, 
isto é até á data da proclamação da republica no Rio- 
de-Janeiro, de banda da gente portugueza não despon- 
tara o maior interesse por inquirir do desenvolvi- 
mento mental brazileiro. E o motivo residia em que 
— para a intelligencia — o Brazil nào contava. Nâo se 
suppunha que brazileiros íôssem capazes de mais do 
que de vigiar pelos engenhos do assucar. Recente- 
mente, já frisamos este ignaro desdém ao discor- 
rermos a propósito de Carlos Gomes. 

Aqui relembraremos, só, um episodio anedoctico, 
que é eminentemente significativo. 

Quando cm Portugal se soube que um litterato 
brazileiro, de nome arrevezado, Sylvio Romero, es- 
crevera e publicara uma espécie de historia da Pki- 
losophia no Brazil, em Portugal foi, após o pasmo, 
um successo de gargalhadas. «Ora isto?!» dizia-se ás 
inezas dos cafés, nas palestras dos jovens curiosos de 
espirito. «Com que entáo: a philosophia do Brazil? 
Hein? Esta nem ao diabo le^nbra! Se fosse a carne- 
secca do Brazil, ou a feijoada do Brazil . . . Ma&, a%ro^ 



16 O BRAZIL MENTAL 



a philosophia do Brazil. Valha-nos Deus!» E riam, 
jubilosos da sua sufficiencia. 

Com effeito, o brasileiro tornara-se para o por- 
tuguez o typo de um grotesco infinito. De longo se 
lhe attribuiam todos os vicios, todos os dislates, toda 
a sordidez possível e impossível, de alma e corpo. Da- 
va-se esta coisa insensata: Portugal nâo tomava a sé- 
rio o Brazil. 

Podia, mesmo, o Brazil aventurar-se nas teme- 
ridades de vastas guerras, como essa do Paraguay, 
que inflammou a musa patriótica de Tobias Barreto t 
e de toda a nova geração poética de Pernambuco. 
As sympathias, reaes, verdadeiras, sinceras dos por- 
tuguezes estavam com o Lopez. E o jornalista por- 
tuense Urbano Loureiro publicou uns pamphletos se- 
manaes, de irrisão e troça ás glorias brazileiras, ás 
suas batalhas navaes, aos seus ataques consecutivos 
de Humaitá. Inventaram-se historietas picarescas, 
pondo em duvida a capacidade, o mero bom-senso 
dos generaes brazileiros. Foi celebre essa do: Bôa 
idea s sô Soares, que rehabilitou um credito litterario. 
injustamente (pelo erro apreciativo, próprio dos con- 
discípulos estudiosos, isto é decoradores) um moco ta- 
lentoso fora até então conhecido pela alcunha do Bra- 
f/uinha Asneira. A chacota de Urbano Loureiro havia, 
de resto, tomado proporções taes que o cônsul geral 
do Brazil em Lisboa, Porto-Alegre, um dos iniciadores 
do romantismo no Brazil, julgou cumpiir-lhe intervir. 
Escreveu uma carta ao desabusado satyrista tripeiro, 
que d'elia fez a base d'um folheto cáustico contra o 
Brazil e os seus nacionaes. Apropriou-se uni titulo de 
Alphonse Karr; chamou-lhe Um punhado de verdades. 



O BRAZIL MENTAL 17 



Quando o imperador veio á Europa pela primeira 
voz, os seus ridiculos naturaes foram complacente- 
mente exaggerados. Causou péssima impressão o seu 
pedantismo scientifieo; e todo o mundo sorriu da sua 
aptidão para o hebraico. Por outro lado, a sua fami- 
liaridade amesquinhou-o ; tornou-o trivial. Vendo-o 
de mala sempre na mão, correndo para as gares, só- 
brio de gorgetas; ou galhofeiramente contemplando-o 
sentado mano-a-mano com as regateiras da praça da 
Figueira, na barraca, a calar melancias, — o presti- 
gio da sua situação social sumiu-se. O seu plebeismo 
rhocou, porque se sentiu falso; conheceu-se-lhe uma 
jjme de exportação. Em França representava-se, ao 
tempo, uma farça de tramóia, engendrada por Victo- 
rien Sardou: Le roi Carottc. Quando D. Pedro íoi á 
Sorbonna, os estudantes acclamaram-o hilaremente 
como o rei Cenoura, Suhrepticiamente, uma lhe de- 
penduraram das abas da casaca. O bom-homem não 
se zangava, dentro do seu papel de democrata in- 
tormittente. 

A caricatura apoderou-se, incontestandamente, do 
personagem. Bordallo Pinheiro empregou o seu lápis 
nos cartões dos Apontamentos da viagem do impera- 
dor do Rasilb. 

É que no autocrata se consubstanciaram todas 
as deformidades do typo, pouco sympathico, do bra- 
zileiro. Elle foi um symbolo vivo. A antipathia ia-se, 
até/ aggravando, envenenando-se em animadversão, 
desde que o pobre príncipe, no Porto, moido das ba- 
julações dos cortezãos, por offieio, beneficio ou sim- 
ples disposição de animo — poisque se nasça ro^aàvà fttf. 



18 O BRAZIL MENTAL 



servir — , ousou manifestar o seu desgosto e não se 
deu a esconder o seu tédio. 

Accusaram-o de menos primor no trato, o que 
não deixava de ser certo mas o que se explicava e 
desculpava á face do motivo que assignalamos. Quan- 
do, finalmente, elle se despediu com o deplorável in- 
cidente da recusa do pagamento da conta da estala- 
gem, por a achar salgada, ninguém reparou na cy- 
nica exploração da estalajadeira, mas todos os olhos 
se fixaram na figura triste d'um tam grande principe 
regateando misérias de azeites e vinagres. 

Emfim, foi um desastre pezado essa viagem in- 
génua; e ella mais confirmou a presumpçâo, já radi- 
cada, acerca do Brazil e dos brazileiros. 

Já radicada dissemos ; nada contribuirá para esse 
effeito como a longa novellistica de Camillo Castello 
Branco. 

O personagem central dos seus romances, aquelle 
á roda de quem gravita todo o systema da acção é : 
o brazileiro. D'aqui, procede, mesmo, certa monoto- 
nia, que a critica, nas horas combatentes, se não es- 
queceu de lançar em rosto ao mais significativo re- 
presentante do condicionalismo subjectivo portuguez 
n'este nosso tempo de agora. 

Por 1869, o snr. Luciano Cordeiro exercia a ana- 
lyse no sentido pretencioso e infantil do mestre-escho- 
la, que ofíerta coroas ou dá palmatoadas. Estava-se na 
concepção primordial, que Gustave Planche consubs- 
tanciara na integra em França modernamente. Elle 
era, positivamente, quem dava as cartas. Ora, justifi- 
cando o que considerava um dos grandes defeitos de 



O BRAZIL MENTAL 19 



Oamillo, já então, no seu Livro de critica, notava elle 
que difficil seria encontrar obra do romancista mi- 
nhoto cujos caracteres não comprehendessem prima^ 
cialmente o ricasso, labrego, cynico e commendador. 

Reputa Luciano Cordeiro este typo falso: cha- 
ina-lhe «o pseudo-brazileiro.» A mesma intuição teve 
mais tarde o snr. Luiz de Magalhães, o qual foi bem 
longe. Cahiu na ingenuidade opposta. Pretendeu re- 
habilitar o typo do brazileiro. Para isso, escreveu um 
romance "de these, com exterioridades, de dialogo e 
descripção, naturalistas; no fundo, o que os russos 
chamam uma obra de tendência. 

Esta novella, mais falsa estructuralmentc do que 
as suas antagónicas, é, como ellas, em sua genera- 
lidade representadôra, tam insignificativa e impro- 
vante como as outras, lntitula-se O brazileiro Soa- 
res, e tem um prefacio de Eça de Queiroz, cautelo- 
samente parco de encómios. Com ardil jesuitico, re- 
fngia-se no conceito moralista; não diz ao auetor que 
elle escrevesse um bom livro, limita-se a confiden- 
ciar-Lhe que elle praticara uma bôa-acção. Oh! le boa 
billet qu'a La Chàtre! 

Mas, bôa ou má-acção (o que vem pouco para o 
caso), o que é certo é que o brazileiro Soares de Luiz 
't de Magalhães é excepção idealista, como os brazilei- 
5 ros de Camillo Castello Branco são excepções de ca- 
ricatura. 

E, sendo-o, os braziieiros de Camillo Castello 
Branco não são os braziieiros do José de Alencar : 
quer dizer, os braziieiros de Matto-Grosso ou de Mi- 
las-Geraes não são os nossos braziieiros. feto ví ft*\- 
ou nitidamente o mesmo snr. Eça (ta Qwfò\WL\ivN 



30 O RRAZIL MENTAL 



memorável numero das Farpa* que (com. o snr. Ra- 
malho Ortigão, cuja coliaboração n'esse fascículo de- 
ve, ser pequena, se alguma é, mesmo) consagrou á 
digressão do imperador pela Europa, particularmente 
na sua passagem por Lisboa. 

O nosso brazileiro — assim lhe chamamos, porque 
nosso seja. Nosso, pela origem, pelas inclinações, pelos 
costumes. E o portuguez repatriado. E o torna-viagein. 

Portanto, — não discutindo por agora a valia pes- 
soal e o effeito social d*esto elemento das nacionali- 
dades portugueza e brazileira — , a ironia, quer fun- 
dada quer errónea, passa de lado do brazileiro, não o 
attinge, não o toca. não lhe embarra sequer. Porque 
o brazileiro ê, naturalmente, o brazileiro legitimo, o 
brazileiro-nato, aquelle que, pela mãe (raramente pelo 
pae), pertence á terra brazileira. 

Ora. este, desconheciamol-o nós. 

Algumas vezes, tão só, destacou em frente da 
nossa comprehensividade ; mas, d'essas, sempre, re- 
vestiu um aspecto que não nos tornava nada agra- 
dável sua contemplação, bem como se nos não fazia 
fácil seu exame. Umas dVssas feitas, elle era temeroso 
para nós, como quando se acordava, em lúgubre re- 
bate, a reminiscência das insurreições anti-portugue- 
zas. () nome de Nunes Machado e a sua dedicação 
heróica esquivavam-se-nos: mas as fuziladas de Per- 
nambuco ainda nos agitavam no sobresalto de que 
perdessem a partida as tropas fieis ao governo consti- 
tuído, e que para os nossos conterrâneos, alli residen- 
tes, representavam a garantia da segurança. Outras 
\ezes. a hostilidade apresenta va-se patente e aberta, 
como nos /Momentos reeenles i\v\ vYv\\YA£Ai\da desça- 



O BRAZIL MENTAL 21 



bailada do Nery maratista que redigia a Tribuna do 
Pará. Só então ó que appareciam, timidamente, nas 
nossas livrarias folhetos concernentes aos brazilei- 
ros-brazileiros, suas aspirações, juizos, vícios e vir- 
tudes. Comprehende-se que, na angustia do lance 
apremiante, o retrato não fosse favorecido; e enten- 
dem-se os clamores de alarme, soltos pelo snr. Gomes 
Percheiro, por exemplo, quando do insulto da ban- 
deira portugueza, arrastada pela lama das ruas, fil- 
tre uivos de assoldadados capangas. 

Mas, logo passada a crise, tudo volvia A indolên- 
cia consuetudinária ; e ninguém se affligia por apurar, 
afinal, quem era e o que pensava esse brazileiro, <i 
cujo aggregado politico a rhetorica dos sermões de 
gala adregara chamar, d'onde a onde: a naçào innà. 
Fallar brazileiro, era mau. Mas pensar brazileiro, como 
de alguém que de IA voltara se lamentava alguém 
que cá ficara, era péssimo. 

Quanto aos portuguezes que de vez tornavam 
do Brazil, não escreviam tomos de viagens. Eram ho- 
mens do trabalho, que regressavam a descançar de. 
longos annos de um labor indefesso. A sua obrigação 
não era negociar cartapacios. E os litteratos, de con- 
dição ou profissão, que iam ao Brazil: por via» de re- 
gra, por IA se deixavam ficar. Que isto de morrer de 
tome pelo gáudio de pingar borrões de tinta sobre 
quadrados de almasso só seduz quem é irreductivel- 
inente maluco, solemne e incurável. Por IA se deixa- 
ram ficar, pois, Ernesto Cibrão, Augusto Emílio Za- 
luar e o mais eminente de todos, o conselheiro José 
Feliciano de Castilho Barreto e Noronha. 

De modo que a informação peru\anm& \yusmSXy- 



22 O BRAZIL MENTAL 



dente. Nào lhe corrigiam os defeitos aquellas obras 
que, apezar de suas qualidades, se resentiam dos pre- 
conceitos já levados d'aqui, como o volume No Bra- 
z/l, do snr. Silva Pinto. Só nos nossos últimos dias 
é que principia a brotar um género que até hoje era 
impossível : o de livros acerca do Brazil que nào des- 
obedeçam aos mandados da simples justiça impera- 
tiva. Ainda ha pouco appareceu o opúsculo do snr. 
João Chagas, ijititulado: De bond. É precioso de li- 
geira vivacidade; chronica despretenciosa e corren- 
te, dissimula um grande serio, que faz o seu fundo. 
A sua leitura, prompta e fácil, impressiona, aliaz, pelo 
incisivo dos conceitos. É um folhetim que diz alguma 
coisa. 

Entrementes, pois que só agora começamos a co- 
nhecer o Brazil, temos vindo phantasiando um Bra- 
zil de convenção — nada attrahente, valha a verdade. 
A culpa era nossa; poisque o typo do brazileiro, se o 
nào creamos, o deformamos nós. 

E aqui se consigne o erro do snr. Luciano Cor- 
deiro, quando parece suppôr producçào exclusiva, 
e da só responsabilidade de Camillo Castello Bran- 
co, essa figura do brazileiro, cuja repetição no qua- 
dro o embaraça e aborrece. 

Nada mais inexacto. O brazileiro dos romances 
de Camillo Castello Branco corresponde ao que, na 
technica das peças de theatro, se chama o centro 
dramático; elle constringe o nódulo da acçào. 

Porque ? 

Porque seja quem tenha o desfecho das crises na 
mào, sendo o detentor do sentido económico da peça. 
Elle é o homem do dinheiro, e nenhuma apostrophe 



O RRAZIL MENTAL 23 



iam verdadeira e eterna, como o verdadeiro, eterno 
Mephistopheles : 

Dlo delVoro, dei mondo signor! 

Assim, considere-se a vívida interpretação da 
fervilhante comedia humana moderna. Realisou-a a 
sagacidade critica de um Taine, desde que estuda 
Balzac nas camadas profundas do seu talento inqui- 
sitivo. Retenha-se a importância que elle attribue ao 
dinheiro na confecção do drama actual; note-se o 
cuidado que põe no desenho dos seus avarentos, um 
Gobseck, um Grandet. 

Objectar-se-ha, porém, que estes não constituem 
classe social á parte; não formam, por assim dizer, 
nacionalidade na nacionalidade. Mas esquece quem 
tal alleguo a figura proeminente de Nucingen, des- 
tacada n'uin departamento tão aparte que a algara- 
via insonte do seu francez tudesco torna quasi im- 
manuseaveis os livros por onde elle perpassa. 

Figura de chave, em romance de chave, Nucin- 
gen, ou o barão Rothschild, representa o judeu afran- 
cezado. No sentido de possuidor do capital, tam só, 
♦íntenda-se, — o que significa o judeu em França 
significa-o o brazileiro em Portugal. Elle é, pois, nota 
indispensável no agenciamento da novella portugueza 
contemporânea. 

E não exclusivamente na vida minhota, como o 
pretende o snr. Eça do Queiroz, illudido pela prefe- 
rencia do domicilio, uma vez aqui fixado o brazileiro. 
Essa preferencia determina-se, com rigor, pela origem 
da procedência. Comtudo, na continua absorpção que 



24 O BRAZ1L MENTAL 



as cidades exercem sobre as aldeias, o brazileiro tendu 
também a deslocar-se para os grandes centros. O snr. 
Eça de Queiroz falia patuscamente da sympathia d'el- 
le pelo «Pedro Alexandrino», casarão amarello ao cães 
do Sodré, onde, em tempos idos, havia um hotel, fre- 
quentado, de esco.lha, pela gente que embarcava ou 
desembarcava, visto ficar alli perto, a geito de partir. 
O mesmo snr. Eça de Queiroz, nos Maias 9 allude, do. 
passagem, rapidamente, mercê do escabroso da si- 
tuação, ás pretendidas influencias degenerescentes, 
nos costumes lisbonenses determinadas pelo brazi- 
leiro. É quando Carlos da Maia, na Avenida, per- 
gunta ao Ega pelo Charlie, menino escrophuloso e 
loiro, « que andava então muito com um brazileiro.» 

Se não é regional, o brazileiro também não é, 
estrictamente, contemporâneo. 

N'aquella peça que Sismonde de Sismondi não 
considerava como uma obra regular destinada para a 
scena, lá nos mostra já o velho Garção o nosso amigo 
brazileiro. Intitula-se a comedia O theatro novo; e, re- 
presentada no palco do Bairro Alto, (por uma nota 
manuscripta do compilador Caminha) informa o snr. 
Theophilo Braga o novo editor prestimosíssimo de 
Garção, snr. Azevedo, brazileiro, esse, nado e creado 
lá, que ella foi pateada e assobiada pelo publico. O 
snr. Azevedo, em nota idónea, espanta-se dVsta irre- 
verência. Fora soez, com effeito, mas para o caso o 
(jue importa é que o personagem central da compo- 
sição é o brazileiro, vindo então de Minas, no apogeo 
da sua feraz producção de ouro e diamantes. A elle 
é que é preciso que habilmente faça a corte a me- 
nina de olhos azues e bolsa escorreita, que pretende» 



O RRAZ1L MENTAL 25 



casar, pois que elle c que podo dispor do dinheiro 
necessário para levantar a charola. 

Assim o annuncia, logo de começo, o enthusiasta 
Aprígio Fafes: 

Para a despesa do theatro novo 
O dinlteiro me empresta meu compadre, 
O grande Arthur Bigodes, que na frota 
Veio ha pouco do Rio, e vem potente, 
Traz infindo dinheiro, papagaios, 
Araras e bugios; traz mil cousas. 

Pela sua idade, pelos seus haveres, pela sua con- 
sequente respeitabilidade social, o mineiro é o mo- 
tivo do entrecho; por isso, justamente, na vida fa- 
ctícia da imaginação theatral, o poeta o propõe e 
aponta para barbas, que era a designação coeva do 
nosso centro actual. Mas aqui a vaidade do brazileiro, 
que se não quer sentir, muito menos reconhecer, ve- 
lho, reage, provoca a desordem, desmancha todas as 
combinações, tolhendo, egoisticamente, a renovação do 
theatro nacional. 

O romantismo accentuou o traço caricatural. 
Orienta-nos, no conceito critico, o folhetim por Almei- 
da Garrett votado ao desenho do personagem gro- 
tesco e da situação cómica de O brazileiro em Lisboa. 
Na sua redacção definitiva, ficou em forma de carta, 
escripta. da capital lusitana, por um brazileiro á sua 
amada. Eis como principia: «Cajíi da minha vida, 
banana da minha alma, beija-ílòr dos meus pensa- 
mentos, oiro-preto de minha saudade.» O adónis as- 
signa-se Jacaré-Paguá. 

O juizo de Garrett ( acerca do supçosto ?vita\ta 



26 O BRAZIL MENTAL 



incorrigivelmente subsistindo no brazileiro) perma- 
nece fixo durante toda a sua carreira litteraria. Ainda 
no fermo e ao cabo. Assim, no capitulo in do ro- 
mance Helena, que ficou incompleto, pof morte do 
escriptor na epocha em que o andava elaborando, 
lê-se o nome de Spiridião Cassiano di Mello i Matoss, 
farçolamente abrazileirado. É o preto mordomo, que 
teria importante papel na parte romanceada. Ora, o 
mais curioso é que aquelle nome exquisitorio não 
pertence a inventiva de Garrett; elle o tomou da 
realidade. Com effeito, o Diccionario popular, diri- 
gido por Pinheiro Chagas, traz no logar idóneo: — 
Mello e Mattos (Cassiano Espiridiâo), magistrado bra- 
zileiro. — Ao lance, não parece a Gomes de Amorim 
que o acaso collaborasse tam admiravelmente na obra 
do poeta, para dar dois nomes eguaes. Explica que 
certamente se namorou o auctor da combinação, ado- 
ptando-a «sem malevolencia ». De seguro; mas não 
sem malignidade. 

Parece, pois, á face do exposto, que não se pôde 
exigir uma documentação litteraria mais completa 
da permanência do typo brazileiro entre nós; mas 
o snr. Eça de Queiroz erra, por forma diversa, 
quando lhe imprime uma generalidade que elle não 
comporta. Assim, na sua espirituosa monographia 
do brazileiro, o «humour» do redactor capital das 
Farpas extravasa. Por um exaggero de imaginação 
lógica, próprio das nossas raças hyperbolicas, elle 
insinua que a gargalhada com que acolhemos o bra- 
zileiro foi tam clamorosamente estrepitosa que se 
ouviu por essa Europa fora. Um tam grande riso 
chamou as attenções cosmopolitas. Repararam e ri- 



O BRAZIL MENTAL 27 



ram logo, também. De modo que «em França, em 
Hespanha, em Itália, o Brazileiro penetrou trium- 
phantemente, de guarda-sol azul em rolo e chapéu 
na nuca, entre uma hilaridade pasmosa — na região 
dos grotescos. E o Brazileiro tornou-se assim para a 
raça latina, essa caduca sabia da ironia, — o deposito 
do riso.» Com effeito. O riso é communicativo, e a ex- 
pansibilidade do escarneo promove a imitação, é certo. 

O peor é que tudo isto é radicalmente falso. 

O snr. Eça de Queiroz confunde o brazileiro, de 
interesse restricto, com o americano, que é uma cu- 
riosidade universal. No seu typo yankee, é que o 
americano feriu, pelo seu mercantilista utilitarismo. 
Hypertrophiando ainda os traços antipathicos da phy- 
sionomia ingleza, o americano irritou; a própria ca- 
ricatura indignou-se. O riso azedou e a comedia de- 
rimiu em satyra quasi pessoal, com etiquetas e en- 
dereços, á laia clássica aristophanesca. 

Alguns escriptores dramáticos inquietaram-se 
com o inaproposito do Onde Sam, de Victorien Sar- 
dou. As opiniões politicas do auctor desagradavam, 
pelo seu tom carregadamente reaccionário. Assim, 
as censuras choveram, inflingidas ao leviano francez, 
o qual poderia concorrer para desviar as raras affei- 
çòes que ainda quedavam restando, em seu infortú- 
nio, á pátria abatida e humilhada. 

Mas a coisa vinha detraz. A mesma comedia in- 
criminada não passava, afinal, d'um evidente plagiato 
da novella dos Butterfly de Altredo Assolant. E este 
escriptor, original e pittorescamente estranho, crea- 
ra-se uma especialidade, da satyra dos costumes e 
hábitos americanos. 



ÍS O BRAZIL MENTAL 



Na sua collaboração eryptonima da V/e Pari- 
f<hnn(\ Taine não olvidara de flagellar o materia- 
lismo da condição moral dos yankees: compendiara, 
mais tarde, em volume essas duras, esparsas tro- 
ças de Frederico Thomaz Grão-de-cevada, negociante 
do porcos salgados, no Massachusetts. 

Sizudamente, elle explicara já o phenomeno ex- 
travagante da feitura do credo doido dos mormons 
como uma reacção desorbitada contra o grosseiro 
positivismo prevalecente nos Estados da União. 

Já antes o formidável Balzac. querendo transfor- 
mar, explicativamente, o typo do tarimbeirão, perse- 
guido de chascos desde Plauto até Smolett, o que é 
que faz? Não se limita a collocar o seu militar de- 
pravado, Philippe Brideau, ofíicial aos dezoito annos, 
na eschola das traições e das debandadas da campa- 
nlia de Waterloo: manda-o para o Texas, a fim de o 
pôr em contacto e sob a immediata acção do espe- 
ctáculo do «egoísmo e da brutalidade americana», 
commenta o mesmo Taine. 

Kmquanto que com o Brazil. nada d'isto. Se as 
republicas sul-americanas promovem a tristeza das 
criticas pelo exemplo das suas perturbações constan- 
tes, nenhum d'esses sentimentos depreciativos com 
respeito ao Brazil. Os novellistas, que o tomam para 
habitáculo de suas invenções, cinpenham-sc em o hon- 
rar, pintando-o, coisas e pessoas. Até nas producções 
medíocres, como as dos faiseura Emílio Carrey ou 
Augusto Matthey (Arf/iur Amouhl), a observação 
não se desmente. Tanto o conceito preside, assente, 
em sua genérica amplitude. 

Quem sabe? É possi™ - 1 - -"nt - ! --- *n«rtí- 



O BRAZU, MENTAL 29 



eularísta distingisse o conceito collectivo e que a mo- 
deração do tom, no juizo esthetico do americanismo, 
de causa similhante ou análoga derive. Temos o typo 
de Clarkson, que se encarrega de dar sancção á theo- 
ria, de sciencia phantasista, explanada com respeito 
aos vibriòes por Dumas filho, nas incongruências da 
sua ultima maneira. Temos a improvisação bonhom- 
mica do Tio da America, em que Júlio Verne en- 
contra a situação da familia portugueza com o bra- 
zileiro. 

Como quer que seja, e revertendo ao ponto-de- 
partida, o brazileiro que a nossa litteratura debuxou 
não é o brazileiro que nos importa conhecer. Houve 
aqui erro. E o que é curioso é que tanto se enga- 
naram os portuguezes natos, talhando a carapuça, 
como enfiando-a os nativistas brazileiros, em cujas 
cabeças ella não entra, aliaz. 

Assim, quem, em bôa-vcrdadc, tinha rasão de se 
irritar com os sarcasmos da litteratura, alfacinha ou 
minhota, eram os portuguezes da colónia, poisque 
para elles, quando de regresso, é que as chufas se 
remettiam. Tal é a contradiccão das coisas!, esses 
tòram quem applaudiu e transportou, mais tarde, o 
snr. Ramalho Ortigão em triumpho pelos gabinetes 
de leitura e clubs de gymnastica, entre salsifrés e 
alteres. 

Quem se irritou, sob symetrico contrasenso, fo- 
ram os brazileiros-natos. 

Indignaram-se, ao mais alto ponto ; excederam-so 
em invectivas; foram cómicos, na desproporção de 
suas arremettidas; prestaram o cachaço ás floridas 
rrochas. Como aqutúle que a Eça <ta Qxwncwl \rcvv- 



30 O BRAZIL MENTAL 



mctteu recebel-o, na praia de Pernambuco, com um 
cipó de Petrópolis. Como aquelFoutro Thomaz Júnior, 
que, na substituição brazileira de Filho, outhorgou o 
nome ás offensivas cabriolas obscenas do azedume 
de Camillo Castello Branco. 

É que, povo novo, com toda a frescura primave- 
ril (o Ímpeto, a confiança, o orgulho) o brazileiro não 
supporta a ironia. Magoa-se, como d'uma grave in- 
juria, pela mais somenos brincadeira. É ingénuo e 
altivo. E, pois que a adolescência seja o tempo do bu- 
ço, para os individuos como para as nações, o Bra- 
zil é, um pouco, pelludo. Dá sorte ; encavaca, zanga-se. 
E logo lhe acodem, em replica, as palavradas, punhos 
cerrados, ameaças. 

Isto que prova? Que é joven e que tem brio. 
Honra lhe seja. 

Nào theorisamos arbitrariamente ; críticos, subtis 
e argutos, de nascença brazileira, deram fé d'este pe- 
culiarismo da idyosincrasia moral dos seus compa- 
triotas. 

Assim, n'um dos números, recentes, da ultima 
serie da Revista Brazileira^ o snr. José Veríssimo 
verifica que «a ironia, como o ahumour», mais ainda 
talvez que elle, é estranha á índole brazileira.» Ge- 
neralisa e explica em como a ironia é insupportavel 
ao brazileiro. «A ironia, define, é o insulto do civili- 
sado.» «Por isso, concluç, as naturezas primitivas, ao 
invez do que se suppòe commummente, são extraor- 
dinariamente sensíveis á ironia. Incapazes de lhe com- 
prehcnderem os matizes, a sua sensibilidade exagge- 
ra-lhe os intuitos e o alcance.» 

Postas, assim, as coisas, conrmrehende-se como 



O BRAZIL MENTAL 31 



inoffensivas boutades de folhetinistas lisbonenses se 
transformassem em coisa grave e séria. Vé-sc por 
que fosse considerado aggressòes formaes o que não 
passava de debiques, mais ou menos aprimorados no 
gosto. E entende-se o motivo d'um corollario péssi- 
mo, o qual consistiu em distanciar mais a mentali- 
dade portugueza da brazileira. 

Com effeito, os nossos irmãos de alêm-mar co- 
meçaram de antipathisar comnosco cordealmente. 
Mais trancos, nâo occultaram a sua hostilidade. Pro- 
clamaram-nol-a rudemente, sem ambages. Nâo care- 
ceram de procuração; não nol-o mandaram insinuar 
por outros. Disseram-nol-o carrément, na bochecha. 

As novas gerações extremaram-se, então, no des- 
prezo, que timbraram de exhibir, por nossa especula- 
ção esthetica, philosophica, critica. Pagaram-nos de 
desdéns; orgulharam-se de nos dizer coisas feias; e. 
como creanças amuadas, deram em nos chamar no- 
mes. Despicaram-se, nâo tem duvida nenhuma. 

Na multiplicidade dos seus desconnexos ensaios. 
atravez dos quaes a educação precipitada de um es- 
pirito poderoso se vae contraditoriamente operando, 
uma caracteristica ha que em Tobias Barreto se não 
desmente. É o tédio pela cultura portugueza ; affecta 
sempre uma soberba repulsa pelos grandes nomes da 
nossa evolução litteraria, ainda pelos culminantes. 

Resulta curioso, como modelar exemplo, o estudo 
acerca da reedição dos Opúsculos de Alexandre Her- 
culano. Elle tem a data de Julho e Dezembro de 1878 
<5 pertence á collecção subordinada ao titulo genérico 
de Ensaios e estudos de philosophia e critica (« pri- 
meira livraçio» (sic), segundo o abomVn&NÀ vjjcMv- 



32 O BRAZIL MENTAL 



cismo brazileiro). Coincide com as analyses congé- 
neres portuguezas, de Ramalho Ortigão, nas Farpa* ; 
de Theophilo Braga, na Bibliographia crítica de his- 
toria e litteratura, dirigida concomitantemente com 
Adolpho Coelho. Nada adeanta, em sua fácil demons- 
tração das contrariedades insanáveis do espirito de 
Alexandre Herculano, pquco apto á dialéctica. Sua 
cultura, como seu entendimento, era essencialmente, 
de transição. Mas o que é significativo é o malévolo 
empenho com que o brazileiro procura revelar que 
o portuguez não é um historiador digno de perten- 
cer á categoria dos considerados primaciaes e rele- 
vantes. 

Nada encontra de especialmente notável na His- 
toria de Portugal, de Herculano, que engrandeça e 
iliumine, fora do commum, o vulto do seu auctor. 
Pergunta se será a expulsão do milagre. E encarre- 
ga-se de responder que nada resta para Herculano, 
poisque o milagre de Ourique já tinha sido expulso, 
cré elle, pelo allemão Schsefer. Vê-se que não conhece 
o trabalho do professor de Giessen e que cita de ci- 
tação: poisque, alargando-o, lho erre o titulo da obra; 
e visto como inscreve dubitativamente o asserto pri- 
mordial. 

Comtudo, Seluefer não teve a coragem de elimi- 
nar o relato da tradição miraculosa. Registra-a; e, se 
invalida o diploma que a impostura, estribando-se em 
tradição similhante, forjou, pelos fins do século xvi 
(para impor, diz elle, á credulidade e ao orgulho de 
uma nação supersticiosa); se tal faz, tem de basear-se 
sobre os trabalhos de portuguezes doutos e esclare- 
cidos. EUe mesmo confessa que o critico lusitano 
João Pedro Híboiro concorda e n\v\ v\ w>^ 



O BRAZIL MENTAL 33 



ingénuo do dizer orgulhoso, poisque elle, Schaefer, ó 
quo concorda com o auctor das Dissertações, que o 
precede. 

Finalmente, com a timidez germânica e a inde- 
cisão peculiar do seu cant, Schaefer deixa vaga a 
questão do quer que fosse com respeito ao milagre. 
Ouanto ao diploma, convém candidamente em que, 
se bem que se haja demonstrado por muitas vezes a 
falsidade de similhante documento, resta, comtudo, 
digno de nota que uma tradição, que remonta até 
ao§ primeiros tempos da monarchia, attesta esse pro- 
digio e cita circumstancias que não differem essen- 
cialmente das indicadas no diploma referido. 

Sem embargo, uma das victorias de Herculano 
consistiu precisamente em demonstrar que essa tra- 
dição não remontava tal até aos primeiros tempos da 
monarchia. Assim, isto, pelo mehos, resta para Her- 
culano; mas muito mais resta ainda, no próprio lan- 
ce, que não vem para o caso desenrolar. 

Agora, o que cumpre é pôr em evidente flagrân- 
cia a má-vontade que deprava a critica e transforma 
a analyse apreciativa n'ura libello faccioso. 

Assim, Tobias Barreto, pretendendo esterilmente 
diminuir a capacidade historiographica de Alexandre 
Herculano, insiste na carência de retratos em sua 
obra. 

Diz que debalde se buscaria ahi alguma cousa 
de análogo e comparável á caracteristica de Sylla, 
ou á de César, em Mommsen; o quer que, longe ou 
perto, seja similhante ao retrato de Innocencio in em 
Hurter: — ao de Lutbero, em Ranke; ao de Carnot, 
em Sybel. 



34 O BRAZIL MENTAL 



& 



Aqui, ha dois erros. primeiro — e íundamen- 
tal — consiste em despedir a competência d' um his- 
toriador, porque elle nào seja um certo género de his- 
toriador. 

Nào queremos acreditar que Tobias Barreto re- 
cusasse entrada no concilio dos divinos ao inglez 
Hallam — poisque, guarda-portào do Olympo, car- 
rancudo, ao guichet, reclame as senhas. 

E, todavia, onde, na obra de Hallam, encontra- 
remos os retratos de Carlyie ou as scenas de con- 
juncto de Macaulay? Um historiador colorista e nar- 
rativo como Thierry pôde acaso medir-se pela craveira 
philosophica d'um Guizot? E a energia evocatriz de 
Michelet nào é differente coisa da habilidade vulga- 
risante de Thiers? 

Depois — o segundo erro. Para fazer o retrato de 
Sylla, é preciso que pouse deante de nossas reminis- 
cências Sylla. Mas se nào fôr o ensejo de retratar 
Sylla? Caso Mommsen tivesse de desenhar João Fer- 
nandes, as suas paginas vibrariam, na nossa retentiva 
romântica, com a intensidade de que vivem as que a 
Gesar consagrou? Ora, onde tinha Herculano, para no 
mármore sagrado lhes talhar as estatuas, os Lutheros 
e os Carnot? As figuras que desfilavam por deante 
d' elle nào exhibiam mais que as mascaras exíguas 
de principiculos medievaes, de solarengos anonymos 
quasi, de bispos esquecidos, mesmo á data de suas 
façanhas — ignorados. 

Todavia, quando alguma personalidade de inaU 
poderoso relevo destacava, nâo lhe faltavam na pa- 
leta tintas. Que o diga a lembrança do fundador da 
wonarchia. Até, áspero e abrupto, é de admirar como 



O BRAZ1L MENTAL 35 



a Herculano não escasseiam as meias cores, para co- 
brir as physionomias pardas, equivocas, que se es- 
coam, qual essa do negociador Duarte da Paz, na 
Historia da Inquisição. 

Mas Tobias Barreto nào buscava desinteressada- 
mente a verdade. Apaixonado, procedia para conclu- 
são já predeterminada. 

Assim, cascalha da pretenção que, assevera, ti- 
nha Alexandre Herculano de ser em sua terra o que 
foi na Allemanha Leopoldo Ranke, isto é chefe de 
escola, mestre insuperável. 

Attenta a miséria da nossa decadência, não pôde 
dizer-se, infelizmente, que Alexandre Herculano fosse 
chefe de escola, poisque raros discipulos logrou. To- 
davia, não desaproveitados, de todo. 

Se de Rebello da Silva não merecem contar-se se- 
não os dois últimos volumes da sua Historia e a sua, 
valiosa, Memoria sobre a agricultura, em nossos dias, 
compensando, appareceu uma doestas composições 
capitães que não deshonram os modelos e enobrecem 
a epocha em que surgem. Referimo-nos á Historia da 
administração publica, do snr. Gama Barros, trabalho 
para nossa vergonha, mais conhecido e justamente 
reputado em Hespanha do que entre nós. D'elle, to- 
davia, com acerto disse Oliveira Martins que é «um 
livro digno de hombrear com os do grande Hercu- 
lano, e que por signal seria impossível fazer si; o 
nosso historiador não tivesse desbravado o campo.» 
Por isso, memora «como tributo de respeito» essa 
«obra fundamental.» 

De resto, o desastramento de Tobias WivevvAxs 
avulta completo; po isque, d 'entre todos os Yv\*\wc\vv 



36 O BRAZIL MENTAL 



dores allemães contemporâneos, vai, para, em doloso 
confronto, amesquinhar Herculano, escolher precisa- 
mente aquelle que mais affinidade offerece com o 
nosso portuguez. 

Visto que pareça quiçá exaggerado encómio o que 
em nossa bôcca não transcende os limites da vulgar 
equidade, buscaremos em estranho juizo a confirma- 
ção do que allegamos. 

Assim, com effeito, um critico britannico, tractan- 
do de caracterisar o alto particularismo do talento 
de Herculano, de quem é que o approxima, para que 
o leitor, desprovido do conhecimento do idioma por- 
tuguez, o possa aferir? De Ranke, exactamente. 

Diz elle, fallando das influencias exóticas no es- 
pirito de Herculano: «... in later life he was attra- 
cted to the new German School of historians foun- 
ded by Ranke; and perceived that his thrue vocation 
was scientific history.» Seguidamente, julga do modo 
como Herculano realisou sua vocação. Escreve: «His 
chief work has been the disentanglement of the early 
history of Portugal from the mass of legends whieh 
had clustered round it, and his History of Portugal 
and The origin of the Inquisition in Portugal are 
lasting monuments oí industry and criticism.» Note-se 
que este critico londrino não é o da New Quartely 
Review, que Barreto refusa. 

Mas Tobias não julga qualificável Herculano, por- 
que os seus queridos allemães, d'elle se não occupam 
elogiativamente. Mesmo ignoram-o. Haja vista o Staats- 
ivorterbuchy de Bluntschli: art. Portugal;, por Schu- 
bert; art. Pombal, por Baumgarten; art. Inquisição 9 
por Dove. Parece-lhe singular e digno de nota que 



O BRAZIL MENTAL 37 



auctores allemàes, na epocha presente, e em artigos 
consagrados ao desenvolvimento histórico de Portu- 
gal, sob as suas diversas relações, demonstrem nâo 
conhecer os trabalhos de Herculano, deixando de 
mencional-os ao lado de outros, pertinentes ao as- 
sumpto. 

É espantoso. É espantoso que esta carência de 
citação de Herculano prove contra Herculano e nâo 
prove contra os allemàes. Como se no diccionario po- 
litico de Bluntschli, no artigo Brazil, se nâo citasse 
Varnhagen e isso provasse contra Varnhagen. É es- 
pantoso, realmente. Ou, antes, nâo é, desde que Tobias 
Barreto estranha que, n'um artigo sobre Pombal, nâo 
appareça citado Herculano, que nâo possue trabalho 
algum acerca de Pombal. Herculano acerca de Pom- 
bal! Por que carga de agua? Por mor da Inquisição? 
Mas a historia da Inquisição de Herculano só tracta . 
de sua origem e estabelecimento em Portugal. Então 
por que seria que o snr. Baumgarten, que pelo nome 
não perca, se havia de desvairar, á cata de forragea- 
mentos impossíveis, pelos meandros herculanescos ? 

Nâo. A questão é outra. O que importa é que 
fique bem estabelecido que ao nome de Herculano 
não quadra o acatamento das novas gerações bra- 
zileiras. 

Por isso, o companheiro, dissidente discipulo e 
amigo dedicado de Tobias Barreto, o snr. Sylvio Ro- 
mero nâo hesita perante o mau-gosto de confrontos 
com illustraçõcs congéneres brazilciras. O nome que, 
naturalmente, lhe acode é o de Francisco Adolpho 
Varnhagen. Em cada mào sopeza os méritos. Balan- 
cea. Mas a verdade é por tanta maneira fV&fçcaHte. qjxft 



38 O BRAZIL MENTAL 



lhe não resta senão ceder. Bate em retirada, porém 
resalvando. 

Declara: «Si (é como elles escrevem), si a His- 
toria do Brazil de Varnhagen não é comparável á 
Historia de Portugal, Herculano, por sua vez, nada 
possue que se possa comparar ao trabalho do nosso 
historiador : Les origines touraniennes des Americains 
Tupi Caribes.»* 

Pois, apezar de tudo, no primeiro volume da sua 
Hintoria da litteratura brazileira, o mesmo snr. Syl- 
vio Romero combate a theotia que se encontra ex- 
pendida n'essa obra, a qual reputara, aliaz, magnifica. 
Ahi accusa o snr. Theophilo Braga de a haver plagia- 
do, quando é certo que, no capitulo em o Parnaso 
portuguez consagrado ao lyrismo brazileiro, o illustre 
professor lisbonense, por duas vezes, que não uma, 
se reporta ao trabalho de Varnhagen. Seria talvez 
de lhe não citar o nome, resto da animadversão an- 
tiga, quando a vaidade hierarchica do historiador 
brazileiro provocou o justo riso do critico portuguez, 
que — lhe não tinha dado a senhoria». 

Manifestamente, ora e é um propósito. As noto- 
riedades consagradas da litteratura portugueza não 
mereceriam perdão aos nossos continuadores ethni- 
cos na America. 

A nada olhavam. Perdiam todas as medidas. Ce- 
gavam-se. 

Assim, quando appareceu O primo Bazilio y de 
Eça de Queiroz. O folhetinista Machado de Assis, que 
escreve um portuguez castigado, translúcido, perfei- 
to, esqueceu-se ao ponto de, em catilinaria, anonyma, 
âe resto, proclamar o famoso desconchavo ( descon- 



O RRAZ1L MENTAL 39 



Wiavo sim, mas calumnia também) de que o Crime do 
Padre Amaro não passava de uma traducçào da Faute 
de rabbé Mouret, de Émile Zola. Não se ficou por 
ahi. Accrescentou que p paraíso do Primo Bazilio, 
baiuca do Bairro-Alto em Lisboa, casa-de-passe infe- 
cta, era a reproducçào do paradou, cheirosa flores- 
ta, miniaturando uma edição-diamante do Paraiso ge- 
nésico. Nào se ficou ainda por ahi. Declamou contra 
a immoralidade indecente da scena da « sensação no- 
va.» Mas nào se recordara da escandalosa orgia em 
que a Luetola de Alencar se degrada tanto como não 
si»! permittiria jamais a mesma Fanny de Feydeau. 

Assim, quando appareceu a Pátria, de Guerra 
Junqueiro — se da vulgaridade do quadro de costu- 
mes é licito revoar para as zonas transcendentes da 
epopêa. 

A profunda significação d'esse livro escapou in- 
teiramente aos criticos brazileiros. Á forca de raali- 
gnidade, chegaram a ser sandeus. Não conseguiram 
confugir da mediocridade dos reparos propriamente 
constructivos, plásticos, de technica e carpinteira- 
rem. Ficaram, irreductivelmente, litteratos. Fal- 
tou-lhes a emoção moral, que, única, as torna intel- 
ligiveis, a obras d'esta alta categoria. 

Assim, o que, a propósito do poema maravilhoso 
de Guerra Junqueiro, se permittiu escrever o snr. 
Valentim de Magalhães foi, inteiramente, deplorando. 
Elle, na sua futilidade de janota da rua do Ouvidor, 
não percebeu o immenso alcance, histórico e politico. 
da ideação do poeta. E, todavia, certa obrigação, 
maiórmente que os seus conterrâneos, tinha para is- 
so, após uma vr-se quo inútil mas recate \*vvç^\\- 



40 O BRAZIL MENTAL 



nação pela terra lusitana, que fora a de seus paès. 

De resto, o simples prodigioso suecesso-de-livía- 
tia, em Portugal alcançado, pela obra de Guerra Jun- 
queiro — suecesso que nào deveria ser, por certo, 
ignorado no Rio e que demandava uma explicação — 
o tinha de elucidar, a elle, pseudo-critico, prompto 
na invectiva e fácil em ricanar. 

Ora, esse suecesso foi, na verdade, tam vasto 
que elle constituiu uma fulminante excepção na mo- 
dorra tradiccional do nosso mercado. 

É interessante e ensinativa a coincidência; tes-^ 
temunha do avance do espirito publico. Foi um do-^ 
cumento de psychologia collectiva muito para orgu- 
lhar a faina d'aquelles que, por diversa maneira, se 
tinham atélli empenhado em promover uma con- 
sciencisação crescente do juizo popular. 

Fora o caso que, havia trinta e quatro annos, um 
triumpho análogo no negocio de livros se consum- 
mara no balcão da lusitana livraria. 

Deu-se quando do apparecimento do romance- 
poema Dom Jatjme s de Thomaz Ribeiro, livro menos 
que mediocre, como factura artistica, e lastimoso, en- 
tão, como thema concepcional. 

Era uma cmphatica declamativa contra o jugo 
castelhano dos sessenta annos, sem verdade histórica. 
O auetor esquecia, consoante em geral ainda acontece, 
que nós nunca estivemos annexados consubstancial- 
mente á Hespanha, mas, tão só, constituimos com 
ella, segundo os compromissos das eôrtes de Tho- 
ínar, uma espécie de dualismo politico, sob a simples 
unidade da dupla coroa em uma mesma cabeça, con- 



O BRAZIL MENTAL 41 



torine succede hoje com a Suecia-Noruega e com a 
Austria-Hungria. 

Como realisaçâo esthetica, o poema nâo podia 
ser um documento mais desgraçado da decadência 
da nossa imaginação creadôra, se é que alguma vez 
a tivéssemos. 

O mau-gosto do seu cultismo. no frívolo enca- 
deamento das rimas, na vaidade da múltipla alteração 
do seu metro, mudança sem correspondência intima 
com o lance sentimental — assombra hoje, quando se 
recorda a coarctada, sublime de incomprehensâo, do 
visconde Castilho, pontificando que aquelle volume 
deveria substituir, no gosto publico poisque na lição 
das escholas, os Luziadas, de Camões. 

O suceesso, parallelo, do livro de Guerra Jun- 
queiro explica-se graças aos immensos progressos 
obscuros, effectuados pelo intellecto nacional durante 
os últimos eyclos, mentaes e políticos, da sociedade 
portugueza. 

Elle seria absolutamente impossível ha meia dú- 
zia de annos, no domínio, agudo ainda, d'um dos sta- 
dios da illusâo, acceite a terminologia pessimista de 
Hartmann. Consiste em crear o espirito certa cega fé 
patriótica, que exclue toda a critica e, n'uma espé- 
cie de autolatria collectiva, prohibe, pela suffieien- 
cia ignara das multidões, qualquer progresso e impede. 
a somenos melhoria. Com esta demência exulta o ini- 
migo. Ninguém applaudiu mais as absurdas retum- 
kancias da musa de Belmontet do que a critica tu- 
desco, espionando, do talude de seus panegyricos, o 
momento da desforra de lena, Wagrarn, Eylau. 
Austcrlitz. É iam conhecida e caTactem^^ ^ <ws^- 



42 O QRAZIL MENTAL 



cie mórbida que os írancezes, aquelle povo que mais 
sofíre da enfermidade, lhe puzeram nome differen- 
cial. Chamam-lhe chauvinisme. 

Entre nós, ao tempo do apparecimento da Pá- 
tria, declararam-se seus symptomas da doença nps 
commentarios, mais ou menos sinceros, aos versos 
do grande poeta e á ampla e percuciente annotaçâo 
terminal, em prosa, que os acompanha. D'esses com- 
mentos malévolos, é curioso que os vamos reencon- 
trar, a alguns milhares de legoas de distancia, nas 
apreciações da critica brazileira. 

Um d'elles, por seu tanto repetido e porque para 
o Brazil revista sentido especial, dada homologia de 
frisadas circumstancias, um d'elles merece que, de 
passagem, o levantemos. É o que se referia ao juizo 
feito acerca do nosso exercito, que, consumindo enor- 
memente, o escriptor assegura pouco valer. 

O exercito nào c o senhor-papa, que é infallivel, 
segundo o concilio do Vaticano. Nem o senhor-rei, 
que é sagrado, segundo a letra do anterior artigo tan- 
tos da Carta. E, se o exercito portuguez se esgota em 
paradas e em procissões, de quem é a culpa? Se elle 
contempla inerte a derrocada da pátria, deveremos 
entoar-lhe hosannas? Se a espada mais lhe parece 
roca á cinta, diremos que ella flammeja ao sol das 
batalhas? 

Ha quem aos militares portuguezes, nas conver- . 
sacões encobertas, chame os frades modernos, Com- 
para-se-lhes a marmita do rancho ao caldeirão do re- 
feitório. Dizem que estão na ceva, á laia, s$lvo seja, 
de bestas á argola. Que passeiam uma madracice, 
sustentada de custa alheia, a qual seja tanto mais 



O RRAZIL MENTAL 43 



odiosa quanto o contribuinte, qute trabalha para os 
nutrir, vive, elle, nas palhas e dá os tarecos á pe- 
nhora do íisco. 

Isto se diz á socapa. Não exultamos com tal, por 
certo. Mas que muito que ás claras o dissesse Guerra 
Junqueiro?! Elle não faria mais do que ser o verbo, 
individualista e publico, do sentimento collectivo e 
solapado. 

Comtudo, assim se não expressou. Liinitou-se 
a assegurar que, em suas condições actuaes, o exer- 
cito portuguez pouco valia. . 

Que ha, n'esta affirmativa, de menos respeitoso 
para o brio dos nossos officiaes ou para o valor dos 
nossos soldados? Nào c esse o thema de estudos es- 
pecialistas de escriptores fardados, como o tremendo 
volume do coronel Mesquita Carvalho? 

O poeta fundamenta-se, combatendo a insufíi- 
citMite e errónea organisaçâo das nossas forças de 
terra e agua. Elle não ícz outra coisa do que conden- 
sar, sob uma d'essas incisivas formulas syntheticas que 
são um dos traços peculiares do seu poderoso talen- 
to, as observações espalhadas nos artigos e livros dos 
homens de profissão, nas propostas dos deputados 
militares, nos relatórios dos ministros de guerra e 
marinha, que vêm alvitrando, desde que o mundo é 
mundo, a urgente necessidade de necessárias refor- 
mas. Urgência que nunca urgiu e suecessão que ja- 
mais suecedeu, aliaz. 

A mesma campanha, á data, recente, e bem lo- 
grada, em Africa testemunhava, em suas victorias, 
da exactidão d'aquellc asserto do vate, poisque os 
queixumes contra os enganos e desleixa A& \A\\vv\\n&- 



44 O BftAZIL MENTAL 



trácio não cessaram um só momento. Seu dolorido 
ccho ainda hoje vibra entre nós. 

Mas houve recriminação mais grave. Foi a de que 
o poeta aproveitara, para o seu quadro formidável, 
tão somente as desgraças collectivas e os históricos 
desdoiros. A accusação é irrisória, dado o espirito da 
composição mesma, obra de flagellação e de vingan- 
ça. Resulta tam inepta a exigência, como seria a do 
frisamento de calamidades n'uma cantata académica, 
festiva, de congratulações e júbilos. 

A censura sahir-se-hia, sem embargo, proceden- 
te ; ella, em certo modo, seria admissivel, se um aze- 
dume systematico desvairasse o critério do artista, 
não lhe permittindo fazer justiça aos periodos históri- 
cos ou ás personalidades differenciadas que, por sua 
benemerência, merecessem a publica consagração 
posthuma das sympathias. 

Ora, tal não é. E o d'ess'arte não ser infirma a 
capciosa maldade do critico da Revista brasileira. 

Ahi se diz que é com as idéas de Oliveira Mar- 
tins que seja feito todo este livro, Pátria, a no que ha 
n'elle de ideas ». E não se attende a que a obra his- 
tórica de Oliveira Martins concernente a Portugal é 
decisivamente negativa, o que a destaca profunda- 
mente do poema de Guerra Junqueiro. Quanto â com- 
prehensão pessimista de certos periodos da historia 
portugueza; quanto ao juizo moral acerca de deter- 
minadas individualidades, evolutivamente marcantes; 
quanto ao desenho de umas tantas figuras — a quem 
pertence a patente? Vivo, Oliveira Martins poderia 
reclamar privilegio de invenção? 

Considerar o dominio portuguez na índia como 



O BRAZIL MENTAL 45 



um mixto de fanatismo e pirataria — é propriedade, 
porventura, de Oliveira Martins, na sua Historia de 
Portugal, ou fora já de Lopes de Mendonça, nos 
Apontamentos exarados nos Annaes da Academia, 
«secção de bellas-lettras » ? Debuxar a alienação de 
Aflbnso vi não foi, de certo, phantasiar, para Oliveira 
Martins. Ou teria elle o monopólio da leitura da Ca- 
tastrophe, da Anti-catastrophe, de South well, de 
dWblancourt? Pelo contrario; as reminiscências de 
aproveitadas leitur&s não conduziriam Oliveira Mar- 
tins, até, ao litteralismo das meras reproducções das 
copias? O seu — aliaz esplendidamente bosquejado — 
painel da casa dos Marialvas, por exemplo, nada de- 
verá a Beckibrd? 

Parece que sim. Oliveira Martins, no decalque 
sobre informes coevos, termina por esborratar o ini- 
cial desenho de transporte. A sua descripção do au- 
to-de-fé em tempo de D. João iu baseou-se n'uma 
lista, archivada no Summario do dr. Ribeiro Guima- 
rães. Que distancia, porém, da ingenuidade barbara 
da folha de barbante á amplificação culta do oitavo 
de livraria! A isenção, pois, de Guerra Junqueiro du- 
plamente se inscreve, e a sua ideação de artista não 
lhe preceitua que se exima de basear-se n'um texto 
positivo. 

É de um compendiador moderno? É, directa- 
mente, das fontes (como cabalmente o provaria a 
sciencia da velha linguagem, revelada nas estancias 
do Condestabre, as quaes o critico da Revista Bra- 
zileira, incritica, se bem que justamente, admira)? 

Pouco importaria, para este aspecto da questão. 

Aqui, ao asserto inicial supra, releva re.çuxal-o 
com Mustração adequada. 



46 O BRAZIL MENTAL 



Ora, todos sabem que, no tempo, correu a im- 
prensa lusitana, em transcripçòes enthusiasticas, uma 
pagina idónea. 

E a do admirável desenho, tam commovente, 
no seu sabor, acre e são, de campestre idyllio, do 
primitivo Portugal burgonhez, arando e lavrando : re- 
tinem, como pomposos clarins d'uma guerra em festa, 
as estrophes recuperativas, em que o pendão lusitano 
se desenrola á face dos astros do céo, dos povos da 
terra e das ondas do mar. 

Se o juízo dos instantes collectivos pôde reves- 
tir estes caracteres de apotheose, a apreciação das 
individualidades não obedece a um plano incon- 
gruente de methodico acinte. Sabe-se a que luz, 
ineffavel, são considerados o Condestabre, Camões, o 
rei D. Pedro v, cuja evocação torna pallida a per- 
feição virgiliana do rememoramento de Marcello. 

Ha, todavia, que descobrir a razão, intima, pro- 
funda, essencial, que constitue a structura racioci- 
nante da obra e que nulla parece, sem embargo, â 
perspicácia de certos aristarchos, qual o da Revista 
Brazileira, aliaz propositadamente miúdos e adredc 
meticulosos. 

É que o mysticismo humano do poeta se affirma 
pela combatividade. Sua religiosidade, immensa, resol- 
ve-se no lemma superior da justiça, immanente ou 
transcendente, mas sempre fatal- e irremediável. Por 
seu fiel impeccando, elle confere as passadas glorias, 
que, frequentemente, com razão, se lhe antolham 
infâmias e vergonhas, de salteador e de assassino, do 
pirata e de bandoleiro. 

Conhecem o trecho Expiação dos «Chàtiments»? 
É o caso. 



O BRAZIL MENTAL 47 



Como Napoleão Bonaparte, pela sua felonia de 
18 brumário, aqui um povo inteiro soffre, na serie 
das gerações, as consequências dos seus crimes an- 
cestraes, perpetrados á hora cruel e inexpiavel do 
triumpho. 

É istp erro de critica histórica? Injustiça para 
as camadas anteriores? Iniquidade retroactiva? 

Affirmal-o, já não seria caso de íacciosismo ; mas 
sim repto de ignorância. Só quem não conhece os 
protestos, arrancados das almas nobres e puras, no 
mesmo paroxysmo da tyrannia e do aleiye, é que 
pôde suppôr interpretações novas, no sentido de fa- 
ctos, vistos e reduzidos já, de largo tempo, á disci- 
plina de um critério orientador. 

Quer-se a, inconscientemente lutulenta, narrativa 
das ominosas façanhas, sobre que assente ulterior. 
ponderado juizo? É folhear, em sua rude siinpleza, 
as laudas ensinativas das Lendas da índia, de Gaspar 
Corrêa, publicadas, em nossos dias, pelo acurado aca- 
demismo do snr. Felner. 

Deseja-se, no ponto-de-vista do interesse portu- 
•guez, a critica systematica dos desaforos e dos atten- 
tados? Pois ignora-se o pamphleto coevo do Soldado. 
praticOy de Diogo do Couto, estampado por António 
Caetano do Amaral ? Nâo se leram essas interessan- 
tes Memorias d'um soldado da índia, — Rodrigues da 
Silveira — , as quaes, d'um manuscripto da biblio- 
theca londrina, o erudito par do reino Costa Lobo 
extractou para edição da casa Bertrand? 

l)eve-se, porém, moralistamente subir. E, assim, 
ucabaremos pelo Primor e honra da vida soldadesca 
no Estado da índia. Prefacia esta obra um sacerdo- 



48 O BRAZIL MENTAL 



te, António Freyre; ella é, em certa maneira feliz- 
mente, rara. Poucos serão, pois, os portuguezes com 
espirito de justiça aos quaes, de sua lição, assome o 
rubor aos rostos, por seus antepassados. 

Como se ha-de, n'estes termos, qualificar, pois, de 
falsa a synthese poética de Guerra Junqueiro ? Como 
incriminar de abusivo o panorama odioso de que de- 
riva a punição inflingida pelo seu juizo ethico? 

Então, toda a faina histórica de Rebello da Sil- 
va, por exemplo, deve ser refugada como apocrypha ? 
Isto para nem íallar de estrangeiros. Isto para nem 
fazer citações senão de corpos orgânicos de doutrina 
seguida, comprehendendo vasto espaço e alcançan- 
do largo tempo, simultaneamente analyticos e rese- 
nhando os superiores contornos. 

Esta é, mesmo (a concórdia, quasi sempre exa- 
cta, da ideação esthetica com a flagrância histórica) 
uma das perfeições mais maravilhosas, d'essa obra- 
prima, de génio e sciencia, de inspiração e erudição, 
com que Guerra Junqueiro (a não ser por elle ou 
por seu egual, ainda não apparecido) honrou inul- 
trapassavelmente a litteratura poética portugueza 
contemporânea. 

O vencimento das difficuldades, n'este aspecto da 
elaboração psychica da obra, eis completa coisa. É 
ella, por assim dizer, rythmica, n'essa tremenda e 
magistral galeria dos monarchas da quarta dynastia. 
A culminância do talento fulmina — nas perspectivas 
de relance, nos desenhos a quatro traços, como quan- 
do do retrato de D. José. 

Disse-se, todavia, que não era natural e próprio 
o conceito da subjectividade, moralista e critica, de 
iXunalvares. 



O BRAZ1L MENTAL 49 



Sem embargo, a execução impoz-se. 

Aqui, a violência do talento ditou silencio. Ou, ás 
foóccas malignas, as obrigou (dobrando-as, torcendo-as) 
aos rictus elogiativos. Houve, portanto, unanimidade 
na admiração d'aquelles tercettos, cuja linguagem, 
acrysolada pelo sensório esthetico do artista, decorre, 
opulenta e simples, dos jorros, vivos e translúcidos, 
que brotam de Ruy de Pina, Eannes de Azurara, Gar- 
cia de Rezende e, por todos os motivos primacialmen- 
te, d'esse sublime Fernão Lopes, cheirando á terra 
frosca das Renascenças espontâneas. 

F ) elo que toca, porém, ao espirito da composição, 
divcrgiu-se, conforme o começamos por notar, alle- 
gando-se falsidade de caracter e anachronismo de 
exemplo. 

Todavia, ha que distinguir. O Nunalvares do poe- 
ma já não é bem estrictamente o Nunalvares de Al- 
jubarrota e dos Atoleiros; muitissimo menos é, então, 
o feudal interesseiro, em conflicto com as revindica- 
çOes le e regalistas de João das Regras. O poeta toma-q 
polo aspecto mysticamente desprendido e puro, que 
concerta a trama occulta do seu enredamento subje- 
ctivo. Na demanda moralista da composição, considera 
estável e permanente a modalidade especifica que, para 
o padre ultramontano Conceição Vieira, constituiu o 
que elle substanciou, chamando-lhe, no seu medíocre 
opúsculo, em que só o titulo vale, a phase christan 
do grande Condestavel D. Nuno Alvares Pereira. 

Assim o apresentou Guerra Junqueiro. Deu-lhe 
d transcendência límpida dos santos militantes. O 
Condestabre d'ess'arte concebido equivale para Por- 
tugal a Jeanne d'Arr. 



50 O BRAZIL MBNTAL 



E, em conformidade, fica rigorosa a lógica do 
poeta. Até com exacçào extreme. 

Todas as avançadas objecções nâo colhem, pois. 
Nâo as acompanhamos. D'ellas nào é nossa a cura. 

Ao contrario. Quanto dissentimos! 

Pois, dentro do critério estabelecido, é aquelle, a 
nosso parecer, precisamente um dos momentos mais 
psychologicamente profundos d'esse collar de inéditos 
e incomprehendidos assombros. 

O remorso de Nunalvares, pela sua falta, mercê 
da derogação ao casto juramento, é lição que nâo 
descura quem aprendeu nas monographias especiaes, 
como a apapoulada de Domingos Teixeira. Encon- 
tra-a quem procurou subsídios nas relações monás- 
ticas, k qual a da provincia do Carmo, que é a que 
vem ao lance. Com ella topa aquelle que remontou 
ao modelar informe da chronica, no Porto, em 1848, 
reeditada. 

E a supersticiosa ideia, que anda ligada a. esse 
remorso, nasce e cobra alento e vida das entranhas 
da ideação religiosa portugueza. Tanto assim é que se 
fixou n'ura proloquio popular, que ainda hoje se 
conserva na tradição oral: 

Filho da p 

Livra a mãe da culpa. 

É certo que a licença dos costumes acabou por 
desviar o anexim do seu sentido primitivo, attribuin- 
do-lhe outro diverso : o da parecença flagrante do fi- 
lho d'amôr com o pae, legalmente incógnito. 

Resumindo: — os que deixamos apontados, e, na 



T fr-7 



O BRAZIL MENTAL 51 



medida de nossas forças, rebatidos, foram os reparos 
principaes — dos dignos de replica — que a obra de 
Guerra Junqueiro provocou á cólera dos seus dene- 
gridores. 

Dois se produziram ainda: ambos referentes já á 
expressão litteraria, á realisaçâo verbal, mesma, do 
poema. 

O primeiro incide sobre reprehendidas audácias 
de linguagem, como quando de D. Pedro n, de 1). 
Joào v e de D. João vi. 

Propositadas, integram na definição exacta e ri- 
gorosa do personagem, cujo caracter cumpria pôr em 
relevo. Estáo perfeitamente bem, porque sào ellas que 
dáo o traço fundamental da physionomia especifica e 
própria. 

De resto, nâo se procura em Juvenal o estylo 
edulcorado de Tibullo; e, quando Victor Hugo entrou 
na caverna, máxima á sua amplificação de vidente, 
elle arregaçou a manga, 

. . . ainsi qiCun belluaire. 

Também accusaram o poeta do que entre nós 
se chama, nâo se sabe bem por que, nephelibatismo. 

É o grande cavallo-de-batalha do critico da Re- 
vista Brazileira. «Portugal, decadente, symbolisado 
no Doido, fala, como convinha, diz elle, em versos de- 
cadistas.» Addita: «É talvez o único achado, na or- 
dem das idéas, que se pôde descobrir no livro, e nâo 
sei si (ainda outra vez; este */ é, como já se viu, 
reixa velha e birra antiga brazileira) sv yvkvsl K\m 



52 O BRAZIL MENTAL 



ironia á joven escola nephelibata portugueza para a 
qual aliás entrou o Sr. G. J.» 

A chalaça é chocha. O critico nào soube enxergar 
além da epiderme. 

Nào quiz vêr ( ou não viu, na verdade ) o nítido 
senso artistico com que o abrupto corte, as repeti- 
ções, as assonancias e as dissonâncias, os paronymos, 
todos os 'recursos da rima e da alliteracão foram bus- 
cados e usados, no objectivo da confrangente ondu- 
lancia de uma mente enferma. 

Por que outra forma se poderia exprimir assim, 
na verdade extreme da natureza, viva e sangrando, 
uma consciencisação typicamente contradictoria e he- 
sitante ? 

O propósito denegridôr do critico fluminense gal- 
ga, porém, por de sobre as mais grosseiras contra- 
dições. 

Assim, repudiando symbolismos de concepção e 
decadismos de expressão, abandona-se a theorias e 
esboça conjecturas. Sabiamente nos informa d'estas 
novidades: que «o symbolismo — reunindo sob este 
nome toda a nova poética — ainda não produziu um 
verdadeiro mestre, ainda não achou como o roman- 
tismo o seu Hugo ou o seu Lamartine, ou como o 
parnasianismo o seu Leconte de Lisle, o seu Pru- 
domme (sic) ou o seu Coppée.» Explica, de segui- 
da, como a influencia de Verlaine não foi bastante 
grande para assentar a nova esthetica (?). E sahe-se 
depois a confessar que «a versificação da nova es- 
cola toma nelle (G. J.) feições de verdadeira belleza 
e graça e força, fazendo prever que novas formas 
métricas virão renovar a poesia, e portanto (!) o pen- 



O BRAZIL MENTAL 53 



samento poético.» Cita, com elogio, adiante, o longo 
monologo da scena xxiv do Doido e, logo logo, con- 
densa o seu pensamento, concluindo que o livro de 
Guerra Junqueiro é uma obra-d'-arte gorada. Fabu- 
loso engenho! 

Deixemol-o, por agora, no cahos de suas antino- 
mias irresoluveis. E voltemos considerando impro- 
cedentes suas objecções, das respondiveis, ao poema 
de Guerra Junqueiro por elle formuladas. 

Resta-nos a segunda parte da tarefa: mostrar 
ao critico da Revista Brazileira que A Pátria não é 
só uma obra d' arte que, apezar de «gorada», tolera, 
como que por favor, que, de quando em vez, ao fio 
de suas paginas «relampeje ainda o talento do auctor 
da Morte de D. João e da Musa em ferias.» Diga- 
mos-lhe o que, ao contrario, nos pareça ser e re- 
presentar essa composição extraordinária: qual resulte 
o seu valor litterario e histórico, definindo-lhe, tanto 
quanto possivel, a dupla importância, moral e social. 

Como se sabe, escripto no typo das peças de thea- 
tro, o poema de Guerra Junqueiro scinde-se em dois 
modelos antitheticos, perfeitamente caracterisados. 

A primeira parte é uma comedia, dramática na 
subjacencia profunda da intenção satyrisante; a se- 
gunda, uma tragedia integral. 

Comedia do caracter.es, é do melhor Moliòre; tra- 
gedia psychologica, pairamos nas regiões transcen- 
dentemente devastadas pelo terror, como nas paginas 
formidolosas de Shakspeare. 

Cumpre, n'este lance, admirar a magistral exe- 
cução do artista, que não deroga um só ápice na lin- 
guagem posta na bôcca dos vários interlocutor 



54 O BRAZIL MENTAL 



O tom dominante em todos elles é o do egoísmo 
cynico; mas a qualidade divergente de cada umim- 
prime-lhe, em subtis matizes, caracter próprio e phy- 
sionomia particular, de modo a tornal-os diversos, na 
unidade fundamental. Assim, são creaturas vivas e 
nào variedades d'um modelo único, preconcebido. 

Por exemplo: Magnus, stereotypaòão do falso 
beaterio, é completo na persistência da banalidade 
pomposa dos conceitos, concretisados em forma ade- 
quada. Nào pôde haver maior maravilha, na plasti- 
cidade esthetica d'uin artista, do que esta de impor 
destaque á mediocridade, conservando-a, todavia, in- 
ferior, sem degenerar, comtudo, em rasteira. 

Eis o que não soube perceber o critico da Re- 
vista Brazileira. Vê-se que é uma natureza pouco 
susceptível de sentir artisticamente. 

Prova-o a ingenuidade com que elle lança em 
•rosto ao poeta a banalidade d'estes versos: 

Mas cá dentro, no foro interno, a sós comigo 
Eu, o particular e o philosopho, digo-o. 

Chasqueia da rima, que, ricanando, qualifica de 
preciosa. Mas isto é, mesmo, o menos. Ò conceito é cor- 
riqueiro e a expressão chata ? Precisamente ; era o que 
se pretendia. Poisque não seja o poeta quem discorre, 
mas antes determinado personagem, cujas falias, a não 
serem assim, seriam falsas. Já reparou o critico que 
Alcestes não conversa como Sganarello ? Não reparou. 
Se reparasse, não diria, com entono risivel, que, da 
Pátria^ seria « pueril falar do verso . . . , por isso que 
intencionalmente, parece, o Sr. G. J. íêl-o errado e 



O BRAZIL MENTAL 55 



ruim.» Haveria comprehendido. E, em vez de ralhar, 
approvaria. 

Como na parte trágica, outrosim bateria as pal- 
mas. Poisque, na parte trágica, idêntica conformidade 
se observa. Mas, ahi, por mais intima, e, consequen- 
temente, menos apercebivel, convém frisar algumas 
das espantosas intuições do poeta. 

Seguindo com attento reparo a evolução da obra, 
veriíica-se que, no desfile espectral dos monarchas, o 
«Doido» desvaira mais intensamente em dois momen- 
tos decisivos. Quando do apparecimento de D. João iv 
« logo que na insânia do seu desespero se debate 
D. Maria i. 

Calcula-se o motivo e explica-se a razão. Ra- 
zão e motivo residem no especial systema mesmo 
de philosophia da historia portugueza que orienta o 
auctor. 

Em tal critério, c, na verdade, com D. João iv 
que se determina a crise da mentalidade nacional. 
Ensina-se que é ahi que se parte a homogeneidade da 
tradição collectiva. 

Com effeito, o Portugal restaurado emerge, da 
cabala diplomática de Richelieu (que aproveita e fo- 
menta a incompatibilidade consuetudinária), emerge, 
diziamos, com os desastrosos laivos de depravação, 
regularisada a que, herdando-a mas systematisan- 
do-a, o ensino jesuitico (congénere, de resto) sujei- 
tou, afeiçoando-a, a nacionalidade. 

O systema é mais concordante e a doutrina hie- 
rarchisa-se com lógica maior. 

rSTella, o Portugal restaurado c coisa nova e po- 
dre, que, envenenado, protesta, à sua mauevva, evm- 



56 O BRAZIL MENTAL 



tra o restante do influxo da dynastia de Borgonha, 
agrícola e interior (suppondo que o quizesse sempre 
ser), e contra o dos vários ramos da gente de Aviz, 
guerreira e expansiva. 

Podem produzir-se objecções perante o critério 
histórico que orienta o artista; e deve procurar-se um 
processo filiativo, menos interrompido por abruptos 
cortes, antes mais successivo na derivação dos acon- 
tecimentos e no desfiar das personalidades succeda- 
neas. O conceito da continuidade é a característica 
das philosophias supremas. 

Mas o que se não pôde é contestar a bella e 
exacta correlatividade entre a concepção philosophica 
da obra e a sua exteriorisação plástica. Eis um dos 
traços que garantem a este livro a legitimidade dos 
seus títulos á admiração da critica. 

Outro lance, como dissemos, onde incisiva- 
mente se accentua o desequilíbrio da figura synthe- 
tica que representa a pátria, é o do encontro com a 
pobre cfeatura que parecia destinada á funcção ter- 
minal, para a casa de Áustria, em Hespanha, per- 
tinente a Carlos n, o Enfeitiçado. 

Se, no primeiro instante, o motivo é de ordem 
histórica e social, aqui elle reporta-se da mesma sub- 
jectividade, peculiar da psychiatria. 

A loucura é contagiosa, conforme se observa nos 
manicomios, onde os internados propagam o seu mal 
a enfermeiros e serventes, que fornecem crescente 
porcentagem á população hospitalar. É até pelo con- 
tagio da loucura que certos alienistas philosophqs. 
consoante ainda ha pouco o dr. Bombarda entre nós, 
explicam o proselytismo de determinados fanáticos. 



O BRAZIL MENTAL 57 



fundadores de religiões, como Mahomet, e a fascina- 
ção hypnotica de desalmados homicidas guerreiros, 
como Bonaparte. 

Ficava reservada, é claro, a intuição que se for- 
masse acerca de Mahomet e a propósito de Bonapar- 
te. E nào se contara ainda a anecdota, conhecida, de 
Balzac. Não por conhecida, mas por indiscreta. O 
lance nào quadraria a inconveniências, com ef feito. 

Foi Balzac assistir a uma festa n'um hospicio; 
houve representação e dançou-se; á sahida, o mais 
doido de todos (haviam pedido a Balzac que o indi- 
casse, após suas palestras com os internados, por aqui 
e por alli, subrepticiamente dissimulando o artificio), 
o mais doido de todos encontrou-se que era o medico 

assistente. 

« 

Como se queira. Mas agora attenda-se só ao in- 
contestável. 

É que, posto isso — vem a ser a contagiosidade 
da loucura — , já se entende a exacerbação alludida. 
Produz-se no conílicto e ao conspecto de idêntica 
desgraça. O poeta conformou-se, pois, com os dados da 
experiência; elle encontrou, depois, na formula das 
adivinhas e dos enigmas populares o sabor indígena, 
que lhe faculta os toques da mais pittoresca realida- 
de, natural e ainda social. 

Outra perfeição de execução que tem sido des- 
conhecida reside na inconsciente indiíFerenea com 
que os monarchas perpassam pelo «Doido», sem da- 
rem fé d'elle, sem o verem, sem o ouvirem. 

Eis um modo symbolico de representar o des- 
interesse dos detentores do supremo poder pela massa 
governada. Mostra-se assim a separação moral dos 



58 O 3RAZIL MENTAL 



dois elementos; a repulsa instinctiva dos elos d'uma 
humana cadeia que antipathisassem entre si e que, 
na subordinação mórbida d' um d'elles, acabassem por 
se desconhecer, tão differentes e antinomicos que, 
conjugados, reciprocamente se esquecessem. 

Um único dos espectros evocados oiive ; um único 
vê. É D. Affbnso vi, por uma lógica homologa da que 
se reflecte no caso de D. Maria i. Doido também, a 
lucidez visionaria adverte-o ; e o erro pessoal indul-o 
a suppor causal análoga de idêntico infortúnio. 

Sc no pormenor o poema de Guerra Junqueiro 
exhibe similhantes soberbos dotes structuraes, no seu 
conjuncto é, então, um doestes livros que marcam 
epocha no desenvolvimento litterario d'um povo. 

Coisa fácil parece o desdenhosamente decretar a 
nuliidade intrínseca do symbolo que se não soube 
comprehender. Assim procede o pedantismo, do critico 
da Revista Braz/le/ra. Somente, a sua conducta é tam 
absurda como seria a d'aquelle escholar que, não lo- 
grando resolver a equação mais ostensivamente offe- 
recendo-se, se descartasse a sahir de difficuldades 
(as quaés só em seu acanhamento existiam aliaz) com 
asseverar peremptoriamente que a incógnita não ti- 
nha valor nenhum. 

E, se se aventa o reparo, cem vezes formulado, 
do mal que habita na necessidade de commentos 
explicativos ás ideações poéticas, redarguiremos prom- 
ptamente que não existe obra esthetica, do typo su- 
perior, que não demande interpretação critica. Os es- 
cholios sobre os textos do Dante, ao tempo em que 
nephelibatismo e outros barbar ismos congéneres es- 



O BRAZIL MENTAL 59 



tavam ainda na massa dos impossíveis, amontoaram-se, 
agglomeraram. agglutinaram. 

Assim, ao volume analysado, guardemos-lhe a 
determinação do seu sentido especial o da sua signifi- 
cação esthetica. Circumscrevamo-nos, ainda, por ago- 
ra, ao exame da sua effectivação. Registraremos que 
não existe em litteratura alguma parallelo que se lhe 
compare, quanto menos que se lhe avantaje. 

Bem calculamos que esta affirmação vai fazer 
levantar os grandes gritos d'aquelles que só a fora 
de fronteiras começam a ter respeito pelos fructos 
da elaboração mental. 

O Brazil (mas só litterariamente ) é como Por- 
tugal. l)espreza-se. 

Politica e socialmente, porém, esta muito acima, 
no conceito que de si próprio forma, á velha Lusitâ- 
nia. Emquanto, se perguntarem a um portuguez qual 
é o ultimo paiz da Europa, elle responderá, abjecta 
e promptamente, que é Portugal; — se inquirirem um 
brazileiro sobre qual seja o primeiro paiz do mundo, 
elle retorquirá, fanfarrona e immediatamente, que é 
o Brazil. Esta diversidade de replica é capital. Ella 
implica todo um mundo, diferenciado, de compre- 
hensão. 

Mas, litterariamente, estão na mesma. Portugal 
e o Brazil não possuem confiança n'ellcs-mesmos. Os 
nomes exóticos deslumbram-os. Os appellidos nacio- 
naes envcrgonham-os. Não concebem que um grande 
general se possa chamar Fagundes ou que um poeta 
sublime dè pelo nome terrestre de Agapito. l)'ahi, o 
olhar suspeitoso que enviezam ás suas glorias. 

E, todavia, é certo. Quem o diria? Gonçalves Dias 



60 O BRAZ1L MENTAL 



é um notável artista e Guerra Junqueiro é um gran- 
de poeja. 

O seu poema satyrico .-I Pátria é, até, único no 
inundo. Cora effeito, as composições satyricas em ver- 
so, ainda as superiores, como as de Juvenal, são mes- 
quinhas na sua comprehensividade. E porque o sáo? 
Porque ou abarcam momentos históricos limitados 
ou vibram os seus golpes, tão só, ao reduzido corpo 
de personalidades odiosas mas destacadas, e por isso 
acanhadamente symbolisantes, senão de todo irre- 
presentativas. 

Depois, tarefa de racioeinio, a sua valia moral, 
exalçada, não rebrilha pelos engenhos da imaginação. 
São invectivas rythmieas; artigos de fundo em oi- 
tava rima: iibellos em alexandrinos. Falta-lhes a côr 
dos quadros e o interesse do movimento. 

Não refogem da pecha os modelos celebres do 
género: aquellas composições cujo effeito social foi, 
mesmo, fulminante, como a Satyra Menippea. Que 
dizer então dos encommendados factunis, quaes os 
que a virulenta musa, apodada por mercenária, de 
La Grange-Chancel desembestava contra o regente? 

Corno aqui, pôde, mesmo, degradar-se o género 
até á mecânica profissional, consoante quando os im- 
provisadores Barthélemy e Méry crearam a Xéme- 
híh 9 pamphletos semanaes, verdadeira gazeta contada 
pelos dedos, injurias aos fasciculos e apotheoses. me- 
didas de outiva. 

Bem sabemos que é facílimo ao asserto oppôr os 
Chàti tnents de Hugo. Olha se o critico da Revista 
Braz/leira podia perder esta. Lá está, garrida, pim- 
pante e fresca, que parece novinha do trinque. « Pa- 



O BRAZIL MENTAL 61 



iria é, em summa, elle o diz, um pamphleto politico 
em verso, sem nada aliaz que se compare nímota- 
mente « siquor » aos Chàtiments, que ficarão na poe- 
sia franceza como um dos seus menos contestáveis 
monumentos.» 

Todavia, considere-se bem o lapidar diploma, de 
pura inveja referido, ainda assim como um dos me- 
nos contestáveis (tal qual) monumentos da poesia 
franceza. Vêr-se-ha que nos Chàtiments o defeito apon- 
tado se encontra logo no próprio caracter fragmentá- 
rio da obra. E os trechos desconnexos completam a 
demonstração do restricto âmbito do trabalho, con- 
finado (em desenvolvimento restricto mas integro e 
perfeito ) a uma catastrophe intercurrente e episódica. 
Isto foi o golpe-dé-estado de 51, com a baça physiono- 
mia do segundo Napoleão. 

Ao reparo, o corroboram, depois, exactamente 
aquellas peças, pouco numerosas, como Saint-Arnaud, 
Pauline Roland, que inspira, de preferencia á lyrica, 
a musa épica, clamorosamente narrativa. 

Mas agora tracta-se, nada menos, do que de todo 
um povo, na sua evolução histórica, desde os primór- 
dios ; e o vasto horisonte é incendiado pelos fulgores 
d'uma imaginação prodigiosa. 

Nas nossas lettras, e na nossa historia, a Pátria é 
como que os Lusiadas da decadência. Km amplitude 
de ideação, não exaggeraromos se dissermos não de- 
pararmos senão com raros exemplos similares ; todos 
estes dos de primeira categoria. Haveremos de ir bus- 
cal-os a Milton, a Klopstock, aos grandes inventivos e 
aos grandes meditativos. Aos que são pensadores e 
scenographos; aos que organisam ideias fc &% tiT^Aa.- 



1 -" -T 



62 O BRAZIL MENTAL 



nam na forma extrínseca das imagens. Aos que pos- 
suem o dom de significar as crises interiores pelo 
prestigio da vestidura das representações concretas, 
e criam entrechos para desvendarem a alma. 

Se os exemplos similares são raros, raríssimos 
refrangem os superiores. Não sabemos, pelo instante, 
mais do que dos dois primeiros actos da Divina Co- 
media. 

r 

E claro que deixamos immenso por expor. Mesmo 
por que o sitio nào é o mais idóneo ; e o thema houve 
de se intercalar, como exemplo typico da animadver- 
sào invencivel do Joven-Brazil para com Portugal 
e portuguezes. Mas ha, de resto, outro motivo — ge- 
nérico esse — a fim que tal succeda. 

Com effeito, infinidade de ideias e imagens se 
perdem na ephemera viagem das frágeis túnicas do 
cérebro para os ásperos bicos da penna. Por isso, o 
mais interessante da obra do escriptor é o que elle 
nâo logra escrever. 

Succede como na illusionante embriaguez pelo 
absyntho. D'esse paraiso artificial morreu Musset; do 
do ópio, Quincey; do do haschich, Baudelaire. 

Uma surprehendente lucidez interior é punida 
pela impossibilidade de exteriorisar, verbal ou gra- 
phicamente, o mundo de suggestões e de explicações 
que bailam na subjectividade e que, como cântico pér- 
fido de seductora sirena, rebocam o seduzido para o 
redomoinho. 

Todavia, concatenando, sempre conseguiremos ex- 
planar, de golpe, o alcance, histórico e social, do poema 
de Guerra Junqueiro. Elle fica determinado quando se 
apure, atra vez das paixões do momento, que este livro 



O BRAZIL MENTAL 63 



affirmou (mercê das características intrínsecas, cor- 
roboradas pelo effeito exterior, correspondente, do seu 
êxito de venda ) um momento culminante. Este foi o 
acurae do progressivo — ainda que moroso — processo 
de desaggregaçâo da alma collectiva, desprenden- 
do-se dos sentimentos tradiccionaes e abandonando, 
emfim, as suas velhas crenças, na troca por outras 
novas, mais retributivas e salutares. 

A acçào da obra sobre a consciência publica mos- 
trou-se, assim, das maj,s vastas e profundas; o seu 
influxo ethico, a sua permanência orientadora distin- 
guir-se-ha, a todo o tempo, como um dos phenome- 
nos críticos mais notáveis da nossa cultura hodierna. 
Senão, mesmo, o mais notável, pois que, na ordem 
espiritual, como generalidade e comprehensividade de 
acção, nada existe que lhe seja assemelhavel. Com 
effeito, só no domínio dos factos concretos qualquer 
coisa se lhe possa additar, no mesmo sentido de con- 
vergência e com análoga flagrância de resultados suc- 
cessivos. É o movimento de 31 de Janeiro de 1891. 
Os livros modernos participam, um pouco, das 
qualidades e defeitos dos jornaes. Consoante elles, suas 
linhas teem de ser, mais ou menos, apressadamente 
improvisadas, na lufa-lufa typographica, que não to- 
lera nem a momentânea paragem das revisões e 
emendas. Ao contrario. Nào relida sequer, inexora- 
velmente o snr. director da officina demanda a tira, 
mal acabada de escrever, para logo a projectar ás 
fauces, cebentas de dedadas de tinta, do minotauro 
dos caixotins. Na íuria da faina, os pontos culminan- 
tes da ideação, táo só, e mal, é que podem ser indi- 
cados. A mesma inçuietude do leitor, (\vifc &£vgòN*'- 



. .«- 



64 O BRAZIL MENTAL 



riedade de impressões, não permitte delongas de de- 
monstração. 

Assim, restringiremos. Somente, é timbre repe- 
tir que aquelles dois factores revolucionários foram 
capitães, e decisivos, qualquer que seja a apparente 
contradicçâo do arraste no tempo. A demora na effe- 
etivação dos seus implicitos corollarios não destroe o 
conceito formulado. Cotejando-os, até. na sua reci- 
proca completação, não concluimos, mesmo, qual d'el- 
les seja o definitivamente determinante, ambos pro- 
cedentes, é claro, da previa fallencia (politica, finan- 
ceira, económica, moral) do modo social instituído 
e herdado, cujo desfecho — um d"estes dias na catas- 
trophe rematará. 

Quanto ao primeiro dos factores ditos, aconse- 
lhava-nos, com a sua imaginativa perspicácia histó- 
rica, Theophilo Braga que o escolhêssemos para epi- 
logo, lógico e legitimo, da continuação promettida da 
larga chronica de Schsefer. 

Do segundo, pode-se assegurar que elle foi. idea- 
listamente, o golpe-de-misericordia num conjuncto 
institucional, abalado já grandemente pela repetida 
insistência de ataques fundados. Ora. sua morte mo- 
ral tem de preceder a ruina effectiva. eui sua clara 
ostensividade ulterior. 

A superioridade das concepções estheticas sobre 
as realisações criticas abrange o espaço e o tempo. 
Por igual. Do que aquellas são estas mais extensivas, 
poisque mais aecessiveis, e mais duradoiras, visto 
como jogam com elementos permanentes. Aqui. ella 
se assignala outra vez ainda, essa superioridade pre- 
líminar. 



O RRAZIL MENTAL 65 



Com effeito, volvidos annos sobre esta crise tre- 
menda de toda uma nacionalidade; quando a syner- 
p:ia própria dos corpos collectivos houver reparado 
as destruições do tecido connectivo que liga as ma- 
lhas da trama social; quando os órgãos profundos, 
inquinados, se tiverem restabelecido, e uma saúde 
prospera tonificar o alquebrado, velho enfermo: — 
então, na nova esperança, na confiante recuperação 
das forças, ora abatidas, que seja como um raio ger- 
ininante de sol primaveril, entào, quem consultará, 
afora poeirentos eruditos, toda uma farragem de li- 
vros, folhetos e gazetas? E, todavia, essa trapada é que 
homologa os autos da sentença trágica que, no paro- 
xysmo, nos condemna, a todos nós, os d'estas gera- 
ções ultimas, aviltadas pela covardia das condescen- 
dências e consequentes subserviencias perniciosíssi- 
mas. 

Uin só livro bastará no viso de recompor um 
e ydo histórico; elle servirá, em exclusivo, para o 
atendimento d*uma crise que menos ha-de assombrar 
pelo agudo do mal do que pela inverosimil paciência 
^i o soffrerem, interminavelmente. O primor da rea- 
lísação plástica vencerá o tédio, episódico e anecdoti- 
co» de occorrencias já longínquas e apenas estreme- 
cendo no esfuineamento vago das tardas recordações, 
das reminiscências d*uma tradição alterada e inter- 
raittentc. 

Como obra de arte considerado, o poema de 
Uuerra Junqueiro demarca também um instante fun- 
damental na evolução morphologica do intellecto por- 
tuguez. 

A opulência doesta obra nos effeitos cro^A^v^ 



ÕO O BRAZIL MKNTAL 



da imaginação concepcional é, duas vezes, surpre- 
hendente. Quando se coteja com os productos da poe- 
sia contemporânea em todas as gentes cultas; so- 
bretudo, quando se confronta com as lições da litte- 
ratura indígena. Ha alli, com effeito, por exemplo, 
nas rubricas em prosa que intermeiam os versos, 
matéria para as amplificações de innumeros poeme- 
tos. A abundância inextinguível do auctor como se- 
jacta com o desperdício, d' uma prodigalidade sober- 
bamente confiante no incomparável thesouro dos re- 
cursos subjectivos. 

Ora, isto é raro e quasi único na sequencia da 
ideação artística portugueza. 

Só nos nossos recentes dias este phenomeno psy- 
chico — que é dos mais decisivos para o juizo das mo- 
dificações profundas, orgânicas do cérebro lusitano 
(e que tem passado sem conveniente reparo) — é que 
apparece. Eile destaca como a revelação fulgurante 
dum trabalho subjacente de remodelamento e aper- 
feiçoamento, correlação e integração, que nos appro- 
xima e, mesmo, nos fornece iogar extremado na ca- 
tegoria das faculdades peculiares do génio das gran- 
des raças aryas que honram e nobilitam a espécie. 

D'outro exemplo não damos, até. conta, por ago- 
ra, além das maravilhosas rubricas de esse bárbaro 
Anti-Christo* por Gomes Leal. Klle é o produeto. 
mórbido e magnificente, d'uma natureza emotiva- 
mente lyrica. sensível, na subtilidade. até o infinito, 
mas desigual e incoherente. Todavia, a descuidada 
imperfeição technica, o preconcebido de theorias ne- 
gativistas estreitas e o mau-gosto de um atrazado 
romantismo jacobino prejudicam os primitivos dotes. 



^.' ' i : 



O BRAZIL MENTAL ()7 



originalíssimos., de quem poderia ser legitimamente 
o segundo, aliaz pessoal, como sempre eminente. 
Schiller coube bem ao lado de Gu*the; e Lamartine 
ao pé de Hugo. 

Uuanto ao conceito imaginativo, elle nâo se ap- 
prehende em nossa poesia histórica; e a pejorativa 
observação observa-se na velha metrópole como na 
sua colónia de além-Àtlantico. Tanto é certo que a 
America nâo passa d'uin prolongamento da cultura 
<la Europa. 

Assim, a nossa poesia é autolatrica. na expressão 
amorosa, e d*uma millionaria indigência, quer na in- 
venção allegorica, quer na simples correlacionarão 
do drama interior com a pantheisaçào naturalista que 
circumda e commenta. O desbotado friso do thema 
welodico (sempre penas d' amor perdidas) raramente 
tem o relevo trágico, nâo obstante nos surgir logo 
" e começo no rude primor das trovas de Egas Alo- 
,,lz Uoelho, que Garrett traduziu para moderna iin- 
^ U£4 $?em com êxito intermittente. Elle nâo é refor- 
çado pelo contraponto d'uma harmonia orchestral. 
( í u ^ como o coro clássico, o vá interpretando; c<i- 
^ aa <lo com a intencionalidade individual a larga iina- 
hdcide cósmica; interessando o universo, comparticipe 
na clôr humana. 

Por isso, a nossa poesia é quasi exclusivamente 
tf n **mica; os mesmos mysticos. em sua vehemencia. 
(h^Lraiea, também pelo absorvente (exclusivismo rlii 
"ÇUn dos livros sagrados) declamam. Trazem as mãos 
dirias de banalidades ethicas. Entornam apophtcgmus. 
Pingam sentenças. Que soporifero t>po nos não npre- 
sfctUaSá de Miranda?! 



ti 

J 



&< O DBAZ1L MENTAL 



guando, porém, nossa sêcca poesia se abalança ás 
objectividades descriptivas, é fria, inerte. Nâo sente 
a alma das coisas. Redunda em imitação culteranis- 
ta, de segunda mão, A face de modelares diplomas 
litterarios. Eis o que acontece, exemplarmente, com 
esse insupportavel Costa e Silva. Passando do mais 
ao menos, do alto poisque ao inflmo venhamos, é 
sempre assim. Todos são, por egual, criticamente do- 
cumentares. 

Oliveira Martins, n'um dos seus frequentes ra- 
ptos intuitivos, foi impressionado por esta penúria 
terrível. Explicou o facto pela preeminência, no nosso 
intcllecto, comparado com o do visinho hespanhol, da 
nota épica. Isto não chega a ser uma desculpa de 
mau-pagador, porque a explicação equivale a expor 
a questão por outras palavras. Consiste em apertal-a. 
A habilidade reside no paralogismo de a reduzir. É, 
com eííeito, exhibir-lhe aspecto concreto e especial, 
quando o caso deva ser considerado em toda a ge- 
neralidade. 

Com effeito, em bôa rasão, a mesma referida ten- 
dência épica (a qual não deroga, aliaz, dos moldes 
clássicos do ensino helleno-romano, ainda nos seus 
detalhes) não resulta mais do que o corollario da de- 
leituosa carência, funccional ou structural, cujas ori- 
gens e remédios cumpriria inquirir e prognosticar. 
Kalta-nos a capacidade creadora; não temos imagi- 
nação inventiva; não sabemos engenhocar um enre- 
do. Isto é certo. 

Se, com o máximo respeito, devido a tal colos- 
so, nos reportarmos á lição de Camões, ahi mesmo 
defrontaremos com a lacuna aventada. 



O BRAZIL MENTAL 69 



Não falíamos já da prosaica, tranckons le moi, da 
charra escripturação, por partidas dobradas: livro- 
caixa, razão e canhenhos auxiliares, que, em oitava 
rima, registra o deve e haver das operações, «bem 
combinadas», sobre a pimenta, pelo heroe postas em 
balancete. 

Não repetiremos que é bella a narrativa do des- 
dobramento politico . nacional, com os seus episódios, 
enternecedores ou arrebatadores. Mas, concepcional- 
inentc, no fundo, não transgride as posturas d*um 
chronicão rythmico. 

Suas descripções são naturaes, verdadeiras, rea- 
listas. Comprehende-se e communga-se na admiração 
de Humboldt e de Quinet. Mas não são invenções. Sua 
belleza consiste, precisamente, em serem copias per- 
feitas. Todavia, o vate inventa. 

Somente, quando o vate inventa, cria, põe de sua 
casa, não é bem de sua casa que elle põe. Os leito- 
res da Ody&sea tiraram o chapéu á «Ilha dos Amo- 
res», como a trechos conhecidos fazia esse jornalista 
ínclito (que outra coisa não é fundamentalmente do 
que um jornalista), Voltaire de seu pseudonymo. Con- 
vinha, elle explicava, estar-se dentro das praxes pe- 
culiares aos cavalheiros bem educados, que, polida- 
mente, cortejam as pessoas de suas relações. 

Dt^-se que o simile virgiliano não colha, como 
querem alguns, para o Adamastor, poupado pela inve- 
josidade do padre José Agostinho de Macedo. De pas- 
sagem, esqueceu-se, como é geral costume, que, em 
nominada individuação, o typo conceptual de idea- 
ções congéneres não é pertença de Camões, que o 
encontrou assim integro, prompto e teito wa m^\X\\^i\ 



70 O BRAZIL MENTAL 



hcllenica. Até já com o próprio nome, de que o poeta 
portuguez se apropriou, tâo somente. No typo patro- 
nymico de Damastorides, filho á laia do nosso Fer- 
nandes, appareco-nos já na Ilíada (canto xvi). No 
mesmo modulo o reencontramos no livro xra das 
posthomericas de Quinto, de Smyrna, — prostrado por 
Agamemnon. Mas o schema inicial e derivante* for- 
nece-o Claudiano. em sua Gigantomachia. Alli nos 
surge, ad depellendos hostes, á cata dum dardo, o 
xwvus Damastor. No seu estopante poema, "o pilado 
emulo Manuel de Galhegos, para desenhar o parti- 
cularismo do cyclopico personagem — reporta-se a Ca- 
mões, de preferencia á lição de Claudiano, que asiza- 
damente declara reconhecer, aliaz, como originaria. 

Em fim, do aggregado ovular attingimos o limite 
evolutivo que marca a physionomia e fixa o vocá- 
bulo. 

É em Sidónio Apollinario, que em seu carme xv 
narra a peleja que Claudiano esboçara já. Ora. ahi 
nos surge a palavra no decisivo de sua marcha : Ada- 
mastor. 

Mas não apuremos a geração do conceito que 
nos parecia de nós-mesmos exclusivo e próprio. 

Esqueça-se até que, derivado já o sonho helleni- 
co, o mytho védico nos fornecera antes o modulo ini- 
cial d'estas pelejas dos elementos terrestres contra 
OvS celestes. A escalada dos céus pelos Asuras. no 
Mahâbhârata, é por milhares de combatentes, devas- 
tando florestas. Successivamente, como o observa 
Maury, a allegoria toma um caracter cada vez mais 
real e anthropomorphico. 

Em Camões, a funcçào particular navegante do 



O BRAZIL MENTAL 71 



titáo seria a sua originalidade, oriunda do peculia- 
rismo das viagens portuguezas. Mas, no termo de 
tudo, ao fim e ao cabo, a funcçào especifica da freima 
navegadora ainda haveria que apartal-a também na 
congénere mythica dos gigantes indus. Ou será caso 
que, de todo,, se haja olvidado, para faina de inves- 
tigações estudiosas, o lance do insonte Faria e Sou- 
sa, na Asm Portuyueza, quando ao Adamastor o filia 
directamente em chimerica figura da desatremaçla 
phantasia orientai? Por que se nào tem buscado a 
confirmação, ou a refutação, do aleive, ou do acerto, 
hoje principalmente que o labor é relativamente fá- 
cil? Agora quando abundam as raccolta de mythos 
e tradições, como esse curiosíssimo apanhado que, de 
cem lendas buddhicas, acaha de fazer Léon Feer, da 
bibliotheca nacional de Paris, para os «Annaes» do 
museu Guimet 

O exemplo, de resto, estava dado, poisque, entre 
nós, tomou a iniciativa d'essa espécie de estudos a 
orudição especial do snr. Vasconcellos Ahreu. Desde 
1880, para commemoração do tricentenário de Ca- 
ínòes, que o douto membro da Sociedade Asiática, 
em seus interessantes fragmentos d'uraa tentativa do 
estudo scoiiastico da epopeia portugueza, analysava, a 
propósito da origem do reino dos Leòes e do nome 
de Ceylão, os vestigios do uma lenda huddhica nos 
a Lusíadas». Seria agora ensejo, pois, de proseguir, 
4 . ainda que tardiamente, no mourejo de forragear 
por entre as sarças da lição de qualquer avadana 
elucidativo. A vèr se algo se descobria. Ou por hi, 
ou pelo matagal brahmanico, ou pelas brenhas in- 
duistas. 



•Tm 



72 O BRAZ1L MENTAL 



■ 



Mas seja o que fôr. Ponto está em que, na poesia, 
como em tudo, a imaginação portugueza foi pobre. 

Por isso, se atirou, como gato a bofes, ao género 
épico. Regalou-se. Porque ahi a tramóia estava feita. 
A machina montada. Era só acolchoar-ljie dentro ti- 
radas versificadas. Como o aprendiz decorador que, 
pintado o contorno no tecto, pelas paredes da salla 
nào tem mais do que encher cegonhas. Uma brocha 
e um pote de tinta — e toca. É um rufo. 

Idêntica abundância, característica de idêntica 
penúria, se observa no Brazil. Tudo alli são poemas 
épicos, no mesmo plano uns dos outros : mutalis mu- 
tandis, trocadas as datas e os nomes dos persona- 
gens, repetindo as mesmas coisas. # 

E o péor está em que a abusão continuou até 
aos nossos dias. Depois de todo o arranque român- 
tico, Gonçalves de Magalhães escreveu ainda a Con- 
federação dos Tamoyos ; em pleno mundo moderno, 
Gonçalves Dias escreveu os Tynibiras. 

São obras vindas depois de tempo, monstros na- 
dos mortos, casos de teratologia litteraria. 

Parece que ainda além-Atlantico se não deu fé 
d'esta verdade elementar. Assim, José de Alencar, na 
serie celebre dos seus folhetins, acacalados contra o 
velho poeta Magalhães, não é por ahi que ataca a ques- 
tão, mas por simples inobservadas observancias de de- 
talhe formal. A sua critica tanto não é concepcional 
que elle-mesmo, toda a vida, afagou a idéa de fazer, 
elle, emfiin, a epopea nacional. O orgulho nativista 
desvairava-o também. 

As epopeas braziieiras são, de resto, ainda mais 
fflcgiveis do que as portuguezas. Não attentando 



O BRAZII, MENTAL 73 



mesmo no thema indianista (que as torna inteira- 
mente alheias ás preoccupaçòes positivas e ás sympa- 
thias, effectivas e duradouras, do homem civilisado), 
ellas são d'um aborrecimento infinito, como reali- 
sacão. 

Basta considerar que sâo escriptas em solta alli- 
teraçâo. Versos-brancos, ílôres-brancas ; aguadilha es- 
corrente; semsaboriá sem fim. 

Esta forma é chocha. Em nada condiz com o gé- 
nio das gentes românicas, com a Índole de seus idio- 
mas, de medida e rima. Esses povos fizeram que o 
verso latino rimasse. E hâo-de tolerar-se versos por- 
tuguezes sem rima? 

Assim, mai$ flagrante se torna a penúria da ima- 
ginação lusitana, transplantada por hereditariedade 
e adaptação. Poisque, consoante o dissemos, fomos 
pobres, pobríssimos. 

Na poesia como em tudo. Na arte litteraria que 
mais a exige, a prova é fulminante, então. Não tive- 
mos theatro; e o mesmo Camòes, com os seus infor- 
mes esboços, testemunha da nossa antiga radical im- 
potência. 

Não tivemos musica sacra; não tivemos pintura 
religiosa; não soubemos engendrar romances de aven- 
turas ou de caracteres, isto quando ao pé da cosinha, 
na porta de baixo, a novella picaresca fervilhava 
n'um formigueiro myriaforme. Descuidados, nem se- 
quer traduzíamos. A versão do Lazarillo de Tor- 
rões é do século passado, em seus íins. 

Seria doença constitucional, suspensão de des- 
envolvimento, inacabada marcha da structura anthro- 
pologica e ethnica ? Mas o exemplo de pe,YSVH\vvY\&i\fo* 



O BRAZIL MENTAL 



que se arredaram do meio social e se tornaram cul- 
minantes pela plasticidade do seu engenho e pela 
perfeição da sua technica (como o pintor, de appel- 
lido hespanholisado. mas de próxima origem lusita- 
na. Coello) induz ao contrario. Analogamente, na* 
zona do pensamento puro. desde Montaigne até Spi- 
nosa. 

A mediocridade do génio inventivo scientifico 
portuguez também nào parece fundamental, poisque 
o mundo moderno seja creação nossa. Sim. nossa. 

Concretamente, graças á substituição amplificante 
dos mares interiores, pela vastidão dos grandes ocea- 
nos, integradora da humanidade inteira na civilisa- 
çâo. occidental e geralmente européa. Concretamen- 
te, assim, pela deduzida, racional, systematica procura 
que termina com Vasco da Gama, prejudicado de- 
pois por Lesseps. Como ella contrasta com o sonho 
mystico de Colombo, que encontra o que não espera t 
Diríamos, ate. que acerta por acaso, se a Providencia 
não existisse e a graça não fosse um solemne mys- 
terio. posto em destaque na evidencia do drama hu- 
mano, pessoal e social. 

Abstractamente, no mundo do espirito, pelos seus 
derivados lógicos, próximos e ulteriores, queui coo- 
perou mais do que nós. graças â ciroumdueção do 
globo? Ella obriga o americano Praper a gritar, num 
fervor de enthusiasmo imperante. «;ue o portuense 
Magalhães foi o homem mais sublimemente corajoso 
que tem parido as entranhas da :erra. 

Todavia, casos, como este. oxoeiviottaes. por im- 

inensos em seu alcance, são histórica mente* no con- 

jnncw do desenvolvimento e no as>vu» ^ral da su- 



O BRAZIL MENTAL "75 



perficie colloctiva, om certa maneira, e relativamente, 
sporadicos. Mais, entào, os (Tiim Pedro Nunes, com 
a antecedência a Vernier do modulo de graduação e 
a precedência a um dos Bernouilli na determinação 
do dia de menor crepúsculo. O processo de Nunes é 
mais rigoroso e perfeito, consigna Délambre; e me- 
lhor só o d'elle, Délambre, naturalmente. Pois quem 
ha-de gabar a filha, senão o pai que a quer casar? 

Nào cahiremos na insufficiencia da imaginação 
mechanica lusitana. Nem ao egoismo tumular dos 
ergástulos da Junqueira conseguirá a melhor piedade 
enternecida arrancar o segredo das magicaçòes de 
Bento de Moura. 

Comtudo, convém nào esquecer que a empreza, 
primacial e fundamental, da descoberta da rota ma- 
rítima das índias é obra e feitura longa, systeinatica. 
commum, de gerações e castas que se vão succe- 
dendo, alargando no tempo e no espaço. Não haverá 
mesmo, na historia do pensamento humano, caso tam 
caracterisado — de especulação-e-acção de ordem col- 
lectiva — tam integro e perfeito como este. Cumpre, a 
esta intuição, não a perder de vista, que nos parece 
decisiva, que se nos affigura o nódulo mesmo de toda 
a ulterior philosopbia da historia portugueza. 

Este conceito alenta e anima. 

Também, perante a prodigiosa demonstração da 
capacidade concepcional da imaginação esthetica por- 
tugueza, fornecida por Guerra Junqueiro no exemplo 
do seu recente poema, a conclusão a retirar de todo 
o fugitivo exame (renovado para que a critica da 
Revista Brazi leira não passasse em julgado como 



O RRAZ1L MENTAL 



sem possível replica), essa conclusão é, indiscuti- 
velmente, consoladora. 

O volume do vate é obra egual, equilibrada, pro- 
porcionada, e, todavia, ella se alimenta do fogo sa- 
grado. Mas isso é com Junqueiro e sua gloria. O que, 
socialmente, nos importa a nós é que — elle, esse li- 
vro genial: eis ahi o fecho esplendoroso de todo um 
processo reconstitutivo, que, nas regiões cerebraes, 
altas e supremas, se iniciou com os fundadores do 
romantismo entre nós. 

Esta observação, de philosophia de historia criti- 
ca, assegura-nos, felizmente, que o mal provinha de 
causas exteriores. Profundíssima intuição, pois, a do 
vate, no seu symbolo do enlouquecimento collectivo. 
É o Doido (Portugal) que ingere o veneno pútrido 
d'uma hóstia (alsa e maldita, tomada em sabbat impio, 
burlesco, caricatural e entontecedoramente (edendo a 
podridões de sepulchro. 

Regeitemos as abomináveis ptomainas que nos 
queimam o sangue. Que a obra do romantismo po- 
litico ( singelo, ingénuo, ludibriado ) se complete com 
nitidez e sem contemporisações, deprimentes ou inu- 
tilisadoras. Que o voto final do poema obtenha uma 
consciente, condigna sancção. O montante puro luza, 
espada de gloria, nas pelejas da justiça; rasgue, re- 
lha de arado, as leivas, santificadas pelo humano suor. 

A intenção revolucionaria da obra carecerá, ain- 
da, de se tornar mais patente? E o Brazil tumultuoso 
e íorte da republica, por vezes licenciosa, por vezes 
oppressiva, como o destino impõe ao rythmo social, 
ignorará, em seu poderoso progredimento, a tyrannia 



O BRAZIL MENTAL 77 



constante a dentro da qual, desde o ultimatum inglez 
de janeiro de 1890, vivem os portuguezes? 

Parece que, inacreditavelmente, o ignora, com 
offeito. Porque o demasiadamente citado critico da 
Revista Brazileira enceta o seu aranzel com as se- 
guintes linhas, que resultam irresponsáveis, porque 
são desattentas: «Nunca livro me pareceu precisar 
de ser julgado, escreve elle, sinâo com bemqueren- 
ça, com sympathia, de modo a diminuir na gente a 
impressão de desagrado e de tristeza que deixa a 
leitura deste. Para essa impressão tudo concorre nel- 
le, até o subterfúgio villão de não trazer, como os 
livros obscenos annunciados com a epigraphe devassa 
de leitura para homens, nem o lugar da impressão, 
nem o nome do editor ou indicação da imprensa de 
que saiu. A alguém ouvi suggerir que seria para 
evitar a lei, si não fosse para, attraindo os seus ri- 
gores, disso fazer reclamo.. Pôde ser, mas não creio 
que haja tão imbecil governo que persiga este livro. 
Tal qual é, é anodino.» 

Modificadas adrede, nossas fazemos as palavras 
do critico. Nunca linhas de scriba, mal educado e 
temerário em seus juizos, precisaram de ser julgadas 
se não (e não sinâo) com bemquerença, com sym- 
pathia, como estas impróprias do aliaz talentoso e 
bem escrevente director da Revista Brazileira, de 
modo a diminuir na gente a impressão de desagrado 
e de tristeza que deixa sua leitura. 

Para essa impressão tudo concorre n'ellas. Me- 
lhor seria mesmo, para seu auctor, que elle recor- 
resse, antes, até, ao subterfúgio villão de não traze- 
rem, como as mofinas que infamam o periodismo hra- 



' •< 



78 O BRAZIL MENTAL 



zileiro, nome responsável, apparecçndo completa e 
absolutamente anonymas. Melhor seria. 

. Mas esse é que nâo era o caso do, volume Pátria. 
Vinha com o nome do auctor, bem claro e lisivel, 
no alto da folha de rosto. A auctoridade poderia pro^- 
ceder contra elle, que á responsabilidade se não exi- 
mia. A lei só requer, de resto, a indicação da typogra- 
phia á falta de nome de auctor. O mesmo decreto 
dictatorial de Lopo Vaz — sem embargo, um modelo 
de perseguição acintosa e habilidosa, ao parecer com- 
petente do mesmo estrangeiro acostumado aos vexa- 
mes do poder, consoante o exarou o madrileno De- 
mofilo nas columnas das suas Dominicales — esse 
mesmo decreto nâo exigiu mais. Por isso, Pátria 
circulou sem arresto, que seria inevitável para a obra, 
se fosse considerada anonyma. Pelas publicações d'esta 
ultima natureza, á falta de mais provimos responsá- 
veis, pagam os que as vendem e- annunciam. 

O reparo, portanto, do critico da Revista Bra- 
zileira é desasizado. Nâo c perverso, porque, na au- 
sência de reflexão, resulta inepto. 

Elle nâo attinge também os melindres dos edi- 
tores. Tanto estes nâo repudiavam a responsabilidade, 
mental e moral, da edição que lhe puzeram o nome 
da casa logo na segunda tiragem. Tanto nâo fugiam 
da responsabilidade jurídica que, com a inscripçâo 
de seus nomes no limiar da capa da segunda edição. 
se puzeram á mercê dos tribunaes. 

Porque appareceu então o livro, da primeira ar- 
rancada, nas condições e pelo modo como appareceu ? 

Não foi para evitar a lei, — que essa não poderia 
esquivar-se, desde que o auctor se declarava por tal. 



O RRAZIT. MENTAL 79 



Foi na eventualidade de presumíveis brutalidades dos 
agentes e executores d'essa lei, ainda mais papistas 
que o papa, mais reaccionários, brutaes e facciosos 
do que a própria legislação tyrannica que ha perto 
de dez annos deshonra as tradições liboraes de Por- 
íugai. Temeu-se um assalto ao deposito da livraria, e 
as tropelias consequentes se recearam, justamente. 
Não fora chimerica esta supposiçâo ; chegaram a tra- 
inar-se protervias d'esse jaez. Somente, á ultima ho- 
ra, nào houve coragem para as levar a cabo. Deu-se. 
pois, contra-ordem. 

Em todo o caso, as precauções haviam sido to- 
madas. O total da edição fora acautelado; distribuí- 
dos poucos exemplares, aos pequenos pacotes para a 
venda diária. Por certo que o conhecimento d'estas 
prevenções frustrou o indigno designio. 

Mas o critico da Revista Braz/leira deita-se a 
adivinhar. Presumo cálculos para reclamo. A insi- 
nuação é injuriosa, é certo; mas não é torpe, é só 
soez. 

Finalmente, presuppòe elle que seria imbecil o 
governo que perseguisse a Pátria, poisque seja obra 
anodina. Modos de ver. 

Mas, anodina ou não, quem garantia ao critico 
do Rio que o governo de Lisboa se não irritasse ? Ás 
vezes, uma palavra menos pensada provoca cóleras 
terríveis, vinganças implacáveis desperta. Rompendo 
amizades provadas; despedaçando laços que parece- 
riam indissolúveis, cava os abysmos que aponta com 
o enluvado Índice o maneirento Bourget. 

Bem anodinos são os artigos, afinal, dos jornaes 
cujas redacções, ha tempos a esta parte, vem *£i\cU\. 



$0 O BRAZIL MENTAL 



nas capitães dos Estados da União Brazileira, perio- 
dicamente, assaltadas pelos que se consideram offen- 
didos. Entram á mão armada; abrem caminho a tiro 
de rewolver; partem mezas e cadeiras; desmontam 
o prelo; empastelam o typo. Porque? Por môr de 
meia dúzia de adjectivos mal-soantes. 

Mesmo, por fallar — e se vamos a isso — , perfei- 
tamente anodina era a ultima empada que no Corsá- 
rio collocou Apulcho de Castro. E não íoi uma cor- 
poração inteira, a offtcialidade dos regimentos de ca- 
vallaria do Rio-de-Janeiro, quem assassinou, á punha- 
lada pura, o chanteur indiscreto? De que lhe valeu 
refugiar-se no commissariado geral de policia? D'alli 
para fora, impiedosamente o sacudiram. Á porta es- 
peravà-o uma sege, com a capota meio-levantada. O 
mulato subiu para o açougue. Ás duas rodadas, nem 
a negra alma lhe escapou. Isto se deu pela tenebrosa 
caligem das quatro horas da tarde, n'uma das ruas 
centraes da capitai do então-imperio. 

Por isso, que muito que na velha Europa, cynica, 
inapta, em regra, já, a estas fúrias frenéticas, ainda 
assim se suppuzesse a policia capaz, senão de apunha- 
lar Guerra Junqueiro, de desfazer, pelo menos, os es- 
criptorios e armazéns dos snrs. Lello & Irmão, a titulo 
de buscas? Seria coisa nova? Ao contrario, tem-se 
visto. Os Cabraes eram eximios n'este género de va- 
rejos, consoante o reza a tradição do Nacional e ou- 
tras folhas assim menos em cheiro de santidade. Ora, 
não é cabralino extreme o hodierno regimen politico 
de Portugal ? Por isso, nunca fiando. Entretanto, com 
audácia e com prudência (isto é, ajuizadamente) pro- 
sigainos, todos, na tarefa de proíligar o embuste, de 



O BRAZIL MENTAL 81 



■desvendar o erro, de pelejar pela verdade. Que a 
lição das estrophes finaes do poema se nào perca. 

Inteiricemo-nos contra o mal, orgulhoso, que elle 
acabará por vergar a cerviz demoníaca. 

Na débàcle d'um império, entre os escombros, 
no sangue e no fumo d'uma lucta fratricida, um ro- 
mancista, contando a catastrophe, deparou com a 
palavra precursora. Messiânico d' um mundo novo, o 
encontrado lemma continha promessa radiosa de vi- 
ctoria, por effeito de uma moral revindicta. Estará 
hoje consummada essa promessa pela flagrância da 
realidade ? O que se conseguiu até agora foi, em todo 
o caso, immenso; excedeu todas as espectativas. 

Então, do solo ensanguentado das luctas civis 
logra soerguer-se um simples, obscuro soldado feri- 
do. Elle cobra alentos, como o Antheu da fabula svm- 
bolica. — Vamos trabalhar!, exclama. 

Repitamos, nós, não só com os lábios, mas do 
âmago do coração, o mote reorganisador. 

Na derrocada de todo um desenvolvimento his- 
tórico pervertido, sim, vamos trabalhar, isto é, va- 
mos combater! 

Mas, infelizmente, trabalhando ou combatendo, 
teremos de ir sós. Não se cuide que os nossos ir- 
mãos d'além-Atlantico comnosco se queiram acama- 
radar. Ao contrario, engeitam-nos. A nossa compa- 
nhia repugna-lhes. 

Por isso, as idéas d'um entendimento reciproco, 
afora as muito simples que o convivio do commercio 
internacional prescreve para todas as nações civilisa- 
das, terão de ser, de vez, postas de lado, como illu- 
sòes de epochas de juvenil confiança? 



$2 O BRAZIL MENTAL 



Todavia, esses desejos tiveram, apezar de tudo, 
em Portugal sempre representação constante. Fo- 
ram-se desenvolvendo até ao ponto de se exaggera- 
rem na chimera d'uma espécie de federação politica 
entro os dois paizes. 

Um utopista lusitano, devaneando philanthropi- 
camente pela agreste província, chegou a publicar 
o Codiyo positivo d*essa federação vindoira. É uma 
doce alma das que se não ferem nas ásperas impos- 
sibilidades da realidade e desfraldam a vela do sonho, 
com os olhos acordados. Champfleury, no volume dos 
Excêntricos, contemplou uma d'essas ílluminadas 
physionomias, do typo restrictamente scientifico, e de 
nossa grey portugueza também, o cavalheiro da Ga- 
ma Machado. 

Mais tarde, nas paginas da Voz Publica, do Por- 
to, um publicista talentoso, que, ao presente, se en- 
contra no Brazil, o dr. Cunha e Costa, retomou a 
idéa e defendeu-a com calor. 

Mas o que um e outro ignoravam, talvez, é que 
ella era antiga o tinha uma originaria procedência 
do mais culminante relevo. 

Na verdade, em 1825, a 6 de Dezembro, e de 
Paris, datava Silvestre Pinheiro Ferreira o seu Pa- 
recer sobre um projecto de pacto federativo funda- 
mental entre o império do Brazil e o reino de Por- 
tugal. 

Mas as coisas transtornaram-se em tanta manei- 
ra, e os sentimentos por tal geito mudaram — que 
hoje, dos portuguezes, os brazileiros nem a língua 
querem. 

É um cumulo; mas é assim mesmo. Entregam-s*» 



O BRAZIL MENTAL 83 



afincadamente a estudos grammaticaes ; manuseam 
quotidianamente os clássicos quinhentistas; investi- 
gam as menores minúcias dos lexicologos; e aca- 
bam por concluir que a língua brazileira é já suffi- 
cientemente differenciada do portuguez, para se con- 
stituir á parte e reger de casa própria, como fdha que 
so emancipou, repudia a norma paterna e pretende 
viver á bôa-vida, sem dar satisfações a uma tutella 
importuna e incommoda. 

Até aqui está perfeitamente. Sua alma, sua palma. 

Caberia objectar que o brazileiro nào pôde dif- 
ferenciar-se do portuguez senão por evolução na- 
tural e própria, como toda e qualquer lingua, sendo 
as transformações de similhante natureza não só ir- 
repremiveis como plausíveis. Todavia, essas altera- 
ções, por isso que são desenvolvimentos de formas 
anteriores, não modificam a Índole da linguagem, 
permanecendo o idioma (differenciado) o mesmo. Se. 
pois, elle está já tam diverso que seja a lingua brazi- 
leira differente structural mente da portugueza, pela 
grammatica e pelo diccionario, phonètica o etymo- 
logica, syntaxica e graphicamente ; como não houve 
materialmente o tempo preciso para taes variações — 
i'"í que, a constituir o brazileiro, actuaram causaes 
estranhas. 

De que género foram esses íactores, eis o que en- 
tão importa apurar, para, por sua qualidade, se afe- 
rir se a evolução é progressiva ou regressiva. Pois 
que não basta dizer que o brazileiro é differente do 
portuguez. Importa saber se foi para melhor, se foi 
para peor que elle differiu. 

Note-se bem que não reproduzimos as chimeras 
das preferencias de idiomas, isso coiisA,\\x\ta «fc ^v 



i 



84 O BRAZIL MENTAL 



bates acirrantes da erudição cahotica do século xvn. 
Mas, afinal, ninguém contesta, por exemplo, pensamos 
nós, que a evolução que vai do monosyllabismo para 
a agglutinação e d'aqui para a flexão seja progres- 
siva; e a contraria, regressiva. 

Ora, se o brazileiro não quer ser portuguez, que 
quer ser? Quer ser tupi, como os íallares dos indí- 
genas de suas selvas? Quer pertencer ao grupo das 
línguas bantus, que são as em que se expressa va- 
riedade da complexa pretalhada que o trafico vasou 
nos portos de Santa-Cruz ? Mas essas línguas são lín- 
guas agglutinantes, agglomerativas, como lhe quei- 
ram chamar; em todo o caso, línguas de typo rudi- 
mentar e inferior. Passar d'uma língua de flexão 
para uma língua holophrastica; desprezar uma lín- 
gua novo-latina para dar a preferencia a uma língua 
cafreal ou da costa do occidente da Africa — seria ir 
de cavallo para J)urro. E para burro dos por isso cha- 
mados silvestres, isto é, aquelles que deixam o pasto 
dos lameiros, para retouçar os cardos das silvas. 

Em sua ogeriza pelos pertuguezes, os litteratos 
hrazileiros teem larga culpa no estropiamento da lin- 
guagem que macula os livros di lá. 

Já Pinheiro Chagas o notou com desgosto, quan- 
do teceu os mais festivos elogios, justíssimos, a essa 
lenda, deliciosa de aroma, ensopada de poesia, ma- 
gnificamente explendida, de Iracema, por José de 
Alencar bordada na vehemencia d' uma candidez scis- 
niadora. 

Mas, logo, perguntara por que motivo um livro 

brazileiro se distinguirá na linguagem d'um livro 

portuguez, « quando os livros de Prescott americano 

não se distinguem dos livros de Macaulav, quando 



O BRAZIL MENTAL 85 



Ticknor e Southey, Cooper e Walter Scott, Washin- 
gton Irving e Charles Dickens escrevem exactamente 
o mesmo correcto inglez? quando Arboleda e Zor- 
rilla, Márinol e Espronceda entoam os seus inimitá- 
veis versos no mesmo sonoro e altivo hespanhol?» 

A resposta é obvia, mas um tanto desagradável 
á jactância brazileira. É porque o norte-amcricano 
nunca se mesclou com as raças inferiores do paiz, 
autochtonas ou importadas, com os pelles-vermelhas 
ou com os pretos africanos. Orgulhosamente se afas- 
tou; exterminou ou explorou essas pobres gentes; mas 
procedeu, tanto quanto possível, como os aryas ao 
contacto das populações dravidicas. Reíugiou-se em 
castas, afim do conservar puro o seu sangue su- 
perior, trazido da Europa. Nâo o comprometteu na 
mestiçagem. Por isso, a lingua ingleza nâo soffreu 
n*elle senão os desvios naturaes e próprios, limita- 
dos, consequentemente, ao ondular da própria evolu- 
ção; nâo se dorrancou pelo influxo d'uma perma- 
nente acçào de idioma- subalterno, desorganisadora- 
mente, a todo o instante infiltrando-se. 

A sobranceria castelhana preservou um tanto as 
nações americanas de procedência hispânica, mas ahi 
a corrupção debuta. A lingua já se não salva nas 
ancas da inocuidade yankee. Com o relaxe demagó- 
gico do portuguez, que se nâo peja de ter copula e 
conviver familiarmente com a mulher negra mais 
degradada, a perversão da linguagem attingiu o cu- 
mulo. 

A meiguice da raça negra, essencial e caracte- 
risadamente affectiva (conforme o viu a perspicaz 
intuição do Augusto Comte, cujo gemo a\^*^A\&Yfc. 



86 O BRAZ1I, MENTAL 



de relance os caracteres fundamentaes das modali- 
dades substanciaes), essa meiguice, d*um amelaça- 
mento idiota, pegou-se ao idioma. D'ahi, as alterações 
phoneticas ; o desbaste das arestas varonis nos vocá- 
bulos; a abundância formigante dos diminutivos. 

Chega-se á afinação extrema de fazer diminuti- 
vos nos participios dizendo, por exemplo: dormindi- 
nho. O minino está dormindinho. O lexicographo portu- 
guez, longos annos vivendo e convivendo no Brazil, 
Manuel de Mello, estudou esta aberração. 

A negra era a ama da creança brazileira: de- 
pois, nos jogos da adolescência, a mucama, rapari- 
guinha da mesma idade; o negrinho, irmão-de-leite do 
branco, não desacompanhavam a filha, o filho do se- 
nhor. Eram seus constantes companheiros de folgue- 
dos; seus confidentes; quasi seus amigos e eguaes. 

Desde pequenino, pois, o brazileiro aprendia a 
fallar como o negro, e como o negro se ficou a fal- 
lar. A linguagem tornou-se mais doce, explica ao pu- 
blico indifferente da Nouvelle fíevue o pernambucano 
Oliveira Lima. Adocicada é que ella ficou. Á lingua- 
gem brazileira definiu-a pittorescamente, mas comple- 
tamente, Eça de Queiroz, quando lhe chamou — portu- 
guez com assucar. 

Esta degenerescência veio da acção da gente ne- 
gra; é um dos effeitos lamentáveis da escravatura. 

E não se pense que arcabouçamos doutrinas de 
phantasia. A theoria procede do simples exame dos 
factos. 

Ella é hoje, incidentarmente, pronunciada pe- 
los especialistas, até dos revestidos da mais alta com- 
petencia. 



O BRAZII. MENTAL 87 



Assim, em sua poderosa memoria destinada á 
x sessão do Congresso internacional dos orientalistas, 
o snr. Gonçalves Vianna afflrma (com lúcida pene- 
tração, a nosso vêr) que os fallares brazileiros, ao 
contrario do que poderia suppor-se e já se tem dito, 
não representam, em grande maioria de casos, na 
sua pronuncia — e não só ahi — , um portuguez ar- 
chaico do continente, que alli persista em estado de 
boa conservação. Ha, na verdade, a mais a divergên- 
cia da corruptella. E o factor causal não pôde sêr 
senão o apontado. 

Teve já uma intuição doesta verdade Varnhagen. 
Logo n'um dos capítulos de intróito da sua Historia 
yeral, lá apparece consignada com magoa a reper- 
cussão do fallar impuro da gente preta na deprava- 
ção phonetica e syntaxica da linguagem do menino 
amamentado e creado pela mãe-negra. Queixa-se de 
que se não houvessem sujeitado os Índios; a seu pa- 
recer, esta corrupção do idioma, assim, se não teria 
dado. 

Foi uma idéa obstinada em que encanzinou, con- 
tra tudo e contra todos. Rompeu com Franco Lis- 
boa, o maranhense que illustrara, em língua portu- 
gueza, o pseudonymo de Timon e a quem elle cha- 
mava sarcasticamente Timon m, mercê da prece- 
dência do visconde de Cormenin. Punida pela le- 
gislação da gente civilisada, consoante como no ar- 
tigo especial do nosso Código Civil, commetteu a 
indiscripção de tornar-lhe publica a correspondência 
particular. Elle, conservador ferrenho, e auctorita- 
rista do progénie, recorreu ao tçfcleavwTftvfc tm^ 
vante do anarchista Proudhon. Mas Çvfcovx.-^ ^^ ^^ 



88 O BRAZIL MENTAL 



Espravisassem os índios. Para que ir buscar huma- 
nos animaes á costa de Mina? Tinha-os o Brazil de 
casa. Picavam livres do cruzeiro inglez e nào es- 
tragavam a lingua portugueza. 

Mas os litteratos brazileiros nào entenderam, em 
quasi totalidade, as coisas assim. Pensaram que o seu 
portuguez era do melhor castiço. E exhauriram os 
artifícios de argumentação e os exemplos eruditos 
para justificarem o seu typo de escriptura. 

Longamente redarguiu Alencar; o qual preten- 
dia constituir linguagem peculiar para uma littera- 
tura própria, tam independentes a primeira como a se- 
gunda. As paginas das revistas brazileiras, até os 
nossos dias, encontram-se pejadas de fastidiosos arti- 
gos de pugnas grammaticaes. Tudo com o fútil pro- 
pósito de mostrar que elles faliam e escrevem melhor 
do que nós. 

Reportam-se dos clássicos do século xvi, de Bar- 
ros especialmente; fundam-se no padre Vieira, que 
passou grandíssima parte da vida no Brazil e que 
alguns biographos brazileiros chegaram a preten- 
der que lá nascera. Foi essa a doutrina corrente em 
Santa-Cruz por largo espaço, até que o desejo (crè 
assim o fora o bilioso Innocencio, com sua fingida 
bonhomia e pitadeada ronha), o desejo de apurar a 
verdade levou o snr. Joaquim Norberto de Sousa e 
Silva, aprimorado litterato d'aquella nação, a pro- 
por sobre o caso um programma de estudos. Esse 
elencho foi, pelo imperador, distribuído ao arcebispo 
da Bahia, D. Romualdo António de Seixas, cuja «me- 
moria» analysou magistralmente o ponto, deixando 
provado até á saciedade que Vieira nascera, com ef- 
feito, em Lisboa. 



i. .■ 



O BRAZIL MENTAL Sí> 



Especcados no jesuíta, os lexicologos brazileiros 
nào largam também Soares Barbosa, sobre cujas lau- 
das empallidecem. E toda esta tareia é, porém, esté- 
ril, inútil, imprópria do tempo, arredia do methodo 
scientifico coevo. 

Cumprta-lhes comparar o dialecto brazileiro com 
as outras variedades ultramarinas dos dialectos por- 
tuguezes. Então verificariam que os litteratos goenses 
escrevem como elles, brazileiros. Usam das partícu- 
las pronominaes em idêntico transtorno, por exem- 
plo; de modo que um leitor de Lisboa, ao lér Moniz 
Barreto, cuida estar-se enfastiando com Sylvio Romero. 
E frequente em Portugal tomarem-se por brazileiros 
escriptos de filhotes indianos. Porque? Qual será a 
causa determinativa d'isto? 

A resposta estará dada, desde que se recorde 
9^ os escriptores portuguezes de Goa sào canarins 
^itn alli chamados ; provêm de raças selváticas in- 
feriores, vencidas e sujeitas pela invasão arya, ori- 
^^.riamente fallando variedades dravidicas, línguas 
. ^gglutinação, como as africanas. O concani se con- 
Sl( l^;ra como uma língua aryana. Porém, note-se sem- 
P 1 "^ o quam mesclado anda de tulu e de canará, con- 
^■tlte na destrinça se obstinava já Erskine Perry. 
[te^de sempre os nossos portuguezes se não con- 
J^diram, preleccionando, basilarmente, da arte da 
|**^ua canarim, na esteira do esboço do insigne pa- 
lr ^ Thomaz Estevão. É a que, accrescentada pelo 
>a -*4re Diogo Ribeiro, revista por outros quatro pa- 
r ^s da Companhia, foi impressa em Rachol, no an- 
lc * de 164(). 

Ora, os elementos phoneticos das \iR£Y\a& ôksnv- 



W O BRAZIL MENTAL 



dicas lembram não só as línguas australianas, como 

incisivamente as africanas. Ao contacto continua, o 

» - 

nosso idioma, classicamente castigado,» derranca. E 
espectáculo diário em nossas colónias actuaes de 
Africa; e ao estudo da dialectologia lusitana extra- 
continental dedicou o laborioso snr. Leite de Vascon- 
cellos cuidados intelligentes. 

Assim, pois, se os brazileiros que repudiam nos- 
sas faltas, como insontes e rudes, conhecessem a pho- 
netica dos portuguezes de Angola, nào se envaidece- 
riam tanto com a dos nativistas da Bahia. 

Na similidade dos idiomas do typo agglutinativo, 
desde o que íalla em Africa o negro jovial até o que 
talla na America o indio taciturno, se entrelaçam os 
parentescos ethnicos, cuja evidencia, para a hypo- 
these restricta óra sujeita a exame, feriu o snr. Lo- 
pes Mendes, que depois de viver na índia portugueza 
íoi viver para o Brazil. EUe redigiu, até, sobre o as- 
sumpto uma memoria especial, O Oriente e a Ame- 
rica, em cujas laudas coordenou valiosos aponta- 
mentos sobre os usos e costumes dos povos da índia 
portugueza, comparados com os do Brazil. Assegura 
que os primitivos indígenas asiáticos, representados 
pela família gòlyna ou gopallas. e os gaúchos e va- 
queiros americanos teem. no tundo. os mesmos ca- 
racteres ethnicos e o mesmo dynamismo psychico. 

Não iriam, sem embargo, para ahi os críticos bra- 
zileiros. Na sua permanecem: teimam em como nós 
outros, do continente europeu, é que não usufruímos 
da língua, consoante como, por nossa inópia, não pos- 
suímos estylo. 

Assim, Tobias Barreto sentenciou caiegorica- 
nwnte que Alexandre Herculano uà» v *•**£* «wroree. 



O BRAZIL MENTAL 01 



Isto é único, porque não consta que Longfellov 
declarasse jamais que Tennyson nào tinha forma. 
Nem o jornalista Heitor Varella se esqueceu nunca 
até ao ridículo de estabelecer que Castelar nào sabia 
hespanhol. 

Mas, acontece de brazileiros para com portu- 
guezes. 

O rancor toma proporções que invadem o bur- 
lesco. Tornam-se inoffensivas. 

Ha (ou houve) no Rio um bacharel ein direito, 
de nome José Jorge Paranhos da Silva. Este homem 
tem (ou tinha) leitura, copiosa e moderna; tem ima- 
ginação; e tem espirito. Mas, sobretudo, o que elle 
tem é um ódio immenso a Portugal e aos portu- 
guezes. 

Publicou, anonymamente, um livro, que sahiu. 
â maneira allemã, aos pedaços, por três arranques. 
Anonymamente appareceu, referimos; mas seu au- 
ctor não se esconde; revindica-o, citando-o como de 
sua lavra nos artigos subsequentes que, sobre a mes- 
ma matéria, estampou na segunda vezada da Re- 
vista Brazileira. Esses artigos são mais comedidos 
na forma; mas o espirito dilue-se o mesmo. 

Quanto ao livro, c um documento preciosíssimo. 
Elle basta para reconstituir toda uma complexa si- 
tuação moral. Eis o clássico osso fóssil com que Cu- 
vier etc. 

Intitula-se : O idioma do hodierno Portugal com- 
parado com o do Brazil. Por Um brazileiro. Pa- 
pel assetinado, composição elegante, impressão níti- 
da. Logar da impressão, llio-de-Janeiro. Data : 1879. 
Formato? 8.°. 



92 O BRAZIL MENTAL 



Este tomo é offerecido aos bacharéis brazileiros 
que, educados em Coimbra, uma vez de regresso, de* 
ciaram quererem renascer (sic) no Brazil. N*uma ad- 
vertência do verso do ante-rosto, o auctor commina 
que prohibe a sua leitura aos portuguezes, excepto aos 
snrs. Eça de Queiroz e Camillo Castello Branco. Per- 
cebe-se por que. Depois, decide-se a estender a exce- 
pção até ao snr. Theophilo Braga. Se apertassem muito 
com elle, acabava por nos dar licença a todos nós, 
ainda os mais rasteiros. 

A todos nós, portuguezes, nos chama elle, — pri- 
mos. Esta boutade tem sua graça: não offende e cor- 
responde á verdade. Não no sentido maligno em que 
a usou o auctor: mas na exacta e perfeita conformi- 
dade do parentesco internacionalista. A designação 
de nossos irmãos, dada aos brazileiros pelos portu- 
guezes, ou, vice-versa, aos portuguezes pelos brazi- 
leiros — não está bem. É hypocrita. como afíectivi- 
dade. E, como realidade, é falsa. Xossos primos ê 
que, reciprocamente, apparece bem. Irmãos?, nunca. 
Manos, na accepção de cunhados. Cunhados e primos, 
é o que somos, uns para com os outros. Não ha um 
só portuguez que não tenha um primo brazileiro. Im- 
mensas brazileiras são as que teem cunhadas portu- 
guezas. 

Mas os primos de la ê que não timbram em ser 
amáveis com os primos de cá. A antipathia deslum- 
bra-os. Fal-os esquecer que, enxovalhando os portu- 
guezes, enxovalham a família tinia: naturalmente, 
a elles mesmos. Pois. que da gtvy conspurcada se- 
jam parcella integrante. 

Assim, o snr. Paranhos da Silva e\hibe uma theo- 



O BRAZIL MENTAL 93 



ria para explicar como seja que a língua portugueza 
é inferior á brazileira. Elle foi, até, o único que tra- 
ctou d*isto, coisa que, aliaz, era essencial. Propoz-se 
resolver o paradoxo e aclarar o apparente absurdo. 
Assentou que portuguez ha dois. Ha um por- 
tuguez derivado do castelhano. Este é o nobre. Ha 
outro, derivado do gallego. Este é o pulha. 

portuguez derivado do castelhano é o que se 
falia no Brazil ; é o brazileiro. O portuguez derivado 
do gallego é o que se falia em Portugal; é o portuguez. 
Ora, aqui está a coisa. Clara como um preto. 
E como íoi que os brazileiros, que aprenderam 
aliaz a fallar portuguez pela lição dos primeiros por- 
tuguezes que para o Brazil aproaram, nào aprende- 
ram a fallar gallego? 

Porque os primeiros portuguezes que foram en- 
sinar o portuguez para o Brazil ainda íallavam o 
portuguez derivado do castelhano. Os jesuitas das 
missões fallavam todos o portuguez-castelhano, em 
geito que era um primor. Entretanto, os portuguezes 
que cá ficaram, nào se sabe por que estranha balda, 
desataram todos, então, a fallar gallego, ao depois. 
Quer dizer : fixemos data. Até 1500 em Portugal 
fallava-se castelhano. Depois de Pedro Alvares Ca- 
bral começaram, com engulhos, vómitos e o mais da 
parte, os irreprimíveis desejos do gallego. 
E por que seria isto, santo Deus? 
O snr. Paranhos da Silva explica que foi por 
causa da dominação dos suevos na Galliza e em Por- 
tugal. Consulta uma grammatica suabia recente. Ex- 
plica como os diphtongos nasaes em ào são peculia- 
rismos dos idiomas suabio, gallego e portuguez. 



94 O BRAZIL MENTAL 



Nào é isto novidade com que á feira viesse o 
inventivo Paranhos: antes sediça velharia que já im- 
pressionara os doutos Helfferich e de Clermont, os 
quaes a propósito formulavam commentos sérios. 

Mas, nada tem, parece, o ão s o suabio, os sue- 
vos — com o gallego que se nào fallou em Portugal 
até que margem houvesse para que de Lisboa par- 
tissem para a Bahia os primeiros missionários jesuí- 
ticos, a fallar portuguez-castelhano sem macula, afim 
de o ensinar aos brazileiros que sem macula o vie- 
ram conservando até nossos dias. Ou nós já fallaria- 
mos gallego á data da ida dos Anchietas e dos No- 
bregas ? 

Mas então como é que o nào faliam os brazileiros 
também ? 

EUe, na verdade, parece que assim devia ser, 
porque os suevos sempre estiveram na Galliza algum 
temposito antes de Pinzon saber do Brazil e suas co- 
loradas galanterias. Mesmo porque, o geito do dimi- 
nutivo generalisado até a gerúndio se supinos nos ap- 
pareça no idioma popular da Galliza, consoante o de- 
monstrara, para o caso já expendido, o Manuel de 
Mello citado e após elle o snr. Theophilo Braga, na 
sua recente introducção de theoria á historia da lit- 
teratura portugueza. 

Emfim, é uma trapalhada onde ninguém se en- 
tende. Põe-se, mesmo, de lado a tolice da derivação 
do portuguez, provindo originariamente do castelhano. 
K não se cura do sentido exacto da emanação do 
lusitano por via do gallego. 

Ora, o facto é que nos séculos xm e xrv os dia- 
lectos fallados na Galliza e Portugal divergiam muito 



O BRAZIL MENTAL Uf» 



pouco, segundo pôde julgar-se pela comparação do 
Cancioneiro de Affonso x de Castella/ escripto em 
gallego, e das composições archivadas nos álbuns lu- 
sos das bibliothecas do Vaticano, da casa Collocci- 
Brancute e da Ajuda, nos quaes collaboraram assaz 
de vates da Galliza. Portuguez e gallego foram, to- 
davia, differenciando-se cada um do seu lado, nâo 
porque o portuguez seja um dialecto do gallego ou 
o gallego um dialecto do portuguez, mas porque por- 
tuguez e gallego emergiram d'uma idêntica base 
coramura, que o snr. Adolpho Coelho define como 
sendo «a lingua gallecio-portugueza dos séculos 
xii a xrv.» Quanto á doutrina braziloira acerca do as- 
sumpto ventilado, ella não liga. Nào se entende. 

Mas o que se entende perfeitamente é o esti- 
mulo rancoroso que dita aquellas toleimas e impro- 
visa theorias taes. 

Desvaira-o, essa raiva, ao snr. Paranhos, tam des- 
orbitadamente que elle encerra o seu desarrazoado 
com o seguinte cumulo dos cúmulos : 

Traduz, de portuguez, para brazileiro, duas poe- 
sias de Garrett e as linhas de principio do romance 
A Morgadinlia dos Canaviaes, por Júlio Diniz. 

Isso para pôr aquelle impuro gallego em portu- 
guez de lei, portuguez-castelhano, portuguez-brazileiro 
perfeito, exemplar. 

A insânia litteraria, attingindo estes termos, causa 
dó, porque entra na esphera da pathologia. Já nâo 
têm a palavra os criticos, mas sim. e unicamente os 
médicos. 

Ou, melhor, os moralistas. Chamem elles á ra- 

este apaixonado: suggerindo-lhe como o ódio é 



96 O BRAZIL MENTAL 



péssimo conselheiro; e mostrando-lhe como os maus 
sentimentos sào castigados, pela obnubilaçâo da in- 
telligencia e consequente desaproveitamento 3a cul- 
tura. 

Mas esta licâo corroborou-nos. Viu comnosco o 
leitor como a mentalidade brazileira nos não quer 
acompanhar. 

Ella não perde ensejo de nos manifestar a sua 
hostilidade, que se volveu n'uma como que obsessão. 
Assim, nâo mais tarde do que alguns dias antes da 
data da revisão doestas provas, fundou-se agora no 
Rio uma Academia de letras, imitando a academia 
de França com os seus quarenta immortaes. 

No discurso de inauguração, o preclaro orador, 
dr. Joaquim Nabuco, afíirmou o seguinte ponto fun- 
damental: «A Academia, conservando a federação 
politica do Brazil, proclama a unidade litteraria; nâo 
terá nenhuma ligação com Portugal, do qual os des- 
tinos brazileiros estão completamente separados, e a 
sua fundação deve ser mais uma afíirmacão de in- 
dependência nacional.» 

Um jornalista portuguez, dando a noticia, lem- 
bra apenas que o snr. dr. Joaquim Nabuco, quando 
deputado do império, esteve em Lisboa e, ao visitar o 
parlamento portuguez, foi-lhe dado ingresso cordeal 
e espontâneo entre os representantes do paiz com que 
elle, agora, não deseja ligações de espécie alguma. 

É incontestável. O Brazil não quer nada com- 
nosco. 

Mas não quizera já de havia muito. E n'outra 
parte, corollariamente, inquiriu de mentores idóneos. 

Fez bem. Seria ridicula pretensão que competis- 



O BRAZIL MENTAL 97 



semos com os mcstros que a nova geração brazileira 
escolheu. 

Tanibein n'elles nos educamos, nós. K os brazi- 
leiros preferiram, asizadamente, o receberem o ensino 
directo — a eolhel-o por intermediário, mais ou menos 
infiel. Nâo quizeram tractar — substabelecendo pro- 
curação. Foram, encarreirados, ás fontes. 

De Portugal havendo herdado a subordinação á 
França, á França logo prestes se dirigiram. 

Tiveram acmi uma intuição magnifica, eminen- 
temente proveitosa. 

Comprehenderam que sciencia sem philosophia 
ti pedantismo ; arte sem philosophia, jogralismo. Ac- 
cenderam a sua lanterna e buscaram, pois, um phi- 
losopho. O eccletismo cousiniano abrira bancarrota; 
depois da implacável satyra de Taine, em seu livro 
primordial proíligando os philosophos írancezes con- 
temporâneos : as sorbonnicas orthodoxias estavam 
num descrédito irremediável. 

A corrente era, toda, n'outro sentido. Soprava 
sempre para as bandas d'onde emergira a estatua 
grandiosa de Augusto Comte. 

Assim, o positivismo íoi o coração-de-leão de 
que se nutriu o espirito da moderna geração brazi- 
leira, como certas tribus de Africa dão — dizem uns 
tantos viajantes — o musculo superior do superior fe- 
lino a devorar aos primogénitos dos sobas, a dentro 
cada de seu kraal, para lhes incutir a resistência e 
a intrepidez. 

A doutrina renovadora, penetrando no ensino of- 
íicial, remodelou o critério das ultimas camadas es- 
cholares. 



98 O BRAZIL MENTA!. 



A Benjamin Constant Botelho de Magalhães ca- 
be, após primeira iniciação de ignorado professor, por 
50 e tantos, a activa e fecunda iniciativa de vulga- 
risaçào do positivismo entre os moços estudantes. 

Foi o caso que, lendo tudo o que lhe parecia 
poder desenvolver os seus conhecimentos mathema- 
ticos, topou, um propicio dia, na these de concurso do- 
certo professor da Eschola Central do Rio-de-Janeiro, 
Peixoto, um resumo das vistas de Comte sobre o cal- 
culo. Foi ferido pela sua novidade, seu alcance o im- 
pressionou ; e quiz conhecel-as no próprio manancial. 
Eil-o, pois, levado a estudar e a meditar as differen- 
tes partes da obra do philosopho francez. 

Desde esse momento, sua vereda estava encon- 
trada ; constituiu-se no dever de espalhar em seu en- 
sino, particular ou publico, as concepções philoso- 
phicas do psychologo da Synthese Subjectiva sobre o 
conjuncto das sciencias. Pode-se dizer que elle foi o 
verdadeiro organisador do positivismo no Brazil. 

N'este ponto-de-vista, ha a considerar um lacto, 
cuja iniciativa pertence ao publicista sobre cujos in- 
formes seguimos. É elle o snr. Oscar d' Araújo, o qual 
se tem conservado fiel ao credo que adoptou em sua 
mocidade e por elle propugna sempre que o julga 
ameaçado. Fal-o com relevo, pondo na dialéctica a 
qualidade mestra da sua raça, a imaginação. Assim, 
em março de 1894, publicou no numero, ao mez at- 
tinente, da *Révue occ/dentale um longo artigo acerca 
do livro de Roberty : La recherche de Uunité. A este 
trabalho replicou o sociólogo russo em nota, egual- 
mente extensa também, ao primeiro capitulo do vo- 
lume que, versando Augusto Comte e Herbert Spen- 



O BRAZ1L MENTAL 99 



cer, elle apresentou modestamente como mera con- 
tribuição para a historia das idéas philosophicas no 
século xix. 

Quanto ao facto a que alludimos, foi a constitui- 
ção da primeira Sociedade Positivista do Rio-de-Ja- 
neiro, da qual o snr. d' Araújo declara que se ha-de 
orgulhar sempre de haver sido o instigador. Ella con- 
stituiu, com effeito, um acontecimento decisivo, que 
veio imprimir um estimulante ainda ao ardor com- 
mum, pondo as novas camadas em relação com o 
continuador integral d' Augusto Comte, com o cheíe 
do positivismo orthodoxo, com o obediente Pierre Laf- 
fitte, n'uma palavra. 

"A partir d'aquelle momento, Benjamin Constant 
fez, no seu ensino, uma parte cada vez mais larga 
á propaganda do positivismo. E, graças ao seu as- 
cendente moral e intellectual, os seus discípulos, 
quando mesmo se não tornavam ferventes positivis- 
tas, nem por isso deixavam de ficar cheios de admi- 
ração e de respeito pela doutrina d' Augusto Comte. 

Iam assim constituir em todo o paiz um meio 
favorável á acceitaçâo das reformas que de simi- 
Ihante doutrina se inspirassem. Elles iam, corrobora 
o snr. Oscar d' Araújo, «preparar a opinião a admit- 
til-as, por um longo trabalho d'infiltração d'idéas. » 

Com effeito, d'ess'arte occorreu. 



II 



O POSITIVISMO 



A acçào do positivismo sobre a mentalidade bra- 
zileira foi, na verdade, extraordinária. 

A efficacia da adoptada doutrina decorreu da sua 
accessibilidade, poisque quasi ninguém se sujeitou á 
preparação preliminar da . acquisiçào previa da hie- 
rarchia encyclopedica. Contentaram-se geralmente 
com as conclusões syntheticas, de caracter philoso- 
phico; com os primeiros principios do systema, que 
já eram corollarios de investigações, as quaes se de- 
ram por feitas. 

E o seu agnosticismo, acariciando a preguiça ce- 
rebral, portuguezo-brazileira, foi a condição primor- 
dial do fulminante êxito. 

Voltou-se á antiga desconfiança, o que condizia 
coin o ensino catholico tradiccional. 

Esqueceu-se o lemma incitativo de que o homem 
triumpha de tudo. 



102 O BRAZIL MENTAL 



Já ao conceito introduzira um coefficiente de cor- 
recção o scepticismo hegelianista, da extrema esquer- 
da, de Feuerbach. 

«Sim, triumpha; mas só quando esse triumpho é 
para elle uma necessidade. Tudo lhe é possivel quan- 
do a necessidade lhe é presente.» 

Mas nem assim. Negou-se essa necessidade mes- 
ma. De modo que se possa facilmente remover as 
difficuldades. 

Assim também a popularidade da doutrina cir- 
culou largamente na velha terra lusitana. 

Precedera-a, no effeito, o ecclectismo idealista de 
Krause, Tiberghien e Ahrens. Nào teve, é certo, en- 
tre nós, echo que se compare ao análogo de Hespa- 
nha. Inspirou, nào obstante, até ao plagiato, muitos 
dos compêndios dás aulas secundarias e superiores 
do nosso paiz. Sobre o ponto se podem consultar os 
elucidativos artigos do snr. Lopes Praça, insertos em 
ephemera, rara publicação periódica portuense. 

Mas a eschola que tem por patriarcha o pontí- 
fice da humanidade, Augusto Comte, essa logrou tal 
fervor d'adopçâo por parte da moderna geração por- 
tugueza que elle é eminentemente significativo. 

Foi, mesmo, por esse vehiculo que se começou 
a conhecer e a considerar o Brazil mental. Como quer 
que coincidissem, entrecruzando-se, as correntes cri- 
ticas da juventude dos dois paizes, a identidade dos 
pensamentos despertou as curiosidades e promoveu 
as sympathias. 

Fundara no Porto a revista intitulada O Positi- 
vismo a intelligencia, aristocraticamente límpida e 
fina, do inedico Júlio de Mattos. p,, ~ ^nu suas por- 



O BRAZIL MENTAL 103 



las á collaboração dos seus correligionários do Brazil. 
Assim se deu conta dos talentos incipientes de além- 
Atlantico ; assim fé se communicou das novas e quen- 
tes aspirações. 

Entre nós, a formula comtista encontra-se ex- 
pressa em muitas das obras dos nossos modernos 
homens de lettras. EUa penetrou até as de começo 
despreoccupadas phantasias satyricas, consoante se 
verifica das ultimas brochuras dos pamphletos, se me- 
diocremente concretos, assaz discretos das Farpas. 
A sério, e como um todo theorico, a amostra portu- 
#ueza mais completa está em o volume -devido á 
penna indefessa do historiador da nossa litteratura. 
Traços geraes da philosophia positiva, se denomina. 

No Brazil, idêntico phenomeno se observa; é cu- 
rioso: com as mesmas modalidades. Assim, o posi- 
tivismo inebria-se com a simples galhofa, como nas 
Farpas, em es mensaes opúsculos, congéneres, de 
Sylvio Romero e Araripe Júnior : Lucros e perdas, 
titulo idóneo também, numa naçào de negociantes. 
Assim, o positivismo se afíirma dogmática e solida- 
mente na obra poderosa de Pereira Barreto, As três 
philosophias. 

Mas ha um matiz. 

Entre nós, não se passou do positivismo atte- 
nuado, no depuramento homoeopathico de Emílio Lit- 
tré. Só muito mais tarde (e sem repercussão no 
grande publico) é que Theophilo Braga, com o seu 
Systema de Sociologia, acceitou as conclusões ulte- 
riores, inclusive as da Synthese subjectiva, como ló- 
gicas, concordantes e procedentes. 

No Brazil, enguliu-se tudo, inteiramente, e de 



104 O HRAZIL MENTAL 



pancada. Insignificantes manifestações de littreisino 
foram as que surgem. Algumas sáo meras homena- 
gens aos dotes de saber e intelligencia que exorna- 
vam o filho pródigo que não voltou á casa paterna. 
Tal o curto discurso de commemoracão do 5.° anni- 
versado da morte do que, aliaz, ahi intitula chefe da 
philosophia positiva, recitado e publicado, pelo dr. 
Lycurgo Santos, em Sâo-Paulo, em 1886. 

Absorveu-se tudo. liturgia, como o resto. Enga- 
lanou se. de sanefas com formulas, idóneo templo: ofli- 
ciaram de pontifical Teixeira Mendes e Miguel de 
L#emos. 

Em Portugal, isto era impossivel. Complicada 
com estas parodias cultuaes. a nova doutrina mor- 
reria pelo ridiculo. Ninguém se atreveu nunca a tanto. 

Ficou. pois. reduzida á sua parte fundamental, a 
asse sysiema philosophieo que se condensa nas três 
lições primeiras do famoso, maravilhoso Cur#o. Com 
perspicácia, Littrc as reuniu em volume de per si. a 
que poz o titulo justo de : Princípios- 

X"esses termos e em similhante conformidade, 
entre nos suecederam-sc os protestos de adhesão ás 
idcas do repetidor, examinador da Eschola Polyte- 
chnica de Paris. 

Esta ío na obra do discípulo de Saintóiwon. 
posto a nào partilharmos, alegrou-nos sempre sobre- 
modo. Kl ia é. com effeito. o resultado da tendência, 
geral e inabalável das gerações actuaos para o es- 
pirito novo. para a nova philosophia. que nâo se sus- 
tenta de chimcricas e vasias abstracções. Pelo con- 
trario, haure no manancial da realidade, consoante 
as sciencias d\mde n»ma a origem, os caracteres que 



■■ — ^i». 



O RRAZIL MENTAL UX\ 



precisam a moderna reíbrma da intuição synthctica. 

De facto, é evidentemente justa a palavra do dr. 
Buchner, quando, em sua Scieixcia e natureza, chama 
ao positivismo, digam o que disserem, um dos si- 
gnaes caracteristicos da epocha. 

É-o; e, d'ess'arte, merece uma attençâo capital. 

Já á data do seu advento na velha Lusitânia 
possuía a eschola positiva, ou melhor comtista, unia 
historia illustre. Eila contava no numero dos seus 
adeptos muitos dos modernos homens mais notáveis, 
nas lettras e nas sciencias, de todos os paizes. A sua 
acção tinha sido verdadeiramente apreciável, e a la- 
titude que, n'aquelles últimos tempos, havia tomado 
tornara-a digna da attençâo demorada. 

Resultara o effeito do lúcido espirito de Littré. É 
certo que Augusto Comte fora principalmente o que 
lhe chama, com somenos respeito, o seu quani-disci- 
pulo Roberty: — um vulgarisador. Todavia, a sua for- 
ma era embrulhada e arisca. O período contem de- 
masiadas idéas, ainda para sua excessiva extensão e 
seu intercurrente meneio, moroso pelas incidentes, 
infixas a todo o instante. Por isso lhe chama indi- 
gesto o belga Laurent. Talvez por que elle é que 
fosse dyspeptico. 

Mas Littré começou renegando as deducçòes ex- 
tremas do mestre. Aligeirou a theoria, até então pc- 
zada, árdua, exclusiva; encerrada, segundo a phrase 
do metaphysico Vacherot, no espirito intractavel do 
fundador. l)eu-lhe um aspecto claro, fugindo o mais 
possível do estylo peculiar de Augusto Comte. Pou- 
co, comtudo, foi. 

É uma observação que tem passado desperceÀsv- 



106 O BRAZIL MENTAL 



da: esta, de que os positivistas não têm individuali- 
dade no estylo. Lido um, estão lidos todos. O modo 
de dizer é commum, como o modo de pensar. Tam 
poderosa é essa synthese, e absorvente similhante 
subordinação. 

O motivo reside no próprio caracter da doutri- 
na, hyperbolicamente comprehensivo; vago, conse- 
quentemente. Assim, por o fundador descoberta uma 
vez a expressão adequada, os discípulos não podem, 
ainda que o quizessem, variar a maneira. Eis d'ess'- 
arte por que o positivismo seja a doutrina philosophica 
que mais se presta aos clichés, ás phrases feitas. 
l)'ahi, o seu vocabulário especial e restricto ; a prom- 
ptidâo com que o seu estylo presta o flanco á parodia 
caricatural. Porque a formalistica de Augusto Comte 
não está como nos allemães, em Kant primacialmen- 
te. Ahi o particuiarismo especifico reside no léxico. 
Aqui é no que se chamaria a syntaxe dialéctica. 

Systema catholico, o positivismo, á força de ge- 
neralidade (de certa maneira entendida, aliaz), não 
soffre a individualidade, nem no estylo. Como com 
os jesuítas, os «illustres ignacianos» — consoante a 
esses antecessores se lhes chama em linguagem posi- 
tivista — , a physionomia littcraria é a mesma, d'um 
para os outros. 

Tanto é exacto o asserto que, onde o individua- 
lismo começa a surgir (como na heresia littreista), 
logo o estylo desponta. 

E os adeptos crescem ; disseminam-se pelo grande 
mundo; já não são conventiculo de supersticiosos; 
seita de fanáticos. Começam a ser um pouco toda- 
a-^rente. 



O BRAZIL MENTAL 107 



Assim, ephemeramente, é certo, mas iTesse curto 
lapso em geíto simiihante, a eschola se encheu de 
nova vida, e de vigor novo se encorajou. 

São conhecidos os nomes de Wyrouboff, de Le- 
blais, de Stuart Mill, de Ch. Robin, de Nuitz, de tan- 
tos e" tam eméritos pensadores, n'aquelle areópago 
filiados. 

Em seu prefacio á sua traducçào das populari- 
sadoras Conferencias sobre a theoria darwiniana, do 
dr. Búchner, affirmava Augusto Jacquot — testemunho 
ostensivamente insuspeito — que a eschola positiva, 
que elle repelle, é a única realista predominante em 
França e a única que tomou o caracter d'uma ver- 
dadeira seita. 

A própria Allemanha, onde foi que o materia- 
lismo moderno rompeu em brados contra os desvai- 
ramentos especulativos da chamada philosophia da 
natureza, ella, também, se resentiu. Em 1864, da Al- 
lemanha dizia Littré que o espirito novo alli se tinha 
desenvolvido com algum vigor contra a metaphysi- 
ca, mas n'um materialismo enérgico, porém insufi- 
ciente. Pois lá mesmo veio a soffrer-se o impulso da 
doutrina realista dominante em Franca. 

O celebre Biichner, cuja Força e matéria é jus- 
tamente chamada pelo sorbonnico Paul Janet o ma- 
nual do materialismo, Búchner, em 1856, no artigo 
Os positivistas ou uma nova religião, tractava a dou- 
trina de Comte com uma indifferença contigua do 
desdém. Esse artigo resentia-se da falta de demora- 
do estudo sobre a obra de Comte. Depois, conhecen- 
do-a melhor, converteu-se, mais tarde, ao çositív\&- 
mo, o medico atheu. Mas quem sato^ ^<ò <^fò«> ^^ ^ 



108 O BRAZIL MENTAL 



saber aliaz, o era, afinal, á laia do Dupuytren que 
Balzac mandava ouvir missa ás escondidas, sob o cri- 
vo da chuva de molha-todos, que, sacudidamente, pe- 
neiram as tremendas manhãs brumosas do Paris po- 
bre?! Consignou a conversão no prefacio á nova es- 
tampagem da Força e matéria; muito categorica- 
mente a define, em sua derradeira obra amplamente 
tendencial: O homem segundo a sciencia. 

Não é preciso ir mais longe. Pararemos aqui. 

A eschoia positiva de Augusto Comte contem, 
implícita, em sua designação, o seu espirito. Um vo- 
cábulo substitue uma definição. 

Já o nosso theatino Bluteau ensinava que cousa 
positiva vale o mesmo que cousa certa, constante e 
contraria ao que é duvidoso e fabuloso. 

Explana com o exemplo dos jurisconsultos. Con- 
corda com o cardeal Pallavicino, o qual com rasão des- 
approva a etymologia de Paulo Soave. Na verdade, 
pretende este ( chimericamente ) que de o chamar-se 
em italiano vestiio positivo o vestido simples, modesto 
e sem enfeites procedesse o chamar-se theologia posi- 
tiva á que, explica Bluteau, «se não enfrasca» nas 
questões e subtilezas da escholastica. Muito antes 
que no idioma italiano fosse admittido aquelle modo 
de discorrer, fallaram os legistas em matérias posi- 
tivas. 

No seu monumental diccionario da lingua fran- 
ceza, Littré, para a definição do caracter da posi- 
tividade, também se reporta da theologia chamada 
positiva, e ao significado avisinha-o de trecho idóneo 
de Fontenelle, quem, outrosim, para a devida inter- 
pretação, deriva do longo prazo durante o qual a 



O BRAZIL MENTAL 109 



theologia esteve repleta de engenhosíssimas subtili— 
dades. 

D'ellas não cura o comtismo. Elle é simples e 
franco. Pào pào, queijo queijo. 

Extrema-se, facilmente, pela negação da investi- 
gação do absoluto. É um traço passado por de sobre 
a ontologia. 

Traz o positivismo ante si o tempo e o trabalho 
consumidos na investigação do que em metaphysica 
constitue sua categoria própria, isto é a do absoluto 
e do necessário. Verifica que o tempo íôram séculos ; 
ti que o trabalho gastou génios suecessivos. O empe- 
nho verificou-se inane. O resultado, cifro u-se nullo. 

Por tam vigorosa analyse, chegou Augusto Comte 
ií conclusão de que o espirito humano se havia de- 
batido infruetiferamente contra essa ordem de incó- 
gnitas, insolúveis. Nada recolhendo, coisa alguma mais 
conseguira do que forjar systemas, mostrados, pois, 
uns atraz dos outros, absurdos e inúteis por egual. 
Baralhou, assim, todas as idéas; tudo confundiu e 
trouxe para as investigações concretas da sciencia 
positiva a deplorável mania de tudo querer saber. 
l)'esta balda, inevitável desordem. O que se chama, 
a dentro do diccionario da eschola, exaggero de es- 
pecialismo, no detalhe. Anarchia mental, no conjuncto. 

Purificar, pois, a sciencia do espirito metaphy- 
sico; concomitantemente, d'elle purificar também a 
philosophia, dando-lhe a precisão do methodo scien- 
tifico e considerando-a como a emanação synthetica 
do conjuncto das sciencias hierarchisadas : — eis, de 
começo e no fim, o scopo de Augusto Comte. 

Assistira e, sem embargo da swk ^tw^â&&&& v&r- 



110 O BRAZIL MENTAL 



leitura, soubera do desmoronar do edifício idealista 
allemão. Enchera-se do tédio que ao homem de scien- 
cia causam sempre as banalidades, declamatórias e 
ignorantes, da philosophia especulativa. Animava-o 
ainda, e principalmente, o audacioso desejo de resol- 
ver a questão social, desejo que, melhor, se compre- 
hende no período em que viveu Augusto Comte, 
quando se succediam os planos individualistas e in- 
tegraes, mais ou menos atilados e sábios, dos Pourier 
e dos Saint-Simon, dos Owen e dos Cabet. Era elle 
dotado d'um grande poder de contensâo de espirito; 
e formulou syntheticamente toda a sua theoria, vir- 
tualmente contida em seu ulterior desenvolvimento, 
por meio d' uma concepção basilar, que tudo abran- 
geria. 

É a famosa lei dos três estados: — theologico, 
metaphysico, positivo. 

Na sciencia, como na philosophia, como na his- 
toria, como na sociedade, como no individuo, a lei 
dos três estados, nos affirma a eschola, se vê con- 
stantemente confirmada. 

Toda a sciencia, toda a sociedade, todo o indivi- 
duo estão sujeitos — como a palavra lei o deixa, aliaz, 
entrever — á fatalidade inabalável da tríplice phase: 

«Estudando, assevera-nos o fundador, o desen- 
volvimento total da intelligencia humana nas suas 
diversas formas d'actividade, desde o seu vôo mais 
simples até aos nossos dias, parece-me haver desco- 
berto uma grande lei fundamental, a que elle está 
preso por uma necessidade invariável, e que me parece 
poàer ser solidamente estabelecida, quer sobre as pro- 
vas racionaes fornecidas pelo conhecimento da nossa 



O BRAZIL MENTAL 111 



organisação, quer sobre as verificações históricas, re- 
sultantes (Tum exame attento do passado. Essa lei 
consiste em que cada uma das nossas concepções 
principaes, cada ramo dos nossos conhecimentos passa 
successivamente por três estados theoricos differen- 
tes: — o estado theologico ou fictivo, o estado meta- 
physico ou abstracto, o estado scientifico ou positivo. 
— Por outras palavras, o espirito humano, mercê de 
sua natureza, emprega successivamente, em cada uma 
das suas investigações, três methodos de philosophar, 
cujo caracter é essencialmente differente e até radi- 
calmente opposto: primeiro, o methodo theologico; 
depois o methodo metaphysico e porfim o methodo 
positivo.» 

Assentada a lei com este notável vigor doutriná- 
rio, Comte, em sua obra gigantesca, faz-lhe a appli- 
caçâo para toda a banda, sem excepções. 

Por isso, observa eile, em respeito ao homem, 
que no desenvolvimento individual se nota a mais 
completa confirmação do seu relance: «Assim, quem 
nào se lembra — pergunta — de ser, quanto ás suas no- 
ções mais importantes, theologo na sua infância, me- 
taphysico na sua mocidade e physico na sua virili- 
dade?» 

Havendo-se chegado hoje na sciencia (excepto na 
dos phenomenos sociaes) á étape final, segundo 
Comte, cumpre que precisemos o que este grande 
espirito entende por : a phase positiva, termo da evo- 
lução da sociedade, como já o foi e é da evolução 
da sciencia. 

«No estado positivo, diz Augusto Comte, o espí- 
rito humano, reconhecendo a \mpo^\tà^\ÔA&fò ^& *Ssáv« 



112 O RRAZIL MENTAL 



noções absolutas, renuncia a procurar a origem e o 
destino do universo e a conhecer as causas intimas 
dos phenornenos para se prender unicamente a des- 
cobrir, pelo uso. bem combinado, do raciocínio e da 
observação, as suas leis efíectivas. isto é, as suas re- 
Jacões invariáveis do suecessão e de similhanca. A 
explicação dos factos, reduzida assim aos seus ter- 
mos reaes. não é d'ora avante mais do que a ligação 
estabelecida entre os diversos phenornenos particula- 
res e alguns íactos geraes, de que os progressos da 
sciencia tendem cada vez mais a diminuir o nu- 
mero.» 

Conseguintemente, a philosophia positiva, con- 
soante perfeitamente o deduziu Littré. renuncia á in- 
dagação da essência das coisas: numa palavra, a todas 
aquellas questões que, em metaphysiea, pertencem, 
como dissemos já. á categoria do absoluto. 

E. se na sciencia a phase metaphysica deixou o 
resíduo do seu vicioso espirito, annexo á inutilidade 
de suas perguntas, convém que fumiguemos a scien- 
cia. para que lhe saia esse cheirete rançoso. 

Assim, exemplifica Augusto Comte magnifica- 
mente a lei dos três estados, o amostra, para mode- 
lo, a sua negativa das inquirições metaphysicas ty- 
piticada em duas das mais notáveis investigações da 
sciencia positiva. 

O exemplo mais #h//ji//-.!ív; % secundo elK\ é o da 
gravitação ne^ toniana. Formulada a lei de que a ma- 
téria attrahe a matéria na rasâo directa das massas 
e inversa do quadrado das distanoias, a philosophia 
positiva não cura do saber *o que suo em si mes- 
mas essa attracçâo e essa gra\ idade, quaes sejam as 



O RRA.ZIL MENTAL 113 



causas (Tellas, questões consideradas pela philosophia 
positiva como insolúveis, já nào do seu domínio e 
abandonadas por ella, com rasão, á imaginação dos 
theologos, ou ás subtilidades dos metaphysicos.» 

Outro exemplo, trisante por egual, nos é forne- 
cido pela theoria do calor. A philosophia positiva ado- 
ptará a via seguida por Fourier, isto é, explicará os 
phenomenos do calor, «sem se importar da contro- 
vérsia de saber se existe uma matéria calorifera, ou 
se o calor consisto nas fibracões d'um ether universal.» 

• 

K, por isso, Augusto Comte tracta, quanto á thermo- 
logia, das suas principaes leis, «libertando-se de toda 
a intervenção das hypotheses arbitrarias, pelas quaes 
ainda hoje se pretende explicar os phenomenos ca- 
loríficos, e que não teem outro efíeito real, senão 
obscurecer-lhes a noção e complicar-lhes o estudo.» 

Bastará ? 

Bastaria. Mas, já que no assumpto, ainda um 
ponto. 

Sabendo-se, experimental e evidentemente, que 
não ha pensamento sem cérebro, a philosophia positi- 
va — prefaciando Leblais, declara-o Littré — recusa-se 
a. explicar este facto, quer pela idéa d'uma alma (hy- 
pothese espiritualista), quer pela idéa d'um arranjo 
molecular (hypothese materialista). 

Ociosas se tornariam quaesquer outras palavras 
para precisar mais a doutrina. Sabemos, portanto, 
que a philosophia positiva não toma conta, pelos re- 
putar insolúveis, dos problemas metaphysicos a que 
se prende um mundo de investigações: — a existên- 
cia de Deus. a espiritualidade e immortalidade da. 
alma, etc. 



114 O RRAZ1L MENTAL 



Erro grave será, pois, decerto confundir, em face 
d* isto, o positivismo com o materialismo. Distam pro- 
fundamente, apezar dos pontos de contacto que, mau 
grado seu, o positivismo tem com o materialismo, 
como adiante veremos. Ambos possuem uma base 
coinmum: — a experiência e a sujeição ao facto. — 
Mas o materialismo, explicando, perde-se no vago 
das difíiculdades metaphysicas. 

Por isso, materialismo e espiritualismo sào egual- 
mente suspeitos á philosopbia positiva. Negação ma- 
terialista : affirmação espiritualista — nada mais re- 
sultam para esta eschola do que inetaphysica que 
nega e í/ietaphysica que affirma. mas, em todo o ca- 
so, sempre metaphysica. 

« E uma opinião geralmente recebida, diz Littré, 
entre os metaphysicos e mesmo entre alguns dos que 
cultivam as sciencias especiaes que. combatendo o 
materialismo, se combate do mesmo par e passo a 
philusephia positiva. O erro e grande e merece ser 
refutado. Nenhum dos golpes vibrados ao materialis- 
íiiu auiniro a philosophia positiva: e advirto aos seus 
adversários que não caiam em engano similhante. 
o qual lhes torna a polemica illusoria. 

ohjocta-se ao materialismo o não poder dizer o 
que e em si mesma a maioria. Isso que importa á 
philosophia positixa, a cila que considera a matéria 
como as sciencias a consideram e que usa d*essas 
noções como delias usam as procrias sciencias? 

iVnsura-se o materialismo por não poder expli- 
car nem de que maneira as mudanças do pensamento 
são iToporcionaos às mudanças do cérebro, nem co«- 
mo, no turbilhão vital ou ii\hm perpetua de matéria 



O BRAZIL MENTAL 115 



que se opera entre o corpo vivo e o mundo exterior, 
o cérebro, que participa (Testa troca, conserva com- 
tudo o sentimento constante da identidade. Que im- 
porta isto á philosophia positiva, a eila, que, partindo 
do facto innegavel de % que não se conhece pensamento 
sem cérebro, repelle como vãs todas as hypotheses, 
quer materialistas, quer espiritualistas, sobre as con- 
dições que fazem com que á substancia nervosa es- 
tejam presas a sensibilidade e a intelligencia? <. 

Nem espiritualista nem materialista, a philoso- 
phia positiva desvia da sciencia geral os debates que 
a sciencia particular ha já muito tempo repelliu com 
grande proveito.» 

Eis precisamente, parece, determinados os cam- 
pos e marcado o sitio que tem de occupar a philo- 
sophia positiva. 

Assenta toda a doutrina na lei que atraz vimos 
formulada por Augusto Comte : a famosa lei dos três 
estados. 

Parece que nos esbarramos já aqui com o mesmo 
erro, causa da ruina da antiga philosophia, em seus 
systemas dogmáticos: — o, de principio posto, legislar 
para toda a parte. — Cuidamos que estaremos, antes de 
tudo, a contas com o erro fatal de todas as theorias 
doutrinaes da velha philosophia especulativa: a enun- 
ciação d' um principio-base. Aclararemos. 

Aqui, este principio, se nào toma o caracter d'um 
axioma superior ao exame, d'um postulado indemon- 
strando, ainda assim converte-se n'uma lei idêntica 
para phenomenos diversos, num conceito wÃRfò ^sx^ 
categorias múltiplas. Tanto é pata a. meX»^^^ vX 




eomo para •) política, para a phvsica 
MeJelogía. 

Kssn i! d li ih tinal da investigação humana: en- 
contrar uma expressão que comprehenda iodas as 
i-iiinlíijiiictit^s possíveis Jus o leni autos naturaes. Ter 
um principio primordial, supremo e máximo, do qual 
todas as verdades possam oxtrahir-ae por simples de- 
ducçâo. Mas quem pôde suppor-so capaz de appre- 
ln-tulhM- a variedade phenomenal, que é infinita? Como 
poderia o homem encontrar relação se Bem o nu- 
mero nem a qualidade dos elementos a conjugar elle 
conhece cm sua integralidade perfeita' 

O génio alienado de Wronski foi mais longe, em 
sua pretensão, do que Augusto Comte. Escreveu da 
axpresBão geral do universo; abrangeu a substancia, 
■ ■io sttas modalidades todas, existentes, lindas, positi- 
vas e possíveis. n'um enunciado algébrico. Chamou 
ao seu desvairo: lormula teleológica. Se acertara 
Wronski, todas as BcÍBneiae teriam acabado, porque 
sua morosa investigação não seria precisa. Bastaria 

que ficasse uma: a lógica, cotu sua derivad athe* 

inatíea analyse. 

Mas é i|ue a natureza e demasiado larga para 
estas generalisaçoes synthetieaB, as qnaes, para serem 
amplas, não podem ser precisas. Qui trop embrasi 
//eu êtreint. 

Augusto Comte prepara-se o terreno, l^mhran- 
iln-nos que os progressos da scíencia tendem, do mais 
em mais, a diminuir o numero dos atguna factos ge>- 

P ■ cpae o exame da natureza nos fornece. Assim é. 

i naase positiva deva convergir a não ser senão a li- 
tecida entre os 



ue 
-ia 

ra 
!m 



r 



O BRAZIL MENTAL 117 



e esses pouquíssimos factos geraes. cujo numero veiri 
o* uma progressão decrescente. Assim é também. K 
resulta mesmo curiosa e, ao mais alto gráo, interes- 
sante a contradicçào aqui manifesta entre o monismo 
e « agnosticismo, coexistentes no espirito de Comte. 
É »té esta coexistência heteróclita que prejudica e in- 
valida toda a serie hierarchica das concepções con- 
te» sinas. 

Assim é, repetimos. Somente, a lei que conca- 
tene esses poucos phenomenos geraes nào pôde sor 
a definida lei dos três estados. 

— Todas as nossas concepções são primeiramente 
tl*eoiogicas, em seguida metaphysicas e por fim po- 
sitivas. 

homem é theologico na sua infância, meta- 
Physico na sua mocidade e positivo na sua virilidade. 
As sociedades, sujeitas á mesma lei, passam suc- 
essivamente pelos três estados, em relação ás suas 
concepções e vida connexa. N*estas, a phase theolo- 
£ica vae subindo ( como sempre em tudo se sobe, se 
Progride) do estado fetichista ao polytheista, d'este 
a ° monotheista. — 

Passando, fere-nos o amor que Augusto Comte 
^tttia pelo numero 3. Para elie: três estados; três 
s Ub<livisÕes do estado theologico ; três grandes répro- 
bos; três grandes eleitos; três lemmas fundamen- 
tas da religião positiva: o amor como principio, a 
°*dem como base, o progresso como fim; três socie- 
**fcdes: a familia, a pátria, a humanidade; três partes 
^fcsenciaes de toda e qualquer religião: o dogma, o 
Gulto, a disciplina; três anjos da guarda; três ora- 
ções; três attributos do Grande-s£r: \mn\ttn&b, stoc- 



118 O BRAZIL MENTAL 



no, todo-poderoso; três divisões da religião positiva: 
a moral e a poesia, a philosophia e a sciencia, a po- 
litica e a industria; três instinctos sociaes do homem; 
três modos de viver : para, em e por os outros, etc. 
Littré reporta amor similhante ás influencias da sua 
infância catholiça. 

Também por três estados, a vasta generalidade 
d'essa lei parece-nos abusiva. Ella se applica sem ex- 
cepções a todas as raças e a todos os individuos. Ora, 
pelos individuos se vê desmentida e pelas raças se 
nâo confirma. 

Todas as concepções scientiticas, como todas as 
concepções litterarias, históricas, artisticas, todas as 
concepções humanas, em uma palavra, nâo teem, 
quanto a nós, passado pelas successivas pliases indi- 
cadas pelo Pontifice da Humanidade. 

O espirito humano, de. todos os tempos, ha se- 
guido simultaneamente, e não successivamente, as 
differentes vias indicadas, não deixando assim uma 
para tomar em seguida exclusivamente & outra. 

Já o observou o fourierista Peilarin, cunhado de 
Littré, respeitador e tímido. Na verdade, d T este modo 
o espirito humano se occupou sempre simultanea- 
mente de Deus e da revelação (phase theologica), 
de abstracções (phase metaphysica), dos conheci- 
mentos reaes (phase positiva). 

A intransigente aítirmativa solidaria de que os 
methodos usados pelo espirito são successivos e ra-? 
dicalmente differentes é, no fim, um cor.ollario, e er^ 
roneo, porque o theorema é fabo. O naturalista inglez 
Huxley, n'um dos seus primorosos sermões leigos, 
demonstrou com incontrastavel exaccão a coexisten- 



O BRAZIL MENTAL 119 



cia dos methodos suppostos successivos. E o brazi- 
leiro monista haeckeliano Sylvio Romero transcreveu 
as passagens typicas d'esse discurso, no seu livro de 
polemica contra o positivismo, intitulado: Doutrina 
contra doutrina. 

A phrase de Comte, respeito ao successivo trans- 
formar das concepções individuaes, não é também 
verdadeira, o que se torna evidente á mais simples 
attencào. 

De facto, o homem — no seu typo, aqui tomado, 
de o ser superior ainda ao simples orgânico homem 
sapiente de Linneu — o homem não é successivamente 
theologo na sua infância, metaphysico na sua mo- 
cidade e physico na sua virilidade, poisque, em to- 
das as idades, elle se occupa de Deus, faz abstrac- 
ções e aufere conhecimentos positivos. 

Mas, incarnemos em individualidades, mais ou 
menos notórias, systemas de todo suppostos separados 
uns dos outros ( o que também não é exacto, pois con- 
tiguamente adherem e reciprocamente se penetram). 
O feitio erróneo do conceito destaca, então, vivamente. 
Quer dizer, consideremos o homem em sua evolução 
especifica. 

Augusto Comte não vê aqui senão a evolução 
progressiva. Esquece que também ha a evolução re- 
gressiva. Nos nossos recentes dias, a estudaram, com 
relação á biologia e á sociologia, três distinctos bel- 
gas, João Demoor, João Massart e Emilio Vander- 
velde. 

Mas revertamos ao ponto concreto. Temos, na 
verdade, que, em contra do aliegado, o sm\ da Q>^- 
noude íoi positivo na sua moç\àflÀfc ^ StoaK&H^^* 



120 O BRAZIL MBNTAL 



sua virilidade. Assim ( acceite o radicalismo differen- 
cial da determinação de Comte) Vacherot, como Har- 
tmann, como Janet, ha de entender-se como puro 
metaphysico, da mesma forma que Ségur, Gaume, 
Preppel como puros theologos. 

Augusto Comte olvida as religiões existentes e 
seus corpos sacerdotaes. Se se lembrasse, cogitaria 
que a mór parte, a quasi totalidade das classes cultas 
das raças civilisadas vive cerebraimente em plena 
theologia. Salvo se puzer em duvida a sua sinceri- 
dade dogmática. 

E, quanto á independência dos methodos, podo 
também completar-se a refutação theorica e gené- 
rica de Huxley ao conspecto dos casos particulares, 
que a lei dos três estados foi ella f aliaz, a chamar «í 
autoria. 

Assim, Pascal, Newton e Leibnitz, fervorosos 
theologos, eram-o ao mesmo tempo que vastamente 
positivos, quando em suas descobertas, realistas ou 
racionalistas. Nos tempos modernos, Cauchy, grande 
mathematico e catholico fervoroso. O padre Moigno, 
chefe d'uma revista naturalista Cosmos, collaborada 
por immensidade de sacerdotes, que discorrem das 
sciencias da mais concreta realidade, na sua parte 
theorica e nas- suas applicaçòes praticas. Assim, Agas- 
siz, naturalista e deista. Assim, o eloquente vulgari- 
sador Flammarion ou o chocho vulgarisador Figuier. 
Positivos nós momentos positivos, muitos homens il- 
lustres sào theologos e metaphysicos nos respectivos 
momentos também. Pois Descartes deixava de ser 
metaphysico, quando assentava a celebre petição de 
principio: — Eu penso, logo existo? E não seria per- 



O BRAZIL MENTAL 121 



feitamente positivo, quando cogitava sobre o movi- 
mento da terra? A theoria dos turbilhões será posi- 
tividade? Nem pelo intuito? E o Discurso do me- 
thodo redundará em metaphysica? Nem peio alvo? 

Mas hoje, mesmo, hoje em dia, quando, alfim che- 
gada, a phase positiva, prescripta por Comte, deve- 
ria reinar sem titubiamentos e sem contradiccòes? 

Todavia, Schopenhauer nào deixou de ser simul- 
taneamente metaphysico nebuloso e positivo clarís- 
simo. E o poderoso Hartmann, efitáo? Na França, 
olvida-se já a nomeada de Vacherot, e o nome de 
Cournot esqueceu? 

Á hora actual, depois do apparecimento da Re- 
vue philosophique, a metaphysica é legião. Fixemos 
somente a vista sobre a fileira dos neocriticistas, 
desde os primordiaes Rénouvier e Pillon, até o mo- 
derníssimo e distinctissimo Alfredo Fouiliée. 

Mas ainda hontem o grande Cuvier, theologo, con- 
ciliador com o positivo, no empenho obstinado de fa- 
zer fraternisar o Génesis com a sciencia. E, a este 
respeito, ainda Mareei de Serres e Frederico Klee: a 
tomar, tâo só, estes dois nomes na lista immensa. 
«* O padre Secchi, contrapõe com muito senso Ch. Pel- 
larin, o padre Secchi, o sábio director do observató- 
rio de Roma, crê, sem duvida alguma, visto ser pa- 
dre cathoiico, no milagre de Josué íazendo parar o 
sol.* E isso impede, porventura, o padre Secchi, na 
sua qualidade de astrónomo, de calcular a marcha 
dos corpos sideraes, como se elia íôsse submettida a 
leis invariáveis?» 

Augusto Comte teve uma singular susçeita <i!*&\& 
reparo fundamental, que lhe pTfcj\3L$\ça. ^ Xtasfò ^ 



122 O BRAZIL MENTAL 



toda sua ideativa construcçào. A ella se reporta nas 
poucas palavras seguintes: «Posso affirmar nâo ter 
jamais achado argumentação seria em opposição a esta 
lei, ha dezesete annos que -tive a felicidade de a des- 
cobrir, a nào ser a que se fundava sobre a conside- 
ração da simultaneidade, até aqui necessariamente 
muito commum, das três philosophias nas mesmas 
inteliigencias. Ora, uma tal ordem de objecção não 
pôde ser convenientemente resolvida senão pelo uso 
racional da nossa hierarchia scientifica, que, dispondo 
as partes essenciaes da philosophia natural segundo 
a sua complicação e a sua especialidade crescente, 
de conformidade com o conjuncto das suas verda- 
deiras aííinidades, faz immediatamente comprehender 
que o seu vôo gradual deveu necessariamente seguir 
a mesma successâo, de maneira que uma única phase 
da evolução total poude fazer provisoriamente coin- 
cidir o estado theologico d'ellas com o estado meta- 
physico e mesmo com o estado positivo d'uma parte 
anterior, ao mesmo tempo mais simples e mais geral, 
apezar da tendência continua do espirito humano 
*para a unidade do methodo. Ficando assim plena- 
mente regularisadas estas anomalias apparentes, a 
difflculdade não seria verdadeiramente insolúvel, se- 
não se a simultaneidade pudesse apresentar um ca- 
racter inverso; do que desafio a que me indiquem 
um só exemplo real, que, todavia, nâo provaria mais 
do que a necessidade de aperfeiçoar, ou, pelo máxi- 
mo, de rectificar a nossa theoria hierarchica, sem 
que de tal devesse resultar incerteza alguma legiti- 
ma sobre a lei da evolução mesma.» 

Chegados a este ponto de real sUbtilidade diale- 



O BRAZIL MENTAL 123 



ética, nào se peja Ch. Pellarin de confessar que 
não pôde « comprehender o valor d*uma tal res-r 
posta á objecção tirada da simultaneidade dos três 
estados intellectuaes, tomados por Comte para cara- 
cterisar as três phases distinctas da evolução do es- 
pirito humano. Pôde ser essa uma vista engenhosa; 
verdadeira mesmo a certos respeitos, mas não pôde 
applicar-se aos estados sociaes successivos nem for- 
necer uma característica de cada um d'elles, visto 
terem sido sempre regidos ao mesmo tempo por uma 
mescla, em diversas doses, dos três modos de conce- 
ber: — theologico. metaphysico, positivo.» 

Não tinha, realmente, de que se envergonhar, 
em sua confissão, o dedicado fourierista. Porque o 
lance é, em verdade, difíicil. 

Mas a subtileza não colhe. Sua ambigua obscu- 
ridade já nos previne contra ella. E, examinando-a 
intrinsecamente, o desengano é formal. 

Porque, a questão está, para Comte, n T isto. Pre- 
tende elle conjugar a evolução de conjuncto com a 
evolução especial de cada sciencia inscripta na sua 
classificação hierarchica. Uma e outra passaram pelar 
mesma lei dos três estados. Ora, poude succeder que, 
emquanto as sciencias inferiores estavam já positivas, 
as superiores — na sua parte anterior, explica elle — 
ainda estavam theologicas ou metaphysicas. Mas, afi- 
nal, também haveriam de chegar a ser positivas. De 
inodo que tudo ficaria positivo. Sciencias inferiores, 
que já o estavam. Superiores, que o vieram a estar. 
Conjuncto social, que, sujeito á mesma lei de evolu- 
ção, attingira também o terceiro estado. IVesCaste.,, *> 



124 O BRAZIL MENTAL 



simultaneidade fora transitória; e a contradicção é 
apparente. 

É engenhoso; e, como tantissimos relances de 
Comte, marca o prodigioso génio d'este homem ex- 
cepcional. Mas não é exacto. E, assim, voltamos ao 
ponto de partida. 

Porque não é exacto, suggeriu-o lealmente o pró- 
prio Comte. Porque a difficuldade nào seria verda- 
deiramente insolúvel, senão se a simultaneidade pu- 
desse apresentar um caracter inverso. 

Quer elle dizer: senão se as sciencias superiores 
estivessem já no goso do methodo positivo e as in- 
feriores ainda estivessem nas abusões do methodo 
theologico ou metaphysico. 

Ora, é precisamente o caso. Note-se bem que, 
ainda que não fosse, ainda que não se desse esta se- 
gunda hypothese, bastava a primeira para invalidar 
a lei dos três estados como formula synthetica do 
desenvolvimento do espirito, poisque lhe tiraria a ge- 
neralidade. 

O primeiro caso — cuja existência Comte acceita, 
«conforme não podia deixar de ser, perante a evidencia 
nitida da realidade e que, tão só, elle tracta de expli- 
car — o primeiro caso mostra já que a lei não con- 
firma o desenvolvimento do conjuncto nem coexiste 
com o desenvolvimento especial das partes consti- 
tuendas d'esse conjuncto. Pôde ser — eé — uma lei 
parcial, um aspecto d'uma lei geral em que, diffe- 
renciadamente, se integre, lei geral que está por en- 
cpntrar. Consoante se diz na terminologia mathema- 
tica, elia é necessária, mas não é sufficiente. E é-o, 



O BRAZIL MENTAL 125 



com as correcções que têm de lhe ser introduzidas 
e que estão ainda também por institucionalmente sys- 
tematisar. 

Mas o segundo caso, por egual, se dá, também. 
Augusto Comte desafia a que lhe indiquem um só 
exemplo real. Não ha senão o embaraço da escolha. 

Na sciencia social, secções existem governadas 
por um methodo rigorosamente positivo: a economia 
politica, por exemplo. Ora, os theoremas da economia, 
implicando o methodo positivo, nào coexistem com as 
chrimeras separatistas do vitalismo em biologia, impli- 
cando o methodo metaphysico ? Mas nào consideremos 
a economia, que repugna a Comte, por outras razões 
aliaz. A arte das construcções, a estratégia sào depar- 
tamentos positivos da sciencia social? Sào, natural- 
mente. Entrementes, descendo na escala, a sciencia 
da vida embaraça-se em entidades, filhas da mais ex- 
trema abstracção, quando, no esgotamento de recur- 
sos, nào apella directamente para o methodo theologico 
da intervenção providencialista, permanente e succes- 
siva. Barthez é do século xvm; Vitruvio e Vegecio 
do tempo dos romanos. 

A chimica constitue-se com Lavoisier; e a phy- 
sica desde Galileu, Torriceili, Pascal que estava as- 
sente em suas bases racionaes. Todavia, é certo que, 
no mais remoto da meia-idade, a chimica tinha an- 
dado já enormemente. A massa dos conhecimentos 
positivos adquirida n'esse dominio era immensa. E 
uma competência especial moderna, Berthelot, com- 
prazeu-se em demonstrai' o quanto devemos de pro- 
cessos de analyse e de resultados obtidos aos alchi- 
mistas. Mas a physica, até séculos mm Xaxdfò, «vxAa. 



126 O BRAZIL MENTAL 



se deslumbrou de visões metaphysicas. Assim, a chi- 
mica punha á nossa disposição methodos positivos de 
estudo e factos reaes explicados, emquanto a physica 
ainda andava em bolandas com o horror do vácuo, 
para a ascensão da agua nas bombas. 

A astronomia regular isou-se positivamente como 
corpo doutrinário. Mas a mathèmatica ainda desvaira 
em projectos metaphysicos. Por metaphysica, o pró- 
prio Comte lhe rejeitava a secçào inteira do calculo 
das probabilidades. 

Ora, como conciliar a positividade da astrono- 
mia com a metaphysica das mathematicas, a positi- 
vidade da sociologia com a metaphysica da biologia ? 
Nào será este o caso inverso, de que Comte não sup- 
punha possivel um só exemplo ? É certo que elle logo 
restringe o alcance da sua coarctada. Diz que esse 
exemplo real, a existir, nào provaria mais do que a 
necessidade de aperfeiçoar ou, pelo máximo, de re- 
ctificar a sua theoria hierarchica, sem que de tal de- 
vesse resultar incerteza alguma legitima sobre a lei 
da evolução mesma. 

Como assim? Pois, nào mais longe do que qua- 
tro ou cinco linhas antes, não havia Comte estabe- 
lecido que a sua hierarchia estava sujeita á mesma 
lei geral ? Nào era preciso mesmo dizel-o, visto como 
essa hierarchia comprohende o conjuncto da evolução 
offerecido ao estudo da philosophia natural, conjuncto 
que está dominado por essa lei fundamental. 

Logo, se a hierarchia não comporta a lei, como 
é que a lei é exacta? É que a hierarchia é que não 
é perfeita? Então, não se encontrou o conjuncto das 
verdadeiras afinidades. Mas estas foram procuradas 



O BRAZIL MENTAL 127 



sob o critério precisamente (Tessa lei. Então, o seu 
vôo gradual nâo seguiu necessariamente a mesma 
successào. Mas isto é contra a hypothese. N'uma pa- 
lavra de resumo : se a hierarchia tem de ser corrigi- 
da, com ella o tem de ser a lei da evolução mesma. 
Se uma é incompleta, a outra o é também. A con- 
clusão está contida nas premissas. Se a conclusão tem 
de possuir maior amplitude, maior amplitude urge 
dar á premissa, poisque nâo possa aqui derivar-se 
senão uma única. 

Ora, a insufflciencia da lei dos três estados c 
manifesta. 

Ella não permitte que dentro lhe colloquem os 
conhecimentos positivos sabidos nos dois estados an- 
teriores, theologico e metaphysico. E, todavia, sem a 
positividade de conhecimentos é que o homem não 
poderia fazer esta simples e primordial coisa que se 
chama viver. Sem abstracções pôde o homem aguen- 
tar-se; agora sem alimento é que não. Isto é banali- 
dade velha. Já lá dizia o outro: Primum vivere, 
deinde philosophari. É, pois, pela positividade que o 
homem debuta. Despedaçando, ás lascas, o silexpara 
fazer d'elle arma de ataque e defeza; arrancando o 
ramo para se abordoar; construindo a casa; fabri- 
cando o anzol; espreitando a germinação da terra: 
accommodando o lume; sujeitando o animal. 

Assim o chegou a observar Littré, quando com- 
prohendeu que a famosa lei não abrangia nem o des- 
envolvimento moral, nem o industriai, nem o esthetico. 

De facto, perguntaremos, com um critico, aonde 
achar nas duas primeiras categorias quadro para 
as noções positivas propriamente â\ta&, ^w\àfò ws&\^- 



128 O BRAZIL MENTAL 



eidas? E como explicar o progresso moral e esthe- 
tico pelo influxo dos modos de vêr particularistas 
concernentes ás concepções puras e departamentar- 
mente metaphysicas? 

Quanto ao desenvolvimento industrial, o caracter 
positivo da technologia, isto é da sciencia applicada 
ás artes, torna-o um absurdo realista dentro da fa- 
mosa lei. Esta nào se concilia, em maneira alguma, 
com o conceito de que a positividade nâo seja, afi- 
nal, o terceiro estado, mas, coisa imprevista! exacta- 
mente o primeiro. 

Eis, todavia, a oxacçào, palpável aliaz e por isso 
engeitada; eis a realidade, patente offerecendo-se, ma- 
nifesta aos olhos de todos, e por isso mesmo nào vis- 
ta. A evidencia custa muito a acreditar; e nào ha 
coisa tam inverosímil como a verdade.. O engano se- 
duz; é lógico, accessivel, fácil. Insinua-se. A si mes- 
mo, se recommenda. 

Sem embargo, o que é exacto é que o homem só 
tarde se occupa do que nào seja estrictamente posi- 
tivo. 

A religião primitiva o que é senào o conjuncto 
do saber positivo das gentes iniciaes? Os sacerdotes 
sào adivinhos e feiticeiros; isto é, astrónomos e mé- 
dicos. Cuida-se que se é religioso para se aprofundar 
a essência da substancia? É para curar a tinha; para 
que as vaccas dêem muito leite; haja chuva quando 
convenha. Nenhuma idealidade; um utilitarismo ex- 
treme. 

Esta intuição, aliaz immediata, que formamos de 

longo praso, não escapou também ao talento precoce 

e mallograáo de Guyau, o- eloquente auctor da Irre- 



O HRAZIL MENTAL 129 



liguvo do futuro. O azedo critico brazileiro, Tobias 
Barreto, n'um dos ensaios que constituem a collec- 
çâo dos Estudos allemães, nâo deu íé de similhante 
conceito, que é o capital na obra. Alguns desses en- 
saios chegam, até, ao exaggero de se tornarem odio- 
sos, porque ali iam ú frescata d'uma sufficiencia vai- 
dosíssima uma grosseria de maneiras revoltante. É 
certo que o escriptor possue raras qualidades de pen- 
samento e uma illustracâo vasta. Mas é ordinário de 
condição. Instruído, vê-se que nâo foi educado. A sua 
sciencia é mal nascida. Seu saber não tomou chá em 
pequeno. 

Um dos seus primeiros e capitães trabalhos in- 
titula-se Um discurso em mangas de camisa. Foi 
n'esta attitude familiar de preparo para barbeiro que 
este homem se apresentou sempre diante de gente. 
Shocking ! 

A analyse referida gravita, toda, em torno de 
duas illusòes: a primeira, a de que Guyau é positi- 
vista. Nâo admira esta incomprehensào, porque ha 
mais e melhor no género. 

Tobias Barreto, em seu ensaio acerca do volume a 
que com requintado maneirismo chama «calhamaço», 
reporta-se de um seu precedente escripto. O escri- 
pto a que elle se refere, e que Sylvio Romero se las- 
tima de lhe nâo haver chegado a tempo de o incluir 
no livro dos Estudos allemàes* denomina-se A Reli- 
gião perante a Psychologia, e sahiu publicado no 
n.° 6 e seguintes de O Americano, periódico que viu 
a luz em Pernambuco em 1870. 

É trabalho decisivo na vida i\\teÀteç\>\\a\. ^"IsJèsas* 
Barreio. Por trvs vezes diversas, « e&mXwuB»" 1 ®^- 



130 O BRAZ1L MENTAL 



vallos, elle voltou ao problema religioso, e sempre se 
baseava sobre aquelle estudo : em 1878, nas « notas » 
ao Discurso em mangas de camisa, que Sylvio Ro- 
mero republicou, sob o titulo — Glosas a alguns pre- 
conceitos brazileiros; em 4881 — nos Traços sobre a 
vida religiosa no Brazil; e, finalmente, n'este estudo 
acerca de Guyau, em 1888. 

Esse querido trabalho primacial, sempre lembra- 
do, é uma analyse do livro de Vacherot: — La Re- 
ligion. 

. Pois bem. Tobias Barreto revindica em 1888 a 
gloria de haver posto em evidencia, «ha dezoito an- 
nos», diz com orgulho, uma grande descoberta. Foi 
o caso, a combatendo as ideias de Vacherot, cuja íi- 
liaçào no positivismo nào me passou entào desper- 
cebida: demonstrei-a cabalmente.» 

É phantastico. Positivista, Vacherot! O ultimo dos 
metaphysicos da grande raça, em França. Aquelle 
erudito mystico da Historia critica da Eschola de 
Alexandria, thema propositadamente escolhido. O col- 
laborador, com os espiritualistas clássicos como um 
Amedée Jacques ou um Émile Saisset, na propaganda 
orthodoxa com livrinhos vulgarisadores, qual o que 
debate o supposto conflicto entre — a sciencia e a con- 
sciência. O auetor do livro fundamental de A meia- 
physica e a sciencia, em forma de dialogo, cuja decima 
quarta palestra, versando sobre a philosophia do sé- 
culo xix, se emprega precisamente a refutar o posi- 
tivismo. 

Vacherot positivista! Mais ouviremos. Que nos 

reservará ainda, em matéria de revelações abraçada- 

brantes, a sciencia germanophila e francophoba da 



O BRAZIL MENTAL 131 



pequenina seita que no Brazil dá pelo nome patusco 
de eschola teuto-sergipana? 

A confusão procedeu da repulsa, pelo idealismo 
transcendente de Vacherot, vibrada contra as religiões 
precisamente positivas. E tal confusão é, ademais, de 
dupla natureza. Porque deriva do conceito da provi- 
soriedade das religiões, these considerada irreducti- 
velmente positivista. 

Mas o erro c tam grosso que o próprio discipulo 
e admirativo editor, Sylvio Romero, se vê obrigado 
a corrigil-o em nota final ao estudo reproduzido, pon- 
derando em como, na obra subsequente ao Curso de 
philosophia positiva, Augusto Comte tractou de re- 
conhecer o caracter perpetuo do sentimento religioso. 

A lembrança da permanência d'este sentimento 
reconduz-nos á lei «dos três estados», onde elle se 
desdobra, a dentro da phase theologica, na triplice 
modalidade progressiva da condição feticbista, poly- 
theista e monotheista. 

Progressiva? Sim, decerto, se attendermos ás 
concepções mesmas de per si. Mas, se as considerar- 
mos como características definidamente determina- 
tivas dos aggregados sociaes em que, alternadas, es- 
sas concepções imperem, será então 'ainda também 
assim ? 

É caso para pensar. Porque, assim entendido, o 
estado polytheista da Grécia de Péricles e da Roma 
de Augusto será, na verdade, muito, muito inferior 
ao estado monotheista dos mahometanos de Africa? 

Note-se que aqui volta a embaraçar-nos o con- 
ceito da simultaneidade de estados, ^A\KÍ\^xttv^\&}fc 
considerados como com irreduct\ve\ tvgw ô\n«%<soNs^- 



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tiV- - : ii[il'<> Infira. Ajmi -íU Varus^. '.\:r.o no ~o- 
<\i-.'.:tii'/ '-Miiulíi-ii. .SariU. Antoni" 'lydiina com -:-\- 
r.-.ij fji; .-.AK) Jijáo ou *!•■ .Santi" Auiórosio. a,:e qu*. 
"ni;itivdri)':nf:, lh»:s chegue a v»*j d- imperar uib- 
iti. f'or <rsU ifi[f-'-nU'i insidi.i do espirito religioso 
r-'*u';iliain ns contrários. Max-Mu!ler não carecia 
'!*';fiij»lo tarn remoto. A theoria que etiquetou com 
i neologismo bárbaro implica o processo evolutivo 
> polytheismo 
d caso. vmI- 




• i RRAZIL MENTAL 133 



giosa a que attingiram de golpe para n*ella perpe- 
tuamente se incrustarem. 

Povos existem que, de tempos immemoriaes, nâo 
bolem d' um fetichismo primitivo e monstruoso. O fel- 
lah que adora o crocodilo. O dravida que se prostra 
perante a serpente de campainhas. Os negrinhos da 
Guiné que quedam extáticos deante do manipanso, 
que é uma simples pedra. 

Outros, chegados a um certo grau de desenvol- 
vimento progressivo, param subitamente e demo- 
ram-se n'ura estacionamento de séculos, como essa 
região moral da China atheista, d'um exemplo tam 
flagrante. 

Mas os mais significativos, então, são ainda aquel- 
les que, n'um stadio de estupidez e ignorância extre- 
mes, nunca tiveram Ídolos, poisque nunca procura- 
ram lobrigar, ao de leve, as apparentes causas dos 
mínimos phenomenos do universo ambiente ou da 
própria alma. Contentam-se com as relações flagran- 
tes entre as coisas triviaes da sua abjecta existência. 
D'est'arte, os betchuanas ou betjuemas, ainda assim 
uma das tribus mais intelligentes do interior da Africa 
meridional. Segundo Anderson, não U % m em 1 sua lín- 
gua vocábulo com que se possa exprimir a noção da 
divindade. D'elles diz o missionário Moffat que não 
possuem a menor idéa religiosa. O sacerdote portu- 
guez Barroso, em sua passagem pelo Congo lusitano, 
encontrou tribus em identidade de circumstancias. 
FTuma conferencia que fez no Porto, proclamou que 
julgava estéril todo o esforço de catechese sobre si- 
milbantes naturezas. Demasiado broncos: sabencUx 
ainda á terra-mâe. 



134 O BRAZIL MENTAL 



No aspecto extrínseco da lei dos tres-estados, pa- 
receria que estes povos chegaram assim ao primeiro 
grau da sua educação intellectual, á concepção posi- 
tiva do mundo, sem que os embarace somenos cogitar 
inútil sobre a existência d'um metaphysico Creador 
qualquer. Todavia, na realidade, elles vegetam n'u- 
ma animalidade de infinito atrazo. 

Á face de tudo isto, não ha que farte para du- 
vidar da integra exacçào da lei dos três estados? 

Por certo ; e Wyrouboff assim o entendeu n'uma 
certa medida. Foi celebre o artigo, publicado na Re- 
vista de philosophia positiva, de que. com Littré. 
era um dos directores. 

Esse artigo propunha-se replicar satisfatoria- 
mente a esta pergunta: 4$ civilisações do extremo 
Oriente estão submettidas â lei dos três estados? 

O escriptor responde que a lei dos três estados, 
formulada por Comte, não se applica senão á raça 
aryana e que é preciso não vêr n'ella uma lei geral 
e racional do desenvolvimento humano. 

Esta inesperada sahida fez bradar a certo intelli- 
gente biographo do sympathico russo : — Ora aqui está 
um positivismo singularmente herético! — Exclama- 
ção de uma surpreza parece que perfeitamente ra- 
soavel. 

A lei dos três estados não se realisa, integra e 
sem hesitações, na ordem conceituai que mais par- 
ticularmente se affigura visar. E, o que é peor, ella 
não explica o progresso da humanidade, que pôde 
coincidir com a evolução dos pensamentos marcada 
pela formula que a discute, mas que se pôde fazer. 
também, sem a interferência da acção d'esses pensa- 



O BRAZIL MENTAL 135 



mentos. Ainda que perfeitamente exacta, essa lei não 
indica e não implica senão uma certa ordem de fa- 
ctos e não explica os progressos d'outras categorias, 
que se operam independentemente por fora da su- 
bordinação desejada. 

Convém lixar o exame das tendências da scien- 
cia moderna nos pontos em que essa lei pôde, mais 
ou menos, tentar legitimamente applicar-se. Decerto, 
ninguém irá, por exemplo, procurar n'essa lei o niso 
formativo das mathematicas, quer na sua abstracta 
parte do calculo, quer nas applicações d'esse calculo. 
O que seria o estado theologico da álgebra ? O que 
seria o estado metaphysico da theoria das machinas? 

Ao contrario, a abstracção penetra, com êxito, em 
outros departamentos scientificos. Assim dominam 
verdadeiras hypotheses metaphysicas, a doutrina ató- 
mica na chimica; com o seu ether, de que Comte 
mofava, a theoria dynamica na physica. 

Conclusão : a lei de Comte não é ainda a de que 
precisamos. 

Não serve, porque é de menos para medir o que 
é de mais. 

Agora, ella carece, para que esta analyse resulte 
monos incompleta, que esbocemos os motivos da sua 
constituição, os factores racionalistas que convergi- 
ram para sua elaboração. Quer dizer: urge, no mo- 
mento, íazer critica á maneira de Taine, buscando 
os estímulos subjectivos de Augusto Comte na cons- 
trucção regular de sua formula. 

Parece-nos ser este o caso: 

Augusto Comte, como todos os que julgam pos- 
suir uma norma de doutrina para a d\£feç&&â fta>\&k- 



136 O BRAZIL MENTAL 



inanidade, tractou de mostrar que esta seguia um 
movimento progressivo, cuja lei encontrara; e que. 
portanto, urgia fixar esse movimento por meio da 
acção de principios theoreticos, transformados ulte- 
riormente em leis positivas, de modo a que o indi- 
vidualismo, com os seus arbitrios, nào viesse preju- 
dicar a marcha ascensional da humanidade para o 
ideal da sua perfectibilidade, na linha, recta ou cur- 
va, que ella percorre. 

Por isso, condemnando todos os principios de or- 
ganisaçào, politica ou social, que, mais ou menos, 
procedessem d'essa força interna e irrefragavel, es- 
sencialmente subjectiva e individualista, que se cha- 
ma a liberdade e que é preciso nào confundir com o 
livre arbitrio dos psychologos, o fundador da Politica 
positiva, por intermédio da negação da liberdade ( do 
pensamento e da acçào), chegou á conclusão de um 
Estado dirigido pelos sábios e enriquecido pelos in- 
dustriaes. EUe se assemelha extraordinariamente ao 
compressor Estado absoluto que o autocratismo — no 
typo alastrativo — em formação da Prússia parece 
haver encommendado ao génio, aqui sophistico, de 
Hegel, como fim final, fecho e remate da sua theoria 
do Espirito. 

Ha, nào obstante, quem, pertencendo ou deixando 
de pertencer á chamada eschola liberal, entenda em 
contra dos moralistas. É, afinal, a esta distineção que 
toda a polemica entre publicistas e estadistas leva. 
fatalmente. Ella é o golpe-de-genio de Stuart MUI. 
Ha, pois, diziamos, quem entenda que a dynamica 
social nào encontrou (nem porventura encontrará) 
a lei suprema que regula o complexo movimento evo- 



O BRAZIL MENTA!. 13* 



lutivo que esses tantos bem sabem que a humanidade 
executa no tempo e no espaço. Esta desastrosa im- 
possibilidade é, mesmo, o insuperável obstáculo para 
a fixação da sciencia social. De como cila é diffieil 

* 

de constituir mostrou-o exhuberantemente Herbert 
Spencer em obra a que, illudido pelos primeiros pa- 
ragraphos do intróito, o snr. António de Serpa cha- 
mou humorística e que em Hespanha os editores Mon- 
taner y Simon inverosimilmente illustraram com gra- 
vuras. 

No Brazil, Tobias Barreto consagrou parte da 
sua desconnexa vida mental a sustentar a impossi- 
bilidade da sociologia ; mas das sentenças d'esse, fe- 
lizmente que ha quasi sempre recurso. 

Como quer que seja, os tantos de que acima fal- 
íamos não procuram, á laia dos socialistas aueto- 
ritarios, regulamentar à priori as sociedades para 
um dado fim, cujo objectivo é claro e justo e neces- 
sário mas cujos meios de obtenção restam, mais ou 
menos, vagos. Cônscios de sua inópia, limitam-se a 
expedientes de occasiâo. Feliz a humanidade se os 
poderes constituídos, a grado ou a ira das classes eco- 
nomicamente favorecidas, se decidissem a effectival-os. 
em sua pureza e integralidade! 

Quanto a uma lei geral que explique o passado, 
classifique o presente e faça prever acertadamente o 
futuro, nào acreditam esses incorrigíveis scepticos 
que a possua qualquer dos systemas philosophicos e 
históricos até agora bem ou mal apparecidos. Con- 
tentam-se com buscar a lei de cada serie de movi- 
mentos parciaes. Sommados. dão o movimento gerai. 



138 O BRAZIL MENTAL 



Integradas, se se conhecessem todas, viriam a formar 
a lei universalista. 

Das formulas genéricas que têm surgido sueces- 
sivamente, nenhuma ha que escape á commum der- 
rota. Desmantelam-se todas essas classificações ar- 
bitrarias do humano evolutir. Seja o quadro do mo- 
vimento das civilisações gisado por Fourier, e aliaz 
tam luminoso em tantos planos. Seja esta lei saint- 
simoniana dos três estados, a qual, modernamente, os 
mais avançados, dos da eschola que acompanhou Lit- 
tré e Wyrouboff, com estes mesmos, até, repudiaram 
como incompleta, quando nào contradictoria. 

E isto nào podia deixar de ser. Sobre as objecções 
parcellares, expendidas nas paginas precedentes, pai- 
ra uma negativista consideração de conjuncto. 

Com efleito, o espaço de tempo que d'uma ma- 
neira clara e precisa a historia fornece para a obser- 
vação das sociedades é demasiado curto. Com tam 
acanhado recurso pretende-se o desproporcionado. 
Deseja-se nada menos do que a curva de que encon- 
traria a funcção essa geometria analytica que desse a 
equação dos povos suspeitada por Quételet, nos seus 
ensaios de applicação das mathemathicas ao movi- 
mento humano — estatística chamada. Esta tem gera- 
do, quando muito, taboas de números abreviados, 
como as de mortalidade de Déparcieux e Duvillard, 
dum alcance tam próximo e pequeno que não excede 
a esphera restricta de sua applicação. Agora, quanto 
á larga curva appetecida, acanhadamente não possue 
ella a ensancha idónea para ser reduzida ao calculo 
rigoroso, — de modo que a equação, a formula theo- 



O BRAZIL MENTAL 139 



retica que queira dar esse movimento, determinar-lhe 
os pontos de passagem nào pôde deixar de ser uma 
approximação ousada, sem um definido caracter, pre- 
cisamente scientifico. 

Assim nào pensa um positivista portuguez, o snr. 
Theophilo Braga, homem, por todos os títulos, emi- 
nente. Elle escreveu: «Emquanto ao facto collectivo 
da vida das religiões, determinam-se grandes phases 
bem accentuadas mas incapazes de serem submetti- 
das á delimitação do tempo; phases que resultam de 
profundas modificações da consciência e da intelli- * 
gencia Tiumana para as quaes a acedo dos séculos è 
sem eficácia; taes sào o per iodo do fetichismo s an- 
te r historico, dando forma ao sentimento espontâneo, 
estabelecendo o trabalho da domesticidade dos ani- 
maes, seguindo-se-lhe o periodo do Polytheismo, em 
que se constitue um sacerdócio^ em que se adoram 
as forças da natureza, e em que se estabelecem for- 
mas de culto publico correspondentes a uma socie- 
dade com profundas necessidades artísticas; por ul- 
timo, vem a phase do Monotheismo, em que o do- 
gma se torna abstracto, correspondendo a uma so- 
ciedade com necessidades philosophicas e tendendo 
para a crença com forma de demonstração.» 

Permittimo-nos asseverar que o douto professor 
nào diz bem, poisque estranhamos que assegure que 
as phases caracterisadas por aquella gradação sào 
bem accentuadas e que, todavia, sào incapazes de 
ser submettidas ú acçào do tempo. Ora, esta grada- 
ção, se é suecessiva, é-o quanto ao tempo, porque o 
espaço de observação, para o caso a ou b 3 é fixo. Mas 
a affirmação anterior leva logo a cç&c op&, >^\& \fcfe- 



140 O BRAZIL MENTAL 



nos quanto ao tempo, se nâo podem accentuar essas 
phases. E isto é capital, porque entào poderão con- 
fundir-se, o que succede; e, n'esse caso, a lei nào é 
exacta. Quer dizer: a lei nâo se verifica no tempo 
para um caso determinado; e no espaço o lacto de 
civilisaçòes em que, de todo em todo, apud Wyrou- 
boff, é impossivel tentar sequer applical-a, encarre- 
ga-se de dar da sua exactidão a suíficiente idéa. 

Ainda diz o snr. Theophilo Braga que essas pha- 
ses resultam, decerto, de profundas modificações da 
intelligencia e da consciência humana, mas modifica- 
ções para as quaes a acçào dos séculos é sem ef fica- 
ria. 

Como?! Pois ha profundas modificações da intel- 
ectualidade humana sem a acção shie qua non do 
tempo ? Nâo haverá revoluções ( n este sentido de in- 
íiliação), nâo haverá revoluções na terra e na vida, 
e haverá revoluções na mente do homem collectivo? 
E essas revoluções, uma vez produzidas, não actua- 
rão na serie subsequente dos pensamentos humanos ? 

Nâo é crivei; e nenhum evolucionista, para o 
qual a acção do tempo é factor que em maneira al- 
guma se pôde desdenhar, o crerá, seguramente. 

Depois,, o sentimento espontâneo, tanto se mani- 
testa no fetichismo como no polytheismo como no 
monotheismo. Se o sentimento espontâneo nâo bro- 
tasse do espirito dos fetichistas, dos polytheistas ou 
dos monotheistas, nâo poderia haver estado algum 
religioso, o qual não tem objectividade para o sêr 
subjectivo senão emquanto este a reconhece, porque 
o impressione criticamente a angustia, cognitiva ou 
moral. 



O BRAZIL MENTAL 141 



De resto, o fetichismo nào exclue os sacerdotes 
nem o culto. Os payés americanos e as cerimonias 
litúrgicas das tribus fetichistas do interior da Africa 
podem, em nossas dias, sempre que quizermos, tes- 
temunhal-o. Uma divisão inteira dos Princípios de 
sociologia consagra-a precisamente Herbert Spencer 
ao estudo do thema. 

Nào é só no polytheismo também que se adoram 
as forças da natureza. Desde que o homem depara 
com um elemento dynamico que o aterra, o senti- 
mento religioso, quando elle pôde existir, despertou- 
se-lhe. De maneira que tam adorador das forças ex- 
teriores que não dofria é o fetichista que adora o cro- 
codilo como o polytheista que adora os elementos, o 
ar, o fogo, etc. 

Frequentemente succede o ferro que irritava o 
joven d'Alembert: topar na leitura subsequente com 
reflexões de uma meditação anterior. Mas, emfim, 
consolemo-nos com a vaidade do verso francez que 
ensina ironicamente» que /es beaux esprits se rencon- 
trent. 

Assim, ambas aquellas objecções as viu com 
muita sagacidade o impiedoso destruidor da lei dos 
tres-estados, Huxlcy. Elle escreveu d'est'arte: «O fe- 
tichismo, o culto dos antepassados ou dos heroes, a 
demonologia dos selvagens primitivos são, quanto a 
mim, as suas maneiras diflerentes de exprimir a cren- 
ça nos espíritos e a sua interpretação anthropomor- 
phica dos acontecimentos insólitos que o acompa- 
nham. A feitiçaria, a magia traduzem estas crenças 
na pratica e sào, a nosso ver, o culto refr'<jíoso 5 ^ 



142 O BRAZIL MENTAL 



que é para a theologia o anthropomorphismo ingé- 
nuo das creanças ou dos selvagens.» 

Depois de restringido ao polytheismo o estabe- 
lecimento das exterioridades do culto, nào é con- 
cordante que seja o fetichismo que dê forma ao sen- 
timento espontâneo, interior. 

Depois, o facto de ter havido sociedades poly- 
theistas com profundas necessidades artísticas não 
prova que seja esse um indeslocavel característico da 
civilisaçâo, a esse grau chegada. Sociedades polytheis- 
tas existiram sem necessidades artísticas profundas, 
como, ao contrario, outras, monotheistas e íetichistas, 
com violentas necessidades n'esse sentido. Nào se con- 
funda. Falla-se no estimulo da necessidade; nâo no 
effeito da realisacão. 

E assim mesmo é que se deve fallar, porque o 
senso artístico maniíesta-se, mais ou menos intensa- 
mente, em todas as sociedades. Pôde soffrer a orien- 
tação que uma corrente de idéas lhe imprimir; mas. 
irreprimível, elle, sob esta ou aquella forma, desper- 
ta sempre, nâo porque se seja polytheista, fetichista 
ou monotheista, mas porque se seja artista, porque 
se possua essa tendência intrinsecamente. 

Os fetichistas que se embellezam tatuando-se. 
furando as ventas, atravessando patelas nas beiçor- 
ras são tam estructivamente artistas como os poly- 
theistas que cinzelam Hercules a contar no Índice 
das glorias da casa Farnese. O mesmo os monotheis- 
tas que pintam madonas. Aparte este ou aquelle modo 
de vêr a este ou áquelle respeito. Assim, os artistas 
modernos ou são atheus, á maneira de Shelley, ou 
fndiíferentis** " ' en- 



O BRAZIL MENTAL 14!* 



tendimento e concomitantemente a viva espontanei- 
dade da imaginação. 

Se polytheismos consoante o de Péricles, mono- 
theismos qual o de Leão x ? surgiram em que, com 
análoga fixação do sentimento religioso, coincidiu 
forte desenvolvimento do eterno sentimento artístico 
geral, um movimento não determina o outro. Fomen- 
tados, ajustam e reagem reciprocamente, conforme 
todas as acções do homem em sociedade. Mas um nào 

* 

é o efficiente do outro. Pois, se assim fosse, nào po- 
deria haver as divergências que, todavia, se notam. 

E se notam, com effeito. Qual é a efflorescencia 

artística que coincide com o polytheismo dos Eddas? 

Dos Niebelungen ? Do Kalevala ? Porque é que o mo- 

notheismo do Koran nào prejudica o germinal da ar- 

• chitectonica árabe? 

Portanto, eil-os, a elles dois, como factores de- 
terminantes da cultura geral, os quaes, se se com- 
pletam, procedem espontânea e independentemente. 

Qdanto aos característicos da terceira phase, ou 
do Monotheismo, também não se nos affiguram muito 
nítidos, precisos e seguros. No monotheismo, o dogma 
não se torna realmente abstracto. Não sabemos, em 
verdade, porque, sendo os deuses quatro ou cinco, 
elles sejam considerados concretos e, sendo um só, 
elle seja considerado abstracto. 

Isto nào é assim; Deus, para o monotheista, v 
um ser concreto, e tão concreto tem de ser que, 
por qualidades ou attributos, tractam de o afastar 
dos outros concretos, para d*elles o distinguir. O 
monotheista possue o irrespeito intatasARft. ^\&x*,-v>> 
com a pretensão definidora, categoria fcYsv\fôgMk-^ w 



I i'é O BRAZH, MENTAL 



isso, estabelece (pensa que com rigor) a essência 
divina; e ousa pôr as grosseiras mãos ao de sobre o 
mysterio inèffavel. 

Mas dir-se-ha que os polytheistas reputam os seus 
deuses como que de feitura idêntica, da mesma na- 
tureza da .humana, emquanto que os monotheistas 
suppòem o seu Deus d'uma substancia hyperphysica ? 

Não se vê, porém, que o que se dá com uns 
dá-se com os outros, afinal; que aos seus typos an- 
thropomorphicos ambos os consideram como superio- 
res (nos seus attributos e em sua essência) ao ho- 
mem, que d'elles depende, mas concretos, reaes, exis- 
tindo conjunctamente com a phenomenalidade dos 
seres? 

No intimo, a matéria de que sào feitos os deuses 
não é jamais a massa rude de que afeiçoado foi o 
homem. 

O pensamento religioso conservou, d'esta distinc- 
ção fundamental, explicativos mythos, ou delicados 
ou terríveis. O de Athena, que nasce do cérebro trans- 
cendente; o das Gorgonas, cujo olhar petrifica. Em 
seu nimbo dissimulante, elles não são, nunca, os di- 
vinos — meras concepções do entendimento, possuin- 
do exclusiva a dependente vida subjectiva. Toda a 
sciencia mythologica moderna se basea n'esta fusão 
indissolúvel da imaginação com a realidade, n'esta 
credulidade irreprimivel do subjectivo no objectivo 
por elle próprio creado. Mesmo, o neo-positivismo não 
representa aqui também já muito puro o ensino de 
Augusto Comte, o qual reserva as abstracções para 
a ulterior phase, metaphysica chamada. 

Depois, as sociedades monotheistas ~ rinites- 



O BRAZIL MENTAL 145 



tam, por o facto de o serem, necessidades philoso- 
phicas e tendendo para a crença com forma de de- 
monstração. 

* 

Pelo contrario: em seu typo clássico, o mono- 
theismo é ignaro. Comprehende-se. 

Estamos no momento em que, aparte, isolado do 
universo, ha um Deus único, que possue, elle só, na- 
turalmente, a verdade toda e que a revela em códi- 
gos fundamentaes. O embuste humano elaborou es- 
ses livros por excellencia e deu a obra do seu tosco 

toutiço como a emanação da mesma divindade. Isto 

* » 

foi acreditado piamente, pelo próprio embusteiro para 
principiar. Nas creanças estudam os psychiatras re- 
centes a ingénua convicção da mentira, espontânea 
e irresistenda. 

N'estes termos, todo o trabalho de investigação 
philosophica cessa ou não se enceta, porque a ver- 
dade se conhece — integral — sem os labores da bus- 
oa e sem as necessidades árduas da demonstração. 

E por isso que os polytheistas gregos tinham e 
os pantheistas indianos teem uma philosophia e que 
os monotheistas christâos não a possuíram senão de- 
pois de duas rupturas com a theologia ou sciencia 
divina. A primeira, quebrando com a judaica lei an- 
tiga e penetrando-se de hellenismo alexandrino, o que 
gerou a philosophia christã dos primeiros padres e 
doutores iniciaes. A segunda, repudiando, por seu 
turno, a nova dogmática e revindicando-se da pura li- 
berdade do espirito. 

É por isso, egualmente, que os monotheistas mu- 
çulmanos, de per si, pouco, mesmo quasi nada pos- 
suem em matéria de crença dei\YoivstaaâL&. V* <s^s*- 



1-tf O BRAZIL MCiTAL 



crismo bárbaro de Ornar é perfeitamente letrliiuio. tile 
•'■ irrespondivel dentro do monotheismo revelado, a Se 
estes livros dizem com o que está no Koran. são es- 
cusados; se não dizem com o que lá se encontra, fal- 
sos são: portanto, em qualquer dos casos, lume com 
elles.» É besta — e irrefutável. 

Em conclusão: parece que difficil se torna qua- 
lificar à priori, as phases do movimento humano 
por dadas características immoveis, e que a subdi- 
visão do estado theologico não pôde servir para mar- 
car o progresso collectivo, mercê d'ella. e sob o jugro 
ffesse critério dominante, dentro dVsse estado. As- 
sim também o não consegue a lei toda para o mo- 
vimento completo do bicho homem em civilisaçuo. 

Vimos que não é fácil admittir. outrosim. que, 
realmente, a humanidade, sempre e por toda a par- 
te, tivesse evolutido d'esse modo, a dentro dVssa es- 
phera de concepção e acção connexa. o que também 
não c verdade. Os estados — consoante se deixou mos- 
trado até á saciedade — teem-se confundido: e a simul- 
taneidade d'elles, hoje mesmo, nos monotheistas chris- 
táos (os mais adiantados em civilisação ) não è pe- 
queno estorvo para a victoria da lei comtista. 

Lubbock, nas Origens da civilisação? classificou. 
desde o atheismo até á idolatria, as religiões segundo 
o grau de respeito que se tem pelo objecto adorado ; 
e não encontra uma gradação definitiva, indicando 
qualquer progresso outro que o que marca já a clas- 
sificação mesma, e que era o de importância para a 
determinação da curva ideal do movimento progres- 
sivo humano. 

O *- Theopliilo 



O BRAZ1L MENTAL 147 



Braga (Turn imprevisto recurso. Appellou para a his- 
toria do movimento religioso no Egypto como unia 
exemplificação da gradação comtista. Elle, comtudo, 
nâo nos parece também definitivamente concludente. 

É bem velhinho Champollion-Pigeac, o qual pro- 
fessou que a religião egypcia era um monotheismo 
puro, manifestando-se exteriormente por um poly- 
theismo symbolico. Isto é, continha esse conceito re- 
ligioso um só Deus, do qual todas as qualidades e 
attributos eram personificados em outros tantos agen- 
tes activos ou divindades obedientes. 

Somente, a classe sacerdotal, sábia, que tanta 
admiração inspirou aos antigos, guardando para si 
essa doutrina superior, deixava as íormulas visíveis 
e concretas ao vulgo. Não haveria, pois, gradação na 
concepção do dogma. 

Esta doutrina, considerada á letra, não pôde sa- 
tisfazer a critica moderna, que se equilibra na pea- 
nha do principio da evolução. Mas também, pela via 
de estudos que, diz Comte, se excluem, penosamente 
se entende o modas faclendi do progresso. Então, in- 
terpretado, o systema condiz com o de Max Muller, 
a que criticamente alludimos já. 

Alguns egyptologos modernos recusam á classe 
sacerdotal uma doutrina superior, ensinada nos tem- 
plos. O phiianthropo Laurent observa que se vai de 
encontro assim a toda a opinião da antiguidade e á 
de todos aquelles que, uma vez só que fosse, visita- 
ram o Egypto. O sábio inglez Wilkinson, com effeito, 
um dos últimos viajantes, declara não poder deixar 
de reconhecer que os sacerdotes egypcios possuiauv 
■ * dogmas secretos, ensinados nos seus yc^^Víwv^. 



14S O BRAZIL MENTAL 



Se os tinham, c erro fallar aqui systematicamen- 
té numa gradação, a mesma para todos os tempos 
e todos os logares. Se não tinham, nem por isso a 
sua doutrina esotérica deixava de argumentar con- 
tra a unanimidade da evolução religiosa no Egypto, 
tal como se deprehende do enunciado ( e seu desen- 
volvimento didáctico ) da lei dos tres-estados de Au- 
gusto Comte. 

Porque, com effeito, o hollandez C.-P. Tiele, mes- 
tre incontestado nas matérias, ensina-nos que no Egy- 
pto, textuaes palavras, o novo não substitue o anti- 
go, mas lhe subsiste ao lado. 

Ora, como conciliar com isto a gradação exclu- 
siva e eliminadora de Augusto Comte?! 

Condensando : 

Pela lei dos três estados, afinal, o que se pre- 
tende é demonstrar que o desenvolvimento de todas 
as faculdades, o progresso de todas as acções con- 
correntes humanas depende da evolução d'um íactor, 
só e único, considerado. Esse factor é a intuição da 
successibilidade do critério positivo ao metaphysico 
e doesto ao theologico. Tal intuição está, pois, implí- 
cita (o geralmente) no conceito religioso. D'ahi a 
sua prevalência ulterior e o seu desdobramento na 
concretisação eífectiva da religião da humanidade. A 
formula comteana é, portanto, essencialmente uni- 
lateralista. Eis por que, unilinear, não consegue ser 
geral. 

Para que a lei dos três estados fosse verdadeira 
(no sentido de: exacta, perfeita, acabada, completa) 
era preciso o impossível 

O cor» m -n'elle r ~ dido o 



O BRAZ1L MENTAL 149 



homem — c um systema statico de equilíbrio de infi- 
nitos factores, concorrentes, provindo cada de outros, 
tendo suas causas especiaes, e reagindo todos uns so- 
bre os restantes. Pòe-se este conjuncto cm movimen- 
to, e em movimento se pòe, com o conjuncto, cada 
um dos factores, de per si também. Tal qual, o sys- 
tema planetário (para o exemplo — microcosmo, pois- 
que n'elle já comprehendido). 

Parado, deve ser consoante andando, visto como 
as leis do movimento mostrou dWlembert que deri- 
vavam das do equilíbrio. Mas, na concepção comtea- 
na, tal não c. 

N'essa concepção, cumpre que todos os factores 
menos um derivem precisamente doesse, primacial e 
privilegiado. Contra a hypothese. Isto c, contra a 
observação preliminar, no momento do equilíbrio. 

Em vocábulos mais concretos: parece claro que, 
dado o homem em progresso — as suas faculdades, as 
suas aptidões, os seus modos de ver, os seus costu- 
mes, a sua familia, a sua sociedade, o seu critério, 
a sua religião se desenvolvem, senão por egual e par 
a par, em todo o caso connexa e concomitantemen- 
te, reagindo umas acçòos sobro as outras. É theore- 
ma, hoje acceite por todas as sociologias, desde a do 
americano Giddings até á do belga de Greef o ensi- 
nado nas escholas como da sciencia coisa indiscutí- 
vel. Chama-se-lhe o theorema da interdependência 
dos phenomenos sociaes. Mas, na intuição positivis- 
ta, todos os progressos são devidos a um só, que, sem 
os concomitantes, não poderia dar-se, aliaz, e que. 
dado que uma vez — não se diz como — se produzis- 



ir>0 O BRAZ1L MENTAL 



se, não lograria conservar-se jamais. A observação 
mostra-se flagrante, n© seu corollario parcellar. 

Com effeito, n'uma menor latitude já, quanto á 
evolução do homem — marcal-a pelo alargamento d'um 
determinado critério, tornado abusivamente compre- 
hensivo e illogicamente extensivo, importa excluir do 
campo de exame a ordem de progressos que d*esse 
critério não dependam essencialmente. Equivale a 
oxhibir como real o que o não é. Redunda em dizer 
que todos os desenvolvimentos, vários e diversos, se 
seguem sempre numa irreprehensivel uniformidade 
de movimento ascensional. Ora, se reagem uns sobre 
os outros, se são concorrentes, se se completam, têm 
velocidades diversas. De modo que uns, atrazando-se, 
dão a iliusâo de que como que, a espaços, estacio- 
nem, emquanto que outros vão operando sempre. 
D'ahi, a simultaneidade dos característicos d'uma pha- 
se na outra. 

Já vimos como, explicando-se. Augusto Comte 
verificou esta mesma occorrencia. Somente, elle não 
tinha o direito de o íazer continuando a sustentar a 
sua lei, poisque o facto observado lh f a invalida. 

Aqui se integra, n'um plano geral de eonjuncto, 
a discussão parcellarista de Huxley acerca do enga- 
no de Comte concernente á diversificação dos me- 
thodos respeitantes a cada phase da evolução mental. 
Comte confundiu o systema ideativo e o methodo, 
n'um embaraçamento incritico. Porque, se os syste- 
mas divergem, os methodos são idênticos. É a sua 
inalterabilidade e o seu pequeno numero que per- 
mittem co n| * *as especiaes con- 

cerne* « os seus ele- 



O BRAZIL MENTAL 151 



mentos (grammatica geral), a outra indicando seu 
processo (lógica). Quanto aos methodos lógicos, n f el- 
les-mesmos, todos se reduzem estructuralmente, nas 
suas modalidades de comparação, filiação, etc, á du- 
pla engrenagem fundamental da inducção e da de- 
ducção. E similhante binaria marcha tanto a adopta 
a sciencia positiva, deduzindo na mathematica, indu- 
zindo na physica, como a theologia induzindo da har- 
monia natural ou deduzindo do conceito psychico da 
perteição do ser, p. ex. A integridade methodologica 
é substancial; ella permanece na alienação mental; 
sabe-se do rigor deductivo peculiar a certas vesânias ; 
só desapparece quando a mesma vida vae desappa- 
recer prestes. Ella, essa unidade processual, deri- 
va-se, desde logo, da formativa constituição mental da 
creanca, estudada com cioso cuidado, em nossos re- 
centes dias, por Preyer, Perez. Todas as observações 
concordam. Até, generalisada, a do mesmo Comte 
quando registra que «o espirito humano tende sem- 
pre para a unidade do methodo.» 

Conclusão ultima: 

A lei dos tres-estados não é íalsa. É inexacta, im- 
perfeita, inacabada, incompleta. Cumpre completal-a, 
jungindo-a a outras que lhe dêm elasticidade e lhe 
emprestem amplitude. E todas essas teem de ser, ao 
depois, integradas, umas e outras, na formula syn- 
thetica que será, então, essa lei geral . . . que nós 
nunca conheceremos. 

Também só então é que surgiria o estado defi- 
nitivo da humana cerebracão. 

Augusto Comte, porém, soberbamente, pretendeu 
definil-o desde já. É a sua phase çosvttv^. 



O HSAZII. MENTAL 



O qn«! ê a phase positiva? 

É o ponto extremo a que deve chegar a philo- 
sophia natural. 

K cm que consiste? 

Consisti 1 na prohibição da investigação das ques- 
tões que em metaphysíca pertencem ao grupo dos 
problemas transcendentes. 

Knundamos, atraz, como o leitor deve estar certo. 
a forma da negação comtista ; definimos o seu typo. 

A eschola positivista extrcma-se por prohibir pre- 
liminarmente que se investigue de todos os pro- 
blemas rujas soluções se emparceirem na fileira d'a- 
quellas que, de séculos a esta parte, foram baldada- 
inonlc pedidas pelo espirito metaphysico. ínteressa-a 
o como das coisas e não se importa com o porqiif: 
l,mi\stãn insolúvel, diz Littré. Insensata, reforça a voz 
acro do dr. llíiehner. 

ICaqui, a delimitação dos campos. Não nega. não 
iiffirma— afasta. Deus, a espiritualidade, a immortali- 
dade, etc. — eil-as banidas do campo da philosophia. 
como, naturalmente, o foram do campo da seiencia. 
essas questões ociosas, cujo principio é ruinoso e o 
objecto inaecessivel, explica Littré. 

(.liiestõíis infruetiforas que nada dizem c nada 
produzem, havendo, de todo o tempo, o espirito hu- 
mano — chegado (com génios, com altos talentos, He- 

Miilcbranche, Massendi, Pascal, Descartes, Lei- 
imita, Ctarke, Nowto «is do que esparsas 

B que, pois. evi- 
deuloinenlet Mhfltf ^H^^Hfc espirito huma- 
sitivo, u real, 




O BRAZ1L MENTAL 153 



Pique, portanto, bem distincto o que caracterisa 
o scepticismo do Comte. Elle é essencialmente obje- 
ctivo e histórico. Nâo é psychologico como o de um 
Hume ou do seu derivado, Kant. Comte — apezar de, 
contradictoriamente, haver alludido, quando expoz a 
sua lei fundamental, ás « provas racionaes i fornecidas 
pelo conhecimento da nossa organisaçâo », o que im- 
plica o restabelecimento de todo o processo da obser- 
vação subjectiva — , Comte regeita a psychologia e 
considera illusorio esse methodo da observação sub- 

* 

jectiva. Esta é chimerica, poisque o mesmo ser nâo 
pôde considerar-se simultaneamente sujeito e objecto 
da observação. Assim, a psychologia, como sciencia 
independente, não existe. Positivamente fatiando, suas 
acquisiçòes têm de dividir-se parte pela biologia, parte 
peia sociologia. A sua negação da accessibilidade das 
questões metaphysicas procede, porém, persistente- 
mente, do simples insuccesso até aqui observado. 

Ella não se deduz, como em Kant, d'uma analyse 
intusceptiva prévia das condições do eu e da sua 
correlacionaçâo com o não-eu. Não distingue entre o 
phenomeno o o nooumeno; e racionalistamente não 
procura fixar a existência (e a irreductibilidade pelos 
processos lógicos) de categorias varias de antinomias, 
isto é de systemas conjugados de theses e antitheses 
contradictorias e por egual demonstráveis, concor- 
dantes, aliaz, com as forças do espirito. 

Não. Entende o positivismo que o saber forma 
um todo que tem o seu laço não n'um systema qual- 
quer concebido pela intelligencia, mas na natureza 
das coisas e na evolução da historia. Littré descobriu 



154 O BRAZIL MENTAL 



a phrase synthetica própria: no encadeamento didá- 
ctico. 

E exactamente. E esta proscripção do aspecto 
psychologico do debate facilita-o immenso. Fal-o me- 
nos subtil, mais grosseiro, por certo; mas approxi- 
ma-o, torna-o accessivel. 

Com effoito, o exame histórico parece dar, ao 
primeiro abordo, rasào a Comte. O desastre da me- 
taphysica, em seus ambiciosos systemas, ruídos uns 
após outros, não podia ser mais vasto nem mais es- 
trepitoso. 

E, comtudo, não seja a reacção tam desorbitada 
e insensata como o foi a acção. Se a metaphysica 
tudo queria tirar já feito do puro espirito, não caia 
agora a reforma no erro opposto de tentar, conforme 
a accusa Vacherot, eliminar o elemento racional. Por- 
que este, mesmo na hypothese sensualista extreme 
ou naturalística sem mistura, representa acquisiçâo 
anterior e constituiu zonas bem determinadas da al- 
ma. Supprimil-as por decreto de incapacidade philo- 
sophica é tentativa estéril. Não cabe, claramente, 
nas forças mentaes. Ainda que se quizesse, não se 
poderia. A metaphysica é o remorso do homem, da 
culpa de haver nascido. E, como todo o remorso, não 
se vai embora, quando o interessado o deseja. 

Importuna, fica; dissimula-se em mil disfarces; 
reapparece sob as caracterisações mais diversas e 
phantasmagoricas. 

« A philosophia positiva, exclama Littré, renun- 
cia á indagação da essência das coisas e das suas 
propriedades, das causas primeiras e das causas fi- 



O BRAZ1L MENTAL 155 



naes, isto é, do que em metaphysica se chama o abso- 
luto.» 

Bruler n'est pas répondre. Renunciar não é re- 
solver. Afastar a incógnita d'um problema nào é de- 
cifral-o. Que dizer do mathematico que, embaraçado 
na equação, propozesse apagar na lousa a rebelde, 
incivil incógnita? 

Examinar continuamente, na sua hora, á luz da 
sciencia positiva, successivamente maior, as questões 
metaphysicas — corresponde a uma necessidade im- 
prescriptivel do espirito civilisado. O não resolver os 
problemas não é rasâo para que se desviem. Do seu 
estudo continuo, deriva que se esclarecem, que se 
simplificam; e, d*este depuramento, apura-se o co- 
nhecimento de verdades connexas ou interferente- 
mente suscitadas. 

Posto o caracter resolutivamente social da phi- 
losophia de Comte, esta, no seu efíeito remoto, re- 
sultaria uma regressão á phase theologica, se não se 
valesse de methodo perfeitamente idêntico, consti- 
tuindo a religião da humanidade. 

Com effeito, a consciência, a todo o instante sé- 
rio e alto da vida mental ou moral, nos suggere es- 
tas tremendas perguntas: Ha Deus? Não ha Deus? 
A alma humana é livre, immortal, responsável? O 
acto tem uma sancção e qual seja ella? 

Ora, o homem vulgar, que pede á philosophia so- 
luções, negativas ou affirmativas — mas soluções sem- 
pre, não importa — e que da philosophia não recebe, 
em troca, mais do que a confissão da sua impotên- 
cia, não deverá quedar, esse, mui contente e jubiloso. 

Similhante escusa não o satisfaz, o t«te\ ^^ ^ 



156 O BRAZIL MENTAL 



curiosidade que se diz mutlL Ao contrario. Seu espi- 
rito, provado nos martyrios da vida, pede-lhe respos- 
tas; e as perguntas incommodas representam-se-lhe 
aos ouvidos. Quem o arrancará d'esse desconsolador 
estado de duvida constante e indecisão perenne, pois- 
que a duvida das almas puras, bem differento da du- 
vida sceptica dos devassos, é desconsoladora e amar- 
gurada? Quem tal relevante serviço prestará á pobre 
alma? 

Naturalmente, a egreja constituída, a orthodoxia 
tradiccional. 

Ouem lhe responda tem de ser a revelação, a ex- 
cellente revelação, a qual sabe tudo, tudo conhece. 
Essa não o arrojará á indifferença, ao marasmo, pelo 
que toca aos mais altos interesses da vida moral, ás 
suggestòes supremas da existência espiritual. Ao con- 
trario, consolar-lhe-ha o animo com replicas adequa- 
das; oriontar-lhe-ha a conducta; estimular-lhe-ha a 
acção, incutindo-lhe confiança senão em si mesmo, 
na protecção transcendente que a íé depositada n'essa 
revelação lhe comprará. 

O materialismo allemão, pela grosseria do seu 
conceito critico, chegou a idêntica, degradada subal- 
ternisacão. Assim, o dr. Bíichner affirma não se de- 
cidir a dar um conselho no ponto da direcção indi- 
vidual sobre as crenças superiores. 

Que resta íazer ao homem que interroga a scien- 
cia? Que caminho deve elle tomar? 

As tiradas do Comte, de Littré, dos materialistas 

ás vezes, de Búchner frequentemente, contra as forças 

do espirito humano são do mesmo género (e da mos- 

ma procedência) das declamações atva\o^a^ dos ido- 



O BRAZIL MENTAL 157 



los de Comte, os velhos patriarchas da Egreja, ne- 
gando a auctoridade da rasão. Mas estes tinham o 
direito de repudiar a rasâo. Nào precisavam d*ella. 
A revelação era melhor, com eífeito. Mas positivistas 
e materialistas?! 

Vamos.- O facto é este e innegavel: o nosso es- 
pirito de homens civilisados requer-nos a todos os 
instantes que nos occupemos dos problemas superio- 
res. É esta uma necessidade do nosso espirito, evi- 
dentemente. Logo, cumpre satisíazel-a, de accordo 
com a média do estado coevo da sciencia, é de ver. 

Mas, objecta Littré que esta necessidade se vae 
extinguindo e que o espirito segue renunciando a in- 
dagações d'essas. 

Esta necessidade vae-se extinguindo! Mas como, 
se o espirito se nâo modifica? 

Pois ha vinte e cinco séculos (segundo o pró- 
prio Littré) que talentos geniaes vêem consumindo 
suas vigiiias n'essa ordem de investigações, e a ne- 
cessidade vae-se extinguindo! 

Pois os materialistas allemâes nâo faziam ainda 
■ hontem a chamada metaphysica materialista? Pois 
Peuerbach, o grande hegeliano renegado, conforme 
lhe chamou Biichner, indo de sucia com ellos, nào 
ultimara havia pouco anatomias formidáveis da ideia 
de Deus tal como a fornece o espiritualismo clássico ? 
,. Elias se encontram nas laudas do livro A Religião; 
n'essa Essência do christianistno, que o polemista 
Moleschott, em sua replica a Liebig, capitulou de 
immortal. 

Pois hontem, hontem que a philosophia chegara, 
"3gundo Comte, enifini á phase positiva, ivàft ^>&r£Rí- 



* . 



158 O BRAZ1L MENTAL 



dia. de breve áquella parte, uma violenta reacção da 
velha metaphysica contra o empirismo? 

Então, lioje chegou-se ao extremo. Resuscitaram 
as chimeras espiritas, que no Brazil tiveram sempre 
grande credito. De todo o tempo, alli se publicaram 
revistas especiaes d'essa ordem de estudos. Acredi- 
to u-se nas applicações therapeuticas da nova doutri- 
na, precedendo as indagações do moderno hypnotis- 
mo. Foi celebre, no Rio, em 1861 o opúsculo que se 
dava como a Verdadeira medicina. Era a arte de 
curar pelo magnetismo e devia-se ao magnetisador 
(ir. Eduardo A. Monteggia. 

Reintegraram-se na especulação scientifica as lu- 
náticas preoccupações do animismo primitivo. Jul- 
gou-se apprehender os mortos, modelar-lhes os espí- 
ritos em gesso, incrustal-os nas placas das machinas 
photographicas. O mystico moscovita Alexandre Ak- 
sakoff empregou 700 paginas a provar a Eduardo 
de Hartmann que elle era illogico e incompleto, da 
sua Philosophia do inconsciente derivando para o 
volume acerca do Espiritismo. Sua ultima palavra 
vé-se que é que a actividade psychica inconscien- 
te do nosso ser não está limitada á peripheria do 
corpo. Ella não apresentaria um caracter exclusiva- 
mente psychico, mas poderia também galgar os limi- 
tes do corpo, produzindo effeitos physicos e mesmo 
plásticos; portanto, essa actividade pôde ser intra- 
corporea e extracorporea. 

Similhante conclusão assevera Aksakoff que não 
repousa sobr hypothese ou sobre uma 

aíflrrr testemunho irre- 



O BRAZIL MENTAL 451» 



Esta intuição, que parece o suprasummo do idea- 
lismo é, peio contrario, fundamentalmente materia- 
lista. As modernissimas experiências de Luys sobre 
o fluido emanado de nossos dedos melhor confirmam 
o conceito objectivista, illuminando, aliaz, um mais 
intimo conhecimento da realidade e subtiiisando a 
philosophia verdadeiramente positiva que a interpre- 
te. Mas, sendo assim, tudo vem em reforço da velha 
hypothese materialista concernente ao espirito, agora 
depurada, mas que Augusto Comte rechaçou, conjun- 
ctamente com a sua antinomica, a espiritualista, fra- 
gmentaria esta, prejudicando a unidade substancial. 

Tomadas, porém, as coisas d'outro modo, nâo 
assistimos hoje ás revelações imprevistas do chimico 
Crookes? Sua boa-fé é extrema; sua candura, ingé- 
nua. Um discreto sorriso desabrocha quando o ve- 
mos contar-nos em como, respeitoso, pediu licença a 
um espirito fêmea para o sopezar em seus braços: 
em como similhante licença lhe foi graciosamente 
outhorgada; em como elle se aproveitou d'ella com 
circumspecçâo, tratando com o phantasma consoante 
todo o homem bem educado o haveria feito com uma 
dama real em mundanas circumstancias. 

Mas, no typo mais sizudo ou no mais equivoco, 
tudo isto, paralielamente, o que mostra? Que a ne- 
cessidade metaphysica, longe de tender a extinguir-se, 
tende, peio contrario, a desenvolver-se. A observação 
histórica, de resto, o determinaria cabalmente. Quando 
ha mais metaphysica é no começo do periodo analysa- 
do da nossa civilisação ou successivamente ao depois? 

Taine disse que philosophia só se tinha feito a 
valer nas margens de dois rios: o Gaxk;p& ^ ^Y^fò- 



160 O BRAZIL MENTAL 



no. Ora, ú beira do Rhcno, quando houve mais me- 
taphysica, no tempo heróico de Arminio ou no cyclo 
burguez de Kant, Schelling, Fichte, Hegel, Schope- 
nhauer, Hartmann, Nietzsche? 

A cultura da metaphysica implica com a capaci- 
dade abstraccionista. Quando foi ella maior? Hontem 
ou hoje? 

Mais; a meditação metaphysica, no tempo de um 
Spinosa ou de um Leibnitz circumscripta ao escol 
da humanidade pensante, tende hoje a popularisar-se, 
poisque a media da cultura vai-se alevantando na 
craveira do estalão e a plasticidade cerebral augmenta 
nas camadas ledoras. Afíirmar que a phase metaphy- 
sica se caracterisa pela abstracção o ao mesmo tempo 
concluir que a humanidade será cada voz menos me- 
taphysica, quando ella vai adquirindo cada vez mais 
uma maior capacidade de abstracção, é a contradi- 
cção critica mais completa que exhibir-se possa. Nós 
não partimos da metaphysica para a positividade ; mas, 
pelo contrario, da positividade para a metaphysica. 

A necessidade peculiar a que nos vimos referin- 
do vai-se extinguindo e o espirito vai renunciando! 

Mas como assim? 

A seiencia, diz Littrc, não se importa de tal. 

Mas a sciencia não é o homem. E, se na physi- 
ca, na chimica, na geologia se não deva curar de 
questões com um sabor de abstracto metaphysico, 
isso não prova que o homem, perfeito, completo, in- 
tegro, se abstenha, despreoccupado. Isso não prova 
que o espirito humano renunciasse e que a necessi- 
dade se extinguisse. Quer dizer: na philosophia po- 
sitiva ha tudo; tudo, menos philosophia. 



'^-fcjfc li 



O BRAZIL MENTAL 161 



E, como acontece em Comte, nào surja o símile 
de que o espirito abandonou também, de ha muito, 
as doidices da alchimia e da astrologia pelas inves- 
tigações positivas da chimica e da astronomia. A tal 
se nào recorra, porque a alchimia e a astrologia fo- 
ram substituídas, emquanto que aqui, agora, a me- 
taphysica é eliminada. 

Ao contrario. Pelo exemplo se mostra, ainda uma 
vez, o absurdo de condemnar sem julgar, na analy- 
tica destrinça. Porque a alchimia formulou virtual- 
mente o theorema basilar da concepção monistica do 
universo, esse theorema da unidade da matéria que 
hoje é quasi unanimemente reconhecido. 

Na verdade, o segredo dos alchimistas era, como 
banalmente se sabe, a transmutação dos metaes, com 
a mira em fazer ouro. 

Ora, o que ha n'isto de absurdo ? Fazer ouro se- 
ria hoje ainda perfeitamente um trabalho de que não 
deveria corar um chimico moderno, entendida a as- 
serção em sua amplitude critica. Assim, seria decom- 
por o ouro, hoje considerado simples, nos seus ele- 
mentos desconhecidos. É o caso d'essa famosa potassa 
considerada simples, até que, com Lavoisier, se viu 
já composta, um sal, o carbonato de potassa, consi- 
derada ainda, a seu turno, simples, até hontem, em 
que se verificou, com Davy, ser um hydrato do sim- 
ples potassium, até que se encontre ser este potassium 
qualquer coisa que se possa fazer. 

E, então, como sahiu a chimica moderna da al- 
chimia ? 

Foi, porventura, rejeitando in íimine o& <^w^ 
trabalhos, como de uma epocha transacta wkl nãrps. 



162 O BRAZIL MENTAL 



philosophico, nào se importando com os seus resul- 
tados, á laia do que faz exactamente a philosophia 
positiva para com a metaphysica? 

Não íoi, pelo contrario, lançando mào das des- 
cobertas admiráveis dos alchimistas : o acido sulfú- 
rico, o acido chlorydrico, o acido azotico, o ammo- 
niaco, o phosphoro, o azul da Prússia, os alcalis, o ál- 
cool, o ether? Nào íoi seguindo os seus caminhos? 

O que elles queriam era fazer «o que a natureza, 
diziam elles, fez no principio, remontando ao processo 
que ella seguiu; o que elia faz ainda com a ajuda 
dos séculos nas suas solidões subterrâneas podemos 
nós fazer-lhe acabar n'um instante, ajudando-a e pon- 
do-a em circumstancias melhores. Como fazemos pão, 
da mesma maneira podemos fazer metaes ...» 

Ora, a chimica moderna, em sua parte inorgâ- 
nica, faz e desfaz artificialmente os factores que a 
natureza nos offerece. Em sua parte orgânica, chegou, 
ultimamente, desde os trabalhos fecundos de Liebig 
e Berthelot, a syntheses artiíiciaes de compostos or- 
ganisados assombrosas. 

Pôde, pois, haver comparação entre a chimicíj 
moderna, que tracta dos mesmos problemas que a 
alchimia, e a philosophia positiva, que diz vir subs- 
tituir a metaphysica, sem lhe adoptar o methodo e 
regeitando-lhe os problemas fundamentaes, que nem 
sequer modifica, poisque os refuga de vez? 

E o que dissemos sobre a passagem da alchimia 
á chimica não será precisamente applicavel para a 
passagem da astrologia á astronomia, e isso por ef- 
feito de argumentos análogos? 

— Mas nós devemos e podemos renunciar, brada 



O BRAZIL MENTAL 163 



Littré, porque taes questões são insolúveis e ociosas. 
Inquirir do principio e do fira das coisas, por exem- 
plo? Mas ao principio das coisas ninguém assistiu, e 
ao fim ninguém assistirá; logo, tal nào pode ser ve- 
rificável pela experiência. Por conseguinte, nào ca- 
recemos d' isso. «Á origem das coisas nào estivemos 
presentes, ao fim também não estaremos; não temos, 
pozSy nenhum meio de conhecer nem essa origem 
nem esse fim.» 

É impossivel ser-se mais leviano, porque entre 
esses dois pontos extremos, observa asizadamente Ch. 
Pcllarin, nós conhecemos já muitos intermédios, que 
passam immenso para lá dos limites da existência da 
humanidade. 

Não fatiaremos aqui já das hypotheses cosmogo- 
nicas de Kant e Laplace; das substituições do moder- 
no Faye. 

Mais achegadamente, vê-se que Littré inutilisa 
como impositiva toda a geologia das catastrophes sú- 
bitas de Cuvier, da morosa lentidão de Lyell, por egual. 
É absurdo. 

Nào. O que é certo é que se sabe o estado da 
terra n'uma certa epocha, as revoluções feitas no 
nosso planeta antes de o homem apparecer n'elle, 
sem ninguém, comtudo, haver assistido a esses prin- 
cípios. Por cálculos astronómicos innegaveis, o da 
precessão dos equinoxios, verbi gratia, sabe-se hoje 
qual será a posição da terra e do sol n'um futuro de 
muitas centenas de milhares de annos, que excedem, 
segundo todas as probabilidades, a duração marcada 
á nossa espécie. E, comtudo, ninguém d'hoje ou mes- 
mo homem nenhum assistirá a \a\. §& s& ç> «b^*^.- 



164 O BRAZIL MENTAL 



hoineui de Nietzsche terminasse n'um typo biológico 
ascendente e contemporâneo. 

Decerto. Quem d'hoje assistiu ás evoluções trans- 
íormistas das diversas camadas geológicas? Quem 
d'hoje assistirá ao desapparecimento possivel da vi- 
da? Darwin presenceou a lucta das primitivas espé- 
cies pela existência? Haeckel foi observando as evo- 
luções simianas ? O mathematico que calcula a pas- 
sagem inevitável de Vénus e Mercúrio peio sol é 
obrigado, por isso, ao espectáculo do facto previa- 
mente sabido? 

E note-se (como já frisamos), note-se, o que não 
fizera Peilarin, que as palavras de Littré pederiam 
exhibir visos de argumento só no caso de jamais 
sobre o principio e o fim das coisas se nào ter feito 
senão metaphysica. Mas, poder-se-ha aífirmar isto e 
negar que de estas questões se haja occupado algu- 
ma vez o espirito scientifico, empírico, positivo? 

Succedem-se as theorias e, á medida que a 
sciencia caminha, um melhor conhecimento da na- 
tureza nos vem dar maior precisão aos modos de 
ver sobre as questões que estamos presenciando Lit- 
tré a repudiar. 

Quem não recorda os grandes trabalhos de La- 
place sobre o systema cósmico, a sua theoria das ne- 
bulosas para a formação dos mundos, brilhantes ma- 
nifestações d' um grande espirito, «signaes do génio 
trazendo o cunho da immortaiidade», na eloquente 
phrase de Fourier? Os simples alumnos dos prepara- 
tórios, d'elles lograram noticia, quando, em sua clas- 
se de physica, seu prestimoso mestre lhes amostrou 
mhosa experiência de Plateau. 



O BRAZIL MENTAL "165 



Todos estào lembrados do calafrio com que, em 
sua meninice, os arripiava a esquecida hypothese do 
arrefecimento progressivo do sol como causa do fim 
possivel da vida no nosso globo. A vaidade da huma- 
na gloria, d'ess'arte extincta, confrangia-se. Á primei- 
ra inspecção, acceite, o facto parecia terrível. O sui- 
cida romântico do poema portuguez de Thomaz Ri- 
beiro gemia: 

. . . tudo se arrefece 

de Deus a um sopro leve . . . 

bem pôde ser que breve 

o que em ti vive acabe, 

ò terra; e fiques erma 

soidão nas solidões, 

dizendo que és enferma 

os ais de teus vulcões. 

E ahi tens a « eterna gloria >• 

que se abysmou! 
e a * immensa luz da historia *, 

que se apagou ! 

Todavia, o caso era sem importância, se nVlle se 
attentasse bem. São, na verdade, profundamente justas 
as palavras vibrantes do vulgarisador Plammarion: 
«Depois do fim do nosso mundo, as estrellas continua- 
rão a scintillar nos céos, a vida a radiar no espaço in- 
finito, e o universo a caminhar como agora, sem mes- 
mo poder ser posta pedra mortuária alguma no es- 
paço, para indicar o sitio onde a terra viveu e pen- 
sou durante séculos.» A permanência da substancia 
não se alterou, consequentemente. 

Não vimos nós tomar curso em sciencia a theo- 
ria, de feição positiva, derivando todo o u\\y&âfò w- 



1G6 O BRAZIL MENTAL 



ganico em ultimo ponto das cytodes primitivas, des- 
sas moneras nascidas por geração espontânea, no 
começo do período lourenciano, provindo de com- 
postos inorgânicos, simples combinações de carbone, 
acido carbónico, hydrogenio e azote? Essa audaciosa 
doutrina foi vigorosamente deduzida pelo talento sys- 
tematisador de Haeckel. O Brazil a não ignorou, em 
seu desenvolvido peculiarismo. Na Revista Brazilei- 
ra, tomo x, 1881, estampou o snr. C. Marques de 
Sousa Filho um excellente estudo acerca do reino 
dos protistas, trabalho de uma relevante nitidiz de 
expressão. 

Ora, quem, assim regularisada a doutrina da 
evolução no universo inorgânico e no mundo orgâ- 
nico, irá affirmar ainda a velha illusão das «successi- 
vas» creações n'uma e n ? outra cognitiva zona? 

Quem, d'ora avante, consumirá especulações so- 
bre o nada, depois dos factos que a sciencia ha ad- 
quirido irreíragavelmente, como o sejam a eterni- 
dade e immortalidade da rtiateria? 

E todo este trabalho de argumentação e inves- 
tigação, todas estas theorias d'esta forma e análogas, 
por mais que entre si reciprocamente se differencem, 
mas que todas se occupam do principio e do fim das 
coisas^ serão, porventura, tarefa metaphysica ou fai- 
na positiva ? 

Não vale, porém, insistir; até não attendendo á 
confusão que dos conceitos de principio e fim, toma- 
dos na categoria de tempo, fez Littré. Tratar-se-hia, 
antes, de sua essência como a medulla mesma dos 
problemas. A confusão de Comte a este propósito 
também viu e criticamente destrinçou Clémencc 



O BRAZIL MENTAL 167 



Royer. Mas regressemos prestes. Volvamos ao pon- 
to de partida, que Littré julgou fortificar por argu- 
mento similhante. 

O espirito deve renunciar a tal ordem assim de 
investigações! Mas serão naturaes ou artificiaes estes 
limites, marcados ex-cathedra? 

O materialismo é, intermitentemente, mais con- 
fiante. Assim, o dr. Búchner: «Não devemos, ex- 
clama, desesperar nunca da solução dos problemas 
os mais obscuros; ou ainda, e sobretudo, não é per- 
mittido cm caso abjum traçar prematuramente, co-. 
mo muitos philosophos o teem ousado, limites ao 
espirito humano nem declarar que elle não tenha 
em si a força nem o direito de os ultrapassar. De 
resto, aquelles que assim o teem feito obravam, de 
ordinário, n'um interesse theologico ou cm vista de 
alguma idéa philosophica particular, bem mais do 
que por amor da verdade. A verdade devemos es- 
forçar-nos por a a t tingir por todas as vias e por to- 
dos os meios ao nosso alcance, quer investigações 
quer especulação.» 

E assim cumpre. Em seu incorrecto conjuncto, 
o condemnado materialismo moderno urge confessar, 
todavia, que é filho immediato dos recentes progres- 
sos da sciencia: da physica, da chimica, da biologia, 
da geologia, da paleontologia. 

A não haverem concorrido esses confluentes, o 
materialismo actuai não poderia existir, poisque elle 
seja o derivado de Laplace, de Darwin, de Haeckel, 
das descobertas positivas e das investigações posi- 
tivas. 

«O materialismo moderno, diz um celebre o&- 



168 O BRAZIL MENTAL 



criptor francez contemporâneo, nâo é o frívolo dos 
salões da Regência, o enthusiasta de Diderot ou o 
paradoxal de Sylvain Marechal. É profundo, lógico, 
sábio, formidável.» 

A moderna eschola materialista franceza tem. 
pois, algum motivo para a sua attitude nâo só hos- 
til como soberba e desdenhosa perante o positivis- 
mo. O que nâo tolhe que, com escrupulosa lealdade, 
ella reconheça os serviços que ao regresso do mate- 
rialismo prestou em França o movimento comteano. 
De facto, o positivismo restituiu ao materialismo o 
direito de cidade ali. Lenta e surdamente, elle mi- 
nou o terreno sob os pés do ecclectismo official. 
mudou a atmosphera intellectual e preparou o meio 
em que devia renascer uma philosophia mais nítida 
e mais decisiva. Classifica-a André Lefòvre de her- 
deira directa da Encyclopedia. 

Essa philosophia, como quer que a julguem, es- 
tribou-se nas lições da sciencia positiva. 

Para tercear contra a idéa das causas finaes, foi 
buscar armas ao arsenal de Darwin. Como a dou- 
trina darwiniana, essa philosophia procurou explicar. 
no mesmo modulo, de maneira que suppoz scientifi- 
camente* a ordem na natureza e a adaptação dos fins. 
O critério encontra-se congénere, quiçá, com o de 
Comte ; mas n'este é vago. Adeante veremos, com ef- 
feito, Littré formulando a interpretação, indecisamen- 
te apercebida por Augusto Comte, nas propriedades 
immanentes 3 que coordenam, desde o ajustamento 
dos órgãos dos seres vivos, até o próprio complexo 
do universo. 

A necessidade vae-se extinguindo « ^ p>soirito vae 



íl ;i 



O BRAKIL MENTAL 169 



renunciando! Mas, aparte as considerações prece- 
dentes sobre a reacção metaphysica operada nos úl- 
timos tempos decorridos, vejamos como se nos oífe- 
rece hoje o estado do espirito humano respeito ás 
questões condemnadas, ainda no campo da sciencia 
positiva mesmo. 

Desengano, para o positivismo, pungente, e que. 
a nós, nos vem mostrar a inanidade das tentativas 
aos abafamentos obscuros. Nào! Nâo se podo sub- 
jugar a necessidade do espirito, que jamais renuncia, 
antes redobra de instancia em suas interpellações. 
Para elle nào colhe a conspiração do silencio. 

Três foram os exemplos com que o positivismo, 
de chofre, nos argumentou. O primeiro, o da attrac- 
çáo newtoniana; o segundo, o da essência do calor; 
o terceiro, o da hypothese cerebral. 

Quanto ao primeiro, nào cessou a curiosidade em 
torno do mysterio da attracção. O espirito ronda á 
roda, e entretanto vào surgindo esclarecimentos, que 
adiantam caminho. Em tempo teve certo êxito de ex- 
portação a doutrina de Trémeaux, melhor attenta 
ao effeito explicativo da repulsào. 

Da mesma maneira, mas mais já no seguinte 
exemplo. A difíiculdade está vencida. Ora, na lei na- 
tural,, basta que um só facto a desminta, para ella 
ser posta de lado. O caso da attracção reduz-se, pois, 
criticamente, a uma simples questão de tempo. 

Com effeito, não terminou, hoje, com a reputada 
phase positiva, a investigação sobre o calor. 

Assim, afastando os desdéns de Comte, a dou- 
trina thcrmo-dynamica afíirmou-se, disposta, irrefra- 



170 O BRAZIL MENTAL 



gavelmente, pelo principio de Joule, em 1842, da equi- 
valência do trabalho mechanico e do calor. 

Esta descoberta teve um alcance philosophico 
extremo. Surgiu, com Grove, a idéa da correlação 
das forças physicas. Finalmente, o jesuita Secchi as- 
sentou-lhes a unidade. Os propagandistas d'esta idéa 
synthetica, a mais ampla de toda a philosophia na- 
tural, chamavam-se legião. Mas nenhum conseguiu 
imprimir-lhe um tam relevante pittoresco formal como 
o eminente Tyndall. 

Eis-nos adeante de Fourier. Eis-nos ganhando 
com nos termos importado de saber se o calor con- 
sistiria «nas fibracòes d'um ether universal.» Eis re- 
solvida, em summa, uma questão que a philosophia 
positiva declarara insolúvel, aliaz. 

Frisantissima consideração, que, de per si, basta 
a offender todo o conjuncto, relembrando quam ino- 
pportuna resulta a idéa de supprimir da sciencia as 
theorias organisantes e elucidativas. Aquella ficaria 
um celleiro, sem ordem, sem nexo, sem espirito de 
generalidade. Nenhuma synthese (por provisória e 
acanhada) se permittiria, das descobertas feitas e dos 
conhecimentos adquiridos. 

Mas prosigamos, poisque chegue o ultimo exem- 
plo. 

No diccionario de medicina, de Nysten, reeditado 
por elle e por Ch. Robin, define Littré a alma como 
sendo o conjuncto das íuncções, moraes e intelle- 
ctuaes, desenvolvidas no cérebro. Isto, porém, é af- 
firmar uma hypothese materialista, a qual foi inevi- 
tável, desde que definição tinha de haver e o conceito 



O BRAZIL MENTAL 171 



clássico do espiritualismo nào era acceite. Debalde 
se buscam subterfúgios. To be or not be. 

A propósito, idêntica observação formulou o sor- 
bonnico Janet. Replicou Littré que a philosophia po- 
sitiva sabe que a substancia nervosa pensa e que isto 
lhe basta, não curando de saber porque é que ella 
pensa. 

Ora, eis aqui (repetimos) reincidência. Reuni 
confilentem habemur. Elie é relapso c contumaz, sob 
mascara de diminuto e negativo. 

Aquella é, com effeito, uma affirmaçâo — digam 
o que disserem — materialista, pois que o materialismo 
afíirma que a substancia nervosa pensa e também 
não diz porquê, visto ignoral-o. São as próprias ex- 
pressões do dr. Biichner, na Força e Matéria, o ma- 
nual do materialismo, apud Janet, conforme se me- 
morou já. 

De procurar o porquê (caso materialista) ou de 
o não procurar (caso positivista) — eis a subsidiaria 
differencial única, que não altera o caracter intrín- 
seco da proposição mesma, de per si. 

Ora, para ser consequente, que resposta deveria 
dar a esta questão o positivista extreme? Evidente- 
mente, não que o cérebro pensa, mas que sem a sub- 
stancia nervosa não pôde haver pensamento, o que 
é bem diverso. Foi o que uma vez fez Littré, mas 
não se conservando no tom. Mau grado seu, a ló- 
gica inconsciente da sua cerebração levou-o, dou- 
tra vez. incoherentemente, a ser categórico. 

Pois, se o materialista diz: — A substancia ner- 
vosa pensa — e o positivista diz: — A substancia ner- 



1*72 O BRAZIL MENTAL 



vosa pensa — , em que é que se apartam elles um do 
outro ? 

Do mesmo modo, Augusto Comte e Littré dedi- 
cam largas reflexões á questão das causas finaes, com 
vigor negadas. Quanto a elles, a matéria nào foi crea- 
da para dados fins, nem ha desígnios teleológicos. 
Para elles, como para o dr. Búchner, o destino dos 
seres na natureza é um absurdo incomparável. 

Eil-os negando assim rijamente o que a philoso- 
phia materialista rijamente nega, como por exemplo 
no capitulo da Força e matéria do dr. Biiehner, sub- 
scripto ao thema: — Destino dos seres na natureza. 
É typico este capitulo, no absurdo: Como o livro na 
estreiteza. A volume tal, melhor quadraria o titulo 
impio que usurpou Júlio Soury: Breviário do mate- 
rialismo. — Outro ponto, pois, e frisante, de contacto. 

Mas á philosophia positiva, que não cura das cau- 
sas primeiras nem das ultimas, que não se importa 
de problemas metaphysicos, que toma as coisas taes 
quaes se nos deparam, — que interesse lhe advirá de 
saber se os factores parcellares teem ou não um des- 
tino no conjuncto, se foram ou não creados expres- 
samente para um fim? 

Se o olho se encontra admiravelmente apropria- 
do ao fim da visão, que importa saber se o olho foi, 
ou não, feito expressamente para attingir esse fim ? 

Diz Littré: «Mas a causa, seja ella qual fôr, d'onde 
provêem os seres organisados creou, ao lado das es- 
pécies vivendo de per si, espécies parasitas, que ha 
lançado, ás tribus innumeraveis, em o seio de todos 
os animaes. Ella colloca esses entozoarios nos inse- 



O BRAZ1L MENTAL 173 



ctos, nas aves, nos mammiferos, no hoinem, nos olhos, 
no sangue, nos intestinos, no fígado, no cérebro, nos 
músculos; os germens (Telles estão por toda a parte; 
escoam-se pelos orgàos; e, por pouco que o terreno 
lhes seja propicio, enxertam-se n'elle e prosperam, á 
custa do organismo que condemnam ao soffrimento, 

á destruição, , 

, representando, certamente, um admirável 

artificio para afíligir as pobres victimas ás quaes são 
visivelmente destinados.» 

Que importa isto a Littré? Que Littré constate 
o facto, poisque constatar é o scopo único da philoso- 
phia positiva, e que nada mais deduza; siga adeante: 

Non raggionam di loro 9 ma guarda e passa. 

Pois que lhe importa, na verdade; que lhe im- 
porta, sim, saber se esses entozoarios são, ou não 
são, argumento contra affirmações absolutamente me- 
taphysicas, só discutiveis metaphysicamente, visto o 
materialismo, o atheismo serem metaphysica? 

Constatar, insistimos, eis o trabalho da philoso- 
phia positiva; e dos factos constatados exhumar re- 
lações geraes, mas relações geraes entre elles, natu- 
ralmente, como a palavra relações indica, visto a 
philosophia positiva estar toda inteira no relativo, 
segundo a expressão absoluta de Littré. 

Para que, pois, embrenhar-se n'esta questão 
completamente metaphysica de saber se os meios se 
acham accomodados aos fins e se, na immensa mul- 
tidão dos seres, dos factos, as causas finaes, o desti- 
no dos entes na natureza são, ou não, verdade de- 
monstranda? 



IU O RRA/IL MENTAL 



ronsidoromos, por um pouro mais, a innegavel. 
autos o\ icliMitt^ incohoroncia. 

\ orilicada a disposição dos orgaos nos seres vi- 
\ os. a philosophia positiva, que renuncia ao porquê 
ilas coisas o só oura do como % consoante apontamos 
já, uão teria a attirmar senão que encontrara a ma- 
ioria ajustada de eerta maneira, determinativa de taes 
o taes ottoitos. Mais coisa alguma. O porque de tal. 
porquê e\ idenfcomonle metaphvsico. uáo está nas tor- 
ras da philosophia positiva, como uão está em sua 
alçada o juízo ethico que a leva, pelo conceito do mal 
^eniozoarios, na argumentação de Littré). d regeitar 
as causas ti nãos, Intromotter-se nVstes debates, è põr-se 
a escolher, abusivamente, entre as duas hypothe^es. 
espiritualista e materialista — ou ser tal ajustamento 
uma propriedade da matéria (^hvnothese materialis- 
ta ) ou Nor então um desígnio marcado por uma cau- 
sa superior (Jiypothese espiritualista). t;iaro - 4 stá qu»* 
ue>ui M^unda espécie, distendida ;)ela methodolosiia 
transcendente, cabem as extremes interpretações id^j- 
lisias ia ".eleoíogtd, como seja. em particular. <» in- 
consciente iiartmanianno. 

K, ainda -jue ^e di;;a que. inesniu no --aso ie 
;iioi»riedade te a inalaria *e ajustar t "Ttos uis -*■»' 
iIcm^iuo mareado '«ur -musi superior, i ?hi i<»< mui: : 
■u.»iú\a <o constata ■ssu propriedade de i)us;ain' ma. 
.i aojovi eritica 'ião ica : n\aiidada. VI :iáo ica. »or- 
iuc, 'Tessu ;t\potiies<-. i ;>iiiiosopiiia K»>iti\a i^v •••*'. 
^o ■ ■ouM.aiar "s>e. aju>:.a mento e num -a "ie.iM.ir. •«•mo 
\ imo> a/.cr. ■■> desígnio -uperior. narram» -ria -v- 
ias \ui>a:> inaes. 



O BRAZIL MENTAL 175 



Como quer que seja, consoante sempre, ella de- 
via abster-se, o que não fez, proclamando, pelo con- 
trario, a hypothese materialista acima apontada. 

Littré triumpha também facilmente de Janet, que 
o accusou de resuscitar as virtudes dormitivas, as 
qualidades occultas da escholastica. A sua immanen- 
cia das propriedades especificas dos tecidos ganha 
todo o sabor metaphysico quando o conceito sobe e 
se generalisa no lemma da disposição geral da ma- 
téria organisada para determinados eífeitos. Basta 
que Littré se encontra na intuição com Hegel, cuja 
prioridade reconhece mas cuja camaradagem se sen- 
te que o vexa em publico. Tem a fraqueza de se 
desculpar. Nâo haja hesitações: renega-o. Mas nem 
por isso se salva. 

Agora, o que se nâo comprehende bem é como, 
depois de ter feito seus os argumentos materialistas 
contra as causas finaes, Littré brada contra o mate- 
rialismo;, mais ainda, contra o abstraccionisticamente 
inoíTensivo deismo de Voltaire, a que chama philoso- 
phia negativa e dissolvente. 

Negativa, decerto, mas negativa de milagradas, 
de abusos, de imposturas e de burlas. Pergunte-se, 
n'este critério, o juizo que de Voltaire formulou um 
tam remontado espirito como Strauss, na serie das 
seis conferencias mais tarde vertidas para francez 
por Luiz Narval. A Littré, por uma punidôra ironia 
do destino, estava escripto que o traductor lh'as en- 
dereçasse, com uma carta-prefacio, em timbre de 
preito. 

Dissolvente! Mas essa philosophia chamada dis- 
solvente emancipou a humam&&4fò\ ^x\\\\ *& %«x 



n> O BRAZ1L MENTAL 



lheiras dos escravos; inspirou todas as redempçòes ; 
trouxe á sciencia, á litteratura, á sociedade um novo 
espirito; preparou o quadro dos direitos do homem; 
assentou o nobre principio da tolerância universal, 
a grande idéa da liberdade da consciência... 

Dissolução que tudo renovou! E o positivismo? 

Mas, continuemos. 

O espirito humano renuncia, diz Littré. 

Vemos, porém, Augusto Comte partidário da 
theoria das bossas de Gall. Vémol-o fazendo uin es- 
tudo positivo (leia-se: — materialista) das funcções 
intellectuaes e moraes. Vémol-o declarando a phre- 
nologia superior á psychologia. Isto, até, obrigou o 
grande discípulo (?) Stuart Mill a perguntar como 
quereria Cointe achar a relação entre o ser psychico 
e a constituição material d'um individuo sem se cer- 
tiíicar pela analyse interna (previamente repudiada), 
sem por ella se assegurar da verdade da relação ; sem 
olhar os dois termos d'essa relação, declarada, aliaz, 
como existente. 

Littré enceta o prefacio de MatèriaUsme et spi- 
ritualisme, de Alph. Leblais, dizendo: «O fim do au- 
ctor do livro é trazer a sua quota-parte á obra de 
regeneração (?) intellectual emprehendida por Au- 
gusto Comte e traçada na philosophia positiva; o fim 
do auctor do prefacio é concorrer ao mesmo alvo, 
em algumas paginas que sustentarão o que o livro 
sustenta, que combaterão o que o livro combate.» 

Succede que Leblais sustenta — e bem mal — o 
materialismo, e combate — ainda peor — o espiritua- 
lismo. Todavia, por outro lado, Littré affirma, como 
sempre, o seu completo desinteresse entr^ matéria- 



O BRAZIL MENTAL 1T7 



lismo e espiritualismo (ambos, como se viu, para elle, 
falsos, por metaphysicos) no citado prefacio, em lan- 
ces posteriores. Aqui ha, pelo menos, grave desatten- 
cão. 

No thcma, registramos que Augusto Comte recom- 
nienda que se recordem os serviços de Descartes á 
sciencia, apezar do seu espiritualismo. Littré repu- 
tará, por certo, duro o vocábulo, visto o seu apre- 
goado desinteresse (é o termo usado) entre mate- 
rialismo e espiritualismo. Mas a phrase nào deve es- 
tranhar, provindo d'aquelle que affirmou (muito 
bem, segundo o positivista Leblais ), e como qualquer 
acérrimo materialista, que a idéa de Deus era hoje 
uma idéa retrograda e anarchica. 

Aqui chegou o ensejo de exhibir o exemplo mais 
perfeito da contradicção, forçada e inevitável, a que 
a natureza mesma das coisas arrasta o positivismo: 

«O facto é que, diz Littré, o universo nos appa- 
rece como um conjuncto tendo as suas causas e/n s/' 
mesmo, causas a que chamamos as suas leis. O lon- 
go conflicto entre a immanencia e a transcendência 
toca o seu termo; a transcendência é a theologia ou 
a metaphysioa, explicando o universo por causas que 
estão fora d'elle; a hnmanencia è a sciencia expli- 
cando o universo por causa* — que estão n'elle. Só 
a immanencia é verdadeiramente humana e directa- 
mente infinita: verdadeiramente humana, porque nâo 
desassocia a historia dos homens para os dividir em 
réprobos e eleitos ; directamente infinita, porque, dei- 
xando os typos e as figuras, nos pòe sem intermediá- 
rio em relação com os eternos motores d'um univer- 
4o Minutado, e descobre ao ç^ii^a\ív^\i\fò,^^\xx^5ss 



178 O BRAZIL MENTAL 



o maravilhado, os mundos collocados sobre o abysmo 
do espaço e a vida collocada sobre o abysmo do 
tempo.* 

Em frente doestas linhas, o doutrinário Eugénio 
Poitou proclamou que o positivismo c um systema 
e que esse systema é o materialismo e o atheismo. 

Na verdade, se o universo é um eonjuncto que 
tem as causas em si mesmo, eis negada a existência 
de Deus; se o universo é illimitado, eis que se affir- 
ma o infinito da matéria no espaço; se se falia de 
abysmo do tempo, recorda-se o infinito da matéria 
no tempo. 

Mas nós já vimos o mesmo Littré prohibindo as 
inquirições sobre o principio e fim das coisas e ve- 
dando que se faça metaphysica. 

Todavia, não terá cabimento aqui a curiosidade 
cândida do Poitou referido, perguntando se isto que 
supra exarado ficou não será fazer, d'alguma manei- 
ra, seu naco de metaphysica? 

Porque, dizer que o mundo existe de per si mes- 
mo nâo equivale a dizer que elle é eterno e infinito ? 
E afíirmar o infinito e a eternidade do mundo nào 
será fazer, metaphysicamente, uma hypothese? Esca- 
pam-nos as causas, diz-se ; nada sabemos da causa do 
universo. Então, com que direito vem declarar-se que 
o universo possue a sua causa em si mesmo? Que po- 
demos nós saber d'essas coisas, se é verdade que só 
o relativo nos pertence? Quem nos auctorisa a dizer 
que os motores do universo estão n'elle e nâo fora 
d 3 elle? E, sobretudo, que esses motores são eternos 
e que o universo é infinito? 

De facto, á philosophia positiva nâo era impôs- 



O RRAZIL MENTAL 179 



sivel proceder com integridade lógica, que a força das 
coisas nâo comportava. Assim, ella conw^Qu por es- 
tabelecer que a si mesma se prohibia,*'còmo inútil, 
toda e qualquer especulação sobre as causas primei- 
ras e ultimas, sobre o principio e o fim das coisas, 
n'uraa palavra, em resumo, sobre aquella ordem de 
themas ariscos á roda dos quaes, debalde, se tem af- 
fligido, de ha séculos, a metaphysica. Protestara Lit- 
tré que a philosophia positiva: «se abstém de qual- 
quer explicação, por toda e qualquer explicação ser 
uma pura hypothese . . . Não nega nada, nào af fir- 
ma nada: porque negar ou af firmar seria declarar 
que se tem um conhecimento qualquer da origem 
dos seres e do seu fim. O que ha estabelecido pre- 
sentemente é que os dois limites das coisas nos são 
inaccessiveis, e que o meio só, o que se chama em 
estylo d'eschola o relativo, nos pertence. Nâo sabe- 
mos nada sobre a causa do universo e dos habitan- 
tes que elle contém.» 

Estava perfeitamente. Mas surgiu logo o traiçoei- 
ro desmando do positivismo. Immediatamente, o mes- 
mo Littré se descartou a avançar, com a condemna- 
da metaphysica materialista, proposições que aliaz de- 
butara por dizer que estavam fora do alcance das 
forças do espirito humano. «O. positivismo não nega 
nada; não affirma nada.» 

Littré, porém, affirma, ao contrario. E affirma 
pelo preciso e determinado theor seguinte: «O quo 
é permanente é a presença perpetua do espirito hu- 
mano em face da infinidade e da eternidade das coi- 
sas; esse sentimento jamais o perderá.» Esta affir- 
mativa annexe-se ás lembranças Aa& taÇ\\v\ç&ç& *tó\s»r 



180 O BRAZIL MENTAL 



tificas fornecidas com respeito á alma humana pelo 
mesmo LiU 1 ":^ por seu mestre Augusto Comte. Foi 
á face de diplomas congéneres que Tiberghien julgou 
rudemente o positivismo como «um materialismo in- 
consequente e um atheismo disfarçado.» 

O materialista Léíòvre corrobora-o. No seu exeel- 
lente manual, elle dá-se ao trabalho de contrapor ás 
reticencias do positivismo, sinceras sempre, e talvez 
hábeis em i8?J0, varias passagens, caracterisadamente 
materialistas e atheistas, extrahidas entre mil outras 
de idêntico ensino por parte de Augusto Comte e 
seus adeptos. 

Por isso, conclue que o materialismo é a alma 
do positivismo. Os inimigos communs não se illudi- 
ram. Todavia, concorda em que, para os positivistas, 
toda e qualquer assemelhação entre positivismo e ma- 
terialismo lhes parece cruel injuria. 

Mas que incoherencias são essas? Conde deri- 
vam ? 

Nào mostrarão elias a necessidade irrefragavel 
que o espirito humano experimenta de se occupar 
das questões que auctoritariamente se refugaram? 
Pôde, é certo, ser, d'onde a onde, abalada; mas, em 
toda a occasiào, se revolta. E irapossivel, até, chegar 
a constringil-a inteiramente. Insurge-se, periodica- 
mente, essa incorrigivel tentação, que noss'alma sente 
de curar dos problemas uma vez inscriptos, em de- 
manda de solução, na ardozia da consciência. 

Se tal necessidade permanece sempre, o pro- 
hibir, desdenhosamente, as tentativas de investigação 
não poderá gerar o tadr -» cansaço, o marasmo, o 
vácuo àp oio chega a ser 



O BRAZIL MENTAL 181 



duvida, finalmente esse mal deprimente que, em phi- 
losophia e em sciencia, como em politica, urge de- 
bellar com todas as forcas: — a indifferenca — ? 

Necessidade que, ao invez do conceito de Littré, 
jamais se annulla. E nào se nos objecte que vamos 
esbarrando com a preoccupaçào clássica das idéas 
innatas. Pelo momento, nada está mais arredio do 
nosso cogitar. Nem de longe! 

Afíirmamos, tão somente (mas o que, para o ca- 
so, é tudo), a necessidade impreterível que o homem 
tem de se occupar das incógnitas que lhe borbulham 
perante, em sua marcha. 

Acenando-lhe com sua seducção prestigiosa, o 
homem ha-de tentar sempre devassar o mysterio que 
o incita e o irrita. Este facto — eis o cachopo do com- 
tismo. 

Ao positivismo, de resto, nós temos todo o di- 
reito de perguntar quem lhe deu ousio para presum- 
pçosamente marcar limites ao entendimento progres- 
sivo. Em nossos recentes dias, repetidas vezes, ha 
realisado essa interpeliaçâo o diffuso e confuso Ro- 
berty. Respondeu-lhe engenhosamente o brazileiro 
snr. d' Araújo. 

« Perguntam-nos, este diz, com que direito nós 
pretendemos encerrar o futuro scientifico; nós respon- 
demos : em virtude do direito que tem o mathematico 
de garantir ás gerações de calculadores que o nume- 
rador e o denominador da expressão ^^ = saber, 
augmentando sempre d'uma quantidade egual, nunca 
attingirão a unidade.» 

Está muito bem, responde Roberty, mas seria 
ainda a propósito demonstrar-nos que a refag&b ^sc 



482 O BRAZÍL MENTAL 



questão constitue necessariamente um numero frac- 
cionario. 

Não seria essa a resposta. Roberty cahe no erro 
opposto ao do agnosticismo. Suppõe possível uma gno- 
se perfeita. 

O paralogismo do simile do snr. d* Araújo reside 
noutra consideração. Mas fundamental e decisiva. 

É que o numerador da expressão que elle cons- 
truiu não pôde angmentar, nem diminuir, de uma 
unidade que seja. O numerador é constante. O dimi- 
nuidor é que augmenta sempre e indefinidamente de 
uma unidade, mais outra depois, e assim por deante. 

O não-eu é o universo, onde nada se ganha, nada 
se perde; nada se cria, nada se anniquila; onde do- 
mina a permanência da força e a indestructibilidade 
da matéria. Dizer, pois, que o numerador da fracção 
augmenta d' uma quantidade egual á do incremento 
do denominador, é contrariar as acquisiçòes definiti- 
vas não da metaphysica, mas da philosophia natural. 
Importa regeitar a physica e a chimica; o mesmo é 
que partir a balança. 

O denominador, esse é que augmenta continua- 
mente, á medida da conquista de novas verdades. 
Por isso é que o valor da expressão é móbil; e por 
isso é também que pretender flxal-o à priori resul- 
ta uma petição de principio, como o viu Roberty 
sem lograr proval-o, aliaz. 

Recapitulando, se o espirito tímido se encher de 
tédio, o espirito impaciente, que deseja sempre sa- 
ber, não poderá cahir n'outro perigo, qual o de ir 
procurar em campo diverso, que não no da philoso- 
phiâ, as soluções, affirmativas ou negativas, anciadas? 



O BRAZIL MENTAL 183 



A negação prescreveu-se rfeste caso, e reappa- 
rece felizmente a affirmaçào, mas não (na replica) 
produzida pela philosophia e pela sciencia. 

De íacto, as sociedades não podem conservar-se 
longo tempo na situação hybrida que lhe offerece a 
philosophia positiva. Não lia meios termos, hypocri- 
tas ou irresolutos: 

«As massas, diz Augusto Jacquot, não teem a 
intelligencia aberta ás restricçòes delicadas; já a du- 
vida lhes repugna; por quanto maior razão não se- 
rão ellas incapazes de se absterem ao mesmo tempo 
d'affirmação, de negação e mesmo de duvida sobre 
uma questão tam grave como a de Deus e de se con- 
duzirem, comtudo, como se Deus não existisse! — E 
é, todavia, a isso que tende o positivismo ! » 

Cuidado, porém. Note-se que foi pronunciada a 
palavra que ha levantado séculos de disputas inter- 
mináveis. Ora, cumpre e urge acabar, de vez, com 
taes estéreis questiúnculas, brada-se. E, se se ousa rea- 
gir, se se pedem explicações, se a questão tremenda 
attrahe como os vórtices aos que de seu cairel pen- 
dem, fechada é a bocca, que se abriu para o protesto, 
pelo postulado hoje, por demais, repetido. Qual é el- 
le? E que «nenhuma existência pôde ser assente pelo 
raciocinio. » 

Mas repare-se na singular confusão. Attenda-se a 
que se tem de discutir metaphysicamente o postulado 
que se avançou. Attenda-se a que se tem de provar 
que Deus não pôde ser encontrado pelo raciocinio. 

Isto, porém, o que é? Para isto se conseguir, o 
que é preciso? 

É preciso que se analysem as provas cyie & ° 



184 O BRAZIL MENTAL 



chola apresenta da existência de Deus. É preciso re- 
futal-as. Eis trabalho indirecto que se haja de archi- 
var, em seguida, por um labor hnmediato, directo. Ou 
querer-se-ha fugir a todo este mundo de controvér- 
sias metaphysicas, qualificando de axiomático o prin- 
cipio exposto?! 

Porém, a evidencia do postulado está longe de 
ser flagrante. Ella parece acceitavel, no caso de com- 
pleta separação, de perfeito isolamento d' uma exis- 
tência, correlacionada com as existências anterior- 
mente conhecidas. Mas o incremento dos conheci- 
mentos tende, ao contrario, a diminuir esta descon- 
tinuidade, que é uma mera lacuna histórica. 

Quando o lasso viajor deparava com fauna e 
flora que ia encontrar, fortuitamente, nos paizes per- 
corridos, sua surpreza perante a novidade inesperada 
comprehende-se. Mas também se comprehonde o es- 
forço subsequente para diminuir o assombro — pela 
derivada concordância geographica, geológica, clima- 
tológica. 

Mas quando fossem mais numerosos os dados, 
aos quaes se ligava existência buscada e ignota, en- 
tão o postulado oppòe-se inutilmente á irremissibili- 
dade provada d'uma conclusão decisiva por simples 
processo deductivo. 

Quando certa existência apparece, ao nosso espi- 
rito, como indeclinavelmente implicita em quaesquer 
factos que só ella explica, não destaca logo, ao con- 
trario, a falsidade do postulado que tam pomposa- 
mente se proclamou? 

O raciocínio não pôde determinar uma existen- 
cía, — professa-se. Mas não está b^m. 



O BRAZIL MENTAL 185 



Foi o raciocínio que assentou a existência da ro- 
tação da terra, comprovada pela experiência de Fou- 
cault. Se não foi o raciocinio que deu a existência 
da America a Colombo, é porque o engano consistiu 
no especialismo das terras procuradas. Não havia a 
índia para alli, mas as coiyecturas racionalistas, de 
factos previamente adquiridos derivadas, eram legiti- 
mas. Em compensação, o raciocinio não se enganou, 
quando a Vasco da Gama deu a existência do cami- 
nho marítimo para a índia por todos appetecida. 

O postulado positivista colloca-se em conílicto 
com as assombrosas victorias das mathematicas su- 
periores, relativas a existências reveladas pelo cal- 
culo, que é o raciocinio pelo numero. 

Depurar, mesmo, o raciocinio, imprimir-lhe toda 
a idealidade, transcendentalisal-o é, até, o objectivo 
recente do esforço mathematico contemporâneo. Em 
França, por exemplo, o critério inspirador possue hoje 
um eminente propagandista na personalidade, sabia 
e subtil, do snr. Thanery. Assim, elle, pelo encadea- 
mento rigoroso de definições e de deducçòes, con- 
duz-nos insensivelmente do numero inteiro a todas 

as noções as mais elevadas. Bem decididamente se 

* 

deita a resolver o problema de reconstrucçâo lógica 
que acabamos de frisar. Pensa Milhaud que ella de- 
via fazer desapparccer toda e qualquer lacuna entre 
as antigas o as novas mathematicas. 

Tracta-se, com effeito, de crear uma mathema- 
tica ideal, pairando por de sobre toda o qualquer ex- 
periência, eliminando todo o dado experimental, a 
não ser os iniciaes. 

D'est'arte se procura tornar correlacionada ^ 



186 O BRAZ1L MENTAL 



completo ura conjuncto até agora esparso, subordi- 
nando-o a conceitos superiores e dominantes. A ten- 
tativa pôde sor, e é decerto, prematura, mas nào é 
licito recusal-a ao neo-positivismo, que parcellarmente, 
nos capítulos vários da sciencia, sente a necessidade 
urgente de uma regula» integração. 

N'esta faina, de menor amplitude mas de mais 
seguros êxitos, também tractou de collaborar o Bra- 
zil, poisque, desde 9 de Julho de Í879, annunciava, 
em o esboço de uma memoria sobre esse ponto de 
philosophia mathematica, suas Reflexões sobre os fun- 
damentos da anal i/se transcendente^ o mui talento- 
so, se bem que mui obsecado, snr. R. Teixeira Men- 
des, ao qual, com emérito íacciosismo, Sylvio Romero 
qualifica de mais que muito mediocre. Almejara o 
eminente positivista fluminense «o pensara ter rea- 
lisado » a fusão das concepções de Leibnitz e Lagran- 
ge. l)'ellas fazia conjunctamente um corpo de dou- 
trina, filiado á lei cartesiana sobre a correspondência 
entre o ponto de vista analytico e geral da sciencia 
mathematica e o sou aspecto concreto e especial, assi- 
gnalando, de par e passo, o papel que cabe á conce- 
pção nowtoniana. 

É interessante como Teixeira Mendes não divisa 
as consequências metaphysicas da lei philosophica 
estabelecida por Descartes, estabelecendo a relação 
que representa toda a linha plana por uma equação 
a duas variáveis e, reciprocamente, toda a equação 
a duas variáveis representando uma linha plana. 

Todavia, elle-mesmo observa que esse enuncia- 
do, convenientemente generalisado, pôde hoje íor- 
mular-se d'este modo: todo o facto concreto tem 



jÂX^}±.'í ■ .U-L." ■ ju_*UÍL 



O BRAZ1L MENTAL 187 



um correspondente analytico; e, reciprocamente, todo 
o facto analytico tem um correspondente concreto. 

Prestes — singular acanhamento de horizonte cri- 
tico — increpa respeitosamente Descartes, por o illus- 
tre philosopho nào ter dado toda a extensão scientifica 
ao seu immortal principio. E esquece que, com percu- 
ciente rigor lógico, substancialmente o theorema de 
que a sua analyse procede forma a trama profunda da 
renovação por Descartes introduzida, com insigne pe- 
netração, no argumento ontológico da existência de 
Deus, que Santo Anselmo, no Proslogiutn, firmara na 
idéa adequada que em nós habita de o ser perfeito. 

O conceito cartesiano contradiz, destrutivamen- 
te, a inhibitoria repulsa do positivismo clássico, re- 
jeitando a possibilidade da determinação de existên- 
cia pelas forças exclusivas do raciocinio puro. Como 
quer que o juizo culto se decida, o que resulta in- 
contestável é a preferencia syntheticamente idealista — 
graças a indeíectiveis estimulos, mais ou menos in- 
conscientes — exhibida pelos mesmos neo-positivistas 
(apezar de todos seus protestos de orthodoxa fideli- 
dade e sinceros desejos de recta concordância). 

Do género especificado é o alcance philosophico 
da pequena mas substanciosa brochura de Teixeira 
Mendes, a qual, para o aspecto restricto do versado 
debate, apresenta, de resto, a grave lacuna da passa- 
gem sem cotejo e commento, nem sequer lembrança 
e citação, pelas considerações que sobre A philoso- 
phia do infinito entendeu Wronski produzir em Í8Í4, 
de encontro á nova estampagem das Reflexões sobre 
a metaphysica do calculo infinitesimal. Por sua li- 
ção o ambicioso analysta polaco ingenuamente, w&.- 



1$8 O RRAZIL MENTAL 



fessa quo no espirito dos geómetras a sua philoso- 
phia das mathematicas «nâo produziu o effeito» que 
elle esperava. O livro de Garnot encerra a lista das 
obras fundamentaes que, á cata da resolução da dif- 
ficuldade, manuseou o snr. Teixeira Mendes e onde 
nâo pensa que se possa indicar realisada a operação 
que elle crê haver levado a effeito. 

Em que nos peze esta destrinça, a affirmativa de 
Teixeira Mendes nâo é escrupulosamente rigorosa. 

Na sexta lição do seu Curso (de que um extracto 
do começo, reduzidamente, o esculpe o mathematico 
brazileiro na capa do seu folheto), Augusto Comte 
estabelecera que, meditando sobre o conjuncto d'essa 
grande questão: — os três principaes pontos de vista 
apresentados pelos geómetras concernentemente á 
analyse transcendente — , se apercebe que será na con- 
cepção de Lagrange que se operará um dia a com- 
binação reciproca, pela reducção a um methodo único 
reunindo todas as diversas qualidades características 
peculiares. E o parentesco intrínseco das concepções 
de Lagrange e Leibnitz, n'essa mesma lição, Augusto 
Comte o deixou essencialmente demonstrado, pag. 
192-196 da 2. u edição, tom. i. Assim, na verdade, tem 
ampla razão Teixeira Mendes para a sua phrase mo- 
desta: «O que ha de propriamente meu em tudo isso 
— devo sor mui pouco.» 

Quanto á idéa-mãe, de Descartes, sobre a repre- 
sentação analytica geral dos phenomenos naturaes, 
na referida primorosa lição Augusto Comte assignala 
que é bem notável que homens como Pascal hou- 
vessem prestado tam pouca attenção a essa conce- 
pção fundamental de Descartes, sem presentirem por 



O BRAZIL MENTAL 189 



forma alguma a revolução geral que ella estava ne- 
cessariamente destinada a produzir no systema in- 
teiro da sciencia mathematica. 

Explica a incongruência por isso que os espíri- 
tos, mesmo os mais eminentes, teem sempre apreciado 
bem menos até aqui os methodos geraes pelo seu 
simples caracter philosophico do que pelos conheci- 
mentos effectivos que elles podiam proporcionar im- 
mediatamente. 

E, comtudo, sem aproveito do seu pujante génio, 
também nào distinguiu a consequência remota doesse 
principio fundamental da cerebraçâo cartesiana. É 
que Comte relegara de vez e fará infinitamente longe 
qualquer preoccupação metaphysica. Similhante pre- 
conceito obscurecia-lhe todo o processo da elabora- 
ção psychica, toda a derivação da marcha dialecti- 
camente lógica. 

Revertendo, não é lance nem competência ha 
para, com respeito á memoria especialista de Teixeira 
Mendes, derimir todo o pleito, nos seus intersticiaes 
módulos concomitantes. Mas o que a propósito se 
manifesta consiste ainda em iiiuminar, para as atten- 
ções reflectidas, a nova physionomia da intuição phi- 
losophica da sciencia. 

Contra Stuart Miil, que pretendia que a certeza 
das verdades mathematicas é, de ponta a ponta, in- 
ductiva. projecta-se hoje nada menos do que a con- 
fecção d'uma mathematica toda formal e subjectiva. 
Vencer-se-ha ? 

Todavia, nada affirmando a respeito dos dados 
experimentaes, em si mesmos, a mathematica ideal 
mostra, somente, quaes sejam as coi\^^^\yçâ»s> &*& 
les, se foram acceites como \vypo\Xvfc^Ã. 



» 



190 O BRAZIL MENTAL 



Ora, d'esses dados derivada, para existências ex- 
perimentaes a especulação mathematica converge. E 
com fulminante êxito. Ha um exemplo clássico, que 
já citamos, a propósito afim, em volume differente. 

É o da deslumbradora revelação de Neptuno, 
por meio da qual Leverrier, na elegante phrase do 
talentoso, sympathico e mallogrado Alexandre da Con- 
ceição, «encontra um planeta desconhecido e nunca 
visto por olhos humanos na ponta da sua penna, fe- 
chado no seu gabinete de trabalho.» 

Essa maravilha que é que foi, estructuralmente ? 
Foi concluir pelo raciocínio uma existência não co- 
nhecida pela experiência. De tal forma que, no dia 
em que Galle, de Berlim, recebe a noticia dos tra- 
balhos de Leverrier (23 de Setembro de 1846), elle 
dirige um telescópio para o ponto do céu indicado e 
vê, com effeito, o planeta annunciado, afastando-se 
menos d'um grau da posição que lhe marcara a 
theoria. 

Pôde objectar-se que, para se chegar ao mara- 
vilhoso resultado de Leverrier (e, conjuncta e inde- 
pendentemente, de Adams, segundo conta Delaunay), 
preciso foi o conhecer-se já experimentalmente as 
irregularidades do movimento de Urano, devidas 
provavelmente á attracção exercida por um planeta 
ainda desconhecido. Mas a objecção cahe precisa- 
mente dentro do angulo da nossa affirmativa, quando, 
em contra do postulado positivista, asseveramos que 
nos é licito assentar existências pelo raciocinio, desde 
que se achem presas a dados conhecidos e que so- 
mente ellas explicam. 

Se assim é, pois, a existência de Deus pôde (ai- 



O BRAZIL MENTAL 191 



vez ser determinada rigorosamente pelo raciocínio. 
Por exemplo, induzindo sobre os dados da contin- 
gência do mundo, da harmonia universal. Saber se 
esse talvez se converte em uma affirmativa ou em 
uma negativa pertence a todo um trabalho de analy- 
se, de discussão, de metaphysica e não a uma eva- 
siva esquivante, simultaneamente acanhada e atre- 
vida. 

E, então, se as perguntas se repetem, e se a phi- 
losophia confessa a sua impotência, não poderá qual- 
quer desviar os olhos da philosophia e lançal-os para 
outro lado? E para onde? Para a orthodoxia, para a 
revelação — suggerimos. 

Pois não poderá existir um pensador, positivo, 
empiríco, nada theologo, nada metaphysico, analysa- 
dor e absolutamente só realista, no campo da scien- 
cia, que seja, sahido das investigações scientificas, 
um crente ? que reconheça que, a dentro da sciencia, 
não deve haver fé no sobrenatural, não lhe dando essa 
conselhos alguns a adoptar, e que, por isso precisa- 
mente, ás questões condemnadas as reserve para a 
zona da sua fé individual, crendo segundo os dicta- 
mes da sua consciência, conforme indica que se faça 
o dr. Biichner? 

Não urdimos hypothesos gratuitas: entro nós 
portuguezes, tomaremos o primeiro exemplo. Um 
professor eximio de mathematicas elementares, o snr. 
Couceiro da Costa, fez como o fluminense Benjamin 
Constant. Agremiou-se nas fileiras de Augusto Comte, 
e no compendio de aula, perante seus discípulos, 
enunciou vigorosamente a lei dos tres-cstados. Apezar 
d'isso, affirma : « A sciencia é positiva, tox\\\& \ysoi\ 



192 O BRAZIL MENTAL 



mas a fé, a filha egrégia do pensamento, essa jamais 
será supplantada peia positividade da sciencia, porém 
cada vez mais acrysolada pela civil isação.» 

E, se o pensador se não encaminhar para a egre- 
ja revelada — seja isto, até, concedido — , nào poderá 
ir para qualquer renovação religiosa á Patrice Lar- 
roque, poisque os argumentos espiritualistas ficaram 
de pé, por nâo analysados para se não fazer meta- 
physica? 

Ainda uma vez; nào tecemos hypotheses gratui- 
tuitas : — E. Cazelles, no seu prefacio á sua versào da 
Circulação da vida, de Moleschott, (1866), declara-se 
acompanhando a renovação (?) de Augusto Comte; 
e, logo, no seu outro preambulo a outra sua tradu- 
cção, a da Religião natural (influencia da — sobre a 
felicidade temporária do género humano), de Ben- 
tham e Grote, (Í875), vem pregar, e pregar fervo- 
rosamente, um theismo novo. Servira-lhe de proces- 
so de transição o conceito do incognoscível, no dese- 
nho que lhe deu Herbert Spenccr e consoante o ex- 
puzera no intróito explicativo que, resumindo o syste- 
ína, destinara á versão dos Primeiros princípios (Í870, 
Setembro. ) 

Entendamo-nos. Deistas, não vemos n'isto um 
mal. Bem pelo contrario. Somente, se a conclusão 
nos satisfaz, não nos agrada o methodo seguido para 
a elia chegar. Poisque, pelo atalho por que se vai, pôde 
muito bem perder-se o espirito. Perder-se pela estéril 
charneca da orthodoxia; deslumbrar-se com o fogo 
fátuo da revelação. 

Da revelação, sim, como já dissemos. Da reve- 
Jação, segundo o typo individualista, soberbo, teme- 



O RRAZIL MENTAL 193 



rario e absurdo, do prophetismo que cuida possuir 
integralmente o absoluto. 

Decerto; e aqui se pôde applicar a interpretação 
do consciente pelo estimulo obscuro da subjacencia 
do inconsciente. Conformemente o faz para Kant e 
para Hegel, por forma maravilhosa, Eduardo de 
Hartmann nos primeiros — e magistralissimos — ca- 
pítulos de introducção ao seu systema philosophico. 
Sob idêntico critério orientando-nos, appliquemos a 
mesma intuição ao fundador do positivismo 

E veremos, logo logo, explicado bem natural- 
mente o que a muitos parece a aberração de um 
grande espirito, quando, realmente, não é mais do 
que a consequência exacta da sua ideação ante- 
rior. Somente, ella foi apresentada com a áspera ru- 
deza d' um predestinado messianismo que, na graça 
plena, não respeita conveniências, filhas do erro e do 
mal, antes prosegue intemerato, n'uraa linha recta. 
Alludimos. naturalmente, á revelação da religião hu- 
mana, de que Comte era o pontifico. 

O espiritualista clássico Laurent, com o seu vasto 
trato da humana historia, sentiu o caracter profun- 
damente religioso d'esta physionomia mental do fun- 
dador, como contracta e mysticamente lho chamam 
seus adeptos. A acreditarmos em Augusto Comte e 
no mais eminente dos seus discipulos, o auetor da 
Philosophia Positiva seria « um revelador da raça 
de Moysés e de Jesus Christo.» Comtudo, arrebata- 
do pelas suas preoccupaçòes cristallisadas, Laurent 
escreve a propósito: «O mesmo homem que fez a 
tjrande descoberta de que a religião não pertencei 
senão â infância do espirito Iuiyty&tvq ^ ate- o^fò ^\v\>- 



l'.U O BRAZIL MENTAL 



inanidade, chegando á edade do positivismo, deve 
repudial-a como um sonho vào, esse mesmo homem 
acabou por se pousar como revelador d'uma religião 
nova. Nunca houve contradicçào tam prodigiosa.» 

Como Laurent se engana! Nunca houve concor- 
dância tam perfeita. Ponto está em se nào prender 
o critico nem com a apparencia dos vocábulos nem 
com a carência de nitidez que a consciente acquisi- 
çào de sua doutrina revestiu, nos primeiros tempos, 
perante o espirito do próprio theorista. 

K nào nos aceusem de má fé! É certo que nâo 
devemos considerar como deducçòes da philosophia 
positiva as heteróclitas concepções da Virgem-màe e 
outros vestígios da educação catholica, primitivamen- 
te recebida por Augusto Comte, e reacerbados na re- 
vivescência, pelo delírio passional que aggravava a 
derradeira crise subjectiva do grande desafortunado 
homem. Sào essas aberrações irresponsáveis respon- 
sabilidades individuaes, mas nós nào falíamos del- 
ias; como quando alludimos ás deducçòes possíveis 
de Fourier, nâo tocamos em sua singular cosmogo- 
nia, mais singularmente rehabilitada nos modernos 
dias por o paradoxal e personalista Herbert Spen- 
cer. ITesse, já nào frisamos as geniaes intuições do 
detalhe, como o fez Paul Larfague, zombando da 
mofa rotineira de Alfredo de Musset. 

Assim aqui também. 

Nào se tracta, evidentemente, d'isso; nem de pra- 
ticas litúrgicas; ou de formas cultuaes. 

Tracta-se, tào somente, das soluções dadas por 
Comte, na sua religião, ás questões que sua philoso- 
phia não acolhera. 



O BRAZ1L MENTAL 195 



Resolve-as, porém, em sua religião; e resolve-as 
num sentido materialista e atheista. É o significado, 
no aspecto theorico, do seu « catholicismo sem chris- 
tianismo» — segundo a definição synthetica, insigne- 
mente achada por Huxley. 

A parte pratica concernente á conducta do in- 
dividuo e ao arranjo das sociedades deriva, como 
sempre, d'uma zona dogmática. E a dogmática de 
Comte é bem conhecida, por sua substituição do ho- 
mem, idealisado no seu conjuncto histórico, á perso- 
nalidade, eliminada, de Deus. 

A religião positivista é, pois, exactamente como, 
na China, a doutrina religiosa de Kong-fu-tse (mes- 
tre Kong, Confúcio). É um naturalismo ethico en- 
xertado na religião politica de Saint-Simon; como 
alli se í unda na dos Tchov, entendendo por isto, com 
Tièle, a ordem de coisas estabelecida, verosimilmen- 
te, pelo principo Tchow-Kong, assaz differenciada do 
culto popular antigo. Consoante aqui, diversa da me- 
taphysica christã (idealista, do typo alexandrino) e 
só acceitando, não a dogmática, porém a discipli- 
na catholica. 

Mas esse naturalismo disserta, (cru que profi- 
cientemente) sobre o caracter metaphysico do uni- 
verso, o homem inclusive. E decide-se pelo conceito 
atheista. 

Nem sequer, para o comtismo, se pôde recorrer 
ao subterfúgio, usado para com as religiões do gran- 
de império sinico. Tanto para o confucianismo, como 
para com o taoismo, não só sábios europeus como 
ainda viajantes chinezes teem recentemente tratado 
de demonstrar em publico que çKYas xfito «sàa \wsr»>- 



196 O BRAZIL MENTAL 



das sobre o materialismo. O erudito Julien Vinson 
considera esses esforços como Hsonjas endereçadas a 
certa roda, espiritualista na apparencia, clericalissima 
no fundo. 

Comtudo, seria irrisório sobraçar tentamen ana- 
logo para com o positivismo, que, sendo religião e 
não sendo espiritualista e deista, tem de ser (como 
religião; nâo falíamos como philosophia) materialis- 
ta e atheista. Fatalmente. Mercê de lógica prescri- 
pção; inilludivel e simples. Irremissivelmente, pois. 
Por mera exclusão de partes. 

Indispensavelmente, graças ás leis mesmas da 
constituição do espirito, alguma coisa teria a dizer, 
respeitando áquelles problemas cujas soluções preoc- 
cupam todos os pensadores: Augusto Comte deu, 
alfim, seu parecer. Mas,' como a porta da philoso- 
phia e da sciencia por elle fora fechada a ques- 
tões taes, a resposta não poderia provir d'csses (cer- 
rados) departamentos de noss'alma. Assim, Augusto 
Comte respondeu por si, quer dizer : revelou ; e creou, 
portanto, o quê? Uma religião. 

Symptomatico exemplo e lição aproveitável para 
áquelles que, d'ora avante, pretenderem supprimir 
philosophia. 

Ahi, no systema religioso de Comte, tudo é ex- 
plicado pelos preceitos da philosophia materialista, 
negando-se a existência de Deus e fazendo-se, sobre 
os complexos e connexos assumptos, metaphysica 
atheista. 

Por isso, o juizo forma-se logo, de golpe. É como 

para o buddhismo primitivo. O grande Emilio Bur- 

nouÇ no seu estudo especial sobre a inteliigencia que 



O BRAZIL MENTAL 197 



I 

dar-se deva ao nirvana, definiu a doutrina do subli- 
me solitário da íamilia dos chakhyas como sendo 
« uma moral sem Deus e um atheismo sem natureza.» 
Sabe-sc quanto esta interpretação repugnou ao sys- 
tematico de Bunsen e como elle se deu a refutal-a, 
respondendo, em nome de Buddha, pela replica que 
Platão pòe na bôcca de Sócrates. 

Mas, com respeito a Comte, é que não podem 
subsistir hesitações análogas. 

Veja-se a summula que da dogmática positivis- 
ta fez Willcm, barão de Constant Robecque. Rese- 
nhando-a, com toda a razão o dr. Bíichner, a esse 
systema religioso, chama — religião atheista, mate- 
rialista c sensualista. 

Isto era fatal. Escusamos, pois, de attender aos 
motivos pessoaes. A sua alienação anterior (que é 
episódica e merece o mais profundo respeito, poisque 
deriva do excesso de trabalho mental ) não pode ser- 
vir de explicação. Esse excesso aggravou-se, em seu 
effeito, pelo pungitivo alanceamento das responsabi- 
lidades perante um auditório onde se encontravam 
personalidades tacs como Ilumboldt, Poinsot, de Blain- 
ville, — honra incomparável para o joven preleetor. E, 
por cumulo de infortúnio, complicou-se d'uma crise 
moral atroz, conforme da melindrosa narrativa que, 
da penna de Lonchampt, corre manuscripta entre os 
orthodoxos. A desgraça, onde se intercala a affectuosa 
dedicação que Littré releva, tornou-se irreparável 
pelo orgulho offendido. Era, elle, enorme, chegando á 
demência. Não soffria sombra de contradiecão. Confor- 

* 

me se deprehende da carta de Comte a MUI, reco- 
lhida por Littré, o fundador tractava <ta ta&ç&vst 



198 O BRAZIL MENTAL 



dissidências d'opinião que topava nos seus discípulos. 
Ouando persistiam, quando eram incuráveis, accu- 
sava o coração de ser solidário com esses desvios 

* 

intellectuaes. I)'ahi a enxovalhar a heresia como um 
crime não medeia senão um passo. Não se julgará a 
gente em Roma, pergunta um critico, perante o tri- 
bunal da Santa Inquisição? 

Este orgulho era, de essência, imprescindível 
para incutir no próprio animo a confiança necessária 
á confecção de obra tam espantosamente monumen- 
tal. Mas cerrava o horizonte critico e endurecia o 
coração. 

Fora de prever, de resto, o íeitio psychico de Au- 
gusto Comte, attenta sua origem. Ello era de Mont- 
pellier, terra do sul da França; provinha de gente 
de lingua d'oc. O seu catholicismo, até á superstição 
do culto das imagens, condiz com o hespanholismo 
afíin de idioma e raça de procedência. Na rivalidade 
dos meridionaes e dos homens do norte, vibrado o golpe 
mortal á cultura provençalesca — que Brachet deplora 
no ponto de vista extreme da simples litteratura — 
Montpellier, que militara a prol do conde de Tolosa, 
succumbe na batalha decisiva de Muret. De seguida, 
o elo com o Aragão e Maiorca successivamente se 
distende, parte. De vez, a senhoria de Montpellier é 
em 1349 reunida á França; e, todavia, o rei de Ara- 
gão ainda encontra ensanchas de erguer contestações 
varias. 

Sob a íluctuação do accidente histórico, perpassa 
a permanência do espirito ethnico, que define espe- 
cialisada modalidade anthropologica. 

Como se o effeito originário geral não tosse bas- 



O BRAZ1L MENTAL 19í> 



tanic para a determinação psychica de Conilc a li- 
ção presente assistia-lhe ainda. 

Assim, elle tinha, vivo, o exemplo dos saint-simo- 
nianos. (Juando. após Bazard e Enfantin se haverem 
separado, um novo scisma occorreu na família so- 
cialista, pela retirada de Olindo Rodrigues, quaren- 
ta discípulos seguiram Enfantin para Ménilmontant. 
E ahi começou para elles, combinada com um senti- 
mento profundo da herarchia, a pratica d' uma vida 
collectiva e o exercício d'uma religião commum. 
Adoptaram um vestuário distinetivo e entoavam hy- 
mnos. de que um dVlles. Félicien David, compuzora a 
musica. Serviam para lhes exaltar a alma. dando en- 
canto a seus trabalhos. Em similhantes praticas, o 
historiador Louis Blanc quiz aperceber o nevrotico 
futuro. Considerou que os apóstolos de Ménilmontant 
iam, assim, muito adeante das próprias theorias o se- 
meavam á sua roda, sem o saber, doutrinas que. um 
dia. deveriam fazer olvidar as dVlles. 

Também nâo se descuidava, um seu apostolado 
fourierista. aquelle excêntrico de Champfleury, Jean 
Journet a que já n'este volume alludimos. 

Nâo importa. O caso é que Comte foi levado á 
sua religião naturalmente. 

Com cffeito. Indague-se de todos os fundadores, 
de todos os patriarchas, de todos os doutores, dos 
luminares de .todas as religòes. A resposta dada será 
sempre a mesma: — a necessidade da revelação das 
verdades supremas, visto a razão não poder, por 
seus meios naturaes, a tam alto attingir. 

Esta condemnacão dos esforços da natureza hu- 
mana. por impotentes, é constante e regular. 



200 O BRAZIL MENTAL 



Poderemos vêl-a em algumas proposições cara- 
cterisadas? Podemos. E facilmente. 

Em S. Basílio, o grande, Epist. ccxxxiv, opp.. 
t. iii, p. 356; em' Santo Athanasio, Adv. gent., i; S. 
Gregório Nazianzeno, Orat. xiv, 33 e Orai. xxviii, 
6, 16; S. Clemente d' Alexandria, Sfrom., 1. v c vi; 
Santo Iren., Adv. her. 9 1. iv, c. vi; Origenes, Contra 
Cels., 1. vn, § 42; Lactando, Instit. d/v., 1. n, c. xiv; 
Athenag., Legat.pro ChrisL; Santo Hilário de Poitiers, 
De TrimL, 1. v, n.° 20 e l. i, n.° 19; Santo Agosti- 
nho, De ord. % ii, 47, e Di> c/v/t. D?/\ 1. xi, c. n. Si- 
milhante condemnaçào assenta, por um lado, a fra- 
queza do nosso espirito; e, por outro, revela a or- 
dem das verdades transcendentes. 

A este resultado equivoco chegou o espirito des- 
proporcionado de Augusto Comte. IVesta alma vasta 
e poderosa duas correntes, congéneres mas differen- 
ciaes, se combatiam. 

Uma era o scepticismo scientifico, empírico, phi- 
losophico de Aristóteles, Bacon e Descartes. A outra 
o scepticismo religioso, mystico de Pascal e dos prín- 
cipes da Egreja. Predominou, por fim, esta segunda' 
entelechia. Ella o levou (por entender que o espirito 
humano nâo podia chegar a coisa alguma do supe- 
rior, do acima do relativo, do primeiro, do porque, 
da synthese ultima), ella o levou — a uma religião 
revelada naturalmente. Porém, mercê do concomi- 
tante, e n'ollo — indespojavel, espirito sceptico philo- 
sophico, essa religião ficou sendo uma religião mate- 
rialista, uma religião sem Deus, uma religião não 
religião. 

Este processo lógico do espirito inconsciente ex- 



O BRAZIL MRNTAL 201 



plica-nos o quo não pôde ter explicação para o sor- 
bonnismo de Émile Charles, quando consigna que é 
porventura a primeira vez que o empirismo, levado 
ás ultimas consequências na theoria, não tem por co- 
rollario o egoísmo na moral. Não é. Escusa-se de ci- 
tar a moral de Confúcio; bastaria que se recordasse 
a bella phrase de Feuerbach, o qual, declarando-se 
materialista na idéa, se revindicava, por um illogismo 
subtil e congénere, idealista no tacto. 

- E eis-nos ao ponto, mercê do encadeamento cir- 
cular das idéas, de regresso, ainda uma vez. Forço- 
samente, pela coerção da polemica, eis-nos, de novo, 
volvidos á negação da lei dos três estados, irrepri- 
mível quando se queira attribuir á presente phase 
da vida, mental e sentimental, da humanidade, o es- 
tado positivista comteano. Como se o já dito não fosse 
ainda sufficicnte, affirma-se ser esta phase definitiva, 
a regeneração da philosophia, e tudo o mais, pura e 
simplesmente, filho da iniciativa de Augusto Comte. 
Sua acção seria cncyclopedica. Da omni re scibili? 
Sim. E também quibusdam ali ih. Enlevados exaggeros 
de papistas mais papistas que o papa, e cujas decla- 
mações se repetem, ensurdecedoras. 

Por um longo e esmerado trabalho critico, o snr. 
Sylvio Romero, no seu alludido livro O Evolucionismo 
e o Positivismo no Brazil se emprega na revindica- 
ção dos antecessores de Augusto Comte. Este, porém, 
nunca renegou prioridades, antes se acolheu ao pa- 
tronato das grandes culminancias históricas. O caso 
de Saint-Simon é questão pessoal. 

De resto, uma consideração geral deve presidir, 
dominantemente, ao debate. 



202 O BRAZIL MENTAL 



É que, caso seja certa a phrase nihil sub sole no- 
vum, muito mais verdadeira se torna ella, se é pos- 
sível, quando se tracta da philosophia empírica. E a 
razão é obvia. 

Um systema transcendental tem, visto o íacto 
incontestável de nào poder o espirito humano estar 
sempre a crear novo, tem maior ou menor affinidade 
histórica com outro qualquer systema. Assim, a phi- 
losophia de Schopenhauer bebe largamente nas fon- 
tes orientaes. 

Porém, todo o systema transcendental traz o cu- 
nho do pensador que o cria, poisque é um resultado 
artístico da especulação pura do pensador. 

Assim, cada um doestes toma a sua idéa priínor- 
dial-kwe-e d'ahi constroe, como cada artista lança 
os seus alicerces, como cada litterato faz o esqueleto 
da sua obra, filha da sua só especulação e irredueti- 
vel á experiência. Entenda-se o legitimo alcance da 
proposição. Est modus in rebus. Na relativa medida 
que é permissivel á originalidade no humano engenho. 

Mas, emíim, — e é o que nos cumpre óra — se cada 
pensador idealista toma sua idéa primordial e d^ella 
enreda, claro está que o systema lho pertence pro- 
priamente pela base, sua especulação ou sua apro- 
priação modificatriz, e pela construcçâo, sua obra 
d'arte philosophica, superior e transcendente. 

Assim como os aleijões aos Ínfimos, os primo- 
res pertencem, em arte, aos grandes espiritos que 
os fizeram.: o cabo d'um punhal burilado a Cellini; os 
arranques desesperados da dôr de Werther a Goethe. 

É n'esta intuição, inconsciente bailando no espi- 
ríto, que se íundam as classificações modernas. Oc- 



O BRAZÍL MENTAL 203 



cupando-se da historia da poesia cpica, Angelo de 
Gubernatis estabelece, no estudo, duas grandes repar- 
tições: a das epopeias nacionaes, a dos poemas indi- 
viduaes. E é forçado a reconhecer que, mercê da pre- 
valência da arte do poeta sobre a entidade do assum- 
pto, «gli uni ontrarono facilmente negli altri, e cias- 
cuno participa delia natura d'entrambi.» E, sendo 
assim, a invenção original é que domina. 

identicamente, todos os systemas transcenden- 
taes, filhos só da especulação dos seus creadores, são 
d'elles propriamente. D*ess'artc a theoria do espirito 
absoluto é de Hegel, como a theoria da vontade per- 
tence a Schopenhauer. Com o coefíiciente de correc- 
ção que já atraz introduzimos. 

A philosophia empirica, porém, como a sciencia, 
sua mãe e directora, não é propriedade, evidente- 
mente, doeste ou d'aquelle. 

Quando Darwin proclamou a lei da selecção na- 
tural na lucta pela existência, Darwin não fez, ma- 
nifestamente, essa lei, proclamou-a, tão só; não in- 
ventou: achou, descobriu. Quando Newton encontra 
o principio do binómio que toma o seu nome, elle 
não cria, não faz esse resultado; tem unicamente a 
gloria de o achar e exhibir, demonstrativamente de- 
duzido. 

Portanto, n'esta ordem de trabalhos não ha a 
considerar (mas admirativamente) mais do que o la- 
bor da descoberta, do que o estudo, do que a grande 
intelligencia, o meio seguido, a inducção o a deduc- 
ção, a argumentação produzida, o raciocinio obser- 
vado. Mas nunca a creacão, como a de uma obra 
«Tarte ou d'uma feitura industrial. l)a& eTfc^yss> V\\.- 



204 O BRAZ1L MENTAL 



manas, só duas sâo, prolificamenL* a seu turno, crea- 
doras : a esthetica, no amplo sentido que certos alie- 
mães dão a esta palavra; e a technologia. 

Quanto á philosophia empírica, ella não é, repe- 
timos, obra d'este ou d'aquelle. E porque? Pela ra- 
zão simplicíssima de que a philosophia empírica é 
filha da observação, sobre cujos dados se exerce na- 
turalmente a razão. 

Todavia, estas observações clarissimamente in- 
tuitivas, — incrível coisa! — parece que jamais as fez 
Littré, o illustre discípulo dissidente de Augusto Comte. 

Para elle, a philosophia positiva como objectivada 
concepção, a phase positiva da humana realidade são 
de Augusto Comte oriundas e a esse pertencem, por 
direito de senhorio, primacial e propriamente. 

Assim, afdrma: «Eu, quando digo philosophia 
positiva, entendo Augusto Comte e este livro, a 
que ponho um prefacio; não seria justo velar sob um 
termo impessoal o louvor devido a um grande nome 
e a um supremo serviço.» 

IVcsto modo, Augusto Comte foi um innovador. 
E o supremo serviço de Augusto Comte consistiu em 
assentar a philosophia positiva, poisque, quando falia 
de philosophia positiva, elle o diz, Littré entende Au- 
gusto Comte e o seu livro. 

Descoberta admirável, que, a haver-se dado em 
verdade, ainda augmentaria a gloria de Comte, tor- 
nando-a excepcional, assombrosa e única. 

Mas não ! Para se pensar d'um modo positivo, . 
observa com fina ironia Ch. Pellarin, não íoi preciso 
que Augusto Comte apparecesse, poisque o seu tão 
preconisado methodo positivo não é mais do que «o 



O BRAZIL MENTAL 205 



processo seguido nas sciencias exactas», já tão usado 
por todas as escholas empíricas, como todos sabem. 
K aqui, consoante dissemos, a lei dos três estados ba- 
te, como frequentemente, em talso, poisque se não 
chegou tâo só agora á phase positiva pelo impulso, 
pela regeneração, pela renovação de Augusto Comte, 
conforme erradamente julga Littré. 

Nâo! A lei dos três estados é, no lance, como em 
outros, redondamente falsa e quadradamente errónea: 
a philosophia de Augusto Comte, como todas as phi- 
losophias empiricas, nâo é a creação d'elle, visto como 
crear systemas importa, desdenhando a experiência, 
cahir no erro das 'doutrinas transcendentaes e abso- 
lutas. 

O ensino da chronica dos systemas facilmente nos 
elucidaria sobre o assumpto. 

Assim, não se chegou hoje ao modo de ver po- 
sitivo em virtude da regeneração de Augusto Comte, 
como, prefaciando Leblais, terminantemente o declara 
LHtré. De todo o tempo, o espirito humano marchou, 
quando positivamente, positivamente, sem esperar por 
nenhum Cointe-Messias da relatividade, porvindpiro 
e futuro. O próprio Comte o reconheceu, aliaz, desde 
que escrevera: «O methodo positivo é necessaria- 
mente, como o methodo theologico ou metaphysico, 
a obra continua da humanidade inteira, sem nenhum 
inventor especial.» Das conclusões geraes do seu cur- 
so, esta é a que marca ao conjuncto o critério pre- 
valecente. 

Mais papista do que o papa, Littré afílrma-nos, 
porém: «A grande innovação que deu um systema 
geral ás sciencias positivas é obra <ta VLw&\& *. * * 



206 O RRAZIL MENTAL 



doutrina que confiava ás idéas a formação dos prin- 
cípios geraes . . . não cahiu senão deante de Augusto 
Comte . . . Cointe achou a philosophia occupada pela 
metaphysica, tornou-a positiva...». E não recorda 
que o próprio Comte dá a sua obra corno comple- 
mento da vasta operação de Bacon, Descartes e Ga- 
lileu, assentando elle perante nós, também, a analo- 
gia entre o seu methodo e o da philosophia natural 
ingleza, depois de Newton. 

Mas, então, quaes foram essas descobertas deci- 
sivas de Augusto Comte, mercê das quaes elle seja 
um i/inovador? 

Foi o primeiro que, na opinião de Littré, separou 
o abstracto do concreto. Isto custa a crer. Até Au- 
gusto Comte a especulação humana confundiu o abs- 
tracto com o concreto! Não houve lógica nem exis- 
tiram lógicos até que Comte nascesse! 

Não se distinguia, até Comte, o contingente do ne- 
cessário, o absoluto do relativo. Mas então, para que 
Comte fosse intelligivel, seria preciso que coincidisse 
com o seu advento uma revolução nas condições for- 
mães do espirito de todos e de cada um dos homens — 
sem a qual o seu ensino seria incomprehendido. To- 
davia, já Buffon enfiara os seus punhos de renda 
para intercalar, com bizarra coincidência, no seu texto 
sobre os quadrúpedes, a observação lógica de que: 
«O absoluto, se existe, não está ao alcance dos nos- 
sos conhecimentos; não julgamos nem podemos jul- 
gar das coisas senão pelas relações que ellas teem 
entre si.» A evidencia affigura-se, pois, como impon- 
do-se sobranceira. 

Proseguindo, porém: 



O BRA/JL MENTAL 207 



É o caso concordante que, segando Littré, foi 
Comte, outrosim e homologamente, o primeiro a es- 
tabelecer a historia como um phenomeno natural. 

Perfeitamente observa Vacherot que Viço havia 
já, na sua famosa sciencia nuoua, comprehendido o 
fim, o objecto e o methodo da historia consoante ella 
é considerada modernamente. 

Condorcet, no seu Quadro dos proç/ressos do es- 
pirito humano, fizera uma tentativa útil, e commo- 
vente pelas circumstancia em que foi elaborada, de 
systematisação da historia humana, observada no evo- 
luir de suas transformações, naturaiisticamente con- 
sideradas. 

Até mesmo Voltaire, no Ensaio sobre os costumes 
e o espirito das nações, procurara fixar experimen- 
talmente as características differenciaes das sueces- 
sivas culturas. Estudando-o a este propósito, o emi- 
nente Strauss colloca Voltaire entre Bossuet e Her- 
der. Corrige Narval a Strauss; e a Voltaire o remette 
para entre Herdor e precisamente Augusto Comte. 

Quanto a Bossuet, o próprio Comte declara que 
a intelligencia das relações geraes dos factos, a sua 
explicação lógica, essa sciencia nova foi entrevista 
pelo eximio orador. Se confusamente, graças ao seu 
critério theologico segundo Comte e, para nós, mercê 
da abusiva applicação da interpretação synthetica 
adoptada, nem por isso deixamos de deparar ahi com 
um exemplo ainda de consideração da historia como 
phenomeno natural. Somente, insufíiciente. Onde for- 
mou, de resto, o próprio Comte suas idéas áctfrca das 
phases capitães e decisivas do desenvolvimento da 
cultura Occidental? Não foi, exclusivai\v?K\\ss ^\\axAv> 



208 O fcRAZIL MENTAL 



fora sou orientador lemma providencialista, não íoi 
em José de Maistre? Foi. A todo o instante, para elle 
appella e da sua auctoridade se soccorre. Todavia, a 
não ser de passagem cm Laurent, a influencia im- 
mensa, determinante de José de Maistre (e implici- 
tamente de toda a eschola neo-catholica ultramonta- 
na) no espirito de Augusto Comte não tem sido assi- 
gnalada ao de leve sequer, quanto mais com o frisante 
relevo que urgentemente reclama. 

Pelo que a Herder quadra, seu propósito o pro- 
clama, ao emprehender tarefa. Consiste em procurar 
«uma philosophia da historia da humanidade por 
toda a parte» aonde as suas investigações podiam 
attingir. 

Vamos ao acaso, para não nos fatigar e, pois de 
nossa companhia, para nâo cansarmos também o leitor. 

A questão é banal, de resto; e peza que a vo- 
luntária subordinação de Littré coaja a demonstrar 
verdadeiros logares-communs. 

Á vasta serie dos seus estudos da annalistica da 
humanidade, Laurent encerra-a com um volume 
acerca da philosophia da historia. A primeira parte 
doeste tomo ultimo consagra-se á doutrina que, até 
elle, tem sido expendida pelos auctores que hão con- 
siderado, por egual, a historia como phenomeno na- 
turalista. Analysa, portanto, Laurent os seguintes: 
Bossuet, Viço, Voltaire, Frederico h, Kant, Montes- 
quieu, Herder, Ilenan, Thiers, Hegel, Comte e Buckle. 

Em Inglaterra, o douto professor da universida- 
de de Edimburgo Roberto Flint desenhou escrever 
The philosophy of hislory in Europe, obra de que 
sabia logo a primeira parte, Philosophy of hisiory in 



O BRAZ1L MENTAL 20 



Fraace and Germamj, destacada, na versão france- 
sa de Carrau, em dois volumes especiaes, peculiar- 
mente para cada paiz. 

No referente á França, consigna Flint e ahi es- 
tuda: Bodin; o cartesianismo ; Bossuet; Montesquieu 
Turgot; Voltaire; Condorcet; a eschola theocratica 
Saint-Simon e Fourier; Cousin e Jouffroy; Guizot; a 
sequencia da eschola socialista: Buchez e Leroux 
Augusto Comte; a eschola democrática: Michelet e 
t,)uinet; finalmente, a sequencia da eschola demo- 
crática: de Tocqueville, Odysse-Barot, de Ferron e 
Laurent. 

Mal tractado na theorica de suas trez leis, cujo 
systema Flint declara falso de lez-a-lez, Odysse-Barot 
vinga-se julgando-lhe o livro severamente. K na sua 
informação sobre a litteratura contemporânea na In- 
glaterra. Ahi registra que, em todas as epochas, hou- 
ve uma certa tendência nos espíritos philosophicos 
para unificar a historia, para entrever vagamente as 
Íeis que governam a vida social. Com effeito, já Aris- 
tóteles, por uma parte, os sophistas, por outra, ha- 
viam tido como que uma intuição da verdade. Mas, 
segundo Odysse-Barot, seria só em nossos dias que 
essa tendência revestiria uma forma scientifica. 

Increpa Flint por não haver feito rcsaltar exa- 
ctamente o papel de Rousseau e de Mably, entro 
outros pensadores ainda. Declara que Flint foi mais 
iiel a sua tarefa, quando mostrou como a philosophia 
da historia surgira na França, que lhe foi berço, a 
partir do século xvi. As fundações da sciencia nova, 
consoante, a seu juizo, o faz observar justamente o 
insigue professor escossez, foram ços>\a& yã» *& \>« 

w 



210 O BRAZ1L MENTAL 



» 

Etienne Pasquier, em suas Recherches sur la Fran- 
ce 3 como por Agrippa cTAubigné, como sobretudo por 
Montesquieu, que, de resto, tomou muito de emprés- 
timo a Pasquier, da mesma maneira que enorme- 
mente deve a Machiavelo. 

Para Odysse-Barot é, comtudo, da grande Revo- 
lução que data, na realidade, a philosophia da his- 
toria. 

Pelo que toca a esta nova sciencia em sua cul- 
tura na Allemanha, FJint estuda, por seu turno, os se- 
guintes: Leibnitz, Iselin, Wegelin, Schlozor, von Mul- 
ler, Lessing, Herder, Kant, Schiller, Fichte, Schelling,. 
Stuthyman, Sheffens, Goerres, Frederico Schlegel, 
Krause, Hegel, Bunsen, Lasaulx, Lazarus, Lotze e 
Hermann. Isto desde os rudimentos da historiogra- 
phia na Allemanha. 

Implicando com Machiavelo, os ensinamentos (ac- 
cordes no apparente dissentimento) dos respectivos 
livros, desenhando a sinistra figura do Principe e de- 
duzindo da republicana textura de Livio, todos se 
fundam na lição dos factos, considerados como phe- 
nomenos naturaes, logicamente entrelaçados no con- 
juncto da historia. Quanto á sua «Historia de Flo- 
rença», Hallam preceitua: «Machiavel was the first 
who gave at once a general and a luminous deve- 
lopinent oí great events in their causes and conne- 
xions, such as vc fmd in the first book of his History 
oí Florencc.» 

Em a philosophia da historia romana, a dentro 

da sua famosa these coroada pela Academia franceza, 

poisque de Machiavelo cumpre que nos occupemos 

primordialmente entre os modernos, aventa o irónico 



O BRAZIL MENTAL 211 



Taine que ura manual de homens de estado não seja 
precisamente uma philosophia da arte. Registra que, 
em um politico do século xvi, o seu livro não passe 
d'uma collecçâo de máximas praticas. Mas, como el- 
las procedem dos factos históricos empiricamente con- 
siderados, é o que para o lance nos importa. De 
resto, elle aponta as leis verdadeiras, encontradas 
por acaso e por indemne rectidão de espirito. 

Com respeito a Livio, Taine vai indagar de sua 
philosophia da historia. É original o exhibido juizo 
acerca das arengas diffusas e constantes de que as dé- 
cadas estão repletas. Aparta-se do parecer tradiccional, 
que as considerava a macula da obra, como pompas in- 
ventadas, impróprias, inverosímeis e inconcordantes. 
Para Taine, ellas são o principio vital do organismo 
ehronologico de Tito Livio. Diz que elle é philosopho 
precisamente porque orador seja. «Por este titulo, os 
discursos de Tito Livio são a parte mais útil da sua 
historia. É ahi que elle raciocina e reflexiona. As 
sentenças dos seus capitães são theorias; e adrega 
que, observando as almas, elle explica os aconteci- 
mentos. » 

No próprio acanhamento critico da nossa oppres- 
sa península, poderíamos distinguir os rebentos de 
instinctivas primícias, que não lograram multiplicar. 
Mas, como quer que Pi y Margall, no anno de 1854, 
escrevesse e publicasse um excellente juizo critico 
das obras de Juan de Mariana, 11'elle archiva, failan- 
do-lhe da famosa historia, o censurado geito peculiar 
<}e Tito Livio, com immediata interpretação — análoga 
á de Taine: «Con ei propósito de dar mayor interé& 
á lo que refíere, hasta pone con ír^evieiiçta ^w \\wa 



212 O BRAZIL MENTAL 



de sus personajes arengas que no consiente ya la se- 
veridad de la Historia; por ella arroja no poças veces 
luz sobre los obscuros móviles de actos de impor- 
tância. » 

E conviria, até, que relembrássemos o nosso Da- 
mião de Góes, o primeiro chronista critico que tive- 
mos, e um. espirito verdadeiramente encyclopedico, 
em convivência com as mais elevadas capacidades da 
Renascença e da Reíorma. Mas muitas vezes a aucto- 
ridade mandava, n'este negregado paiz, truncar ou 
eliminar certas paginas das chronicas; é por isso 
que espíritos eminentes, como um Lopes de Casta- 
nheda, um João de Barros ou um Diogo de Couto, fi- 
caram simplesmente narradores annalistas, e que 
aquelle que procurou dar á historia uma feição cri- 
tica, Damião de Góes, morreu, assegura-o o nosso 
eminente publicista, snr. Theophilo Braga, «victima 
da sua independência intelleetual.» 

Esmiuçada a revindicta de Littré em prol de Au- 
gusto Comte, pelo que toca á philosophia da historia, 
desde os mais despercebiveis elementos doesta na 
mera critica dos factos occorridos até á sua ulterior 
systematisação n'um corpo conjugado de idéas com- 
plexas e prevalecentes: o què resta d'essa pretensão 
exaggerada? Que Comte se integra, em seu logar, 
num desenvolvimento que nem d'ello partiu nem 
sequer n'elle encontrou um dos mais altos pontos 
da caprichosa curva de seu desenho. 

Olvidado de sua modesta referencia a seus legí- 
timos predecessores, diz Comte ter elle logrado, o pri- 
meiro, a honra de conseguir passar para o estudo dos 
momonos sociaes o espirito positivo. 



O BRAZ3L MENTAL 213 



É nas palavras seguintes: «Os methodos thco- 
logicos e metaphysicos que, relativamente a todos os 
outros géneros de phenomenos, não são já agora em- 
pregados por pessoa alguma, quer como meio de in- 
vestigação, quer mesmo somente como meio de ar- 
gumentação, são ainda, pelo contrario, exclusiva- 
mente usados, sob uma e outra relação, para tudo o 
que diz respeito aos phenomenos sociaes... Aqui es- 
tá, pois. a grande mas a única lacuna que urge en- 
cher para acabar de constituir a ptiilosophia positi- 
va... Tal é. ouso dizel-o. o primeiro fim d"este cur- 
so, o seu fim especial.» 

Mas. attentemos no caracter das extremes vés- 
peras da systematisação positivista. 

E. attentando. parece que, antes d' Augusto Com- 
te. o modo de vêr positivo, scientifico fora tomado 
por todos aquelles vultos giganteos dos precursores 
da Revolução. Citaremos? Mas o embaraço da esco- 
lha destaca inextricável. 

Eis aqui Beccaria no Traclado dos delidos e das 
penas. Eis aqui Montesquieu, no Espirito das leis, 
corno declara o próprio Comte. quando, em o tomo iv 
de sua obra fundamental, versa o capitulo onde nos 
mostra as tentativas feitas até hoje para constituir a 
sciencia social. Ahi nos diz de Montesquieu que «em 
toda a parte se manifesta n elle uma tendência pre- 
ponderante a conceber os phenomenos politicos como 
tão necessariamente sujeitçs a invariáveis leis natu- 
raes, conforme todos os outros phenomenos quaes- 
quer.» 

Quanto a Condorcet, são categóricas e decisi- 
vas as palavras que Comte ttifc consa^v^, ^^a ^ 



214 O BRAZIL MENTAL 



mittem duvidas: «a concepção geral do trabalho 
capaz de elevar a politica á elasôe das sciencias 
d'observação foi descoberta por Condorcet. Foi elle 
o primeiro que viu claramente que a civilisaçâo se 
encontra sujeita a uma marcha progressiva, cujos 
passos todos estão rigorosamente encadeados uns aos 
outros segundo leis naturaes que a observação phi- 
losophica do passado pôde desvelar, e que determi- 
nam para cada epocha, d'uma maneira inteiramente 
positiva, aperfeiçoamentos que o estado social é cha- 
mado a experimentar, quer nas parcellas quer no seu 
todo. Não só Condorcet concebeu por isso o modo de 
dar á politica uma verdadeira theoria positiva, mas 
tentou estabelecer essa theoria, executando a obra in- 
titulada Esboço d' um quadro histórico dos progressos 
do espirito humano, cujos o titulo só e o intróito bas- 
tariam para assegurar ao seu auctor a honra eterna 

-de ter creado essa grande idéa philosophica.» 

E Turgot não esquece a Comte, por môr de Con- 
dorcet, a respeito do qual «uma justa apreciação exi- 
ge, todavia, que não se olvide a alta participação 
antecipada do seu celebre amigo, o sábio Turgot, 
cujas preciosas observações primitivas sobre a theo- 
ria geral da perfectibilidade humana haviam, sem 
duvida, utilmente preparado o pensamento de Con- 
dorcet.» 

Acharia Comte as leis dos phenomenos sociológi- 
cos, resolvendo, consequentemente, a questão social, 
conforme veio, desde 1852, no seu parcellarmente 
ao depois repudiado livro Conservação, revolução 
e positivismo, affirmando, insistentemente, todavia, 

Littré? 



\ 



O BRAZIL MENTAL 2Í5 



Mas as soluções por Comte propostas para a 
questão social sáo, por via de regra, verdadeiras 
monstruosidades. O longo desenvolvimento doesta aí- 
firmativa constitue o assumpto especial da obra, já 
por vezes referida, do cunhado de Littré, o fourie- 
rista Pellarin. 

Ao deante, aquelle e os discípulos prudentes de 
Comte, após um instante de lógico arrastamento, vol- 
veram á rasâo e repudiaram quasi integralmente o 
curso da Politica Positiva, que a essas pseudo-solu- 
cões se destina. 

De resto, ainda que encontradas houvessem sido, 
a humanidade, nem mesmo em sua funcçào especu- 
lativa, com similhantes soluções lucrara grandemen- 
te. Poisque, ignorando-as ou desdenhando-as, nào só 
as nâo applicara como. a propósito, continuaram a 
congeminar, de própria conta, vários dos seus repre- 
sentative ?nen. 

Antes de Comte, egualmente com aberrações, se- 
meara lúcidas verdades o conde de Saint-Simon. 
Fourier tivera descobertas admiráveis e intuições 
de um verdadeiro génio. Menos dotado, o bom-senso 
chimerico — o que parece incongruente e é vulgaris- 
simo — de Ricardo Owen lograra effeitos, considerá- 
veis como ensinamento. Depois e concomitantemente, 
as soluções de Comte detiveram, acaso, o caminho aos 
economistas philanthropos ou aos socialistas revolu- 
cionários? Cederam, porventura, as oíficinas nacio- 
naes de Marie? Desistiu a organisaçâo do trabalho de 
Blaríc? O credito gratuito de Proudhon? As coope- 
rativas de Schulze-Delitsch ? O recrutamento associa- 
tivo de Lassalle? 



, 216 O RRAZIL MENTAL 



O que marca o progresso íeito depois de Comte 
para cá reside, a este respeito, principalmente em se 
não pretenderem glorias da espécie das por que Lit- 
tré saúda o sou mestre. Considera-se absurda jactân- 
cia o encontrarem-se soluções definitivas. 

« 

Reputa-se tal procedimento pura e extreme me- 
taphysica — da má entre as péssimas. 

Pôde, mesmo, o inventor do systema ou o desco- 
bridor das soluções, em vez do ser um crente como 
Fourier, ou um vago idealista como Saint-Simon, 
apparecer-nos como um fieffé materialista e incorri- 
gível atheu, qual Ricardo Owen. Por isso mereceu 
os elogios calorosos de Herzen filho, que, para exem- 
plificar o conceito determinista da sua Physiologia 
da vontade, recorre, em capitulo final e decisivo, a 
experiências (que não diriamos em anima vili s mercê 
do respeito ao homem devido e, mais que muito, de- 
vido ao trabalhador). Fizeram-se na colónia demons- 
trativa de New-Lanark. Mas nem por similhante ti- 
tulo, elle deixa de pertencer, com Fourier e com 
Saint-Simon, á phase do socialismo utópico, contra- 
posto ao socialismo scientifico. Ou, adoptando a ter- 
minologia comteana: socialismo metaphysico ; socia- 
lismo positivo. 

Este caracterisa-se por que as soluções appete- 
cidas nâo derivam (feitas, completas) do cérebro pri- 
vilegiado d'um inventor. São o resultado do processo» 
histórico, anonymo, collectivo. 

Como em todos os seus coevos congéneres. Au- 
gusto Comte ( que, no aspecto negativista do seu de- 
bate, nenhuma original divergência peculiar offerece) 
viu o que o socialismo viu e criticou até onde elle. 



O BRAZ1L MENTAL 217 



criticou. Conforme o relembra no seu subtil opúsculo 
Frederico Engels, o socialismo criticava, é certo, a 
producção capitalista e os seus corollarios; mas nào 
a explicava e não podia, por consequência, destruil-a 
theoricamente; nâo lhe era licito mais do que o re- 
jeital-a como má. 

Augusto Comte ainda, porém, foi mais conser- 
vantistamente retrogrado. Manteve, apropriando-se 
d'elle para seu programma reconstituinte, o typo ca- 
pitalista que encontrou íeito. Os seus discipulos or- 
thodoxos exaggeraram até o seu burguezismo. 

E — curiosa coisa! — deram-lhe um sabor de hy- 
pocrisia bemfazeja, que os approxima até os nivelar 
com o jesuitismo mais reíece. A resignação na su- 
bordinação que (sob a etiqueta vaga de «incorpo- 
ração do proletariado na sociedade moderna») elles 
pregam ás classes obreiras é revoltante. Desvenda, 
novamente, o egoísmo d' uma classe sacerdotal, fa- 
zendo, como a catholica, a corte aos detentores dos 
bens terrenos. 

]Yeste repugnante aspecto do debate, está magis- 
tralmente conclusa, no Brazil, a indignada replica do 
snr. Sylvio Romero. Discute elle essa chamada in- 
corporação, pelo positivismo, do proletariado na so- 
ciabilidade contemporânea. E toma para thema da 
sua redarguidora prosa passagens varias da biogra- 
phia de Benjamin Constant elaborada pelo incansável 
e faccioso, illustre e fanatisado propagandista ortho- 
doxo Teixeira Mendes. 

O que ha de mais typico nas explanações doeste 
é (sobre o inconsciente decalque do estylo do fun- 
dador, levado aos oxtremos da copva eml\x\\&\N^ ^ 



218 O BRAZIL MENTAL 



ar beato e compungido com que se pretende conso- 
lar o pobre, harmonisando-o com a sua sorte. En- 
tedia este cant de nova espécie ; e a prosa da positiva 
conformista rhetorica exhala fumos de alfazema e in- 
censo que tresandam. De resto, é cynica, sem dar 
por isso. 

Mas por isso deram, mais ou menos, os positi- 
vistas heterodoxos, com Littré á frente, o qual — 
porque nunca a houvesse perdido de todo, e succes- 
sivamente fosse recuperando a autonomia do seu es-, 
pirito — houve de as ouvir duras, da fileira dos mais 
exaltados dos supersticiosos. Estes, como Poey, por 
exemplo, não se pejaram de á conducta d'aquelle, 
ainda nos pormenores concretos mais melindrosos 
(como na acção judicial movida aos testamenteiros), 
lhe attribuir indignas intenções de inconfessáveis de- 
sígnios. 

Por isso deram emfim, dissemos; mas nunca se 
alhearam do chimerico afan de buscar soluções in- 
tegraes, em seu acostumado anhelo de leis syntheti- 
cas. Seria excellente, por certo; mas não pôde ser 
ainda. Nunca o poderá, talvez. Racionalmente se pre- 
sumo que jamais. Mas seja como seja. O que é in- 
contestável é que, por agora, nem pensar n'isso cabe. 

Em todo o caso, insistem elles cm pedil-as, es- 
sas almejadas soluções integraes, poisque ás de Comte 
as rejeitaram já. 

Assim, quando appareceu a primeira parte do 
Capital, de Karl Marx, a Revista de philosophia po- 
sitiva, de Paris, censurou o auctor, simultaneamente 
por haver feito economia politica metaphysica e por 
se haver limitado a uma simples analyse critica dos 



O BRAZIL MENTAL 219 



elementos dados. Ella queria outra coisa mais. Com 
a grosseria aggressiva de todos os escriptores judai- 
cos (Engels, Ruge, Heine; Tobias Barreto deve ser 
de origem abrahamica ; tem todas as características e 
fornece os indícios todos), — Karl Marx define bru- 
talmente o que os positivistas orthodoxos pretendiam. 
Esperavam d'elle o favor «de formular receitas (com- 
tistas?) para as marmitas do futuro.» 

Mas o problema não residia ahi; estava em de- 
terminar o logar histórico da producção capitalista 
no desenvolvimento da humanidade, provando a sua 
necessidade para um período histórico dado e, por 
isso mesmo, a necessidade outrosim da sua queda 
futura. 

É pouco? É, para quem, como o positivismo or- 
thodoxo, possua, integralmente, as soluções. Sâo as 
de seu mestre, Comte. l)'elle serão, mesmo, afinal, 
na rigorosa, rígida verdade? 

Pois diz-se: as soluções de Comte! Mas quaes são, 
de próprias, as soluções, novas?, de Comte? 

Passarão ellas, porventura, d'uma copia servil 
do regimen da edade-media, por cujo theôr Comte 
era fanático?! Todo o seu coevo romantismo ema- 
nuelico nutria superstição similhante. Fosse esse ro- 
mantismo (lyrico e saudoso) de origem catholica; 
fosse a procedência, monarchica, ultramontana; fosse 
feudal ou jesuítica: — emfim, de qualquer maneira e # 
por qualquer typo, comtanto que reagisse sempre 
'contra os princípios inestheticos, (por niveladores) 
da Revolução. Ainda que não concordassem entre 
si ou mesmo se hostilisassem, as tendências, só una- 
nimes no esforço commum de Tcxcx«\^Y&sàfò> — *x«sa> 



220 O BRAZXL MENTAL 



simultaneamente aeccites e professas. Assim se re- 
cor-,.2 no começo do século um período bem cara- 
cterisado de reacção religiosa. 

J)'est"arte. as soluções de Comte resultara im— 
pias. Filas são, nada menos, mas nada mais. do que 
a instituição catholica sem a idêa de Deus. 

Conte esconderá isto? Pelo contrario: da mons- 
truosidade se ufana. Comte. vamos vêl-o. é o primeira 
a affirmal-o quando diz que a organisação catholica 
deve presidir finalmente á indispensável organisação 
espiritual rias sociedades modernas! 

Com effeito, elle avança que ao que devia pere- 
cer no catholicismo era a doutrina e não a organi- 
sação, que não foi passageiramente arruinada senão 
em cons-quencia da sua inevitável adherencia ele- 
mentar ;í philosophia theologica, destinada a suecum- 
bir gradualmente pela irresistível emancipação da 
razão humana, emquanto que uma tal organisação. 
reconstruiria convenientemente sobre bases intelle- 
ctuacs simultaneamente mais extensas e mais está- 
veis, deverá finalmente presidir á indispensável reor- 
ganização espiritual das sociedades modernas.» 

Comte, nada mais fez, pois, do que reconstruir ; 
quer dizer, do que supprimir as affirmações theolo- 
gicas e accomodar á phase presente da vida da hu- 
manidade. 

Inquirir como é que a humanidade chega no 
primeiro estado (o theologico) á ultima e definitiva 
organisação, que o ultimo e definitivo estado (o po- 
sitivo) deverá tomar, não o fazemos. Fastidioso seria 
isso, porque innumeras são as contradições que Com- 
te íorne&* * da lei. Deixa- 



O BRAZll. MENTAL 22 L 



mos ao simples bom-senso erguer espontaneamente 
esta, como outras idênticas perguntas. 

Somente, em synthetico resumo, ao leitor se af- 
íigura, por certo, que a idéa de Deus é o que em- 
presta a vida á organisaçâo catholica. Só na crença 
de que o papa seja o delegado de Deus na terra é 
que a humanidade se roja a suas bentas plantas. A 
disciplina não passa de uma consequência do dogma. 
E querer conservar aquelia sem este é fixar a letra sem 
o espirito; interpretar a lei, depois de morta, por vo- 
cábulos agora inentendidos. Os padres positivistas te- 
rão assim o ar d'esses sacerdotes persas que ofíiciam 
€in zend. de que não percebiam uma palavra at< ; á 
restituição da morta, e perdida, língua pelo processo 
comparativo de Burnouí. 

Mas regressemos, prestes, ao debatido ponto das 
preeedencias, que tanta bulha faziam em cortes e 
concilios, para se occupar uma bancada ou se passar, 
primeiro, por uma porta.* 

Af firmou Comte com prioridade, porventura (con- 
soante se pretende fazer crer), que as noçòes scien- 
tiíicas são accumulaveis? 

Aqui se aparta de seu mestre, Saint-Simon. Este 
professava falsamente que as faculdades humanas se 
suecedem, se substituem, mas não se accumulam. tó, 
de resto, o principio vital do erro de Comte: de que 
os methodos — suppostos — (thoologico, metaphysico, 
positivo) se suecedem, se substituem, mas não se ac- 
cumulam. 

Com respeito, porém, ao principio relembrado: 
antes de Comte Pascal havia tido a mesma idéa, 



222 O BRAZIL MENTAL 



incrustada n'uma robusta phrase celebre, que o pró- 
prio Comte cita com elogio. 

Formulou a lei dos três estados e d'ella derimiu* 
segundo Littré, o quadro da evolução social? Mas se 
a essa lei (incorrecta, incorrectíssima, como estas con- 
siderações contestando a attribuida proclamação da 
phase positiva sô por Comte estão deixando entre- 
ver), se a essa lei famosa a topamos já formulada 
claramente em Saint-Simon ? ! 

D'elle a tomou Augusto Comte, com infinitas in- 
tuições mais, que o fidalgo reformador definira, aliaz 
de parceria, aqui e alli, com pensadores de variadís- 
simas procedências. Cite-se a idéa de vir a ser a po- 
litica uma sciencia d'observação; cotejem-se os pa- 
receres acerca da Reforma, acerca da Edade-media; 
pense-se na identidade do alvitre da reorganisaçâo 
do clero no corpo scientifico. Esse foi, mesmo, mais 
tarde levado a effeito, até que a auctoridade inter- 
veio, promovendo querellas* e a seita, desanimada, 
dispersou, ao som da trombeta de caça businada por 
Michel Chevalier, que havia de vir a dar em pro- 
fessor theorico da orthodoxia livre-cambista, acaban- 
do por fazer-se, praticamente, accionista de grandes 
companhias e emprezario de obras publicas. Tal a 
humana inconstância... 

A demonstração meuda do exhibido asserto pôde 
vèr-se, com referencia a Saint-Simori, na collecçào 
de suas OEuvres cholsies; e o snr. Sylvio Romero 
empregou-se em demonstrar copiosamente a eviden- 
te flagrância da reflectida copia. O seu trabalho a 
este respeito esgota o assumpto, ficando elle liqui- 



O RRAZ1L MENTAL ' 223 



dado pelo que toca a Saint-Simon, de quem o pró- 
prio Comte se confirmara como discípulo, aliaz, con- 
soante sabidissimo é, mesmo entre nós, onde, como 
no Brazil, pouquíssimas coisas se sabem. 

Em íace da compromettida lei dos três estados 
está-nos, de resto, recordando esbotenada preoccupa- 
câo de adolescência. 

Como a Camillo Castello Branco, n'uma das suas 
mais maravilhosas paginas de plasticidade formal, oc- 
correm-nos aquelles «dois versos, de Goethe, filtra- 
dos pela glote melliflua do visconde de Castilho»: 

Tornai-uie a ayparecer, entes imaginários 
que nió envhieis outrora os olhos visionários. 

Eis a longiqua miragem. Antes do auctor do 
Curso de philosophia positiva* desenrolando, ou- 
trosim, o quadro de evolução social que demanda 
Littré, era, p. ex., o painel esquecido de Fourier. 
Todavia, elle destaca, entre mil diversos retábulos 
da evolução humana, assentes numa ou n'outra serie 
de factos. Esteadas nos processos experimentaes da 
moderna anthropologia, nem por isso lograram vi- 
ctoria decisiva as artificiaes classificações, oflerecidas 
como naturaes, integras e perfeitas. Ha impossibili- 
dade mental de systematisaeào, attenta a prodigiosa 
massa de íactos accumulados, apparentemente des- 
connexos, cuja interdependência se divisa mas nào 
se encontrou nitidamente, quanto mais sua genésica 
filiação. Os successivos espelhos da Descriplive sócio- 
lo(jy s de Herbert Spencer, respeitantes á França, de- 
monstram-!) cabalmente, em nossos dias últimos. Se«v 



224 O BRAZIL MENTAL 



embargo, nas derivantes do movimento da civilisa- 
çâo, o génio de Fourier traçou com maravilhosa 
amplitude, clara e substancialmente. 

Tracta-se, por ultimo residuo, da classificação das 
sciencias, elaborada por Augusto Comte? 

Ella é a sua obra-prima; e uma das maiores 
maravilhas do génio humano. Nâo lhe discutiremos 
as imperfeições, em cujo cotejo ( amparado por Spen- 
cer e por Huxley, — moletas que não larga nunca, de 
seu trôpego caminhar) gasta, de conta alheia, Sylvio 
Romero largas paginas. Este não seria o lance, pois- 
que de precedências e effeitos fallemos. 

Nâo conquistou triumpho pleno, definitivamente 
incontestando, poisque, até, Léfòvre propõe ultima- 
mente uma classificação própria sua. E o mesmo 
Littré confessou que, em seu systema, Comte apre- 
senta a lacuna da moral e da esthetica, a da psy- 
chologia e a da economia politica. Poderia accrescen- 
tar a da lógica, ponto de partida e ponto de chega- 
da, alpha e omega. (A psychologia, essa, é, propria- 
mente, o sujeito, de que a sciencia seja a objectiva 
emanação.) Mas, quiçá, o movesse o inconsciente 
frémito do que, mais tarde, Comte reduzira, na sua 
ultima obra (Synthese subjectiva) as sete sciencias 
da sua antiga hiorarchia á serie tripartita da Lógi- 
ca (Mathematica), Physica e Moral. 

A hierarchia encyclopedica possue, sem embar- 
go, uma importância culminante; e a substituição 
que pretendeu fazer-lhe Spencer foi — no conceito 
geral e puro de sua intuição superior — foi, de facto, 
desastrada. A mesma argumentação contra a confor- 
znldaàe entre a ordem da generalidade e a da evo- 



O RRAZIL MENTAL 225 



iução não possue o alcance que lhe attribue Littré, 
o qual com a objecção tanto, se afflige. E a origina- 
lidade de Comte consiste no typo exterior, objectivo, 
da sua hierarchia encyclopedica — prejudicado na re- 
gressão característica da serie tripartita da sua Syn- 
these subjectiva. A classificação de Comte não tem 
só um incomparável valor didáctico; ella possue um 
significado monistico cujo mérito inultrapassável tem 
passado, injustamente, despercebido. Aqui é que está 
o âmago nodular. 

Porque, quanto a classificação como idéa de dis- 
posição dos conhecimentos, é velho como tudo. 

Na verdade, de rapazolas, nos ensinaram que fora 
Platão o primeiro philosopho que tentou traçar uma 
divisão hierarchica das sciencias; e Aristóteles sa- 
be-se que organisou o que o génio de Platão tinha 
apenas delineado. Desde Descartes, Locke e Leibnitz 
até Dupont de Nemours, Destutt de Tracy, Bentham 
e Walker, o estorço mantem-se com o mesmo empe- 
nho e idêntico insuccesso. 

Todas estas classificações abortaram, porque pro- 
vieram fundadas na natureza das faculdades que 
maior emprego têm nas respectivas sciencias, o que 
implica uma análoga distincção subjectiva de me- 
thodo. 

Assim a partitio uníuersalis doctrince humanos, 
do renovador chanceler Bacon. Assim, desenvolvido 
no celebre discurso preliminar da Encyclopedia, a 
d'Alembert pertencente, o Systéme figure des con- 
naisxances humaines. 

Bacon assenta basilarmente três faculdade \t- 
reduetiveis, poisque apartam coTvYvfcrà&fò\*\fc^ *jsç* 



226 O BRAZIL MENTAL 



ciaes, de categoria exclusiva: Memoria, Pkantasia* 
Ratio, Da memoria deriva a historia, em suas infin- 
das modalidades. Da phantasia, a poesia, que ou é 
narrativa ou dramática ou parabólica. Da rasão, sahe 
a sciencia, proteiforme. 

D'Alembert no topo inscreve o Entendimento. A 
sensibilidade nâo o affecta; e da vontade nào cura. 
Ora, no entendimento: a memoria, a rasào ; a ima- 
ginação. E segue. De resto, a classificação da Ency- 
clopedia nâo passa d' um remodelamento do quadro 
de Bacon. Augmenta-o. Sua subsidiaria ordem (ou 
desordem?) irreverentemente a altera. 

Comte marcha completamente por estradas di- 
versas; o seu repudio da intuscepção psychologica 
serviu-o aqui á maravilha. 

Tomar-se-ha, seguro, á conta d'uma classificação 
objectiva a diffusa serie dos quadros synopticos das 
sciencias e das artes, elaborados por Ampere? São en- 
genhosos como disposição; coordenam-se com a rea- 
lidade e seu mérito didáctico ou bibliothechnomico 
não parece difficil de provar. Porém, o auctor foi 
verberado de, por amor da symetria, querer achar 
sempre, e em todas as partes, as 'mesmas divisões e 
subdivisões. A nomenclatura tem sido também accu- 
sada de ser um neologismo continuo, obstáculo mais 
que sufticiente para repugnar aos espiritos menos 
afeitos á disciplina do labor scientifico. 

A sua insufficiencia, todavia, é de caracter ge- 
ral; como ás demais, restantes, classificações, exce- 
ptuada a de Comte, inquina-a pecha idêntica. 

É o conceito basilar, inteiramente subjectivo e 
pessoal, por cujo theôr, segundo Xmpére, todo e qual- 



O BRAZIL MENTAL 227 



quer conhecimento pôde ser considerado sob quatro 
aspectos differentes. A somma dos pontos-de-vista 
autoptico, cryptoristico, troponomico e cryptologico 
constituiria, segundo elle, em seu complexo, quanto, 
por junto, a intelligencia humana pôde colher do es- 
tudo d'um objecto a que o conhecimento se refira. 
Tudo isto tem um ar phantastico. 

Com Comte nenhuma doestas chimeras apriorís- 
ticas. E a applicação que elle íez da lei da serie á 
classificação das sciencias não podia ser mais feliz. 
Somente — e eis-nos no tom da passagem — , somente, 
essa idéa fecunda estava já apontada em Saint-Simon. 

Mas aonde fica, ejitào, essa apregoada prioridade 
de Comte? Reservamos a hierarchia encyclopedica, 
como maravilhosa eflectuaçào; e, reservada, as de- 
mais soberbas descobertas onde param? 

Prioridade, no conspecto de conjuncto, em sua 
philosophia experimental? 

Littré assim o affirma. Exorbita. Chega a dizer, 
até, que ninguém, a não ser Comte, se pôde julgar 
com quaesquer direitos á philosophia positiva «nem 
pouco nem muito, nem directa nem indirectamente. » 

Todavia, é elle próprio que dá precursores a 
Comte. Resolve-se a isso, á face de innumeros textos, 
dos quaes alguns por nôs procurados, d'outra parte 
também, como se viu. É Littré mesmo quem procla- 
ma — como antecessores de Comte — a Turgot, a Kant, 
a Condorcet, a Saint-Simon e ao dr. Burdin. Estranha 
obsocação! Littré nào reparou sequer que o Alph. 
Leblais que elle prefacia nos vai apresentando , <ík> 
todo o tempo, desde que o mundo è \\\wtlÔlQ,o \&ota 



* 



228 \ O BRAZIL MENTAL 



de ver positivo frente a frente com o seu antagónico 
modo de ver especulativo! 

Ha, mesmo, uma d'essas opulentas intuições do 
génio artístico, que precede a observação e a analyse, 
e temerariamente, de golpe, rasga os largos horizon- 
tes. Elle é, de sua condição, synthetico, symbolico e 
representativo. 

Com effeito, no terceiro andar da parte do Va- 
ticano que íoi construida por Nicolau v, encontra-se 
um fresco celebre, denominado A Eschola de Athe- 
nas. Pintou-o Raphael, á sua chegada a Roma, de 
plena posse do seu génio. 

A scena passa-se sob o pórtico d'uni edifício de 
proporções grandiosas. Sobre uma plataforma, a meio 
enxerga-se Aristóteles e Platão, formando o centro e 
o nexo d'esta vasta composição, que dominam intei- 
ramente. Com o dedo mostra Platão o céo a Aristó- 
teles, que o ouve friamente, com a mão direita es- 
tendida para a terra. 

Á direita e á esquerda, discípulos escutam com 
fervor as lições dos dois philosophos — das duas phi- 
losophias — , lições que são respectivamente repeti- 
das por outros mestres, formando centros parciaes. 
Entre estes distinguem-se, no primeiro plano, Pytha- 
goras que tem junto a si Empédocles, Epicharmo, 
Archytas, da banda de Platão ; e Archimedes, rodeado 
do celebre grupo dos geómetras, da banda de Aris- 
tóteles; do mesmo lado, entre as figuras secundarias, 
assignalam-se Theophrasto, Critolaus, Euclides, Dió- 
genes; e, á esquerda do espectador, Sócrates pero- 
rándo ao moço Alcibíades, Xenocrates, Polemon. O 
fundador relevante da eschola tt*V\o.sv ç&ç,wí^ %ohre 



O BRAZIL MENTAL 229 



as proporções harmónicas, e o immortal represen- 
tante da sciencia antiga, curvado sobre uma meza, 
traça um hexágono com o compasso. 

A mesma mythica hellenica collabora na conce- 
pção de Raphael. Em verdade, uma estatua d'Apollo, 
deus da harmonia, domina e inspira os ensinamentos 
da Academia, emquanto que uma estatua de Miner- 
va, deusa da sabedoria, preside aos do Lyceu e os 
orienta. 

Pujante adivinhação do grande artista! soberba 
concórdia entro a contemplação esthetica e a con- 
templação philosophica í Raphael resumiu, ostensiva- 
mente, em seu famoso íresco, não só a historia da 
philosophia grega, mas ainda a historia do espirito 
humano, toda, completa e inteira. 

Perante aquella obra-prima, diz Leblais, com alta 
emoção e nobre expressão, que d'elle, pobre philo- 
sophante, um longo scismar se apoderou. Nos pe- 
netraes de seu espirito, da concepção synthetica do 
pintor d'Urbino desprendeu-se uma lei geral; e a idéa 
do trabalho compendiado em seu volume se desen- 
rolou gradualmente. 

Aristóteles e Platão podem, com effeito, ser con- 
siderados como os representantes mais eminentes de 
duas doutrinas íundamentaes e até agora antagóni- 
cas. A uma ou outra d'ellas é licito — em parecer do 
critico que, contraditoriamente, se revindica do po- 
sitivismo — é licito reconduzir todas as demais dou- 
trinas philosophicas, «todas as explicações do inexpli- 
cável, todas as hypotheses indemonstravcis engen- 
dradas pelo espirito humano, seja qual fôr sua infinita 
variedade.» 



230 O BRAZIL MENTAL 



Por isso, é interessante o como Leblais imagina 
que o fresco do Vaticano seria concebido pelo fran- 
cez Poussin, não havendo o pintor philosopho a de- 
sejar em seu trabalho presumivel senão esse encanto 
inegualavel com que Raphael soube dotar as suas me- 
nores figuras. 

Emergido de iniciaes meditações, e n'uma se- 
gunda visita, o parisiense completou a obra pelo 
pensamento. De principio, mudou de sitio Epicuro, 
mal a propósito posto do lado de Platão, e Zoroastro, 
também malissimamente collocado da banda de Aris- 
tóteles. Tem razão Leblais. Commanda, pois. Chás- 
sez-croizez. A humanidade ama a dansa. Não foi só 
Bonaparte exímio em íazer dansar os outros. 

Assim, seguidamente, os principaes philosophos 
da edade media e dos tempos modernos, Thomaz 
d'Aquino e São Bernardo, Gassendi e Malebranche, 
Hobbes e Spinosa, Voltaire e Rousseau, Augusto Com- 
te e Hegel, etc, distribuiam-se sem custo em torno 
dos dois grandes chefes; os sábios de tendências ma- 
terialistas, taes como os alchimistas da edade me- 
dia, Rogério Bacon, Gilbert, Paracelso, Buffon, Boer- 
have, Condorcet, Cabanis, Bichat, etc, e os de ten- 
dências espiritualistas, taes como os astrólogos, Car- 
dan, Charles Bonnet, Stahl, Herder, Oken, etc, vi- 
nham completar e precisar os dois grupos principaes; 
por fim, o suave e melodioso Virgilio, de lyra na 
mão, idealisava a philosophia do sentimento, e o 
grande poeta Lucrécio celebrava com accentos mais 
varonis o primeiro vôo do génio scientifico. 

A combinação é hábil, se bem que não exacta- 
mente rigorosa; poisque a unidade fundamental, ul- 



O BRAZIL MENTAL 231 



tima das ultimas, não tolera estas escavadas distinc- 
ções. Assim, em Aristóteles se pôde estribar a es- 
cholastica da edade-media e, se o Augusto Comte do 
Curso vem da aula de Aristóteles, o Augusto Comte 
da Synthese vai para a aula de Platão. 

Mas, em todo o caso, o que é indisputável é 
que é chimerico suppôr, como o faz Littré, que an- 
tes de Comte nào houve, nem pouca nem muita, nem 
directa nem indirectamente, philosophia positiva. 

Se philosophia positiva quer dizer philosophia 
positivista, decerto que nào houve, abstracção feita 
do apuramento das origens. Mas, se por philosophia 
positiva se entende philosophia positiva, entào cum- 
pre attender. 

Pois a philosophia do século xvm (pelo seu me- 
thodo restricto, pelo seu acanhado critério, pelos seus 
resultados particulares) nào seria inteiramente po- 
sitiva, absolutamente relativa? Naigeon, d'Holbach, 
Helvétius, La Mettrie eram bem grosseiramente em- 
píricos, bem positivos. Assim, Léíòvre organisou a 
sua exposição dos successivos systemas philosophi- 
cos, desde a mais alta antiguidade, segundo o con- 
ceito que a Leblais inspirou o conspecto do fresco de 
Raphael. E o idealista Lange não escreveria a sua co- 
piosa Historia do materialismo, que, por signal, é 
uma bella obra-prima? 

Dir-se-ha que esses todos eram, precisamente por 
materialistas, metaphysicos, os quaes, como o conti- 
nuador Cicoro, como Pascal, como Descartes e os es- 
piritualistas, fizeram persistente metaphysica, apezar 
de crentes na fraqueza do espirito humano, uns e 
outros. Mas o que seja a religião da Gwsíta Vs» 



232 O BRAZIL MENTAL 



plemento lógico e natural da sua philosophia, con- 
soante vimos) senão uma metaphysica materialista? 

A contrariedade nunca foi, de todo o tempo, ir- 
reductivel. 

Olhe-se, por exemplo, o sentimentalista Rousseau, 
tam infortunado. Com o asserto que produzimos c, ty- 
picamente, concordante seu lance a que recorremos. 
Encontra-se na famosa profissão de íé do vigário sa- 
boyano. Por via d'elle, ao seu bem-amado Emílio, 
Rousseau ensina que «as idéas geraes e abstractas 
sâo a origem dos maiores erros dos homens; nunca 
o palanírorio incomprehensivel da metaphysica fez 
descobrir uma só verdade, e encheu a philosophia 
d'absurdos de que se tem pejo, logo que os despo- 
jem dos seus palavrões.» 

Mas, mesmo, o critério histórico não pôde ser 
— applicado ao século xvm (como a outro qualquer, 
de resto) — nâo pôde ser unilinear. Certo que esse sé- 
culo xvm dito, da nossa série, se importava frequente- 
mente com a solução dos problemas primeiros. Eis o 
caso de d'Holbach, por uma banda; de Rousseau, por 
outra; de Diderot, ainda por outra. Todavia, frequen- 
temente também, a esses problemas, com provisório 
enfado, os desdenhava. Assim, vemos Voltaire dispen- 
der a parranice dos seus hemistichios offerecendo-os a 
demonstrar a inutilidade dos esforços do homem no 
afan de aferir o absoluto. É uma satyra pungente, que 
está traduzida em portuguez, verso solto, com o si- 
gnificativo titulo de — O que sào os systemas. 

Nâo. Esse affectado scepticismo; essa duvida, 
systematica e methodica, que, de começo, contradi- 
ctanào-a ulteriormente, o positivismo arvora como cô- 



O BRAZIL MENTAL 233 



res características de bandeira — não surge, aliaz, 
como coisa nova. 

Nas suas múltiplas manifestações e variados pro- 
gressos, todos recordam análoga confissão de fraque- 
za das nossas forças. Aqui seria o caso trivial esco das 
locuções populares que definem a vetustica. Mais ve- 
lho do que...; mais antigo do que... 

Estariamos a contas com o scepticismo, provecto 
conhecido. Desde Gorgias, Protágoras, Pyrrho e jE- 
nesidemo, passando por Montaigne, Charron e o nosso 
Sanches, que o snr. Theophilo Braga estudou como 
um precursor do positivismo, poisque lhe dá uma 
tendência convergente para «a grande synthese da 
relatividade pelo accordo e dependência dos elemen- 
tos objectivos e subjectivos do conhecimento.» 

Não abrindo debate sobre a personalidade estu- 
dada, é certo que o scepticismo inicial se vae diffe- 
renciando — por Bayle, Pascal, Huet — até attingir em 
Hume a renovação da psychologia, que Locke en- 
cetara. Emfim, resurge, com uma forma e profunde- 
za novas, nas vigorosas, excepcionaes criticas de 
Kant. 

O snr. Theophilo Braga pondera que, nas vacil- 
laçòes doutrinarias produzidas, pela renovação dia- 
léctica dos jesuitas, em contra da emancipação intel- 
lectual da Renascença, era impossivel formar a syn- 
these, para a qual convergiam os espiritos, taes como 
Bacon e Descartes; assegura que d'esta própria im- 
potência o nosso Francisco Sanches tirou os elemen- 
tos com que estabeleceu um negativismo philosophi- 
co, «que o tornou o verdadeiro precursor do Des- 
cartes, de Kant e de Augusto Comte.» 



234 O BRAZIL MENTAL 



Mas, seja como seja, o tom especifico da absten- 
ção inicial do positivismo, esse é que é precisamente 
o mesmo do scepticismo tradiccional. Só os sectários 
é que se obstinam a illudir-se a similhante respeito. 
Os espiritos desprendidos, porém, estes, é que se não 
illudem. 

Assim, em um artigo critico especial, um mo- 
derno pensador insigne, que é íemea, M. me Clémen- 
ce Royer, pergunta: «Augusto Comte foi o primeiro 
que inaugurou essa philosophia negativa?» E res- 
ponde logo, sem hesitar: «Nullement.» 

Como já o fizéramos, explica Clemência Royer 
que tal é, esta, uma das formas seculares do scepti- 
cismo philosophico, chamada o subjectivismo. A dou- 
trina de Comte remonta (por Kant, Hume e por Ber- 
keley, cujo conceito idealista basilar a illustre escri- 
ptora nào attentou em como Littré o considera pos- 
tulado indispensável para toda a theoria do conhe- 
cimento, consoante, pois, egualmente, para o es- 
tabelecimento de qualquer sciencia ou philosophia), 
remonta, por Kant, Hume e Berkeley, até aos eleatas 
e a Parmenides, entre os gregos. É apparentada 
egualmente com a sophistica de Carneades e com o 
scepticismo de Sexto-Empirico. A este respeito, por- 
tanto, « Augusto Comte nâo inventou coisa alguma.» 

Quanto á forma « scientifica » que a análogo sce- 
pticismo originário o positivismo empresta, encon- 
tramol-a nos materialistas modernos da Allemanha, 
hoje, — hoje como já hontem. 

Já hontem, por certo, desde que Cabanis escre- 
via, occupando-se das relações do physico e do mo- 
ral do homem — pelo theôr seguinte: «Algumas 



O BRAZIL MENTAL 235 



pessoas parece que temeram, segundo me dizem, que 
esta obra tivesse por fim ou por efíeito o destruir 
certas doutrinas e o estabelecer outras relativamente 
â natureza das causas primeiras. Mas isto não pode 
ser: e mesmo, com reflexão e boa-fé, não é possi- 
vel o acredital-o seriamente. O leitor verá muitas ve- 
zes, no curso da obra, que nós consideramos essas 
causas como collocadas fora da esphera das nossas 
investigações e como furtadas para sempre aos meios 
d' investigação que o homem recebeu com a vida. Fa- 
zemos, aqui, de tal a declaração completa; e, se 
houvesse ainda alguma coisa a dizer sobre as ques- 
tões que nunca foram agitadas impunemente, nada 
seria mais fácil do que provar que ellas não podem 
ser nem um objecto de exame nem mesmo um as- 
sumpto de duvida, e que a ignorância mais inven- 
cível é o único resultado a que nos conduz, a seu 
respeito, o justo emprego da rasão.» 

Cabanis pertence ao numero dos doutos e me- 
ditativos em cujo convivio mais se comprazia Saint- 
Simon ; acertadamente o addita o snr. Sylvio Romero 
á lista dos que orientaram o espirito do reformador. 
De resto, a acção de Cabanis fora sempre sensível 
na sociedade culta franceza; a sua palestra doce dis- 
tinguia-se nos salòes, contorme o registra Michelet, 
quando recorda que a elle deveu Condorcet a posse 
do veneno que o salvou, a elle, da guilhotina e á re- 
volução da ignominia d'um parricidio. Comprehen- 
de-se, pois, a vereda da suggestão de Cabanis em 
Comte e por que intermédio seu efíeito n'este se 
exerceu. Mais n'esta acção acreditamos no que na de 
Kant, em que insiste M. mo Royer. Cremos tç&a ^*^\aàs> 
a iUustre dama. 



I 

236 O BRAZIL MENTAL 



Tarde foi quando Kant começou a ser conhe- 
cido em França; Comte ignorava a língua allemã, 
e a primeira explanação systematica da doutrina 
criticista foi resumida. O volume, publicado em 
Metz, em 1801, por Charles Villiers, expondo o sys- 
tema de Kant ou, diz o titulo, os principios funda- 
mentaes da philosophia transcendental, passou des- 
percebido. E, de bem cedo, Augusto Comte abando- 
nara toda e qualquer leitura. 

Por isso, Laurent diz sardonicamente que a igno- 
rância era a musa que inspirava o auctor do positi- 
vismo. 

É injusto. A sua divergência leva-o á incompre- 
hensâo. Comte deixou de lér, na verdade por hygie- 
ne cerebral. Observara que o excesso de leitura pre- 
judica a originalidade do pensador e perturba a ho- 
mogeneidade do pensamento. Com effeito. Mas cum- 
pre que haja regra em tudo; e em tudo proporção 
se mantenha. Foi o que Comte não fez; d'ahi, os 
seus atrazos inconcebíveis, até em relação á sciencia 
do seu tempo. 

Assim, repetimos, pouco cremos na efíicacia da 
influencia de Kant. A origem do scepticismo de 
Comte é mais remota, quanto á leitura. Pela sua 
substancialidade psychica, mostramos que deriva da 
inconsciente necessidade de fundar uma religião. Vão 
annos já que assim o percebemos; hoje folgamos que 
recentemente se haja, ainda que só roçando-a, encon- 
trado com essa idéa um tam eminente espirito como 
o da senhora Royer. É quando a Comte attribue o 
caracter de «revelador». 

Cogita esta dama distinctissima que Comte se 



O BRAZIL MENTAL 237 



enredou na téa das antinomias kantianas e não sou- 
be como desenvencilhar-se. Explica o caso sob o ás- 
pero conceito da rude severidade que, geral em seu 
trabalho, levou os directores da publicação em que 
viu a luz a explicar a deferência, em nota previa, de 
não haverem cerceado o artigo. Isto dá, até, desa- 
gradável idéa da liberdade do espirito ainda agora 
em Franca. Adeante. 

Explica, pois, M. me Royer como «Comte, que não 
era dialéctico por íóra das mathematicas, não poude 
encontrar o seu caminho n'esse dédalo sophistico. 
Não soube sahir do tapado becco kantista senão ás 
arrecuas, negando a possibilidade de qualquer meta- 
physica. D'ahi, a sua affirmação, orgulhosamente im- 
pertinente, de que o espirito humano nunca irá mais 
longe do que elle próprio foi no conhecimento da es- 
sência das coisas; que está condemnado, como elle, 
a não attingir jamais as suas causas primarias e a 
ignorar sempre o que o revelador da doutrina posi- 
tiva não logrou descobrir.» O grifo é nosso; elle 
marca a ephemera intuição. 

Cuida M. ln " Royer que a essas causas primarias 
se pôde chegar pelo uso, puro e simples, das forças 
da rasão. N'este conceito se encontra a annotadora 
emérita á, sua, versão do livro fundamental de Dar- 
win. n'este conceito se encontra com certos dos lu- 
ctadores generosos doesse iniquamente conspurcado 
século xviii. ITesses tremendos combatentes encon- 
tra-se com aquelles que não fingiam a dissimulação, 
imposta (de dentro ou de fora) a impossíveis absten- 
ções. Ao contrario. Elles pediam, em altos brados sl 



238 O BRAZIL MENTAL 



luz do exame da rasão para todas as questões, quer 
theologicas quer metaphysicas. 

Em sua applicaçào á exegese christá, consti- 
tuiu-se o que se chamou o racionalismo. Esta eschola 
teve entre nós, portuguezes, um representante emi- 
nente. Foi o snr. Pedro de Amorim Vianna. A sua 
obra tem um titulo característico. Chama-se Defeza 
do racionalismo, ou analyse da fé. Assim como o 
Examen critique des doctrines de la religion ckrétien- 
ne 3 de Patrício Larroque, rompe, naturalmente, com 
um capitulo sobre a auctoridade da rasào, — assim tam- 
bém a Defeza do racionalismo, ou analyse da fê 3 de 
Pedro de Amorim Vianna, debuta com um capitulo 
sobre a fé e a rasào, visando a intuito idêntico. Mais 
tarde, o notável pensador alargou a sua investiga- 
ção e teve de encontrar-se com as concepções basi- 
lares do positivismo. Foi no estudo acerca das rela- 
ções entre Papillon e Leibnitz e mesmo, em examo 
especial, das interferências da physica para com a 
metaphysica. 

Das revindicações do século xvm, ampliadas e 
allumiadas, se reportava. Mas por esse seu caracter, 
as personalidades marcantes d'essa centúria — de me- 
taphysicos foram apodadas. Poisque em certas bôccas 
o qualificativo seja pejorativo. Á laia dos jacobinos, 
em França; a geito dos nossos patuleas, cuja etymo- 
logia suspeita Camillo Castello Branco que venha da 
picaresca injuria de pata ao léo. 

Algum favor, de vénia, ao positivismo mere- 
ciam, no emtanto, esses athletas do século xvm. Na 
verdade, se elles curavam das questões condemnadas 
pelo comtismo, d 'onde a d'onde, os vemos, conforme já 



O BRAZIL MENTAL 239 



frisamos, aííirmar, cora este, em meio de anarchicas 
especulações, que «nenhum primeiro principio pôde 
ser por nós alcançado.» Quem íoi que disse isto? 
Foi Littré? Não. Foi Voltaire; na obra cujo titulo 
não pôde ser mais designativo : Le philosophe ?gno- 
rant. 

Aqui chouteava, cavalgado em sua troça, pelo 
carreiro experimental que o grande Bacon desbra- 
vara, como quando explicou por onde se devia se- 
guir de preferencia, para se andar afíbitamente. 

Eile preveniu: «Physica siquidem, et inquiritio 
causarum efficientium et materialium, producit me- 
chanicam. At Métaphysica, et inquiritio íormarum, 
producit magiam.» 

Depois explicou, comparando: «Nam causarum 
íinalium inquiritio sterilis est, et, tanquam virgo Deo 
consecrata, nihii parit.» 

Aftirma o positivismo a negação das investiga- 
ções dos problemas metaphysicos. 

Essa negação, porém, nâo será, — de todos os tem- 
pos, — o brado da philosophia no desespero, espiritua- 
lista ou materialista, por ser, de todos os tempos, a 
consciência da fraqueza do espirito humano? Nâo 
vos lembra, entre mil emil; não vos lembra aquel la 
observação do Cicero, no mundo romano o empha- 
tico representante da nova academia? Elle disse, 
comtudo, que estão «as coisas celestes acima do 
nosso alcance» e que: «no caso de as conhecermos 
perfeitamente, não seriamos nem melhores nem mais 
felizes. » Segundo seu alvitre, devemos nós, pois, fa- . 
zer como Sócrates, que tractava de « desviar o pen- 
samento humano d'essas questòas otarcttx*& ^w*^ 



240 O BRAZIL MENTAL 



o trazer á vida commum e ao exame das virtudes e 
dos vícios, do bem e do mal.» 

Repare-se, porém, — poisque do assumpto, nâo sem 
tempo, nos estamos, por agora, a despedir, — repare-se 
na singular presumpção dlnnovaçâo — do positivismo. 
Todavia, em face de sua critica substancial, apresen- 
ta-se a dialéctica rigorosa de Kant nas famosas anti- 
nomias. Por seu intermédio, procura elle mostrar a 
inanidade da metaphysica, visto como, sobre as ques- 
tões transcendentes, se pode affirmar egualmente com 
a mesma razão" o pró e o contra. Ahi, sem embargo, 
se topa com mui mais do que as objectivas restric- 
çòes positivistas; assombra a profundidade do aterro 
lógico que o génio psychico conseguiu desmontar. 

Comtudo, ha — na diíferença dos processos — na 
identidade dos resultados analogia de engano. 

Nào obstante o recurso histórico, está elle aqui, — 
na affirmação à priori, e inteiramente gratuita, da im- 
potência irremediável do espirito humano, que é o 
que faz o fundo da doutrina positivista. Esta consiste, 
estructuralmente, em negar que seja possivel uma 
ontologia; e M. m0 Royer volve a encontrar-se com- 
nosco, desde que affirmamos que o positivismo (como 
a doutrina de Kant, da qual ella erroneamente sup- 
pòe que elle parte) nào passa d'uma negação meta- 
physica da metaphysica. 

Voltando, porém, ao ponto de partida. Metaphy- 
sica, a gente do século xvmt Mas que pagina mais 
acerba de cruel ironia contra a metaphysica do que 
o vbo. Métaphtjsique, do Dictionnaire pkilosophique 
de Voltaire? 



O BRJLUL MENTAL 24 1 



Aonde está. pois. tornamos a tornar, a exclusi- 
vista prioridade intractavel de Augusto Comte? 

Salvas intermittentes vacillacòes do legitimo or- 
galho, este nâo reconhecia em si mesmo precedên- 
cia mais do que no que elle dizia de vir trazer aos 
phenomenos sociológicos a critica da phase positi- 
va, assertando haver crendo a sociologia, ou physieii 
ftockil. 

Porém, como interpretação histórica do passado, 
a sociologia de Comte falhou. Dos erros de aprecia- 
ção foi causa o simples desconhecimento elementar 
da contextura dos factos. Na philosophia da historia 
de Comte. a ignorância representa um grande papel 
— asse\era Laurent. E mostra-o com exemplos fla- 
grantes, ás mãos-cheias. Como previsão politica de fu- 
turo, a sociologia de Comte desmanchou-so nus solu- 
ções as mais ridiculas ou as mais odiosas. Aonde 
quer ir Littré buscar, pois, n'oste campo, pura Comte 
os lauréis de precedências meritórias? 

Notável é. portanto, o favor immenso de. que go- 
zou o positivismo. A razão resulta, comtudo, bem 
simples. 

Do idealismo, por sua banca-ròta, desgostada a 
geração nova, lançou os olhos para a zona empírica. 
Ahi lhe appareceu justamente a propósito a doutrina 
de Augusto Comte. Justamente a propósito, diz, como 
nós, K. Cazelles no prefacio que poz a seu trans- 
plante da C/rcuIaçao dn vida de Moleschott. Kllo af- 
firma assim um facto realmente, notável. 

Dos typos tradiccionaes do materialismo clássi- 
co, este materialismo mitigado era mais attrahente 
ou menos repulsivo. Disfarçava-o uuui wwwvwwyww^ 



242 O BRAZIL MENTAL 



elegante. Nâo era, como aquelle, feio e bruto. Ainda 
hoje a sua tosca apoesia choca. Recentissimamente, 
derivando da actualidade: a hecatombe da rua Jean- 
Goujon, é com implícito desgosto que, em seu se- 
gundo ensaio sobre o psychismo social, Roberty falia, 
llezinga o seu virtuosismo esthetico que o encantem 
as cores e o deliciem os zumbidos, vê-se, de qual- 
quer «mosca materialista, evadida dos laboratórios 
dos Vogt, dos Buchner, dos Moleschott e consortes.» 
Esta antipathia, ingenita, favoreceu a eclosão do po- 
sitivismo. 

Elle foi preferido ao seu progenitor, mais rugoso. 
E porquê? 

Porque satisfazia a tendência do espirito scien- 
tifico a se não occupar das questões primarias, inso- 
lúveis ao furtivo relance e sempre árduas, desde a 
primeira inspecção. Correspondia o systema também 
á apathia de muitas intelligencias. Fallazmente, como 
o filho ingrato de Noé, elle desvendava as faltas, 
apontava os erros, ria das lacunas e presumpçòes de 
seu velho pae, adormecido. Punha em principio um 
nojo insanável por toda e qualquer especulação me- 
taphysica. 

Ora, essa repugnância era, é e será ainda longo 
tempo, possuída pela medianidade dos apreciado- 
res exclusivos dos resultados concretos das scien- 
cias. Estes são os talentos medíocres de que Comte 
se lastimava com tanto aproposito. Inscrevia-os sob 
a etiqueta, geral, theorica da especialisação crescente, 
que, em detrimento da generalidade das concepções. 
— a esses tantos os fazia notórios, e nefastos, merctí 
da usurpada auctoridade mental que a ignorância 



O BRAZ1L MENTAL 243 



admirativa das collectividades abusivamente lhes con- 
fere. 

A propaganda de discípulos de uma vasta capa- 
cidade proselytica completou a obra. Sua grande força 
residia no primor da forma litteraria, que os tor- 
nava eminentemente accessiveis. Bastará citar os 
maiores de todos, Stuart Mill e Littré; em geral, os 
heterodoxos. Poisque os orthodoxos trouxeram do 
fanatismo do convivio exclusivo da lição do mestre 
as feições de um estylo apautado e hirsuto, con- 
soante já irisamos. 

N'estes termos, tem toda a justiça Vacherot em 
seu parecer. Elle, em 1863, affirma: 

a Com toda a certeza, o espirito intractavel do 
pae da eschola positiva, as formas laboriosas e um 
pouco pezadas da sua dicção, as suas estranhas pre- 
tençòes á fundação d' uma religião,, as suas idéas, muito 
pouco liberaes e demasiadamente impregnadas de 
saint-simonismo, sobre a organisação hierarchica das 
sociedades, tudo isto o outras causas ainda eram ou- 
tros tantos obstáculos para o irradiar da philosophia 

positiva ? 

O primeiro discipulo de Augusto Comte, supe- , 

rior ao mestre a certos respeitos, não tem decerto 
nenhum dos seus defeitos. Espirito muito liberal, 
muito cultivado, tão versado nas sciencias históricas, 
moraes e philosophicas, como nas sciencias mathe- 
maticas, physicas e naturaes, caracter nobre e mo- 
desto, sem outra paixão a não ser a da verdade e a 
da liberdade, o snr. Littré é bem o homem feito para 
abrir, a todos os amigos da sciencia e da philoso^bÁA.. 
a eschola de que a pezada mào <\vj \wfô§>\x*> ^ 



244 O BRAZIL MENTAL 



ter querido guardar a chave . . . e, quando homens, 
como os snrs. Rénan, Taine, Stuart Mill, Cournot, Re- 
nouvier, vieram emprestar ás conclusões da eschola 
positiva a luz da sua analyse, o positivismo tornou-se 
a eschola poderosa e popular que todos sabem.» 

Deixemos a Vacherot a inattencào de chamar 
positivistas áquelles a quem o chama. Positivistas, o 
hegeliano Taine e o kantiano Renouvier! Mas, emfim, 
abandonemos os outros. Pois para Cournot já é preci- 
so .. . nào lhe ter lido uma linha. Ninguém as faça 
que as nào pague. Vacherot pagou-as no Brazil, ás 
mãos de Tobias Barreto, que lhe chamou de positi- 
vista para baixo. Uma até um cento. 

As linhas do fundador da abortada «metaphysica 
positiva» teem a data de 1863. 

Assim fora, de facto, como diziam. E assim era 
então. E o íoi por vasto lapso. 

A conceito de M. me Royer, isto equivaleu a uma 
grande catastrophe. Porque pensa ella que Augusto 
Comte retardou a evolução mental da humanidade, 
attenuou e adormentou as suas energias intellectuaes 
e desvairo u-a para uma vereda estéril. •« Elle consum- 
mou em Franca, sob uma forma menos sabia e me- 
nos rigorosa, a obra inteiramente negativa de Kant 
na Allemanha, e, como elle, nào soube conduzir os 
seus discípulos senào até ao íundo d'um becco sem 
sahida. Kant, na Allemanha, devia resolver-se no pes- 
simismo de Schopenhauer. Comte, na França, con- 
duziu-nos á indifferença, senào á preguiça scientifica.» 

Prestes, surgiu, porém, a reacção. Em breve, na 

iwdade, começou a dar-se fé da evidencia das la- 

canas, da ostensibilidade dos defeitos. Logo, o des- 



O BRAZIL MENTAL 245 



credito íoi subindo, pouco, muitíssimo pouco, é cer- 
to, de começo; mas progressivamente, é certo, tam- 
bém. 

Assim, qual avance o realisado já pelo positivismo 
heterodoxo que tinha por chefes Littré e Wyrou- 
boff! Baldadas, porém, as tentativas infructuosas do 
primeiro para ainda salvar a lei dos três estados. Bal- 
dado seu desdém pelas investigações a uma deter- 
minada ordem de problemas concernentes. Com elle 
nada ou quasi nada restara dos característicos da ve- 
lha eschola saint-simoniana de Augusto Comte. 

Por seu lado, o moderno empirismo inglez que- 
brou definitivamente com as formulas estreitas do pu- 
ro positivismo. Tudo levava a crer, logo nos primeiros 
tempos da reacção que assignalamos, tudo levava a 
crer num esforço contra fetichismos disciplinados, 
em prol de uma salutar anarchia. Cumpria to- 
mar o positivismo como um methodo ( o efficaz me- 
thodo empírico da observação dos factos sobre que 
especula a razão). Nunca, porém, se deveria rece- 
bel-o como um systema, porque então resultaria sys- 
tema incompleto, d'um scepticismo atrazado e estéril. 
l)'aquell'arte entendido, o positivismo tem, de ha sé- 
culos, sido adoptado pelas sciencias naturáes e ha ful- 
gurado, por lampejos interrompidos, na mesma phi- 
losophia. 

Este movimento reconstructivo operou-se defi- 
cientemente entre nós, porque quedou nas ambições 
metaphysicas dos snrs. Domingos Tarroso e Cunha 
Seixas, nos raptos intermittentes de Anthero de Quen- 
tal e nas indecisões theoreticas de OÍiveira Martins. 

Ilompera este o fogo n'um livro notava ^ ^s^ 



246 O BRAZIL MENTAL 



abre o cyclo da producção sua decisiva. Alli, a pro- 
pósito da negação comtista, escreveu elle syntheticas 
linhas. São estas: «Commodo é decerto o processo 
de resolver as difíiculdades eliminando-as, e de ter 
philosophia começando por banir a especulação. E é 
notável que o positivismo, dando-se como genuíno 
filho do methodo scientifico, tome para si o proces- 
so dos que são hoje. segundo nol-o ensina, os maio- 
res inimigos da sciencia e do progresso. Prohibir o 
estudo de certa ordem de problemas, sob pretexto 
que são inaccessiveis á razão humana, não será re- 
petir a prohibição do espirito theologico ? Dizer que 
esses problemas são inaccessiveis, não será lançar a 
primeira pedra para a formação do mysterio, e col- 
locar o espirito no primeiro passo da estrada do mys- 
ticismo? Talvez não seja capaz de o comprehender 
a intelligencia mal cultivada pela especialisação do 
ensino ; mas decerto o comprehende, e logo o pratica 
o espirito collectivo, a quem não servem nem bastam 
as frias formas do dogmatismo scientifico nem o ma- 
terialismo pratico da vida moderna. Por isto o po- 
sitivismo nos offerece o exemplo singular de uma 
eschola de philosophia onde abundam médicos, en- 
genheiros, economistas, publicistas, e até litteratos, 
mas onde não ha philosophos.» 

Como M. me Royer, Oliveira Martins sentiu a ló- 
gica intervenção do factor religioso, mercê do absen- 
teísmo metaphysico na philosophia comtista. Somen- 
te, por egual como essa dama, não soube interpretar 
a apparente contradicçâo «notável». Cremos havel-a 
resolvido nitidamente. 

JSo Brazil, também, um dos paizes mais penetra- 



O BRAZIL MENTAL 247 



dos pelo positivismo, a reacção começou. Dando conta 
de sete annos decorridos de republica em sua pátria, 
o snr. Oliveira Lima já registrava a decadência pro- 
gressiva do ensino do positivismo, substituido nas al- 
tas escholas pelas doutrinas mais modernas. 

Certa critica franceza explica o fervor brazileiro 
pelo positivismo— graças á tendências do Brazil, diz 
ella, para o estado ecclesiastico. Nào parece exacta 
a interpretação. Antes se nos aífigura que o escriptor 
erra tanto, quanto quando dá o chileno Lagarrigue 
como um joven brazileiro. Este moço ardente sepa- 
rou-se, com ruido, de Pierre Laffitte, accusando-o de 
traição ao ensino do mestre, por haver acceitado a 
cadeira, pelo Estado estipendiada, que no Collegio de 
França lhe creou o ministro Bourgeois. 

Mas esses scismas não causam já impressão no 
grande publico. Decididamente, as solidas correntes 
da opinião teem as amarras em outros pontos. 

Apezar d'isto, ha que considerar ainda o positi- 
vismo, poisque suas consequências praticas influiram 
nos destinos históricos d'um tam importante paizcomo 
o Brazil. 

Quando se occupou, á data, no Jornal dos Eco- 
nomistas, M. me Clemência Royer do capital successo, 
ella, explicando o advento da republica sobre as ruí- 
nas do throno estimado de D. Pedro n, frisou o caso 
singular de um systema philosophico constituir um 
partido politico. Era o lance do positivismo nas suas 
extravagantes relações com o Brazil. Extravagantes, 
por certo. É, mesmo, caso único, até hoje. 

Theoricamente. em sua exposição doutrinal, a 



248 O BRAZ1L MENTAL 



parte de applicação do positivismo estava, de resto, 
de ha muito, estudada. E não agradara. 

Com effeito, existe no volume, mui justo a despeito 
de' varia visionice, de Ch. Pellarin uma palavra pro- 
íunda, o é que Augusto Comte se encarregou,^ elle- 
mesmo, de reíutar o seu systema. 

Como? 

Por aquelle methodo demonstrativo tam usado 
em mathematicas, o methodo de redúcçào ao absur- 
do. Ex fructibus eorum. Applique-se, diz elle, appli- 
que-se á doutrina de Comte a máxima de Jesus e do 
bom-senso: — de que a arvore se conhece pelos fru- 
ctos. 

Assim, consideremos as conclusões de Comte. E, 
mais uma vez, seja dito que falíamos das conclusões 
— no seu ponto de vista — sensatas , lógicas e natu- 
raes, e nâo das aberrações. Ora, se essas sâo falsas, 
os princípios d'onde se partiu, evidentemente, o sâo 
também, poisque de principios verdadeiros, logica- 
mente nâo sahem corollarios absurdos. 

Mas, as conclusões de Augusto Comte foram, 
systematicamente, detestáveis. Em que consistiram? 
Resumiram-se, condensadamente, n'um systema de 
educação absurdo e ridiculo. 

Muito se riram os doutos em Portugal quando, 
intromettidamente, as Farpas propuzeram uma re- 
forma de instrucçào secundaria que comprehendia a 
integralidade do saber. O universitário dr. Zeferino 
Cândido, ao depois preleccionando no Brazil, incre- 
pou acremente a nova doutrina. Censurou-a pelo que, 
mais tarde, o snr. Adolpho Coelho, qualificando o po- 
sitivismo, havia de chamar o pedantismo pansophico. 



O BRAZIL MENTAL 249 



E, apreciando a collecçào de cartas pelo snr. Rama- 
lho Ortigão, de Paris, quando da exposição do Tro- 
cadero, remettidas para a Gazeta de Noticias, do Rio- 
de-Janeiro e ulteriormente colleccionadas no ( analy- 
sado^ volume de titulo: Notas de viagem, Oliveira 
Martins estranhava, com o seu desdém de superio- 
ridade megalomanica habitual, que alguém (Rodri- 
gues de Freitas) citasse, no parlamento portuguez, á 
laia de auctoridade, o pamphleto mensal do então ir- 
requieto jornalista janota. 

Comtudo, em suas leviandades de curta cultura, 
scientifica e philosophica, o snr. Ramalho Ortigão 
não fizera mais do que emprestar a vivacidade pitto- 
resca do seu estylo ao plano educativo próprio e pe- 
culiar do positivismo. 

A eschola realisou seu programma, introduzin- 
do-o na legislação do Brazil. Prestes após a procla- 
mação da republica, o positivismo impoz o seu cara- 
cter á reforma do ensino, em todos os graus, feita nos 
tempos do governo provisório. 

Rebentaram os queixumes. Os cérebros juvenis 
declararam-se cansados. Estava-se a braços com uma 
das diíficuldades que embaraçam peadamente os ten- 
tamens de renovação integral do publico ensino. Co- 
meçaram a tornar-se evidentes os deplorandos effei- 
tos do surmenage. Assim chamam, como se sabe, os 
írancezes ao excesso do trabalho inteHectual, que, fa- 
tigando o órgão pensante, acaba por o inutilisar, trans- 
formando num autómato inconsciente o sêr ainda 
pouco antes cheio de seiva e vivo de esperanças, mas 
que a atrocidade d'uma educação demasiado exigente 
atrophiou e deprimiu. 



250 O BRAZIL MENTAL 



Incitados pelos desastres militares de 1870, os 
legisladores, em França, na sua faina santa de re- 
constituir a pátria, sentiram que a grande causa da 
victoria dos allemâes fora a superioridade da sua cul- 
tura; e, sem perda de tempo, deram-se á tarefe de 
reformar o ensino, de cuja penúria o eminente philo- 
logo Michel Bréal se encarregara de inventariar o 
cadastro. 

Cahiu-se então no excesso opposto, que tal seja 
a condição da imperfeita humanidade ; quiz-se, como 
vulgarmente se diz, abarcar o céu com as pernas, e 
submettéft-se o tenro cérebro da infância á pressão 
extenuante d'uma sobrecarga enfadonha e insuppor- 
tavel. 

Coube ao bispo Freppel a honra de ser o primei- 
ro a chamar, no parlamento, a attenção dos poderes 
públicos para o que se estava passando pelas escholas 
do seu paiz afora. Desenrolou um painel desolador. 

Immediatamente providencias se tomaram no 
sentido de não seccar a arvore querendo colher, sa- 
zonados antes de tempo, os fructos cujo desenvolvi- 
mento se pôde apressar, é certo, mas dentro de li- 
mites racionaes e ponderáveis. No Brazil, as queixas 
repetem-se. Apezar do encyclopedismo didáctico em 
que timbram os programmas das matérias a versar, as 
reclamações succedem-se, concernentemente ao me- 
thodo e á orgamsaçâo mesma. Um publicista distin- 
cto, o snr. J. C. de Sousa Bandeira, recriminava, ha 
pouco, por exemplo, da estreiteza de vistas de que, 
segundo elle, se resente o actual regulamento das fa- 
culdades de direito. Profligava a má distribuição das 
matérias, e das acanhadas concepções se irritava que 



O BRAZIL MENTAL 251 



prejudicam a iniciativa da creação de cadeiras novas. 

Prevalecera, aliaz, no Brazil, com o advento da 
republica, o plano educativo do positivismo. Todavia, 
similhante systema não logra replicar sufficientemen- 
te ás objecções que a critica lhe inflinge. Elias são 
solidarias com as qu# respeitam ao systema da moral 
positivista. E todas terminam quando se resolvem no 
repudio flagrante das deducçòes de o positivismo di- 
manadas para a sciencia politica. 

Estas resumem tudo e tudo esclarecem. 

São ellas, em seu conjuncto: — a absorpçào do 
poder temporal pelo poder espiritual; a censura dos 
hábitos de previdência e economia nos proletários; 
a dictadura; o poder legislativo supprimido em pro- 
veito do poder executivo, n'uma palavra. 

No Brazil, os positivistas, no Rio Grande do Sul, 
visto como o numero ajudava, explica-nos Oliveira 
Lima, puderam ageitar a grado seu a Constituição do 
Estado, outhorgando ao poder executivo a grande 
maioria dos direitos e não concedendo ao corpo le- 
gislativo senão um simulacro de cooperação. A re- 
forma d'essa Constituição local, cujo espirito ataca 
de frente as bases da Constituição federal, foi, até, o 
pretexto da guerra civil que, durante três annos, se- 
meou a desordem e a ruina na fronteira sul do Bra- 
zil. O pretexto lhe chamamos, com o parecer do ta- 
lentoso critico brazileiro çonformando-se o nosso. To- 
davia, a acção do critério positivista nos successos 
que transtornaram a segurança n'aquella provinda 
não deixa de ser largamente assignalavel. 

Ella se verifica na theoria, professa pelos seus fi- 
lhos illustres e dilectos. Assim, o vè\\vo%\^\xv^\%\^v 



252 O BRAZIL MENTAL 



gne propagandista doutrinário de alli. De Assis Bra- 
zil, naturalmente, falíamos. 

Democrata histórico, Assis Brazil, a dentro do 
mundo áspero da litteratura politica, debutou por 
onde acabam os mestres, isto é pela exposição, in- 
tegrada, de todo um corpo systematico de institui- 
ções. O bello livro que estamos referindo. intijtula-se 
A Republica Federal; e, a expensas dos patriotas 
paulistas, íoi impresso numa tiragem exorbitante e 
profusamente distribuido pelo paiz inteiro. 

Se o efíeito d'esta obra marca epocha na evo- 
lução histórica da sociedade brazileira, elle é também 
contavel pelo que toca á cerebraçâo moderna da, 
mesma, tão distante juventude portugueza. Alguns 
exemplares atravessaram para cá; e do contexto do 
volume, á data do seu apparecimento, traçou, nas co- 
lumnas respeitadas do Positivismo, lúcido exame e 
elogiativa exposição a penna sóbria, comtudo, do dr. 
Júlio de Mattos. 

Também na actividade, dispersiva e cruel, do 
proselytismo jornalistico, se assignalara Assis Brazil. 
Na Federação, (Jo Rio Grande do Sul, se encontrara 
com camaradas taes como Venâncio Ayres, Ramiro 
Barcellos e Júlio de Castilhos. Sobre a Republica no 
Brazil elaborando o seu curioso compendio de theo- 
rias e apreciações politicas, destinado á propaganda, 
alguém, que sabia bem como ellas são, declara ter 
o periódico citado combatido valentemente pela sua 
causa. Foi esse intemerato e infeliz Silva Jardim, re- 
geitado pela glacial ingratidão da urna, requerido pela 
cratera d'um vulcão, menos crepitante de immacula- 
da charnma <jue sua accesa alma. 



O BRAZIL MENTAL 253 



Mais tarde, chegado ás grandezas, embaixador e 
plenipotenciário, redigiu Assis Brazii um estudo vi- 
vamonte conduzido sobre árido terreno. 

Occupa-se das condições da Democracia repre- 
sentativa e tracta do voto e do modo de votar. Em 
um prolegomeno fundamental, logo se aparta de seu 
mestre Alfredo Naquet, e com acerto, criticando a 
evolução do governo directo para as formas repre- 
sentativas; immediatamente, porém, descabe, nasres-^ 
tricçòes imaginadas ao aperfeiçoamento popular. 

Aqui leveda o velho fermento comtista. Na ver- 
dade, o positivismo repelle a idéa de direito, por me- 
taphysica, affirmando que ninguém tem outro direito 
mais do que o de cumprir o seu dever e anathema- 
tisando-se a theoria da liberdade do pensamento, por 
derogação ao justo methodo. 

A pratica da moral é o que, tam só, incumbe, 
por isso que a doutrina dos direitos naturaes do ho- 
mem não passa d'uma transplantação, para cada um 
e cada qual, do conceito do direito divino dos reis. 
Mais evidente ainda se encontra esse abusivo trans- 
porte no dogma da soberania do povo. 

Tudo isto não passa de detestáveis sophismas, 
que nem o mérito da originalidade possuem. Elles 
são tradiccionaes em todas as theoricas do absolutis- 
mo ; e o positivismo não faz, a seu turno, outra coisa 
além de transportar para sua casa o previlegio de 
dominação que o catholicismo usurpou durante sé- 
culos. 

Admitta-se que a nós caiba, tão só, a pratica da 
moral. Com dizer-se isto, nada se disse, visto como 
no conceito da morai esta comçYfc\Y^wd\&k ^ YoNxiSK&fò 



254 O BRAZIL MENTAL 



do direito. A base da cònducta ethica é, naturalmente, 
o respeito da própria dignidade, poisque, se o agente 
se desrespeita, nega-se. E o respeito de cada um por 
si mesmo exige, para que se complete, o respeito 
alheio. Ora, o respeito alheio em que conceito pôde 
fundamentar-se senão nas prerogativas que ao seu 
correlacionado pertençam, de condição especifica o 
peculiar? 

Diz-se que ninguém tem o direito senão de cum- 
prir o seu dever. Perfeitamente. Mas o primeiro de- 
ver, o fundamental e basilar consiste em cada um 
respeitar e lazer acatar os seus direitos. Sob pena 
de obliteração da personalidade. E eis como, por um 
processo lógico rudimentar, se chegou ao ponto-dé- 
partida. Não se dissipou, pois, a difíiculdade que se 
pretendeu desfazer. 

Quanto á soberania do povo, ella não é senão 
a consequência d'este conceito moral preliminar. Re- 
presenta a sancção politica da intuição jurídica. Exer- 
cida pelo suffragio universal, fica reservada (é, impli- 
citamente, claro) a esphera dos direitos individuaes. 
como inattingivel por essa soberania, — que se nega- 
ria a si própria se a elles os negasse. 

Mas é que, objecta o comtismo, isso não podo 
ser, legitimamente. E não pôde ser porque toda si- 
milhante doutrina deriva da noção da liberdade do 
pensamento. Consequentemente, affirma a possibili- 
dade de divergência no procedimento. Ora, assim 
como em physica ou em álgebra não ha liberdade do 
pensamento, também na scieneia politica a não devo 
haver. 

De certo. E não a haverá, quando a politica 



O BRAZIL MENTAL 255 



íòr sciencia, isto é quando constituir um conjuncto 
evidente de verdades demonstradas. Então, ninguém 
reclamará a liberdade de consciência; espontanea- 
mente se submetterá, conforme succede para a ál- 
gebra ou para a physica hoje. Mas só então. Até lá, 
a liberdade de pensamento representa a condição, não 
só necessária e sufficiente, mas justamente indispen- 
sável para que a investigação se opere e a sciencia 
progressivamente se constitua. 

A negação da liberdade do pensamento, pelo 
comtismo feita, implica a annullação da sua hierar- 
chia encyclopedica. Com effeito, elle mesmo nos en- 
sina que o poder de previsibilidade diminue á me- 
dida que a complexidade augmenta e a generalidade 
decresce. Dizer isto importa assegurar liberdade ao. 
espirito para independentemente fundamentar previ- 
sões. Na sociologia, a liberdade de pensamento deve 
ser a máxima, pois, — visto que a sociologia é sciencia 
por constituir. Na biologia, ainda essa liberdade é 
grandissima. Se ha sociólogos individualistas, como 
Spencer, e socialistas, como Greef, também ha mé- 
dicos homeopathas e médicos allopathas. Já na chi- 
mica a liberdade de pensamento é menor; mas a 
theoria atómica encontrou contradictores obstinados; 
e Wurtz ou Naquet não lograram o convencimento 
integral. Na arithmetica, porém, aquelle que recla- 
masse a liberdade de pensamento para a taboa de 
Pythagoras seria internado n'uma casa de orates. 

Logo, a afíirmação da autonomia individualis- 
ta nada tem de anarchia metaphysica; é, aliaz, con- 
ceito emergente da própria positividade. Condiz in- 
tegralmente com a hierarchia encYclo^^Ss^\^wVv\\\r 



256 O BRAZIL MENTAL 



to, com toda a evolução scientifica: concreta na cons- 
tituição dos conhecimentos, abstracta no processo ló- 
gico (e, pois, psychico) das suas idéas formativas. 

A doutrina da moral positivista resulta, assim, 
insufficiente e errónea. Ella presuppòe a necessida- 
de coercitiva, exterior e disciplinar, para a verdade, 
quando precisamente o caracter moral da verdade 
está em sua acção coercitiva intrínseca, única. Quan- 
do na politica houver verdades com o caracter scien- 
tifico que teem as verdades mathematicas, a subordi- 
nação far-se-ha de per si, e a disciplina espontânea es- 
tabelecer-se-ha im mediata e rigorosamente. Mas subs- 
tituir a esta coacção interior da adhesão a coacção 
exterior da obediência, eis, só, injuriosa necessidade, 
para o interesse egoista de todo o sacerdócio, catholico 
ou positiVista, buddhista ou muslimico. Quem quer 
que se indigne com a tyrannia ha-de regeitar a odio- 
sa e ridícula pretensão de qualquer clérigo para o 
dirigir e orientar. 

A insânia do orgulho positivista é lógica, como 
todo o delírio systematisado. Assim, não hesita deante 
dos processos tradiccionaes. Propõe a queima dos li- 
vros que fazem o património da humanidade; perdoa 
só a um cento d'elles. Não treme perante as mais 
antipathicas coarctadas. D'est'arte, condemna a abo- 
lição da pena de morte como «um sophisma e uma 
aberração da metaphysica revolucionaria». Nega a 
autonomia individual; a egualdade civil e politica. 
Em fim, é um nunca-acabar de desatinos. Seu demons- 
trativo schema nol-o forneceram, abundantemente, os 
discípulos fieis de Comte, na Politica positiva, revista 
#cc/den/als de Sémerie e Robinet. 



O BRAZIL MENTAL 257 



Assim, a metaphysica dissolvente inscrevia a re- 
senha # sagrada dos direitos do homem; assegurava a 
autonomia individual; proclamava a autonomia da 
consciência, que não permitte mais a sorte dos Ga- 
iileus e dos Geordanos; unia os homens sob a ban- 
deira sublime da egualdade; partia as taboas do ca- 
dafalso, como uma aífronta enorme; bradava a todos 
os opprimidos, a todos os escravos: — Liberdade! Li- 
berdade!^ — ; accendia todos os pharoes; abrazeava 
todos os corações; incitava todas as vontades. Pelo 
só impulso do seu verbo critico, a philosophia dissol- 
vente chegara a esse maravilhoso effeito reorgani- 
sante. 

Entretanto, a philosophia positivista, negando tam 
vastas verdades, contradizendo esses resultados im- 
mensos. insultava os obreiros e diffamava a faina. 
Punha-lhe alcunhas. Chamava aberrações e sophis- 
mas á egualdade, á liberdade de consciência, á abo- 
lição da pena de morte, aos direitos do homem. Vi- 
nha, linalmente, e em resumo, a dar n'uma desvai- 
rada conclusão genérica: qual a da tentativa de re- 
surreição da organisação catholica sem a idéa de 
Deus. Pretendia-se.um sacerdócio novo; coiwergia-se 
a um despotismo sem limites, a uma oppressão me- 
donha, de ricaços e de pedantes. Plutocracia e pres- 
byterocracia — eis o monstruoso ideal de Comte. ]\ T, elle 
se revela o infinito egoismo do creador do systema. 

Vè-se, pois, que as conclusões são absurdas. Lo- 
go, as premissas o são também. 

Não, obtemperam os positivistas heterodoxos. 
Não, porque o methodo da deducção é que descon- 
certou. O erro é lógico. 

w 



258 O BRAZIL MENTAL 



Mas, se as deducçòes de Çomte nào sào legiti- 
mas (por serem obtidas por uma derogaçào do seu 
methodo, como nol-o explica Littré ), fica aberta a 
pergunta, naturalissima, que produz Ch. Pellarin. 
Entáo, quaes são as deducçòes legitimas 'que se de- 
vam tirar da doutrina positivista, até hoje ainda nào 
apresentadas pelos discipulos heterodoxos? 

Por nossa banda, timbraremos em concluir a ob- 
servação de Pellarin. 

Das soluções propostas aos problemas sociaes 
pendentes, as até hoje acceites pela civilisacâo, quer 
nas doutrinas dos publicistas quer nos decretos dos 
legisladores, não podem ser admittidas pelos discípu- 
los heterodoxos do positivismo. Inconsequentemente, 
elles o íazem, quando, na verdade, as devem repu- 
diar. Elias são, de facto, todas, devidas ás escholas 
accusadas de prevaricarem por metaphysicas. 

O quadro dos direitos do homem é hoje a base 
de todas as sociedades civilisadas. Ora. elle pertence, 
de raiz, á metaphysica revolucionaria do século pas- 
sado. A proscripção da guerra, como prodromo do 
advento industrial, é ainda conceito dos devaneios 
do Éncyclopedismo. N'uma palavra, o lemma syn- 
thetico da aspiração social tem uma origem e um 
sabor pronunciadamente mystico. em sua trilogia 
esotérica. 

Devem, por isso, taes soluções cahir ante á mo- 
derna e definitiva phase positiva, que vem destruir 
a velha metaphysica. Assim o julgou, com toda a ra- 
zão no seu ponto-de-vista, Augusto Co mte. Elle af- 
firmou, com effeito, que hoje ainda predominam no 
estudo dos phenomenos sociaes os methodos theolo- 



O BRAZIL MENTAL 259 



gico e metaphysico, os quaes teem de cahir, por- 
tanto, ante a definitiva phase positiva. 

Pois, se Augusto Comte descobriu as leis socio- 
lógicas e se traçou o quadro da evolução social, como 
nol-o ensina Littré, nào serão naturaes, lógicas e ver- 
dadeiras as suas conclusões? E quem afíirma uma 
coisa nào deverá affirmar a outra? 

Vejamos, na verdade. 

Ora, informam-nos de que Augusto Comte, com 
o seu methodo, veio reformar os processos d'estudo 
dos phenomenos sociaes. Diz-se-nos que elle surgiu a 
constituir a sciencia do estudo racional d'esses phe- 
nomenos, repellindo, por egual, os extremos da rea- 
cção do estado theologico precedente, em arrancos, e 
os da revolução demagógica, metaphysica anarchis- 
ta, fructo, pelo mais próximo, da dissolvente (Littré) 
philosophia do século xvm. Ensina-se-nos que elle 
marcou a lei dos três estados, segundo a qual se des- 
envolve a humanidade, e que firmou vários princí- 
pios luminosos, consoante os precedentemente apon- 
tados e por nós attribuidos a Kant, Saint-Simon e 
outros. Finalmente, explica-se-nos que, depois, elle 
nào poude, por circumstancias peculiares, tirar as 
definitivas conclusões do seu labor, apresentando 
como taes o que realmente nào passava de corolla- 
rios obtidos por uma derogação do seu methodo (Lit- 
tré ), visto que do recto caminho um accidente in- 
tercalar o desviara. Interpretam a conducta lógica 
do seu mestre como eífeito de uma doença cerebral 
discípulos que pouca affeiçào lhe mostram. Nào cre- 
mos que fosse assim; e que o caso s«\& ô^ «oXKroàr- 
dade, mas sim de rigorosa, estTcWa, <te&\xerâ»\ átoi* 



260 O BRAZIL MENTAL 



salvo o decididamente psychiatricOj que é, de resto, 
episódico. 

Mas supponbamos. 

Está muito bem. 

Somente, que é o que impede os discípulos, de 
concluirem o principiado ? O que é que os tolhe de, de 
conta dos theoremas, d'elles extrahirem os legítimos 
corollarios ? Ha alguma coisa que lhes prohiba de, de 
posse do methodo e dos princípios íimdamentaes da 
sciencia do mestre, acabarem o que elle 'nào logrou 
senão bosquejar? Por que é, pois, que, consequen- 
temente, não apresentam elles soluções económicas 
e soluções politicas, íórmas de governo, princípios 
de administração, n'uma palavra: theoremas sociaes 
novos? Mas, quando se diz novos, quer-se dizer no- 
vos. Novos, completa e absolutamente. Novos. 

Não possam, nem de perto nem de longe, per- 
tencer ao cyclo metaphysico. Antes d'elle lhes cum- 
pre que destaquem, como princípios achados por um 
processo verdadeiro, — diversos, evidentemente, dos 
achados por um encarreiramento falso. 

Mas, coisa notável !, que é d'esses resultados sur- 
prehendentes?— Não apparecem. 

Em 1850, sahiu em Paris, da «livraria philosophi- 
ca» de Ladrange, um volume, compilativo de traba- 
lhos, disseminados na a liberal imparcialidade do Na- 
tionaL» Entre conservação e revolução, como entre 
Scylla e Charibydes, a salvação no positivismo. As- 
sim a geito de synthese hegeliana das kantistas an- 
tinomias. A conciliação das theses oppostas realisa- 
va-se em as paginas do tomo. Escrevera-as Littré. 
N'ellas se professava a veftia uw&Q 4ô <\ue a or- 



O BRAZIL MENTAL 26 í 



dem social deve assentar em bases scientificas e de 
que a sociedade progride parallelamente com a scien- 
cia, de modo tal que no futuro a sciencia ha-de re- 
ger só e sem estorvos o homem, em sua vida colle- 
ctiva como na individual. AUi se proclamava a se- 
paração do poder espiritual — do poder temporal, ou, 
em termos accessiveis, a separação da Egreja e do 
Estado e a secularisação do ensino, o registo civil e 
o atheismo leigo do governo: civil, politico e admi- 
nistrativo. Elogiavam-se a associação e o soccorro, to- 
dos os meios de ir extinguindo o proletariado e eli- 
minando a mendicidade. O auctor pronunciava-se 
pelo jury, pela liberdade d'imprensa, pela mediação 
arbitral substituindo a guerra. Emfim, frisava os tó- 
picos essenciaes da cultura moral, scientiftca, esthe- 
tica e industrial, quer dizer o desenvolvimento de 
todas as forças dos dois grandes directores modernos, 
a sciencia (poder espiritual) e a industria, sua íilha, 
(poder temporal). Afora este resaibo da eschola, o 
que ha na parte sã do volume? Encontra-se alli, con- 
catenada, a theoria que comprehende todos os gran- 
des princípios englobados na designativa palavra de 
Republica-democratica-socialista-universal. 

Ora, exactos ou falsos, resultam, porventura, pri- 
vativos e próprios de Augusto Comte e do seu me- 
thodo? Evidentemente que não. 

Todavia, elles são os únicos principios que, re- 
pudiando as loucuras da reorganisação catholica e 
feudal de Comte (o qual, como dissemos, os repellia), 
os discipulos dissidentes do professor da Eschola Po- 
lytechnica de Paris apresentam como os resultados 
da applicaeào da philosophia positiva ao youeruo dos 



262 O BRAZIL MENTAL 



aocmdades. Este é o titulo, completo, preciso, emi- 
nentemente suggestivo da notável synthese, por Lit- 
tré ultimada no volume de 1850 a que nos estamos 
reportando. 

EUe dá, pois, conforme se vè, como applicaçòes 
do mothodo de Comte e resultados da philosophia po- 
sitiva a lenta evolução que a historia nos vem desen- 
rolando, aliaz, desde as demagogias gregas e romana, 
passando pelos municípios da meia-edade, pelas re- 
publicas italianas, por Guilherme d'Orange e os Es- 
tados-geraes, por Cromwell, até os constitucionalis- 
mos parlamentares. Alentada pelos theoricos e dou- 
trinaristas (um Spinosa, um Morus, um Locke, um 
Mably, um Montesquieu e um Rousseau), ella recebe 
pratica consagração definitiva. Marca data. A 3 de 
setembro de 1791, em a declaração dos direitos do 
homem e do cidadão e a annexa constituição que a 
acompanha. Eis a norma modelar por que, de futuro, 
as sociedades se constituirão. Desde a Hespanha in- 
quisitorial até á Turquia polygamica e até ao Japão 
nirvanico. 

Na verdade, as ilhas multíplices que constituem 
a monarchia japoneza adheriram ultimamente aos ca- 
racteristicos fundamentaes da cultura occidental. E 
curioso que similhante adaptação europea procedesse 
precisamente d'uma revolta, interior, dirigida contra 
a influencia dos estrangeiros. Mas a lógica das coisas 
determinou que, como em toda a parte, os ataques 
do poder principesco, hegemónico e central, contra a 
dispersão nobiliarchica feudalista tivessem por con- 
sequência um accrescimo de vitalidade politica, que 
)ogo tendeu messianicamente a exercer-se no exterior. 



O BRAZIL MENTAL 263 



Graças ás energias próprias, o Japão desenvolveu 
a sua actividade social a ponto de, como se viu, satis- 
fatoriamente, pretender arcar com a myriade morta 
das forças apathicas da China, partindo, o gelo, des- 
manchando a superfície crystallisada d'um império 
immenso, cujo proliferamento constitue para a civi- 
lisação christã um perigo que perspicazes theoreticos 
teem procurado pôr em relevo. 

Em que peze ao recente Novicow, esse perigo é 
grande. Na perspectiva d'um ulterior derramamento 
amarello, quando o despotismo tártaro nào se sinta 
capaz de, mais, conter as revindicações da subjugada 
raça autochtona, haverá egoismos que justifiquem en- 
tão a Inglaterra rapace e sem escrúpulos. Seu mer- 
cantilismo se emprega no envenenamento prostrante 
das gentes filhas da lua. O systema do ópio resguar- 
daria, assim, indirectamente a Europa, do precalso 
d' uma invasão, prodigiosa pelo numero. Aíugen- 
tar-se-hia d*est'arte a nuvem — como a mongolica, por 
assim dizer clássica, que pairou, espessa, sobre a 
lUissia. 

Pôde ser que o crime britannico preparasse as 
condições próprias para o fulminante triumpho obti- 
do pelo Japão, cujos recursos de densidade não po- 
dem soffrer comparança com os do seu mallogrado 
antagonista. Pôde ser que aquellas fossem as vias 
históricas, emmaranhadas e confusas, de que o senso 
popular tem a consciência vaga, quando soe dizer 
que Deus escreve direito por linhas tortas. A mesma 
preventôra partilha da China, garça Polónia, pelas 
potencias civilisadas não faria senão precipitar a cri- 
se, dando-lhe de chofre o caracter peculiarmente eo^- 



,'4 



264 O BRAZIL MENTAL 
1 



nomico, na egoistica absorpção capitalista da concor- 
rência do trabalho industriai, agrícola ou fabril, con- 
soante minazmente succede desde agora pa America, 
mercê da transplantação do coolie. 

Nào vem para o caso. Mas para o caso vem que 
no avance do Japão é para contar a clausula pro- 
gressista da divisão do poder temporal e do poder 
espiritual, representados nos chefes antinomicos, o 
taikun e o mikado. 

Todos teem sua birra, os philosophos como os- 
restantes mortaes. A de G. Tarde é a imitação, cujas 
leis tracejou. Por eila explica eile a evolução do Ja- 
pão. Mas, imitação, pura e extreme que fosse, o foi 
de typos sociaes realisados, não de doutrinas mortas 
em paginas de livros. Quer dizer que não foi appli- 
cando o methodo de Augusto Comte que o Japão 
chegou. 

Também não foi commentando a Synthese sub- 
jectiva que a Turquia pretendeu chegar, ella ou- 
trosim. Um bello dia, Constituição, assembleas eiei- 
toraes, deputados, tudo desappareceu: como n'ura pé 
de vento; sem se dar por isso. Todavia, algo ficara. 
E é de hoje mesmo que vemos que se revindica sua 
integral applicação, para esse restante. 

Assim, a cJoven Turquia» não morreu. O seu 
órgão, actualmente, em França, é o jornal Mechveref* 
publicado em Paris. Seu director é o snr. Ahmed- 
Riza; o snr. Harnil Gauem é o redactor, e um fula- 
no Honillon é o gerente da folha. Ao programma da 
« Joven Turquia», fez-nol-o conhecer o Mechveret, no 
seu numero de ó de Agosto do passado anno de 
1897. EUe baseia-se fundamentalmente na considera- 



t> BRAZ1L MENTAL 265 



çào de que, textuaes palavras: «OTEstado ottomano 
possue um conjuncto de leis estabelecendo a separa- 
ção dos podepes, a descentralisação administrativa, os 
direitos locaes^ e os direitos das communidades, leis 
garantindo a todos os súbditos a liberdade de con- 
sciência e a independência da justiça.» 

Havendo o sultão actual promulgado a Consti- 
tuição de Í876, que assegura a participação do paiz 
na confecção das leis, que concede as liberdades ne- 
cessárias, taes como a liberdade da imprensa, a li- 
berdade individual, a liberdade de consciência, e re- 
serva á representação nacional o direito de ouvir os 
ministros e de discutir o orçamento, os representan- 
tes da «Joven Turquia», reconhecendo que essa 
constituição pôde ser perfectivel, ainda assim vão-a 
acceitando, á falta de melhor, para contentar. 

Finalmente, quanto ao methodo de marcha, na 
conquista dos progressos necessários, elles, de rubi- 
cunda papoula no toutiço, repudiam todos os meios 
violentos, por isso que, «sendo a nossa divisa — Or- 
dem e Progresso», não os podem acceitar. 

Todavia, se a residência em Paris dos signatá- 
rios do diploma inserto no Mechvereí explica o ap- 
pello para o lemma positivista da Ordem e Progresso* 
é certo que as revindicaçòes democráticas e progres- 
sistas se fazem, como se viu, em nome da observação 
do facto tradiccional. D'est'arte, os representantes do 
moderno movimento renovador na Turquia declaram 
manter esses princípios e esses direitos imprescripti- 
veis, solemnemente reconhecidos e proclamados pelo 
Tanzimato (conjuncto de reformas concedidas em 
4889 pelo sultão Abd-ul-Medjid), os Haiti Oyl\\^^nsxv 



266 O BRAZIL MENTAL. 



( ordenações subscriptas pelo .sultão e extinguindo as 
,differenças entre os súbditos das differentes religiões), 
a lei da Vilayets e outras leis contidas no Dustur, 
que é uma espécie de código administrativo. 

No Brazil, um livro appareceu, tractando de de- 
finir os corollarios do methodo positivista applicado 
ás condições sociaes do paiz. Esse tomo foi escripto 
por um eximio propagandista do novo credo, snr. 
Luiz Pereira Barreto; e intitula-se Soluções positivas 
da politica brazileira. As soluções que ao Brazil of- 
ferecia o positivismo eram a republica federal. Vinha 
ella sendo o ideal dos patriotas brazileiros, desde tem- 
pos em que nem ainda nado era Augusto Comte. Deci- 
didamente, escusamos procurar novidades na matéria. 

E, de tudo o que diffusamente foi até aqui dito, 
podemos concluir agora que esse tudo nos mostra que 
o alvo da philosophia não pôde ser o negar desdenho- 
samente a solução de incógnitas propostas. Ainda 
que estas sejam da categoria das chamadas prima- 
rias, para deixar sem os resolver, ou, pelo menos, 
sem os examinar, de par e passo, os problemas deno- 
minados metaphysicos. 

Não ! Applicar á philosophia o rigorismo seien- 
tifico — eis a reforma que urge completar; mas pro- 
seguindo sempre na investigação das soluções des- 
conhecidas, conforme assim se procede em toda ou- 
tra e qualquer sciencia. 

Negar à priori a possibilidade d' uma solução ou 
appellar à posteriori para a não-resolução da questão 
até um marco de tempo dado é, em certa categoria, 
insufíiciente; n'outra, temerário. 

Archivem-se as perguntas, investigue-se, procu- 



O BRAZXL MENTAL 267 



re-se, que essa investigação e todo esse trabalho co- 
lherão algum fructo, de seguro. Os campos divi- 
dir-se-hão, com certeza, mas é verdade velha que 
do choque das opiniões e das investigações é que 
brota a verdade. A metaphysica proscrever-se-ha, na 
parte que,, de commum accordo, todos julgam erró- 
nea: na presumpção dos principios-bases, no desdém 
absurdo pela observação, — quer dizer, no methodo 
e nos resultados a esse methodo devidos, mas não 
nos problemas de que se occupa, os quaes são, quer 
o homem queira quer não queira, permanentes e sub- 
sistentes, substanciaes. 

A observação e a experiência, o methodo das 
sciencias positivas transportado para a philosophia — 
eis o ponto commum onde devem convergir todos os 
nossos esforços. 

E, se assim chegarem, uns ao espiritualismo, ou- 
tros ao materialismo, estas opiniões se debaterão, e 
o espirito lucrará. Ora, aonde mais vantagens do que 
n'este modo de tractar naturalmente as questões phi- 
losophicas ? Mas, se se começa por dizer : Não fal- 
temos em tal, que lucro advirá d'isso? 

A philosophia moderna não é, por certo, um 
amontoado de phrases balofas e de especulações inú- 
teis. Deve acompanhar a sciencia e á sciencia repu- 
tar como mãe. Mas tambení, por outro lado, as ques- 
tões metaphysicas não serão repudiadas; e, tão so- 
mente (o que é tudo), a metaphysica passará, d' um 
jogo de abstracções ôccas, a um complexo de dou- 
trina scientiíica, discutidas, analysadas as afíirmaçòes 
pró e contra certos e determinados problemas. 

A philosophia moderna não é a mãe do sah<& % 



268 O BRAZIL MENTAL 



vivendo no ether do pensamento, coberta de majes- 
tade e plena da ignorância mais crassa dos factos 
positivos, da natureza orgulhando-se em mostrar-se 
arredia. Ao contrario. Não é absoluta, n'este sentido 
de que se condiciona e se vê relativa aos progressos 
da sciencia, de quem é filha, de tal modo que sem 
a sciencia ella não possa existir. 

Cúpula do edifício scientifico, — eis a definição 
que já alguns têm dado, a definição justa. Mas po- 
derá haver cúpula sem columnatas? 

Ora, se a sciencia positiva caminha sempre, a 
philosophia, que a acompanha, poderá ter um ponto 
de limite no seu conhecimento, ponto chegado ao 
qual lhe seja impossível responder, por íalta dos da- 
dos precisos, só íorneciveis pela sciencia e que, to- 
davia, esta nào fornece nem fornecerá Jamais, — con- 
soante o postulado inicial comtista? 

Não! Não, responde como nós o dr. Bíiehner. 
Não; «os limites d'esse dominio não são, de forma 
alguma, fixos, antes recuam cada anno deante dos 
progressos da sciencia.» 

Assim, o nosso grito não deve ser: Morte!, mas: 
Reforma; não: Proscreva-se a Melaphysica, porque 
não é possível mutilar a alma civilisada, arrancan- 
do-lhe a necessidade, farto, imprescriptivel de curar 
dos problemas uma vez formulados ; — mas sim : Re- 
forme-se a Metapkysica, porque d'um ludibrio, ora 
banal, ora ridículo, se poderá, quiçá, esboçar corpo 
scientifico de noções demonstráveis. Assim attende- 
remos a necessidade real, visto a metaphysica ter por 
objecto o responder a perguntas reaes do espirito. 

Por consequência, emfim: analysar; juntar ele- 



O BRAZIL MENTAL 269 



mentos disseminados; accumular observações sepa- 
radas; trilhar a via empírica da realidade natural, 
continuamente apoiando nos dados fornecidos pela 
sciencia e continuamente corrigindo as especulações 
à priori, não pretendendo extrahir só do espirito ra- 
dicaes soluções; nâo crear, portanto, systemas trans- 
cendentaes, visões encantadas, mas sim ir, a pouco e 
pouco, caminhando sempre ao lado da positividade. 
Não mutilar, mercê de erro symetrico, a nossa alma, 
nào a truncar, — a titulo de a depurar. Avançar len- 
tamente n'essa estrada humana e clara, provisoria- 
mente, em conílicto de afíirmação contra negação, 
até que accordos, provisórios egualmente, se succe- 
dam. Ouer dizer, d'est'arte firmar a philosophia ao 
mesmo tempo na natureza e na razão, consoante a 
lormula pratica, americana, do americano Hudson 
Tuttle. Tal deve ser, quanto a nós, o caminho da 
philosophia moderna, o caminho de toda e qualquer 
sã philosophia. 

Km seu critério, similar porém incompleto, o 
facto é que o positivismo conquistou immenso terre- 
no, a curto trecho, no Brazil. Apossou-se de todas 
as modalidades do pensamento. Já o vimos na pura 
theoria; já, com Sylvio Romero, o vemos na polé- 
mística sua adversa; com o pernambucano Martins 
Júnior encontramol-o na poesia. A obra rimada de 
Martins Júnior corresponde perfeitamente á similar 
portugueza do brazileiro Teixeira Bastos, com os seus 
Rumores vulcânicos e as suas Vibrações do século. 
No critério, no intuito, até — singular coincidência! 
— no abrupto canhestrismo da íórma. Como em Tei- 
xeira Bastos, em Martins Jumo? %fc títosfò?N^ «asàss^ 



270 O BRAZIL MENTAL 



decadência dos primeiros — para os segundos volu- 
mes publicados. Como Teixeira Bastos, Martins Jú- 
nior abandonou o cultivo das musas; e, como o seu 
distincto conterrâneo, elle se consagrou, com êxito 
análogo, ás sciencias politicas e sociaes. 

Quanto ao livro inicial de Martins Júnior, eis um 
que se constituiu, na meio das vulgaridades que a 
bibliographia, ou portugueza ou brazileira, registra 
diariamente, cá e lá, uma aberração, em extremo 
honrosa para o seu auctor. Este se manifestou assim 
um espirito original, íóra do commum, e fortemente 
embebido dos princípios, philosophicos e críticos, que 
marcam a revolução do pensamento nos últimos vinte 
annos decorridos. 

O illustre pernambucano mostrou, por aquelle 
seu livro, haver percebido, e bem, que a poesia não 
assiste tam só nos devaneios pessoaes. Insinceros, el- 
les derimem nullos para a collectividade, poisque não 
accrescentam á interpretação plástica da subjectivi- 
dade. Então, são absurdos (como todos os que men- 
tem) aquelles certos que se esforçam em repetir, até 
á saciedade, que choram, que sentem, que teem ciú- 
mes e que são assignalados pelo stigma do atroz des- 
tino, o qual, do berço, os tem feito soífrer a vida como 
um tormento, e anciar a morte como urn livramento 
sereno e bom. Comprehendeu que se podia ser poe- 
ta sem a persistência em velhos moldes cacheticos, 
sem uma sentimentalidade balofa, por falsa, e ainda 
— e primacialmente, sem a ignorância profunda que 
se considerava, nos bons tempos idos, como uma 
característica dos do genus irritabile vatum. 

l)'àhi, o haver feito o snr. M&yWxvv-» ^xxxâsyt wwv 



O BRAZIL MENTAL 271 



singular, rijo volume, em que canta a matéria, a força, 
o espaço e o movimento ; em que nos explica a crea- 
çâo do mundo, a torma e meneios da terra, o que 
seja o mar, a montanha, o homem, Deus á luz dos 
novos principios e das modernas aspirações. 

Pareceu ao snr. Martins Júnior que o barulho 
surprehendente da sciencia, a grandeza maravilhosa 
da philosophia, a synthese do grande todo uno, as 
aspirações do homem para a perfeição, de cujo li- 
mite se approxima na linha do indefinido progresso, 
como essas variáveis que se dirigem cada vez mais 
para a constante, sem nunca a attingirem, pareceu-lhe, 
fecundamente, que todas estas verdades e todos estes 
anceios eram bem mais dignos de ser proclamados 
em verso do que os amores cândidos, as sentimenta- 
lidades nevoentas, as abstracções metaphysicas que, 
n'um análogo conceito, a nada levam senão ao des- 
equilíbrio dos espiritos, ás nevroses. aos desarrazoa- 
dos tédios da existência, a todas as loucuras, emfim, 
fulminantes ou desprezíveis. 

Á data de seu apparecimento. ninguém deixaria 
de affirmar, portanto, lendo o notável e originalíssi- 
mo livro do snr. Martins Júnior, que não fosse esse 
um espirito credor de toda a attençâo. Merecia-a, 
pois que tentasse orientar no seu paiz as vocações 
poéticas, por um processo novo. para uma carreira 
inexplorada, aos tempos que corriam. Ouer-nos, to- 
davia, parecer que o auctor das Visões d' hoje, pre- 
tendendo fugir de um exaggero. cahira n'outro, e 
até mais perigoso que o primeiro, estamos em dizêl-o. 

Suppòmos aqui que o snr. Martins Júnior uãô 
comprehendeu, de intimo, a effòeiu*\& \\v«swvv\ ^a 05^ 



272 O BRAZIL MENTAL 



seja essa ineffavel entidade, conspladôra, a que cha- 
mamos commummente poesia. Um exame, bem que 
superficial, da seriação das humanas necessidades 
lh'o deixaria claramente distinguir. 

Em cuidadoso exame considerando nós a escala, 
zoológica ou phytologica, vemos que a lei da divisão 
do trabalho avoluma, maniíestando-se desde os últimos 
pontos da escala, cada vez mais larga, conforme o 
sêr siga ascendendo. De tal modo que a períeiçào 
d' um ente, (quer dizer a complexidade de funcçòes 
que elle vai executando) é determinada pela diver- 
sidade de orgàos especiaes, dos quaes cada um se 
encarrega do trabalho que nos primeires grados, 
amorphicamente, encontramos distribuido pela tota- 
lidade do sêr. Aqui, n'este lemraa rudimentar, se fun- 
damenta toda a intuição de Herbert Spencer. É a 
sua amada lei de a passagem da homogeneidade para 
a heterogeneidade, o primeiro principio da difíeren- 

ciacão. 

* 

Na verdade, se dividirmos um infusorio em pe- 
daços, cada um d'esses fragmentos continua a viver 
e torna-se, era breve, 'um individuo similhante ao 
primeiro. E isto por que a simplicidade da sua es- 
tructura não necessita da divisão do trabalho rudi- 
mentar a preencher; elle é feito uniformemente por 
todo o percurso do animal. Á medida, porém, que 
vamos subindo na escala dos seres, presenciamos o 
subdividir-se esse trabalho e executar-se por órgãos 
especiaes; aqui, a funcção da respiração; alli, a da 
circulação; acolá, as secreções; e assim por deante. 

O homem é o sêr mais completo e perfeito da 
creaçào, até segunda ordem, quando a utopia de Ni- 



O BRAZIL MENTAL 273 



eztsche, elevada, pelo menos, ao cubo, se volva em 
realidade. E, falia ndo do actual homem, consideramos 
aqui o arya e o semita, o khamita e o turaniano, nas 
suas cepas do velho mundo, nos seus ramúsculos 
americano e australiano. Suas necessidades sâo infi- 
nitas. A sua simples consideração anthropologica, con- 
funde-os, aos mais doutos e pesquizadores. Se a so- 
matologia exige, mais a physiologia, muitissimo mais 
ainda a psychologia. 

Elle exhihe, com etíeito, o exemplo supremo da 
variabilidade e complexidade do trabalho que um sér 
vivo pôde chegar a executar. É, por consequência, 
também o perfeitíssimo modelo da mais visível e vi- 
gorosa divisão do trabalho, consummado por diversos 
órgãos especiaes, concorrendo ao mesmo fim. Con- . 
siste n'esse duplo movimento de composição e de- 
composição continuas e simultâneas, como á vida a 
definem. 

Esses órgãos, assaz variados se amostram e em 
grande numero contam. Eiles constituem este qua- 
drumano sem cauda que fecha por agora, e de vez, 
na terra, parece, a seriação dos animaes. Cumpre-lhes 
executar diversas tarefas e acham-se, pois, estimula- 
dos no respectivo sentido. Devendo cada tecido espe- 
cial viver conformemente á sua organisação, hão-de 
concluir suas fainas, uns que não outros, satisfazendo 
assim ás próprias necessidades, que são, a seu turno, 
as do sêr completo, no qual todas se integram. 

No homem e (segundo suas ordens e graus res- 
pectivos) nos outros animaes superiores, poderemos, 
de conformidade com o moderno critério, dividvL-a& 
também como Letourneau. Ver\£\c&Y«Ys\^ fc. ^\^\fò\ss*s^ 



274 O BRAZIL MENTAL 



concomitante de: necessidades nutritivas, de circu- 
lação, de respiração, de digestão, comprehendendo 
todos os trabalhos harmónicos: exkalações, secreções, 
etc; necessidades sensitivas — necessidades voluptuo- 
sas, origem da reproducçào da espécie, — necessidade 
de exercer os sentidos especiaes; finalmente, neces- 
sidades cerebraes propriamente ditas: — affectivas, 
intellectuaes. 

Ora, no capitulo das necessidades cerebraes pro- 
priamente ditas, que é o caso que nos importa, sub- 
divisão se nos torna visível d'essas necessidades pe- 
los factos psychicos por que essas necessidades se 
manifestam. Temos de registrar, assim, as necessi- 
dades que sào filhas dos factos activos entendimento 
e imaginação e que dào origem a duas ordens po- 
larisadas de productos: uns, da categoria chamada 
sciencia; outros, da categoria chamada arte. 

De sorte que (afora a conformidade inicial, de 
que tudo procede) as resultantes d'esses systemas 
dynamicos cerebraes são, por isso mesmo que os 
systemas são diííerentes, difíerentes também. A fa- 
culdade activa que cria um poema, satisfazendo a 
uma necessidade cerebral, não é a mesma que re- 
solve um triangulo, satisfazendo a diversa necessi- 
dade cerebral; pela mesma rasão por que a faculda- 
de que transforma o sangue venoso em arterial não 
é a que determina a final dissolução das matérias 
amylaceas no intestino. Inversamente, partindo do 
resultado para a força generatriz, seria tão absurdo 
querer fazer com que a faculdade poética, artística, 
esthetica ou como melhor lhe queiram chamar, com- 
puzesse a Tempestade com os elementos ou obras da 



O BRAZIL MENTAL 275 



faculdade scientifica, phHosophica ou critica, como 
querer que o coração digerisse e o estômago fizesse 
circular o sangue. 

Cada um doestes órgãos tem funcção especial 
e própria, que, a seu turno e por sua vez, está loca- 
lisada n'esses orgâos respectivos, sob um estimulo 
reciproco; o resultado d'estas acções simultâneas ó 
que dá o complexo do ser total e harmónico. 

Querer, pois, operar alterações n'esta complexi- 
dade; esquecendo a lei da divisão do trabalho, preten- 
der ou distribuir uniformemente ou deslocar as Kmc- 
ções é, portanto, audacioso e inútil. Resulta chime- 
rico o tentamen. Os dedos das íadas nào se empoei- 
ram do giz dos calculadores; Tieck e Novalis, João- 
Paulo e Spenser têm o seu diccionario próprio; o 
não é elle a taboa dos logarithmos neperianos. 

Sabe-se. Percebe-se bem o que se almeja. É tor- 
nar solidaria com a cerebraçào scientifica a cerebra- 
ção poética. Reatar a solidariedade partida. Tornar 
á concordância contemporânea de um Lucrécio, de 
um Dante ou de um Camões. Mas o problema, tal 
como se colloca, não comporta solução. Tentando, esf 
via 9 com effeito. Não assim, porém. Differentemente. 

Differentemente, porque a faculdade cerebral 
que origina as composições poéticas é a que recolhe 
as impressões e as transforma em sensações e sen- 
timentos. As idéas, qual cambraia fina num perfu- 
me rico, impregnam-a do seu extracto synthetico. En- 
trementes, a faculdade que preside ás composições da 
razão é a faculdade que passa d*essas sensações e sen- 
timentos á categoria concreta das idéas. Exiçe-as. 
como elementos de synthese, ana\v\\ç&s> ^ \rcwsSs»s^ 



276 O BRAZIL MENTAL 



ninquanto que a synthese poética é, de sua natureza, 
vaga. Como a philosophica. Da philosophia é a poe- 
sia a irmã mais nova. Mas a sciencia, que é mãe 
de ambas, se as tracta com egual carinho, nào pôde 
nutril-as identicamente. Uma já desmamou. A outra 
ainda só pôde a leite. 

Na verdade, da pura combinação immediata das 
idéas emerge, erecta, logo a sciencia, emquanto que 
a arte vai derivando hierarchicamente pelo mean- 
droso arranjo de sentimentos e sensações, como se 
gatinho íolião em cabriolas chimericas pelos florea- 
mentos d'uma imbrincada escadaria. No seu typo ru- 
dimentar, onomatopaico, surge a musica, elementa- 
rissima então, porque só se refira a impressões rápi- 
das, produzidas por sons ephemeros e ruidos não cor- 
relacionados. Emfim, apparece a poesia, que nos com- 
move pela representação dos nossos sentimentos, o 
amor, o ódio, e nos incita pelo enthusiasmo das idéas. 
Satisfaz assim plenamente a todas as nossas necessi- 
dades activas. 

Uma obra, pois, que não forcejar por, iniciado- 
ramente. nos fazer sentir, mas que timbre no propó- 
sito exclusivo e didáctico de nos fornecer idéas con- 
cretas e determinadas, o que será? O que será aquella 
obra que nos enriqueça de noções precisas, de factos, 
versando especialisados assumptos, ou explicações, 
satisfactorias e próximas, ministrando-nos d'elles? No 
conspecto de suas syntheses e analyses positivas e 
objectivas, emfim, ella pôde ser, essa obra, uma obra 
de entendimento; é-o, por certo, mas não é, di^amol-o, 
uma obra d'imaginação e d'arte, não é uma obra 
poética, numa palavra. 



O BRAZIL MENTAL 277 



Ninguém capitulará de tal qualidade relevante 
um poema (?) acerca da Vaccma, como o do por- 
tuguez Zagalo, ou um poema (!) acerca da Syphi- 
l?'s. como o do italiano Fracastor. 

As idéas positivas, determinadas, recortadas— ca- 
so o vate queira aspirar a alguma coisa mais do que 
a sensações fugitivas — as arrancará o cérebro do seu 
leitor d'entre as suscitadas phantasias feitas conceber 
pela vibratilidade dos sentimentos agitados. 

Esse será um processo, todo interior, de asso- 
ciação e transformação, próprio dos seres que con- 
servam a unidade na complexidade, mercê de suas 
intimas relações structuraes. E nào é, até, outro o fim 
esthetico em seu alvo mais propriamente alto, aquillo, 
talvez, a que Wronski chamou a phase cognitiva da 
arte. 

Eis por que nào seja justa a observação, de Her- 
bert Spéncer, de que tudo o que é esthetico tem por 
caracter ser inútil. Dando, mesmo, de barato que a 
satisfação duma necessidade nào fosse, já de si, mais 
do que útil, indeclinável sem atrophia de orgào. 

Mas essas idéas que quer evocar ou coordenar, 
nào é elle, artista, nào é elle, para o nosso caso es- 
pecial, poeta, — quem as ha-de propinar, doseadamen- 
te, á laia do sábio receitando suas noções emulsio- 
nantes. 

Quanto ás idéas, duas sào as etapas da marcha 
do poeta. 

Na primeira, do sentimento especifico que lhe 
suscitou, ha-de passar a ellas o cérebro do seu in- 
fluenciado. 



278 O BRAZIL MENTAL 



De per si próprio, o artista, então, representará 
sentimentos e isso tão só. 

Cantará o amor da pátria e, por isso, levará o 
espirito á idéa de pátria, de dever civico, de direito 
politico, de cidade, de nação. Cantará o amor do ou- 
tro sexo e suscitará, por esse sentimento que definiu, 
a idéa da união dos dois fragmentos da individuali- 
dade — homem — , a idéa do respeito -dever ao fra- 
co. Cantará a alegria do livre, para recordar a idéa 
da liberdade. Dirá do enthusiasmo em que o lança- 
ram os deslumbramentos do mundo cósmico e con- 
seguirá que, d'esse forte sentimento de admiração, 
passe o espirito ás noções positivas que de tal uni- 
verso, conjuncto e connexo, por outra via, se aufe- 
riram. 

Eis o stadio primevo e originário. 

Assim, então, ouvindo a maravilhosa fanfarra ma- 
tinal de Lohenijrin, que, n'este conceito apreciada, 
não é senão o arranjo, por assim dizer, molecular de 
sons, o espirito do ouvinte poderá subir da sensação 
auditiva á idéa do som em acústica, á theoria da pro- 
pagação d'elle, á noção de harmonia musical, etc. As- 
sim, contemplando o quadro «das lanças» de Velaz- 
quez, o arranjo das cores n'uma tela pôde suscitar, 
suscita, a idéa do que sejam as eôres, sua simplici- 
dade, logo a intuição da luz, seu modo de propaga- 
ção, sua reflexão e refraccão. 

Assim, também, a Lenda dos séculos, que nos 
modula a vida dos povos, que nos faz sentir a sua 
existência, que nos manda imaginar os seus heroes, 
etc, é uma obra poética, o que não seria, se fosse um 
curso ai* — J io de historia, com seus factos, 



O BRAZIL MEN*f AL 279 



numa ordem lógica, bem averiguados e meudamente 
contadinhos. Assim, o Firmamento, de Soares de 
Passos, é também, no seu typo e no seu tanto, com- 
posição litteraria de esplendoroso effeito, porque o 
artista-poeta, em sua emoção elevada e sincera, se li- 
mitou a fazer-nos sentir férvido enthusiasmo pelas ma- 
ravilhas do kosmos e não curou de dar-nos noções exa- 
ctas, porventura demonstradas, de mechanica ceies- . 
te. Se por contrario critério se orientasse, cahiria na 
aberração do dr. Patrocinio da Costa, lente de ma- 
theraatica, que redigiu em verso uma cebenta de 
trigonometria espherica. Mas o dr. Patrocinio da Costa 
era um excêntrico, cuja illustraçâo solida e imagi- 
nação frágil lhe daria logar á ilharga de Gama Ma- 
chado, na galeria onde a este o emmoldurou Cham- 
pfleury. E Soares de Passos, antes e depois de folhear 
o Laplace que lhe emprestara o intelligentissimo en- 
genheiro Falcão, obsidiado, á data, pela idéa da poe- 
sia scientiflca, fora e conservara-se um equilibrado. 
Quer dizer que, debutan temente, isto, esta frá- 
gil e vehemente coisa do sentimento, é que é o ele- 
mento poético; isto, esta coisa iria e solida da idéa, 
é que é o íactor scientiflco. Querer fazer poemas, 
pois, com idéas, em seu typo demonstrável de ele- 
mentos cognitivos determinados, não parece contra- 
dictorio? Negar sua possibilidade perfigura-se sarcas- 
mo charro contra poesia e poetas, que não teriam 
nem poderiam ter idéas. Mas, deixando em seu de- 
vido desprezo a alicantina de troça soez, o facto ó 
que so passa como se disse. É isso tam absurdo como 
querer fazer compêndios com sentimentos. O que, 
manifestamente, se mostra disparatado. 



280 O BRAZIL MENTAL 



O snr. Martins Júnior não pensou assim; todas 
as suas tendências o levaram a acreditar que se pode 
íazer um trecho de poesia sobre qualquer ponto de 
ensino. 

Baseou-se n'uma passagem de Guerra Junqueiro, 
onde se diz que a lei descoberta por Newton tanto 
pôde ser explicada n'um livro de physica, como can- 
tada n 3 um livro de versos. Mas custa-nos a dizer que 
o snr. Martins Júnior nào entendeu sufficientemente 
esta passagem. Seu sentido tem de interpretar-se pela 
divergência que ha no significado e intuito dos dois 
vocábulos, o hiato que vae de explicar a cantar. 
N'um livro de versos nào se explica. E o snr. Mar- 
tins Júnior, como o snr. Teixeira Bastos, em suas es- 
trophes, explicam de mais. 

Tomada a passagem alludida no geito que lhe 
deu o snr. Martins Júnior, ella é tam absurda como 
seria dizer que a Comedia da morte é um theorema. 

Desde que se perdeu de vista o distinctivo se- 
guro do elemente poético, não se chegou senào a 
obras hybridas, monótonas, sem enthusiasmo, sem 
relevo, nem sciencia nem arte. Não se salvam os 
maiores génios, nào, do desastre inevitável. Veja-se 
Virgílio, o mais eminentemente poeta na accepçào 
sentimental e elegiaca da palavra na antiguidade, com 
as suas Georgicas. Veja-se, na nossa contemporanei- 
dade, uma tam requintada organisaçào esthetica em 
tal capacidade plástica, Põe, com o seu illegivel Eu- 
reka. Não querendo fallar já nos archisoporiferos 
Pope, Voltaire e o nosso erudito, grosso rival de Ca- 
mões. 



O BBAZ1L MENTAL 281 



Ouer isto dizer que nào acreditemos na possibi- 
lidade e na eventualidade da poesia scientifica? 

Entendamo-nos. Basta a quasi unanimidade da 
aspiração para que se nos demonstre irrefragavel sua 
ulterior realidade. De lacto, até nossos dias, as ten- 
tativas, chegando ás recentes de André Léíòvre e de 
Sully-Prudhoinme, contam-se pelos abortos. Mas os 
insuccessos nâo desanimam. Teima-se. Sente-se que ha 
necessidade d'essa creaçâo. Com effeito, ella tem de 
apparecer. Será o techo das creaçòes idealistas do 
século xix. 

Mas, emquanto a procurarem por onde a procu- 
ram, nenhum resultado efficaz se obterá. 

Em primeiro logar, a poesia scientifica nâo ema- 
nará precisamente da sciencia, mas sim da philoso- 
phia, — considerada esta como a chaveta que compre- 
henda toda a hierarchia encyclopedica. A expres- 
são: poesia scientifica é, assim, errónea e tem sido a 
grande causa dos desvairamentos. O que ha a cons- 
tituir é a poesia philosophica, não a poesia scientiíi- 
ca. O único exemplar perfeito d' uma tentativa con- 
génere não marcada de insuccesso é, como se sabe, 
o De rerum natura, de Lucrécio. Este poema não*é um 
poema scientiíico, á laia didáctica das Georyicas, de 
Virgilio. É um poema philosophico, explanador d'um 
systema cosmogonico geral. Esta differencial não tem 
sido suficientemente apercebida; e.ella é essencial. 
Ao tempo de Lucrécio, de resto, a acquisição scien- 
tifica de ordem da versada no poema era insufficiente 
para metrificar explicações determinativas, puras o 
extremes. 

Sendo philosophica, a poesia scto\\t.\i\R&. ^àv^ax^ 



282 O BRAZIL MENTAL 



de ser didáctica; e o vago critico dç todo o systema phi- 
losophico conservará á obra d'arte o vago esthetico, 
indispensável á poesia. Posto isto, o systema philoso- 
phico que tenha de ser idealisado poeticamente, nunca 
poderia ser o positivismo. Precisamente pela razão por 
que se apartou a sciencia. Porque o positivismo é 
rigidamente limitado; tem as fronteiras, próximas e 
claramente visiveis; é uma curva fechada; é um po- 
lygono cujas arestas não toleram que as ultrapasse 
a conjectura. O positivismo, nào; é positivo demais. 
Carece-se de uma philosophia mais inexacta e menos 
terrestre. 

Tem o systema philosophico que se adopte para 
a idealisaçào poética de proceder da sciencia e de 
n'ella se consubstanciar indissoluvelmente e a todo 
o instante a ella se reportar, referir e recorrer. E, 
sem embargo, n'um rapto, a todo o instante, a poe- 
sia d'eiie emanado ha-de coníugir da originaria de- 
monstração scientifica. 

Depois, como o homem é o limite finalista de 
toda a humana actividade, essa poesia cumpre que 
seja transcendentemente morai, o que quer dizer: no 
ponto de partida, pessimista; no ponto de chegada, 
optimista. O optimismo deve, mesmo, ser o seu con- 
ceito synthetico, o seu critério dominante e geral. 

Por consequência, essa poesia scientifica haverá 
de ser profundamente espiritualista e, simultanea- 
mente, rigorosamente objectiva; quer dizer, será te- 
leológica. 

Professar isto equivale a professar que uma poesia 
scientifica positivista resulta abortiva, porque o ca- 
racter concreto do systema nào permitte a idealisaçào. 



O HRAZIL MENTAL 283 



Nào pôde ser também materialista uma poesia phiio- 
sophica, porque lhe talte a sancçào moral. A autoia- 
tria individualista, que para a philosophia deriva da 
ecotiomia politica, a seu turno derivada da interini- 
dade social, indispensavelmente iniqua, é inadmissí- 
vel n'um poema caracterisado pela stricta justiça. A 
autolatria coilectiva, á maneira de Comte ou de Max 
Stirner, é insufficiente também, porque a humanidade 
não pôde jamais ser o orgào supremo da sancçào mo- 
rai, visto como, para subsistir, elia tem de, inflingin- 
do egoisticamente a morte, negar, como as unidades 
especificas ainda as mais inferiores, as coexistencias 
de si alheias. Essa poesia não pôde, finalmente, ser 
mystica no typo anthropometrico da Sagesse de Ver- 
laine, porque lhe escassea o elemento exterior da 
realidade objectiva, ademais da inferioridade do sim- 
ples conceito da vida moral humana, destacada so- 
berbosamente da continuidade universal. 

Só, portanto, a philosophia da evolução pôde per- 
mittir uma idealisação poética da sciencia. Só a mo- 
ral socialista, no sentido integralista que rudimentar- 
mente começou a bosquejar Malon, é que é compa- 
tível com um poema que pretenda a honra, máxima, 
de ser concordante com o conjuncto ideativo, affecti- 
vo e voiitivo da humanidade contemporânea, tam per- 
feita e homologamente como o foi o poema de Dante 
para a gente e o espirito catholico da sua epocha. 

O poema do íuturo tem de integrar e integrar-se 
no monsimo teleológico, inclusivo o homem e a so- 
ciedade, em seu destino ; completará a intuição exacta 
que, mallogrando-a na effectivação, até hoje só teve, 
fragmentaria e conscientemente, um cerch>TO\iò" 



284 O BRAZ1L MENTAL 



giado. Foi o de Goethe, mas no seu segundo Fausto 
elle embarai;ou-se a ponto de ofíerecer o singular es- 
pectáculo de promover commentadores mais assanha- 
dos e di ff usos do que os mais obscuros devaneios 
theologicos. A causa próxima do desastre esteve, na 
effectuaçào, em o recurso dominante da symbolica; 
mas o conceito fundamental destaca indiscutível para 
toda a alta especulação esthetica. É o do pantheismo 
idealista — hoje accrescentariamos e socialista, se o 
idealismo systematico nào implicasse, derivativamen- 
te, o conceito da justiça, já. Até, disseminado no cos- 
mos, elle freme, formando sua trama dissimulada, ana- 
ly sável desde o rudimento atómico, bem antes mes- 
mo da psychologia cellular esmiuçada por Haeckel. 

De resto, os positivistas deveriam ter chegado 
por deducçâo ao que os darwinistas haveriam de en- 
contrar por ampliamento de sua especifica inducçâo. 

Com effeito, n'um lance apertado de hostil dia- 
léctica, conduzida vivamente por adversário racioci- 
nante até ás missangas dos scropulos mais imperce- 
ptiveis, Littré teve uma idéa engenhosa e exacta. Foi 
aquella que elle systematisou na doutrina a que poz 
o nome de «theoria dos residuos». Toda a sciencia, 
uma vez constituida, deixa, abandonado, um aspecto 
do facto observado, para cujo estudo os seus proces- 
sos especiaes de exame sâo insuíficientes e elles im- 
potentes se confessam. Esse residuo vem a constituir 
a sciencia immediata. Isto é ostensivo para a physica 
e para a chimica. Pois bem. Completemos a idéa de 
Littré, o qual sempre queda, nas suas melhores sug- 
gestòes, a meio-caminho. 

O conjuncto das sciencias organisadas deixa co- 



O BRAZIL MENTAL 285 



mo resíduo a philosophia. E esta, ainda, a seu turno, 
a poesia. É, d'ess*arte. a poesia um extracto de ex- 
tracto. 

Como querer, pois, que ella se confunda, indiffe- 
renciadamente, com as sciencias elementares? importa 
nada menos do que isto: negar toda a hierarchia. 
Nada menos. 

Mas proceder (como se tem feito até aqui) em 
sentido contrario ou diverso d'aquelle que deixamos 
dito é crear uma entidade que, como muito bem 
observa Vacherot, nâo é sciencia e poesia, porque 
nào é nem uma nem outra coisa. 

Resumindo, cremos que no espirito do snr. Mar- 
tins Júnior havia, á data de sua afíirmacào estheti- 
ca, duas tendências antagónicas que se prejudicavam 
reciprocamente; uma boa, outra que o nâo é. 

Uma era a de abandonar os hirtos, mortos mol- 
des archaicos da poesia no seu paiz, servindo-se da 
arte para exprimir, por meio de palavras novas, sen- 
timentos novos. Outra era a de substituir esses sen-r 
timentos por principios. por verdades, por factos, para 
fazer assim da poesia um processo de propaganda 
philosophica, uma traça de proselytismo politico, um 
meio de vulgarisação scientifica, com iidimo intuito 
superior, aliaz. 

Á primeira das duas tendências, nào temos senào 
que a applaudir. porque a obra d'arte resulte deter- 
minada por um conjuncto que é o estado geral do es- 
pirito e dos costumes ambientes, consoante o demons- 
trou, á saciedade, Taine. Se hoje, no nosso cérebro, 
despontaram sentimentos, desconhecidos dos nossos 
avós. á custa d'outros quo fòvaxw ^\\\\\vwôÃts^, ^ sSw 



286 O BRAZIL MENTAL 



cTarte que representar esses sentimentos é-o tanto, 
quanto o era a dos nossos antepassados que repre- 
sentou esses outros sentimentos idos. 

Tam realmente poeta é o apaixonado da força. 
Homero ou quem suas vezes taça no cyclo wolfico. 
como o sedento de justiça, Hugo. 

Tam realmente poeta, no Brazii, foi Tobias Bar- 
reto, cantando a pátria, nos momentos de previsão 
segura, e parco alarme, pois, da guerra do Paraguay, 
como os que, reagindo contra a imitativa empola 
hugolatrica do que além-Atlantico se chamou a poesia 
condoreira, pelo uzo immoderado que faziam seus 
vates da bella e gigantesca ave americana, — o con- 
dor, fundaram a poesia internacional do cosmopoli- 
tismo ou eschola do chacal, como lhe chama, com 
adequado, análogo aproposito, Valentim de Maga- 
lhães, que frisa com espirito o abuso das letras maiús- 
culas por essa eschola perpetrado e aponta com in- 
dependência, ao depois desmentida, o influxo nos ta- 
lentosos cultores d'essa poesia exercida pelos livros 
de Anthero de Quental, Guerra Junqueiro, Gomes 
Leal e Guilherme de Azevedo. 

Sejam verdadeiros no sentido esthetico da pa- 
lavra — isto é tenham flagrância plástica, o que se 
não obtém idoneamente sem a concomitante verdade 
subjectiva, pela recordação actuante e actuai de estado 
psychico precedente, evocado para a representação 
artistica — ; sejam assim verdadeiros os sentimentos 
que o poeta expuzer, e a obra d'este será duradoira. 

Pomos de lado provisoriamente a questão da 

moral immanente em toda a concepção, e que é só 

mais ou menos ampla, como para o conceito da 



O BRAZIL MENTAL 287 



_t- 



equidade o mostrou Tarde, conforme se considere 
dentro ou íóra da tribu familial. Esse conceito im- 
prime maior ou menor superioridade á ideação es- 
thetica ; mas nào lhe altera o caracter estructivo. 

Assim, verbi gratia, o amor, o sempre-eterno. 
é hoje, sel-o-ha amanha, seja qual fôr o progresso 
da sciencia, um thema para poetas, bem mais do que 
a refracçào da luz ou as leis do pêndulo oscillando 
no vácuo. E os poetas do amor. desde Petrarcha até 
João de Deus, serão bem e grandemente poetas. 

Por isso mesmo, é que não applaudimos a se- 
gunda tendência do espirito do snr. Martins Júnior, 
que nos ensina muitas coisas que nós antes queria- 
mos aprender em prosa, redonda ou quadrada, tanto 
dá. Em seus livros, o distincto pernambucano, « scien- 
tista convincto, diz Valentim de Magalhães, acompa- 
nhando a theoria positivista, apresentava as quatro 
syntheses : Scientifica, Religiosa, Politica e Artística.» 

É muito estrondo para uma omelette. É muita 
synthese para alguns centos de quadras. 

Não; não está direito, como diz o negro. 

Desconfie o artista moco, do sincero mas errado 
ensinamento. Não vá na esteira do auctor dos Esti- 
lhaços. 

m 

Aquelle mancebo que hoje ehegue á vida litte- 
raria não faça como o snr. Martins Júnior. Não. 
Abandone, sim, com tédio, a via que veja seguir a 
um estéril lyrismo somnolento, piegas e namorista, 
que lá, como cá, se desfaz em Devaneos; Sonhos; 
Espera, virgem e similia. Comece a solfrer os sen- 
timentos novos d'este homo sapiens, tam assombroso . 
de nossos dias, em sua penúria ^^^t^y^^s&ss^^ 



2SS O BRAZIL MENTAL 



me-se dos sãos enthusiasmos da justiça, do bem, do 
amor. Cante-nos depois os sentimentos rijos e sin- 
ceros em que o lançaram todos os deslumbramen- 
tos do mundo, desde a azul aboboda, marchetada de 
pérolas de luz. ate á libertação do homem pelo ho- 
mem (da exploração do homem pelo homem). Indi- 
gne-se e humilde-se; experimente fortemente e ex- 
prima-o bem, que será um verdadeiro poeta e, sa- 
tisfazendo a necessidades imprescriptiveis, um ho- 
mem útil. 

O nosso apreciado possue um talento distincto; 
é um espirito ingenitamente original; e, mesmo pro- 
seguindo na vereda artística encetada, poderia alcan- 
çar um grau honroso na fileira dos homens de sen- 
timento e expressão do seu paiz. Com todos os seus 
defeitos de forma: as suas infidelidades de imagens, 
a sua pobreza de antitheses, a sua impropriedade de 
adjectivos, com todo o seu apagado de estylo, emíim, 
não haveria, com tudo, por que, de todo, desanimar. 
Algumas esquecidas construcçòes dos seus livros, hoje 
quasi olvidados. d'um tom meigamente elegiaco, e 
que são como um oásis de poesia enievante n'um de- 
serto de dormitiva prosa rimada, fazem-noi-o suspei- 
tar. 

Se, porém, o snr. Martins Júnior não se reco- 
nheceu, em deíinitiva. após apurado exame de con- 
sciência, senão como um homem de pensamento, 
então procedeu correctamente, aproveitando n^ss^ho- 
ra as suas faculdades mais utilmente para si e para 
os outros. Compria-lhe, como corollario, com efíeito, 
abalançar-se a fazer bons livros de prosa que fossem 



O BRAZIL MENTAL 289 



mais francamente sciencia do que aquelles poesia 
haviam sido. 

A eschola que, para o Brazil, transportou da obs- 
cura e talentosíssima M. mP Ackermann não possuía 
condições de viabilidade. 

* 

A imaginação de M. me Ackermann era opulenta 
e nobre. Todavia, o esforço sossobrou no atheismo 
critico e no pessimismo moral da escriptora. Ainda 
este pessimismo a salvou da banalidade puramente 
didáctica, porque em sua ideação introduziu um ele- 
mento idealista, negativo, sim, mas idealista sempre. 
Poisque o atheismo critico, logicamente conduza ao in- 
differentismo integral. E o indifferentismo ethico não 
comporta expressão esthetica. Resolve-se no nihilismo 
puro e extreme. 

Exclusiva, charramente didáctica, a nova escho- 
la não podia, então, satistazer os espíritos. Os tem- 
pos de Delille e Thompson já lá vão, com as versões 
de Bocage. Amplificações rhetoricas, não passam de 
themas de recta pronuncia e habilidosa escriptura. 

Seja dito ainda uma vez, ha que conjecturar. 
Consoante o observou um artista finíssimo, Ch. Baude- 
laire, cantar, como o tentou fazer o snr. Martins Jú- 
nior, « as leis conhecidas segundo as quaes se move 
um mundo sideral ou moral é descrever o que está 
descoberto e o que cahe inteiramente sob o telescó- 
pio e o compasso da sciencia, é reduzir-se aos deve- 
res da sciencia, intrometter-se nas suas funeções, em- 
baraçando a' sua linguagem tradiccional do ornato 
supérfluo e aqui perigoso da rima.» 

Apontado ficou o critério a que tem de &vAw&r- 



290 O BRAZIL MENTAL 



nar-se qualquer tentativa de constituição da anhela- 
da poesia scientifica. 

Mas nào basta conceber a theorica; é preciso 
realisar. Dentro do conceito orientador (seja mais 
largo, seja mais reduzido), ainda ha que contar com 
a imaginação peculiar e própria do artista e do poeta. 
Suaphantasia rasgará horizontes imprevistos. Seu po- 
der de invenção e de correlacionaçâo tem de abrir 
aspectos ignorados. Emíim, a consecução do intuito 
será uma das grandes conquistas do nosso tempo, o 
élo ultimo de uma serie, agora concatenada, de es- 
peculações successivas. Será. Ou antes é, porque o 
modelo genial se encontra feito. No inédito L/vro de 
Orações, de Guerra Junqueiro. Este volume mar- 
cará data. 

Constituirá nova e assombrosa revelação; assim 
complexa é a cerebração doeste génio excepcionai 
que, seguidamente a obra tam caracteristica como a 
Pátria, se demonstra diverso e outro, na integração 
vigorosa d'um monismo resolutivo e ultimo, subor- 
dinado ao conceito da transcendente justiça. Pelo que 
toca á Pátria, na Allemanha um imperialista, espon- 
taneamente, lhe fez justiça. À hora menos pensada, 
apparece em Portugal a revista, que ninguém conhe- 
cia aqui, aliaz, Neoglotia, de seu nome. Em as pagi- 
nas de um dos seus números últimos, destaca um arti- 
go, subscripto pelo dr. Kesner, a propósito do poema 
do poeta, portuguez diriamos, se o não previssemos. 
o poeta europeu. Sobre o effeito expressivo da pode- 
rosa realisação esthetica de Guerra Junqueiro, o dr. 
Kesner escreve que: «E preciso lêr aquelles arrojos 
de phantasiâ e visões prop\\el\ca&, c^vie, lembram Je- 



O BRAZ1L MENTAL 291 



remias, Dante e o Rei Lear, e que revelam um estro 
sombrio como só o conhece a musa do norte.» 

O critico tudesco, assim, sem as conhecer, repete 
opiniões que formuláramos um annò antes. Também 
do alcance politico da obra nào o julga o allemào 
monarchico como o critico republicano da Revista 
Brazileira, mas como o compilador socialista-anar- 
chista ( parece contradictorio, mas nào é ) d'este vo- 
lume de O Brazil mental. 

Porque? Porque análoga independência, do cy- 
nismo philosophico indifferente a paixões restrictas, 
lhe deu generalidade ao entendimento. 

Mas, regressando, quanto aos volumes do snr. 
Martins Júnior, em estreita intuição concebidos, <í 
nosso parecer —palavra ultima — que eiles perten- 
cem á lista escassa dos livros dignos de menção em 
lingua portugueza n'estes derradeiros tempos. Hon- 
rosa faina representam, d' um espirito, limpo e vivo. 
decerto, mas transviado, perfigurar-se-nos quer. 

Ora, se o positivismo não poupou os poetas, que 
parece que deviam, de sua natureza, estar indemnes 
do seu contagio, muito menos poderia perdoar aos 
militares, educados na rectidão das mathematicas, ou 
puras, ou applicadas ás construcções de defeza e ata- 
que e aos planos estratégicos, como ás manobras tá- 
cticas, balistica, etc. 

Assim occorreu; e isto foi um bem relativo, por- 
que, ao mesmo tompo que implantou a republica no 
Brazil, emprestou prestigio á disciplina social. Na ver- 
dade, á idéa republicana, diz o snr. Oliveira Lima. 
no Brazil representou-a a doutrina çh\Yoso\ft\\Rft. o^- 
depois da concepção religiosa dos jg^vxWãã, fo\ ^ <^ vy 



2 ( .)2 O BRAZIL MENTAL 



mais fortemente disciplinou uma fracção dos espíritos 
humanos. O pernambucano explica, escusadamente, 
que quer fallar no positivismo orthodoxo de Augusto 
Comte. i)'ahi succedeu que o principio da auctorida- 
de, em sua defensa, encontrou, por ventura, no Bra- 
zil, nos últimos tumultuosos annos, luctadores en- 
carniçados. 

Sabe-se que o governador do Rio-Grande-do-Sul 
que com tam facciosa intransigência pelejou e ven- 
ceu, o snr. Júlio de Castilhos, hoje candidato á pre- 
sidência da republica, é um positivista orthodoxo de 
velha data e com copiosa folha de serviços. 

A obstinada teimosia de Júlio de Castilhos res- 
pondeu idoneamente á incorrigível perfídia da parte 
adversa. 

Sobre o terrapleno da Opera, pela cortezania do 
grande desgraçado stoico que se chamou Ruiz Zor- 
rilla apresentada, benignamente, a humildade, exila- 
da também, de quem estas furtivas linhas improvisa 
ao velho Silveira Martins, este, para encher conver- 
sa, declarou espontaneamente que, republicano de 
convicção theoretica desde a mais tenra mocidade, 
só a grata deferência pessoal para com o imperador 
desthronado, e ao tempo agonisando, o impedia, pro- 
visoriamente, de offerecer ás novas instituições do seu 
paiz o concurso dedicado das suas aptidões próprias 
e da sua valia social, o que faria, nào obstante, in- 
condicionalmente, logo que a cruel ordem das coisas 
do mundo, libertando das agruras da vida o seu pro- 
vecto amo valetudinário, o eximisse, a elle, d^sse* 
escrúpulo moral. 

Depois, viu-se. 



O BRAZIL MENTAL 293 



Palavras, portanto, vás, que o vento leva, como 
as plumas; que a justiça immanente castigaria, fixas, 
tornando-as pezadas qual o chumbo envolutorio do 
íeretro das consciências. 

Mas, emfim, apezar de tudo, a paz, no Rio-Granr 
de-do-Sul, fez-se. isto é o que nos importa. E dize-r 
mos que nos importa, a nós, pessoas de cultura e 
homens de Portugal, porque a guerra do Rio-Grandc 
era, por qualquer aspecto que se considerasse, uma 
notável calamidade. Não alludimos, já sequer, ás even-: 
tuaes, mas fataes, contingências do pleito histórico 
do Rrazil com a Banda-Oriental, o que seria thema, 
por sua valia, para ser considerado especialmente e 
tractado sobre si. Assim também, a pacificação do 
Rio-Grande foi* ao contrario, por qualquer aspecto 
por que se considerasse, objecto para a alegria fervo T 
rosa de quem quer que medite. 

O lado estricto do restauracionismo, esse, de so- 
menos ensanchas se offerecia. Demonstrava, só, o 
facciosismo desleal dos seus promotores, obstinado» 
e inconscientes no personalismo do seu orgulho, que 
desconjuntaria o paiz para levantar a um principe- 
Iho fútil um sólio minúsculo, ateando o íogo na ca- 
sa, afim de, colericamente, á chamma impia aquecer 
os pés. 

Por felicidade, o sacrilégio nào se consummou. 
Exultamos, ao tempo, com isso. 

E tivemos rasâo, porque, com effeito, a pacifica^ 
çâo do Rio-Grande-do-Sul foi um successo de amplo 
alcance, politico, social e humano. Elle destaca n'esta 
complicada contenda genérica em que, d'encontro aos. 



2ÍU O BRAZIL MENTAL ■ 



preconceitos tradiccionaes ou aos egoísmos localis- 
tas, se debate a causa da civilisaçâo progressiva. 

O estreito espirito de íacçào do conservantisrao 
lusitano nào via, na deplorável peleja, senão ou a 
chimera da esperança d'uma restauração obsoleta, 
ou, pelo menos, o impio, bárbaro desafogo, prejudi- 
cial mas estéril, dos obstáculos . appostos á marcha 
pacifica das novas instituições democráticas, impedi- 
das de firmar-se na terra prolífica da nação nossa 
affin pela lingua, pela raça, pelos costumes. 

l)'ahi, os applausos, claros ou dissimulados, á 
conducta de Saldanha da Gama, cujos méritos indi- 
viduaes incontestáveis, cuja bravura e cujo lealismo 
sectarista eram inquinados pelo veneno da educação 
jesuítica recebida, que o levava ás abomináveis fe- 
lonias, afeiando irremissivelmente uma physionomia 
que não deixava, comtudo, de possuir traços (inge- 
nitos) nobres e puros. 

A simples dedicação aos princípios, sinceramente 
creados, não abasta, de resto, visto como a morali- 
dade da acção se haja de subordinar sempre á cres- 
cente transcendência da íeicão, meramente mental 
e critica, d'esses mesmos princípios. Pouco importa 
a virtude posta, na pratica, ao serviço de doutrinas 
theoricamen te egoístas ; e o heroe, que se bate, até á 
morte, pela victoria da tyrannia, d'uma família ou 
d*uma classe, inspira uma sympathia medíocre. Mais 
vale aquelle que, na mediania d' um esforço commum, 
xe vota ao triumpho dos opprimidos, dos fracos, dos 
desherdados, dos que soffrem fome e sede de justiça. 

O outro pôde, por vezes, causar admiração ; mas 
essa admiração é fria, gelada, até humilhante para o 



O BRAZIL MENTAL 295 



que a professa, como a admiração que, no matadoi- 
ro, a rez sentisse pelo carniceiro ou o enthusiasmo 
estúpido, indigno, de escravo imbecilisado, que os 
gladiadores patenteavam, nas saudações do circo, aos 
cesáreos magarefes que presidiam á sua chacina. 

Todavia, a questão do Rio-Grande deveria inte- 
ressar-nos, depois de tudo, com uma sisudez que se 
não concilia com a crassa ignorância e a incorrigí- 
vel leviandade das nossas chamadas classes diri- 
gentes. 

Dado que impossivel seria que o restauracionis- 
mo rio-grandense se impuzesse, por geral e comple- 
to, ao Brazil, claro se tornava que, na hypothese da 
impossibilidade definitiva, por parte do poder central, 
de pacificar o Estado rebelde, a procrastinação da in- 
surreição tenderia, crescentemente, a desaggregar, 
do corpo uno nacional, aquella fracção importantís- 
sima da structura collectiva. 

Isto seria um desastre considerável, já para o 
Brazil, mas então que só uma rematada loucura pode- 
ria fazer desejar a portuguezes. Essa insânia revesti- 
ria caracteres essenciaes hyperbolicos quando se pen- 
sasse, um momento, no perigo culminante que, de fa- 
cto análogo, derivaria para o typo da civilisação latino- 
catholica, contrarestado modernamente, nas três pro- 
víncias do sul do ex-imperio, pela disseminada in- 
tromissão do elemento germanico-protestante alli. 

De longe vem o perigo: da data remota da crea- 
ção da colónia de São-Leopoldo, que deu o viscondado 
ao general alitteratado, irmão do cónego litterato. O 
interesse, pela gente tudesca tomado para com essas 
províncias, demonstra-se pelo copioso catalogo de li- 



■-,*.-., 1 



296 O BRAZIL MENTAL 

f 



vros e mappas, em allemâo escriptos e por allemâes 
concernentemente tracejados. Sua resenha iJlustra 
logo as primeira paginas do volume especial, e inte- 
ressanteniefite elaborado, acerca de Sudbrasilien^ pelo 
dr. Henry Lange. Appareceu em Berlim, á data de 
1882. É um in-4.°, elegantemente, impresso em pa- 
pel assetinado. 

Quanto ao apontado problema implicito, frisou-o 
proficientemente o dr. Sylvio Romero, aliaz, pela cul- 
tura, affecto ao germanismo, — na sua Historia da 
litteratura brazileira. 

Com effeito, como em S. Paulo a italiana, a co- 
lónia allemà no Rio-Grande usufrue d'uma prepon- 
derância immensa, que se affirma já na vida intel- 
lectual quotidiana e meuda da região, onde um pe- 
riódico, elevadamente pensado e magistralmente re- 
digido, a Gazeta de Porto-Aleyre,, íoi fundado, pro- 
positada e ex-professo, ha alguns annos, por um 
publicista tudesco de recto valor, o dr. Carlos de 
Koseritz. 

Debalde, n'este ponto com uma profunda intui- 
ção historico-politica, oriunda de seu mestre, a es- 
chola contista brazileira se oppoz á torrente, com- 
memorando o desastre do protestantismo, na derrota 
dos hollandezes capitaneados por Mauricio de Nas- 
sau. O exaggerado orthodoxismo laffitista de Teixeira 
Mendes e Miguel de Lemos, chantre um e bispo ou- 
tro na sé fluminense da religião da Humanidade, pro- 
vocou, ao humorismo Occidental, sorrisos; e, nas 
nossas raças gonorrheicas, a ironia do ridículo desfaz, 
desastrosamente, a altitude de quaesquer intenções. 

Entretanto, com o alastramento mercantil daemi- 



O BRAZIL MENTAL 297 



graçào germânica e a consequente propaganda inte- 
ressada do jornalismo da colónia, coincidia um facto 
de alcance notório. Foi o do prestigio ephemero das. 
victorias guerreiras da Allemanha em 1870-71. 

Parecia então que a França morrera; o espirito 
latino acabara; Germania-mater seria a definitiva 
educadora da humanidade pensante. 

Por todo o mundo civilisado (Europa e Ameri- 
ca) uma corrente mental se produzia n'este sentido. 

Só o Brazil lhe não soffreria a influencia? 



< ■ 



III 



O MONISMO 



Não; era de conjecturar. 

E, com effeito, no impressionismo meridional da 
nova geração culta brazileira, escriptores apparece^- 
ram que se deram á tareia de vulgarisar sabiamente 
o espirito germânico. 

Entre elles, destaca, com um poderoso relevo, o. 
poeta e erudito Tobias Barreto, temperamento exce- 
pcionai que nào deixa de oíferecer certo parentesco 
com a personalidade pensante de Anthero de Quental, . 
mas do Anthero de Quental são. aliaz com incompa- 
rável superioridade de dialéctica erudição, se bem que 
com infinita inferioridade critica e esthetica. 

Os seus Estudos allemães são uma obra-prima* 
na litteratura polemista de qualquer paiz dos mais 
adeantados em cultura; e elles causam uma estra- < 
nha dor a todo o latino que prevê, calcula e se ar- 
receia. 



300 O BRAZIL MENTAL 



Frenética campanha contra a França empenhou, 
depois da guerra, Tobias Barreto. O seu artigo-ma- 
nifesto estabelece um confronto ridiculo entre Victor 
* Hugo e Auerbach. Está essa pagina escripta com uma 
acrimonia revoltante, e repugna pelo judaico servi- 
lismo perante o triumphador. A inconsciência da 
abjecção espontânea d'esse deplorayei diploma-, que 
ninguém encommendara, é o qíie mais assombra. 

Encontra-se incluso no volume de 1875, Ensaios 
e estudos de philosophia e critica. Uma idéa cabal 
se forma d'elle pelo seguinte tópico : 

Estranha Tobias Barreto que a guerra não ti- 
vesse provocado no espirito da França effusões poé- 
ticas ou manifestações musicaes. Diz que a poesia, 
«como menos venturosa», teve a contar unicamente 
o (sic) — Année terrible, que qualifica de «amalgama 
cahotico.» Quanto á musica, «mais feliz», limitou-se 
ao «gemebundo threno» da Gallia, de Gounod. l)e- 
clara-se incompetente para afíírmar, ou negar, com 
fundamento, as qualidades d'essa producçâo. Sem 
embargo — tal é a sua bôa-vontade — acha-a, pelo que 
sente, «incapaz de operar o eííeito esthetico, visado 
por seu auctor.» 

É extraordinário tudo isto, a começar no espanto 
por que seja um gemebundo threno o cântico d'um 
vencido, e não, antes, talvez uma marcha triumphal. 
Cita um trecho de Weideman sobre a abundância 
das composições poéticas na Allemanha após a guer- 
ra de 1871, e conclue, logo, naturalmente: «E claro, 
«por conseguinte», que a musa germânica avanta- 
jou-se á musa franceza. Todas as producçôes, que 
então surgiram, nào são ao certo de eguai valor: — 



O BRAZIL MENTAL 301 



mas todas se distinguem « por uma nobre modera- 
ção », e nada menos encerram do que orgulho ckau- 
vinis tico e banal.» 

É aquilino este relance de demopsychologia. 

Sabe-se, na verdade, que seja tudesco costume, 
(como de toda a nação humilhada e offendida) edul- 
corar os seus cânticos de esperança na vingança. Haja 
vista depois da guerra de 181*3. Já toda a gente es- 
queceu o ódio do Rheno allemão de Becker, como a 
insolência da replica de Alfredo de Musset: 

Nous Vavons eu vôtre fíhin allemand. 

Mas, quando da victoria de 1870, a musa allemã 
distinguiu-se por uma nobre moderação, na efflores- 
cencia innocente dos cantos de victoria germinados 
ao reconfortante calor do incêndio de Bazeilles. 

Todos esses innocentes hymnos são amáveis e 
doces, o que seria, de resto, a espectativa mais natu- 
ral do mundo, ao cabo d' uma campanha truculenta 
e feroz, sem quartel de lado a lado. Sejam uma pas- 
toral idyllica esses hosannahs angélicos. 

Assim o informa Tobias Barreto. 

Entretanto, escolhe, ainda, no cesto das primícias 
d 1 essa nobre moderação. Com perspicácia descobre a 
flor do cabaz e com galanteria nol-a offerece. 

Inicia, elle, originalmente, certa disposição que 
só em nossos modernos dias, afora dos tratados ou 
encyclopedias, se principiou a usar na velha Europa, 
mesmo nos livros de critica especial, onde tinha, aliaz, 
legitima e até indispensável cabida. £s^, ^ \»ss\» ^a. 
prosa, uma linha de cinco com^ass^-» *^ ^w^^^ 5 * 



302 O BRAZIL MBNTAL 



typographica, de musica idónea, com um bernòl na 
clave j de sol. É para nos elucidar e incitar; para nos 
dar o tom. Como íaz Maurício Kufferath nos seus 
opúsculos, engenhosos, elegantes e completos, acerca 
dos dramas iyricos, successi vãmente anaiysados, de 
Wagner. 

Nào podemos ficar mais completamente edifica- 
dos sobre a moderação da musa guerreira aliemà. 
Trauteando (os que saibam lêr na pauta) o começo 
da letra — que nào esqueceu de inscrever-se por bai- 
• xo, para que a Ireima fosse primorosa: 

Ha Franze zen, Fi'anzozen den Tog labt in AcJiL 

No texto, o philosopho da Escada explicados o 
eu propósito. 

a Sobresahe, neste sentido ( — o de todas as pro- 
ucçòes que surgiram na Allemanha após a guerra 
e 1870-71 se distinguirem «por uma nobre mode- 
ação» e nada menos encerrarem do que «orgulho 
hauvinistico e banal»: — ), sobresahe neste sentido, 
isserta Tobias Barreto, o celebre Lied de Bodeushedt 
egundo a musica de Jacobi.» 

Ora, o que se ensina a cantar, desde pequeninos. 

as escholas primarias, aos allemâes, é pelo theôr do 

lundslied famoso: «Desabae sobre todos os francezes. 

orno um mar sem praias... Fazei embranquecer to- 

\o& os campos e aldeias com os seus ossos . . . Deixae 

•** peixes aquelles que os corvos e as rapozas nào 

-em... Mandai parar o Rheno construindo di- 
?om os seus cadáveres ...» 
2s o próprio Tobias Barreto, rfvxu\ movvwv^wv,^ 



O BRAZ1L MENTAL 303 



melhor, logo a seguir, se capacita da inconveniente 
grosseria do seu procedimento, critico e moral. Sem 
que Ih' o exijam, é o primeiro a descuipar-se. Declara 
que n'elle nào ha a um fanatismo cego, intolerante, 
exclusivo, em prol da Allemanha.» 

Havia, sim; e o triste é que succedeu (após o 
êxito de uma e o descalabro d'outra ) a um fanatismo 
cego em prol da França. Tobias Barreto começara 
por uma hugolatria excedente. Elle foi, com Castro 
Alves, o introductor da maneira hugoana no Brazil. 

Este iilustre estudioso nào possuia verdadeira 
autonomia psychica. Precisava sempre de subordi- 
nar-se a um idolo. Elle tinha, como de raça inferior, 
vencida, escravisada, a obsessão dos grandes homens, 
directores e mestres. Posta de lado a França, foi bus- 
cal-os além-Rheno. 

Todavia, na Allemanha nào encontrou senão fi- 
guras parcellares. Nenhuma que fosse vastamente 
representativa, como a d'esse Victor Hugo a que quiz 
contrapor, quem, santo Deus?, o pobre novellista he- 
braico da Floresta Negra, cujo alheamento do falso 
sentimentalismo idealisadôr da innocencia das aldeias 
o que é ao lado das abruptas, decisivas, íranquezas 
dos Irancezes : Balzac, em Les Pai/sana, Zola, em La 
Terre ? 

Revertendo: A idéa nacional, alli, nào incarna- 
ra, consoante aqui, a demais dos homens de guerra, 
como Moltke, ou dos homens de intriga, como Bis- 
inark. Aos olhos dos homens de entendimento puro. 
ella revestira um aspecto demasiado brutal no trium- 
pho, sem embargo, para poder lograr expressão e&<X\fc- 
tica alta epura. N'uma das s\va*^\ifc\.TODa^vKN^^ v - 



1304 O BRAZIL MENTAL 



soes suprasensiveis, que vào até ao fundo do fundo, 
interpretou alguém, pelo desconsolo nacional, oriundo 
da injustiça do abuso, a incapacidade da Allemanha 
para, após o seu immenso triumpho ostensivo, repre- 
sentar o «Espirito Novo». Esse alguém foi Edgar 
•Quinet. Elle teve rasào, com effeito; nào o illudiu a 
<lôr patriótica, poisque á França a julgara como jus- 
ticeiramente derrotada, quando estudou as causas do 
desbarate, n'esse livro gravado com o buril de Tá- 
cito, e que procura as condições do estabelecimento 
efficaz da republica no paiz. 

Com efíeito, o pessimismo germânico é uma ca- 
pitulação, mui mais grave do que a de Metz. Se, Pas- 
cal de novo typo, Bahnsen, em sua philosophia do 
desespero, nào é propriamente um Bazaine, — a Alle- 
manha, compensando, não offerece á humanidade, co- 
mo solução, mais que o suicídio. 

IN' este conceito, o representative man do Espi- 
rito Novo germânico é o lógico Philipp Mainlaender, 
o auctor da philosophia da Redempção (diephiloso- 
phie der Erlòsiny). Com discreto sorriso, o doce 
Guyau observa que Philipp encontrara a sua estra- 
da de Damasco na loja d'um livreiro de Nápoles, onde 
descobrira os escriptos de Schopenhauer. 

Após haver, como Hartmann, redigido o seu sys- 
tema de philosophia pessimista, velou pela impressão 
♦do primeiro volume e, no dia em que recebeu o pri- 
meiro exemplar (31 de Março de 1876), enforcou-se. 

Não se pôde, commenta o critico parisiense, ne- 
gar a íbrça de convicção n'este pessimista. 

Decerto. Mas a lição, acceite, importaria o eli- 



O BRAZ1L MENTAL 305 



minamento (irisemos, ao menos, este) do problema, 
pelo extermínio dos inquiridores. 

Para isso, dispensava-se bem a trabalhosa can- 
ceira da morosidade tudesca, philosophando desde a 
harmonia prestabelecida de Leibnitz até chegar ao 
ímpio antitheismo do nihilisma gerai, no universal 
desconcerto. 

A victoria da Allemanha resultou, pois, para os 
interesses moraes da humanidade, mais do que es- 
téril: nefasta. 

Também, logo á data, tocou a quebrado. Algo 
se lhe sentiu, instinctivamente, de falho. 

Assim, na apotheose: a par da estatua colossal, 
e nada grandiosa, de Niederwald; a par da Kaiser- 
Marsch, do musico Wagner, faltou o typo do poeta, 
o paradigma consubstanciado em personalidade emi- 
nente o symbolica, qual a nossa de Camões, que, 
como Hugo, parece pertencer a esse modo complexo 
do grande homem a que Wechniakof pôz o nome ca- 
racterisco de polytypico. 

A admiração por estes é um aprendizado de de- 
mocracia; assim é mais acceitavel o fetichismo hu- 
mano. 

Porque os grandes homens constituam, na cul- 
tualistica, absorvida, que Tobias Barreto lhes consa- 
gra, uma aristocracia; e, n'esta intuição, o fanatismo 
jacobino de Proudhon reclamava que se substiuisse a 
legenda do Pantheon: Aos grandes homens a Pátria 
reconhecida. Dizia elle que a pátria está acima dos 
grandes homens e que não deveria vir em segundo 
Jogar. 

Menos o deveria, se o coixçfcWfc, YasAw&sa& R! *kR> 



306 O BRAZIL MENTAL 



renovado, do antigo Moreau ( de Tours ) houvesse de 
prevalecer. 

Na verdade, em seu livro celebre acerca do Ho- 
mem de génio, o prolessor César e Lombroso, cuja 
precipite audácia de pensamento é de notoriedade 
universal, tratou de demonstrar a natureza epileptoi- 
de do génio e da santidade. 

Sabe-se, hoje, mercê dos estudos, inteiramente 
concordantes, dos clínicos e dos experimentadores, que 
a epilepsia se resolve n'uma irritação localisada ce- 
rebral, manifestando-se com accessos, umas vezes ins- 
tantâneos, outras prolongados, mas sempre intermit- 
tentes e repousando sempre sobre um fundo dege- 
nerativo, ou hereditário, ou predisposto á irritação 
peio álcool, por lesões craneanas, etc. 

D'aqui entrevê o engenhoso psychiatra outra 
. conclusão : é que a creaçào genial possa ser uma 
íórma de psychose degenerativa pertencente á famí- 
lia das epilepsias. 

N'esta corrente de inquirição, o terrível lógico 
é implacável; não perdoa á mesma virtude, á bon- 
dade, á piedade, á dedicação altruísta, a esses sen- 
timentos supremos dos abnegados que souberam e 
puderam sacriflcar-se. 

Claro que nos não embaraçamos em debates 
scientiflcos e philosophicos, ethicos e críticos, que 
não é o logar nem a opportunidade de discutir e 
examinar: se bem que não possamos fugir ao desejo 
da nota a pôr — do contraste entre esta comprehensão 
e o facto, reconhecido, de que o progresso dos senti- 
mentos moraes coincide com o desenvolvimento do 
craneo e do cérebro, seu contt\eu4o. 



O BRAZIL MENTAL 307 



É certo que a relação do predomínio dos senti- 
mentos affectivos com uma conformação craneana e 
cerebral sabida está ainda bem mal determinada. 
Todavia, com o arguto vulgarisador Letourneau, so- 
mos levados a suppôr que o ser especialmente affe- 
ctivo é caracterisado por um desenvolvimento mode- 
rado dos lóbulos cerebraes anteriores, com predomí- 
nio das regiões lateraes e posteriores do cérebro. 

Em qualquer hypothese, a educação pela idola- 
tria dos grandes homens, mercê da decalcada imita- 
ção dos grandes povos, não é própria para íormar 
caracter republicano, quer dizer independente e cioso 
d'essa sua independência. 

Pouco d'isso se dava Tobias Barreto; elle era 
indifferente á questão das formas de governo. Affir- 
mou-o repetidamente, com grande desgosto do seu 
discípulo Sylvio Romero, que, n'isso, declara afas- 
tar-se, por completo, da lição do mestre. 

Este professava, com sobranceiro aprumo, coisas 
pyramidaes como a que se encontra nas Questões 
vigentes de Philosophia e de Direito : a ... a republi- 
que française não está no meu programma. Sou 
pouco afíeiçoado ao cancan, em qualquer de suas 
manifestações.» 

E, analysando a questão do poder moderador, es- 
colhendo para base o thema critico dos trabalhos es- 
peciaes de Zacarias de Góes e Vasconcellos, do vis- 
conde de Uruguay e do dr. Braz Florentino, era de 
ver como, do fundamento da relatividade das leis so- 
ciaes tirado ao conceito de Karl Marx, o publicista 
brazileiro Tobias Barreto se embaraçava Lu&^s«x^- 



308 O BRAZIL MENTAL 



davelmente no abusivo sophisma da indifferença pelo 
que toca ás íormas de governo. 

No seu curso de direito publico na Faculdade de 
Direito do Recife, curso cujo programma Sylvio Ro- 
raero, em appendice, poz junto ao volume Estudos 
de direito, publicação posthuma, por sua inabalável 
fidelidade amistosa dirigida, Tobias Barreto desen- 
volveu a seguinte these: « Conceito do chefe de Es- 
tado. Nonarchia e Republica. A questão da forma 
de governo ê mais uma questão de esthetica do que 
de ethica politica.** 

Esta extravagante intuição deflniu-se pelo asserto 
de que «os governos democráticos não se caracteri- 
sam pelo figurino.» 

Hesitamos, francamente, em comprehender. Mas, 
se entendemos bem isto de figurino, a objecção é 
ainda a enfadonha repetição do conhecido thema de 
que a forma de governo é indifferente, poisque a mu- 
dança da forma não altera a essência das coisas. Ha, 
até, um simile apropriado para exemplificar este so- 
phisma. Costuma dizer-se que a qualidade do vinho 
não muda, porque esteja n'uma garrafa redonda ou 
n'outra facetada. 

Tão absurda analogia serviu no Brazil, em mãos 
menos puras do que as de Tobias Barreto, como cá, 
analogamente, tem servido, de base a uma systema- 
tica perversão do critério publico. Convém reentrar 
na rasão. O Brazil reentrou. Portugal parece que se 
não decide. 

Sem o saberem, os conservadores agitavam e 
estão agui agitando um dos problemas mais difficeis 



O BRAZIL MENTAL 309 



da sciencia, coscuvilhando de um dos segredos mais 
subtis e esquivos da natureza. 

A forma não tem importância no mundo? As coi- 
sas não mudam nas suas propriedades por que se lhes 
altere a forma? 

Singular desattenção, n'uns ! INHoutros, rude igno- 
rância ! 

D'esses, então — na verdade, não aprendestes os 
rudimentos da chimica, quando passastes pelos prepa- 
ratórios dos lyceus? Ignoraes, peio visto, o que sejam 
os phenomenos da allotropia e da isomeria? 

Entre elles, subsiste, na palavra elegante de Na- 
quet, uma differença similhante á que existe, em his- 
toria natural, entre a raça e a espécie. 

Pois ficae sabendo — não visando a attingir a 
questão ultima da unidade da matéria, differenciada 
pela disposição — ficae sabendo ( conservando-nos na 
epiderme episódica do problema), ficae sabendo que 
ha coisas na natureza que, compostas dos mesmos 
elementos, unidos nas mesmas proporções, apresen- 
tam,, comtudo, propriedades totalmente diversas. 

D'onde vem esta diíferença? Desde 1830 que 
Rerzelius o indicou. Vem da íórma, do arranjo di- 
verso, do vario modo de combinação. 

Nos nossos dias, Berthélot ampliou as observa- 
ções e completou a doutrina. Assim, distinguiu entre 
a isomeria physica e a isomeria chimica. Para esta, 
abriu cinco espécies, desde a isomeria accidental, que 
é caracterisada por composições equivalentes, até á 
isomeria propriamente dita, isto é a isomeria dos cor- 
pos se diíferem pelo arranjo interior da molécula 
composta, tomada era seu conjuncto, sfcxa. 05^ *s»> 



310 O BRAZ1L MENTAL 



arranjo possa ser explicado pelas condições chimicas 
da sua origem. 

Quanto á allotropia, não era, segundo Berzelius, 
outra coisa mais do que a isomeria dos corpos sim- 
ples. Os chimicos modernos imprimiram também á 
idéa uma divergente extensão maior. 

Para Naquet, por exemplo, se um corpo pôde 
apresentar-se-nos sob dois aspectos dotados de cara- 
cteres chimicos differentes, quando se possa íazel-o 
passar facilmente de um a outro d'esses dois aspe- 
ctos, quedaremos no caso de dois estados allotro- 
picos. 

Exemplificando e revertendo, o ozone é um es- 
tado allotropico do oxygenio ; o enxofre possue seis 
estados allotropicos; o carbone affecta três: o estado 
amorpho ou do carvão commum, o estado octaedrico 
ou do diamante;* e emfim o de graphita. 

E possivel que a interpretação doestes phenome- 
nos singulares se integre, philosophicamente, nas mo- 
dernas idéas geraes que sobre a chimica theorica tão 
eximiamente expendeu o prolessor Paulo Schútzen- 
berger. Este foi o primeiro que duvidou da lei das 
proporções definidas, tomando como exemplo, não um 
corpo complexo, mas a própria agua. Assegura Char- 
les Lepierre que elle demonstrou, com a balança na 
mão, que os' pesos atómicos não têm a fixidez e o 
valor absoluto que geralmente se lhes attribue, ve- 
rificando, em experiências celebres, que o nickel, o 
cobalto, etc, podiam apresentar pesos atómicos va- 
riando entre si d'uma unidade. Na mesma ordem de 
assumptos, Schútzenberger ensinava e sustentava a 
âêvêsèbèlidade das valências s em vez de admittir a 



O BRAZIL MENTAL 311 



sua indivisibilidade; este modo de pensar encontrou 
certa opposição, pela complexidade um pouco maior 
que traziam nas formulas chimicas, mas, sob o ponto 
de vista philosophico, é conveniente não nos esque- 
cermos da possibilidade d'esta hypothese para a in- 
terpretação dos phenomenos, principalmente nas com- 
binações chamadas moleculares. De resto, indepen- 
dentemente de Schiitzenberger, vários chimicos, na 
Inglaterra, na Allemanha e em França, apresentaram 
idéas similhantes: cite-se William Burham (1881), 
que publicou uma memoria sobre. este assumpto, Hal- 
ler, Maurigot, etc. 

Demonstrou também quão complexo era o pro- 
blema da fixação da valência d'um elemento, quer 
dizer o valor do seu peso atómico, que pôde variar 
conforme se recorre ás leis do isomorphismo, ás den- 
sidades de vapores, á cryoscopia, á ebullioscopia, etc, 
ou ao systema periódico de Mendeljeff. Acerca d'este 
ultimo systema, chega mesmo a dizer que, servindo-se 
d^lie quem quer para fixar a valência, se commette 
uma petição de principio. 

Na verdade, ultimamente, a 20 de Fevereiro do 
anno que findou, éramos informados de que o chimico 
japonez Chikashigé achara o numero 127,6, em vez 
de 12o, para peso atómico do tellurio; se o futuro 
demonstrar a exactidão d'essa determinação, o tellu- 
rio já não poderá figurar no grupo vi de Mendeljeff, 
ao lado do oxygenio, enxofre, etc, mas sim depois 
do iodo. 

D'est'arte, á lei de periodicidade, que entre nós 
eschoiarmente primeiro vulgarisou o snr. Domingos 



312 O BRAZIL MENTAL 



Agostinho de Souza, era attríbuida uma generalidade 
absoluta, que c longe de estar estabelecida. 

De resto, a fixidez absoluta d'esta como das de- 
mais leis chimicas também vae, a parecer do distincto 
discipulo Charles Lepierre, cada dia perdendo do seu 
valor; as próprias leis das combinações gazosas de 
Gay-Lussac estào, com effeito, presentemente sendo 
muito atacadas na Inglaterra e na Allemanha, em 
vista de experiências recentes. 

Como quer que seja; philosophicamente, o que 
importa é o conceito doutrinal a que obedeceu a pre- 
leccionaçào de Schútzenberger. Parecia-lhe, a este, 
que a idéa, um pouco estreita, que é de uso formar 
do átomo chimico deve dar o logar a uma conce- 
pção mais larga, capaz de entrar em linha de conta 
com dados certos mas voluntariamente desdenhados 
até aqui. Pode ser, pois, consoante de passagem o 
roçamos, que em sua interpretação philosophica, os 
curiosos phenomenos de que nos reportamos rece- 
bam, d'esta intuição supra-sensivel, uma mais clara 
luz e um sentido mais accessivel. Quanto a Schútzen- 
berger, havia longo tempo que, para elle, os átomos 
chimicos não eram mais do que relações de combi- 
nação estabelecidas na conformidade de certas con- 
siderações theoricas, d'uma fixidez relativa, e que 
peuvent varier entre certames limites restreintes com 
as condições physicas ás quaes submettido se encon- 
tra o composto resultante. Revertamos. 

Como quer que seja, o leitor induz d'aquellas 
analogias profundas; e percebe por que é que a 
França de Rouher passou a ser a França de Gam- 



O BRAZ1L MENTAL 313 



betta, ou, ao invez, como o Paris de Lamartine de- 
generou no Paris de Morny. 

Todavia, os elementos do corpo eram biologica- 
mente (isto é, physica e chimicamente ) os mesmos, 
as suas proporções as mesmas. Somente, o arranjo 
molecular, a disposição atómica dos elementos, a 
combinação, a forma — n'uma palavra synthetica — 
é que era differente. 

E d'ahi duas coisas inteiramente diversas, oppos- 
tas, antinomicas, com propriedades divergentes, que 
se hostilisam e excluem : 

Phenomenos perfeitos de isomeria social; 

Como na mudança individualista do cidadão, cada 
um de per si, casos exactos de allotropia politica. 

«Não concordei jamais com o meu amigo n'este 
modo de pensar, escreve, a propósito do indifferen- 
tismo politico de Tobias Barreto, o seu Pylades Syl- 
vio Romero, e ainda muito moço, desde 1869, alis- 
tei-me entre os republicanos. Para mim a questão da 
forma de governo não é cousa que se deixe decidir 
pelo sentimento artistico ou mesmo pelo sentimento 
etílico. É mais anterior e fundamental; procede de 
entranhas mais recônditas; é uma questão de biolo- 
gia e psychologia nacional.» 

Decerto, decerto; mas upa, upa! 

Não sendo elle jamais um sectário da republica, 
Sylvio Romero, que o é, diminue as responsabilida- 
des de Tobias Barreto, assegurando que este íoi um 
«espirito muito liberal.» 

Na verdade, o foi, se bem que descoordenada- 
mente; e contribuiu poderosamente para introduzir 
no Brazil as modernas intuições do direito. 



.' "i 



314 O BRAZIL MENTAL 



Este foi campo que percorreu em todos os sen- 
tidos; esclareceu a philosophiar do direito, o direito 
civil e o direito criminal; versou a praxe processua- 
listica. Nada lhe escapou. 

No direito criminal fez caminhadas, com as botas 
de sete legoas de sophista jurisperito, desde os fun- 
damentos do direito de punir, até ás contendas meu- 
das, como a da correlação entre o suicidio e o homi- 
cidio. E, na verdade, assumpto curioso. Baseado nos 
dados fornecidos pelo suicidio na capital federal, re- 
centemente um distincto discipulo de Tobias Barreto, 
o trabalhador Clóvis Beviláqua, proficientemente, dis- 
correu. 

Com effeito, nos estudos positivos de anthropo- 
logia social, que é uma das gloriosas características 
scientiíicas doeste tormentoso fim-de-seculo, uma das 
questões mais interessantes é essa. Resulta a de sa- 
ber se é certo, como o pretendem os mais auctori- 
sados escriptores da eschola italiana, nomeadamente 
Ferri e Morselli, que a marcha do suicidio seja in- 
versa da do homicidio, de modo que um, em qual- 
quer paiz e em todo o tempo, sirva, em certa ma- 
neira, de complemento ou de contra-pezo ao outro. 

A eschola íranceza, principalmente pela dialécti- 
ca, um pouco, paradoxal, do sociólogo Tarde, emittiu, 
a este respeito, duvidas, aliaz fortemente motivadas, 
o que não quer dizer que a these contraria á dos 
italianos não fosse precedentemente mantida, mas em 
epocha já remota. 

Com effeito, em 1840, Cazauvisilh parece que tra- 
ctou de estabelecer que o numero dos suicidios e o 



O BRAZIL MENTAL 315 



dos crimes violentos sempre progrediram ou decli- 
naram juntos. 

Fallecido em junho de 1889, Tobias Barreto, n'es- 
te lance como em outros de sua vasta ideação, nào 
poude aproveitar os mais systematicos conjunctos de 
doutrinas episódicas, integrando-se na sciencia geral 
que com tanto amor cultivara e com tal desvelo pro- 
fessou. 

É assim que n'elle resultaram incompletas, intui- 
ções onde, não obstante, se encontram relances feli- 
zes. Pois que venha á collaçào, íallaremos do seu 
ensaio sobre a tentativa em matéria criminal, em 
cujo transcurso já Herculano lhe parece capaz de, 
no Monge de Cister, propor problemas moraes e ju- 
rídicos árduos, como o da scena que o jurista qua- 
lifica de terrível. 

Tobias Barreto não se deslinda, para a liberdade 
de uma idéa superior, da contusão dos casos especia- 
listas que imagina como exemplos. 

Comtudo, sobre a theoria da tentativa (difíicil 
thema, na verdade) ha, ainda assim, por onde for- 
ragear. 

Na Allemanha, e na Itália existe, com effeito, 
uma doutrina objectiva da tentativa, que suppòe que 
ella não seja punivel senão quando a intenção foi 
realisada em parle, de forma que essa tentativa não 
destaque mais do que como um fragmento do deli- 
cio que se tractava de comraetter, tendo, pois, como 
este, um lado objectivo (Osenbruggen, Geijer). 

Outra theoria, mais recente, definiu a tentativa 
como c< uma acção capaz, de per si, de produzir a 
consequência desejada, e que, materialmente 5 t&«^ ^ 
caracter d'um delicto.» (Cohny 



316 O BRAZIL MENTAL 



Na França e na Itália exige-se que a intenção 
criminal se manifeste por meio (Tactos d'execução 
que possuam, por sua natureza própria, a possibili- 
dade de produzir o crime. 

D'outra banda, . para o áspero Garofalo, a sua 
opinião acerca da tentativa approxima-se da theoria 
cbamada subjectiva. Sustentaram-a diversos publicis- 
tas tudescos, taes como Herz, Schwage, von Buri e 
Liszt. Volveu ao rude, aqui suave, direito romano. 
Na tentativa, só a intenção tem valor ; o facto mate- 
rial é prescindível no juizo. 

Tobias Barreto, n'uma nota, roça pela carne viva 
do seu problema. É quando diz que um dos pontos 
que, n'este domínio, mais urge estudar é a psycho- 
logia dos motivos. Segundo elle, a sciencia tem ne- 
cessidade de reunir, ao seu corpo de doutrina, algu- 
ma cousa de novo, que se poderia designar pelo ti- 
tulo de T /teoria da motivação em matéria criminal. 

* 

Assevera que theoria tal ainda não foi estabelecida, 
e que apenas existe, declara, « que eu saiba, na res- 
pectiva litteratura, um pequeno ensaio, o escripto de 
Holtzendorff — Psychologie des Mordes — que é digno 
de estudo.» 

Todavia, no caso especial, conclusa estava dou- 
trina, e em sua Allemanha dilecta. 

Na Itália, adherindo, Garofalo hesita. Tanto é 
certo que o exame perfeito, integro, subtil da con- 
sciência a julgar escapa á argúcia do magistrado. 
Barreto decide prompto. Mas o próprio bárbaro, emi- 
nente Garofalo se apressa a declarar que a questão 
da tentativa com meios insufficientes deixa de ser 
um problema estudando desde o momento em que, 



O BRAZIL MENTAL 317 



para elle, 6 a perversidade do criminoso a bitola por 
que deva aferir-se a penalidade, 

A sua conclusão não pôde, pois, (discursa) ser 
senão a seguinte: «A tentativa d'um crime deve ser 
considerada como o próprio crime, em si mesmo, 
quando o perigo que deriva do delinquente é idêntico.» 

Tobias Barreto, ao inverso dos anthropologistas 
(que consideram o criminoso preferentemente ), elle, 
a maneira tradiccional dos juristas, considera as ca- 
tegorias do crime, em exclusivo. 

Menos metaphysico, mais na realidade da hu- 
mana vida se inspirou o seu conceito sobre Menores 
e loucos. 

A responsabilidade que lhes attribue em matéria 
criminal deriva do positivo critério. 

Na nossa contemporaneidade, a intuição directriz 
procede dos grandes mestres da psychiatria moder- 
na, os Krafft-Ebing, os Schule e os Magnan. 

Apezar de todos seus defeitos, a obra geral de 
Tobias Barreto é assignalavel largamente. Honrando 
o seu auctor, nobilita a cerebração brazileira, ainda 
aqui ha pouco tam arredada da cultura geral, euro- 
pea e americana-do-norte, e já hoje concorrendo com 
a elaboração mental, mais profunda e elevada, do 
estrangeiro superiormente civilisado. 

IVesfarte, a obra litteraria de Tobias Barreto im- 
plica uma gloriosa contradicção, refutando, pelo exem- 
plo pessoal, o asserto do germanophilo, quando, fre- 
quentemente discorrendo, por systema, sobre a de- 
cadência da raça latina, offerece a gente portugueza 
como tendo a triste primazia nos momentos successl- 
vos da curva descensional, cujo \vK\\\fò *& «safôsgs*^ 



318 O BRAZIL MENTAL 



haver attingido ( e a sua derivada americana, a bra- 
zileira), apresentando-se como não merecendo impu- 
tação critica. Ao contrario; os productos da intelle- 
ctualidade lusitana cada vez destacam mais, por um 
poder, crescente, de comprehensividade e de realisa- 
ção, quer na arte quer na sciencia. 

De maneira que, se não socialmente hoje, espiri- 
tualmente pelo menos, não ha, na verdade, immedia- 
tas rasões para taxar de paradoxo o conceito patrió- 
tico do snr. Horácio Ferrari, portuguez de italiana 
origem, quando attribue a Portugal, na peninsula 
ibérica, a ulterior funcção hegemónica que, politica- 
mente, na Itália coube ao Piemonte, e á Prússia per- 
tenceu na confederação allemã. 

E, no Brazil, se tomarmos para cotejo a psycho- 
logia infantil do Garret fluminense, Domingos José 
Gonçalves de Magalhães, em seus Factos do espírito 
humano, e a compararmos com as paginas, complica- 
das, pela variabilidade das suggestões simplistas, dos 
ensaios de Tobias Barreto — quanto caminho andado! 

A trama structural da ideação especialista dos 
Menores e loucos resente-se da data de sua elabora- 
ção. Não podia ' chegar á altura de volume lusitano 
que, a seu propósito, lembra: as Lições sobre a epi- 
lepsia e as pseudo-epilepsias, do lente da Eschola- 
Medica de Lisboa, dr. Miguel Bombarda. 

N'um e n'outro escriptor, computa-se, relativa, 
uma erudição immensa. Sobre o avance dos tempos, 
no portuguez destacam os relevantes dotes de obser- 
vação directa, adquiridos e estimulados por uma con- 
scienciosa e indefessa pratica profissional. 

Ao livro de Tobias Barreto não era, ainda, licito 



O BRAZIL MENTAL 319 



rolar sobre a concepção, de intuição genial, que faz 
a verdadeira e solida originalidade do desegualissimo 
Lombroso. Allude-se ao estranho parentesco da epi- 
lepsia, e dos módulos epileptoides, com os typos, dif— 
íerenciados, do crime, da imbecilidade moral, do ta- 
lento e da virtude, da santidade e do génio, da lou- 
cura e da irresponsabilidade. 

Eis o que imprimiria aos estudos, a que nos re- 
portamos, acerca de Menores e loucos um vasto sen- 
tido philosophico e lhe daria um caracter intenso e 
uma physionomia primordial. Nào podia ser. 

IVesta alta categoria ainda não integrado, o con- 
juncto a que Sylvio Romero se applicou, após os 
volumes typicos e decisivos, já apurados, distingue-se 
pela prudência do raciocínio e pelo encanto da lim- 
pida forma litteraria que o reveste. Tobias Barreto 
possue o dom, de resto, de descobrir íormulas syn- 
theticas, eminentemente suggestivas, como quando do 
retarde da affectividade sobre a cognitividade. Então, 
encontra essa phrase magnifica de que o coração hu- 
mano é um relógio que se atraza. Assim, por isso, 
o interesse dos seus ensaios peculiares excede os li- 
mites dos especialistas e invade as camadas do gran- 
de publico, intelligente e illustrado. 

O merecido elogio que se deva a esse bello tra- 
balho não importa, claramente, de resto, uma acquies- 
cencia plena a todas as affirmativas compendiadas em 
suas paginas. 

Assim, quanto ao implícito desattendimento pelo 
que toca á acção feminina na zona estudada. 

Com todos os requintes da siua amabilidade sen- 
sual, Tobias Barreto, no fundo, tem, ^^ xxxwXws^^xss^ 






320 O BRAZIL MENTAL 



semítico desapego, quanto ao respeito a serio. Vem de 
longe esse tópico. Os Estudos allemães rompem com 
um estudo acerca da alma da mulher, aproposito de 
livro de assumpto e titulo idêntico, por Adolpho Jel- 
Hneck, a quem o publicista brazileiro qualifica de 
«distincto israelita allemâo contemporâneo.» 

Ahi, apezar de tudo, Tobias Barreto rejeita a 
mulher sabia, a prol de se ter mulheres instruidas, 
porque é também o que basta-, 

O portuguez Bombarda íoi mais longe, no des- 
dém. Sahiu-se com a coarctada audaciosa de que a 
mulher é uma degenerada. O próprio sábio a quali- 
fica de paradoxal, na íórma; mas não o será também 
na essência? 

Allega-se, e Tobias Barreto embarra pelo thema, 
allega-se a falta de altos exemplares femininos no 
pantheon esthetico. Não seria isso, antes, um eífeito 
social de lacuna de selecção progressiva e de, conse- 
quente, insufficiencia de accumulação hereditária, pró- 
prias a crear as condições em que desabrocha o génio ? 
A escrávisacão domestica secular não será elemento 
de apreciação, em dominios onde modernamente, con- 
quistada tal qual equiparação civil, principiam de 
apparecer casos como os das romancistas inglezas, 
culminantes, conforme George Elliot, na litteratura 
indigena à latere perfeita dos seus collegas masculi- 
nos? Não se recorda o nome, clássico já, de George 
Sand? de M. me Ackermann? Na sciencia, o de Clé- 
mence Royer? 

E, sobretudo, nas famílias predipostas pelo pri- 
vilegio, não fere o contraste da copiosidade de apti- 
fòes politicas a governativas na gente feminina, que 



O BRAZIL MENTAL 321 



orienta Estados e dá o tom especifico de momentos 
decisivos da civilisacão humana? Se não se lembra 
uma Catharina de Medíeis, a quem é permittido es- 
quecer essa formidável Isabel d'Inglaterra ? 

O thema é curioso e levar-nos-hia longe: mas 
cumpre reduzir. 

Nào se fará, sem que toquemos um argumento 
original, pelo snr. Bombarda exposto de reíorço. E o 
que elle retira da suspensão de desenvolvimento. Af- 
íigura-se-nos credor de reparo. 

O rigor lógico deveria conduzir-nos a estendel-o 
para quaesquer espécies vivas, considerando, pois, 
degenerescentes todas as formas fêmeas, o que será 
um pouco surprehendente, pelo menos. Poisque in- 
ferioridade na escala nào seja degeneração no typo. 

Como se sabe, a erabryologia .é sciencia melin- 
drosa e pouco desenvolvida. O seu estudo apresen- 
ta-se diíficillimo e, desde Woltf até Baer, desde este 
mestre supremo até nossos dias, os avances teem sido 
curtos. 

Darwin alargou o campo da ontogenia; e o te- 
merário Haeckel efíectuou uma das suas mais origi- 
naes e tentadoras systematisaçòes, correlacionando a- 
explicação phylogenetica, com uma crânerie que até 
elle ainda não fora assim, com seu nítido relevo, fir- 
mada. Esse lemma foi o que serviu de base ao con- 
ceito ultimo da ideação metaphysica de Tobias Bar- 
reto, o qual, discutindo Cari Semper, a propósito do 
haeckelismo na zoolqgia, leva os impulsos impetuosos 
do seu substitutivo, mas constante, fanatismo pelas 
■altas personalidades em vista — a dizer que «elogias 



<iV 



? ! rs 



322 O BRAZIL MENTAL 



a Ernesto Haeckel já é cousa que deve soar aos bons 
ouvidos, como uma tautologia.» 

Ora, quanto ao caso particular que nos deteve, 
foi precisamente na evolução de que se deriva o 
conceito da supposta degenerescência feminina, pela 
suspensão de desenvolvimento, que o eximio profes- 
sor da universidade de lena viu desenhados mais 
fielmente, na anthropogenese, os traços principaes 
da phylogenia do homem. 

Asseverou, consequentemente, que podemos se- 
guir, passo a passo, no embryão humano, pelo que 
se refere á especialisação orgânica observada, o 
mesmo desenvolvimento que nos mostra a serie dos 
"raneos, dos cyclostomos, dos peixes, dos amphi- 
bios ; depois, nos mammiferos, dos animaes cloaci- 
nos, dos marsupiaes e dos, diversos, de placenta dota- 
dos. 

Deveríamos alargar, portanto, como indicamos, 
o conceito da degenerescência. Mas a que extremos 
chegaríamos entáo no imperativo dialéctico? 

Se a intuição haeckeliana nos sustem no declive 
peio que toca á intuição suprasensivel da mulher, 
embargos ha também a oppôr á doutrina connexa 
que, da epilepsia do homem-de-genio, no typo social 
(estadista, guerreiro, fundador de religiões), deduz 
para a comprehensão da maneira das determinadas 
phases históricas da vida, individuada ou de relação, 
das populações de cujo seio emergiram esses repre- 
sentativos. 

Reflexões seriam essas que viriam a um lance, 

hoje, quasi geral. Tracta-se do juiso, agora commum- 

wente íeito acerca, por exemplo, de Napoleão ou Ma- 



O BRAZIL MENTAL 323 



homed, para nào citar outros. Ora, estes dominam não 
porque sejam epilépticos mas apezar de o serem. 
Não alludimos ao effeito próximo, de hypnose colle- 
ctiva ou de superstição herdada; mas á prevalência 
histórica. 

N'estes termos, a epilepsia é-lhes talvez a con- 
dição necessária para o explodir do génio; mas o 
que os torna fecundos e orientadores é o messianis- 
mo revolucionário a um, o messianismo monothei- 
sador a outro. E a este, até, tão só, nos módulos me- 
díocres de especulação intellectual compatíveis com a 
plasticidade rudimentar das raças inferiores, proxi- 
mamente as semitas, khamitas e negras, sobre que 
haja de exercer acção. 

Com similares noções de ordem naturalística, 
constituiu Tobias Barreto a systematisação philoso- 
phica da ultima phase da sua vida mental. Ella se 
accentuou no seu thema, simultaneamente profissio- 
nal e preferido: a nova intuição do direito, que to- 
mou de Rudolí von Ihering. Este nome illustre é 
particularmente querido no Brazil; e o filho do ca- 
thedratico de Goettingen palmilhou as ilhas oceâni- 
cas do Brazil. Escrevendo d'ellas, quando, em seu re- 
lato, falia das terras brazileiras, já lhes chama terras 
nacionaes. Por certo, de resto ; elle é o director, e in- 
signe, do Museu de S. Paulo. 

Quanto* ao mestre tudesco, afeiçoou em diverso 
typo os entendimentos das novas camadas académicas 
do curso de direito, especialmente na faculdade do 
Uecife, do cujas cathedras o distinctissimo mestiço 
era lustre excepcional. 

Morto ha oito para nove anuo*,' avuta. N^íara. ^ 



.ri 

"l I 



324 O BRAZIL MENTAL 



influencia de suas prelecções. Doestas, seus discipulos 
se recordam com pungente saudade. Faliam ainda, 
com amor, d'essa « epocha em que, animados pelo en- 
thusiasmo das fortes convicções que só se tem aos 
20 annos e electrisados pela palavra illuminada de 
Tobias Barreto, o grande mestre», elles, os moços de 
então, se batiam pela propaganda do que o snr. J. 
C. de Souza Bandeira, que o rememora, considera 
ainda as idêas do século. 

Ás modernas doutrinas estava dado o vulgarisa- 
rem-se pela dicção menos pura, menos sabia, de to- 
dos os modos menos alta, mas menos pedante e mais 
accessivel, de Clóvis Beviláqua, que em 1886 publi- 
cava na « Bibliotheca das sciencias modernas» os seus 
Estudos de direito e de economia politica, horroro- 
samente crivados de gralhas typographicas. Em 1893 
accrescentava a sua obra com um excellente Resumo 
das lições de legislação comparada sobre o direito 
privado. Já em seu primeiro volume, o estudo ter- 
ceiro dos alli comprehendidos, e versando O Direito, 
era o explanar da intuição de Ihering. 

Em 1896, compendiava, no seu volume Crimi- 
nologia e direito, Clóvis Beviláqua alguns dos seus 
mais incisivos ensaios, espalhados na dispersão do 
revistas especiaes, e cujo estylo é pessoal e pittoresco. 
"' Na verdade, a Tobias Barreto outros juristas se 
seguiram no Brazil, continuando a evolução iniciada 
e derimindo, em seu conspecto, as successivas flu- 
ctuações do pensamento europeu. Assim, se torna- 
ram conhecidas as idéas da eschola anthropologica, 
sobretudo as de Lombroso. 

Lembra, a propósito, C\ov\s Itavllaqua os escri- 



O BRAZIL MENTAL 325 



ptos do dr. Ferrer, de Cyro do Azevedo e do dr. João 
Vieira. Este, porém, não se limitou a artigos de vul- 
garisação. Emprehendeu um trabalho de maior vul- 
to, o Commentario philosophico-scientifico do Código 
Penal Brazileiro (1889), que aliaz já fora precedido 
do Ensaio de Direito Penal (1884), onde, se ainda se 
nào nota a completa saturação das idéas da eschola 
positiva, como no Commentario, alguma cousa existe 
que o distincto cathedratico do Recife assegura devida 
á influencia de Lombroso, Puglia e Sergi. 

Depois appareceram a these inaugural do dr. 
Marcolino Fragozo sobre o que, á moda brazileira, 
elle designou esquipaticamente, Genioide alitrico; 
surgiram os trabalhos do dr. Estellita Tapajoz e, ul- 
timamente, os de Pedro de Queiroz, no Ceará. Nina 
Rodrigues, além do estudo de anthropologia crimi- 
nal sobre o craneo do íamoso Lucas, publicou um 
livro que Beviláqua qualifica de original acerca de 
as Raças humanas e a responsabilidade criminal 
no Brazil (Bahia, 1894). Viveiros de Castro escre- 
veu um tomo de propaganda, que o mesmo critico já 
referido assignala como forte e bem trabalhado. Elle 
se intitula A nova escola penal, e appareceu no Rio 
de Janeiro no mesmo anní) de 1894. Adelino Filho, 
a mais da traducçào da Medida penal, do dr. Kraepiin, 
apresentara já em 91 uma exposição dos principios 
básicos da Nova escola de Direito criminal, nas pagi- 
nas da Revista Académica, que nasceu e morreu em 
Pernambuco no praso curto do 91 a 93. Quanto ao 
mesmo Beviláqua, acabou por ser preíorontemente 
influenciado pelos publicistas francezes, com especia- 
lidade o arguto G. Tarde» Bem que ¥ç^tokKxs&&~ 
Mas afinal. 



31 



326 O BRAZIL MENTAL 



Finalmente, Sylvio Romero corrigiu, com os seus 
Ensaios de philosophia do direito, o monismo de Noi- 
ré, de que no Brazil fizera obstinada propaganda Tobias 
Barreto. Regeitou a definição clássica de Rudolf von 
Ihering e, volvendo-se a Kanjt, ao mesmo tempo adhe- 
riu a uma indicação de Gumercíndo Bessa, para apre- 
sentar a sua intuição peculiar do direito. Em sua tra- 
ma pensa Clóvis Beviláqua (no interessante volume 
que em 1897 publicou a propósito de os Juristas phi- 
losophos) que o douto sergipano esquecera o momen- 
to essencial da coacção social. Sylvio Romero prose- 
guira, de resto, em sua faina antiga de acclimatar no 
Brazil, nos traços genéricos de toda sua amplitude, o 
evolucionismo de.Herbert Spencer, contra o qual 
sempre reagira Tobias Barreto, que não julgava pos- 
sível a constituição da sociologia, consoante o procu- 
rou frequentemente demonstrar, como, com especia- 
lidade, nas suas celebres Variações anti-sociologicas. 

Quanto á nova intuição, darwinista, do direito, 
e ao seu apostolo, Ihering, de longa data, Tobias 
Barreto tinha ensinado á nova geração brazileira que 
havia «um jurista de estatura romana, de quem se 

poderia dizer o que Pomponio disse de Labeo, que 

ingenii qualitate et fiducia doctrinae, qui et coeteris 
operis sapientice operam dederat, plurima innovare 
instituit ; é Rodolph von Ihering.» 

Seu effeito gravou-se e prolongou-se, como frisa- 
mos. No volume de Arthur Orlando, que tem o titulo 
d* um sabor tam brazileiro: Philocritica e que é quasi 
todo, com piedosa emoção, consagrado á analyse de 
trabalhos de Tobias Barreto, ha um capitulo votado a 
está coisa abstrusa: Physiophilia processual. É um 



O BRAZIL MENTAL 327 



estudo apresentado á Faculdade de Direito do Recife, 
por occasiào do concurso que se effectuou para preen- 
chimento de uma vaga de lente substituto de pratica 
do processo; e tem por objecto a determinação do 
momento histórico das leis. Seu critério orientador é 
tomado de textos, citados, de R. von Ihering. Nào íoi 
esse estudo bem acceite pela Faculdade, referida. 
Houve um lente que, á face d' uma proposição de ap- 
parencia mais hirsuta, pediu a Arthur Orlando que 
lhe explicasse o sentido d'aquella proposição, que 
elle não comprei) endia. 

Estribava-se na applicação feita ás sciencias ju- 
rídicas da lei biogenetica fundamental desbravada 
por Haeckel, e condensava todo o ensino de Tobias 
Barreto. 

Por isso, sem que o diga, Arthur Orlando se dá 
por vingado por que, alguns dias depois da semsa- 
boria que archiva, Tobias Barreto, vindo-lhe em apoio, 
lhe escrevesse «com toda a sua largueza de vistas, 
com toda a generosidade do seu grande coração.» 

A nova intuição do direito devia merecer as at- 

* 

tencòes de Tobias Barreto e suscitar-lhe a actividade. 

Ella era de procedência allemã; ella introduzia 
o critério da relatividade nas sciencias jurídicas; ella 
affirmava a força como alpha e omega de toda a idea- 
ção jurídica; ella era religiosa no seu finalismo. Ti- 
nha as condições todas para satisfazer o espirito in- 
genitamente vago e confuso de Tobias Barreto. 

A brutalidade aryana da guerreira Allemanha vi- 
ctoriosa é consubstancial em o conceito básico de 
Ihering ; inconscientemente, o sangue das raças ven- 
cidas que girava nas veias do professor ^rossfiks*r- 



"> ■ 

328 O- BRAZIL MENTAL 



cano o afeiçoava á adoração deslumbrada perante a 
fascinação da insolência superior. La force prime le 
droity attribuiu-se falsamente a Bismark esta phrase 
como que com cynismo e em francez a houvesse pro- 

. nunciado no Reichstag. Na verdade, em bom verná- 
culo tudesco, Ihering professa que a força é o direito, 
o qual, em aquellas condições de vida social (Lebens- 
bedingungen der Gessellschaft), nào possa existir 
nem sequer comprehender-se sem aquella coacção ex- 
terna pelo poder publico (ausserer Zwang durch die 
Staategeivalt). É ainda de dizer que Tobias Barreto 
procurou completar o exclusivismo coercitivo do con- 
ceito de Ihering, entendendo que a coacção podia pro- 
vir de outro órgão que não fosse o poder publico, co- 
mo o pae na famiiia, o director em um collegio, etc, 
sem que por aquillo a norma imposta perdesse o ca- 
racter jurídico. Por isso, Beviláqua condensa bem suas 
monographias, com estabelecer que na intuição de 
Tobias Barreto, como na de Ihering, se deu o olvido 
do momento da liberdade. 

Como quer que seja, cá no occidente europeu, o 
effeito é que, na esteira de Darwin e Haeckel, o con- 
ceito de Ihering faz sorrir o parisiensismo de Tarde. 

. Alludindo á obra de Ihering sobre a Lucta pelo di- 
reito, Tarde ricana que «era bem tempo que a famosa 
— lucta pela vida — encontrasse sua palavra a dizer 
em legislação.» 

Na verdade, Ihering procurou não se satisfazer 
de abstracções. A elle lhe coube realisar para a phi- 
losophia do direito o que para a economia politica 
levou a effeito Wagner. O francez Bouglé reputa-o 
ainda talvez mais systematico do que esse. 



O BRAZIL MENTAL 329 



Seja como íôr, o facto é que a sciencia do di- 
reito na Allemanha executou, n'este século, proxima- 
mente a mesma evolução que a economia politica. 
Como esta, entrou no historismo e, como ella, quer 
passar-lhe adeante para tomar a forma d'uma ver- 
dadeira sciencia. 

Somente, o methodo, que é perfeito em seu ini- 
cio, pôde conduzir facilmente a desvairados corol- 
larios. 

No Brazil, o terreno eístava preparado pela tra- 
dição do ensino auctoritorista do positivismo ortho- 
doxo. Assim, a doutrina germânica alastrou e domi- 
nou. Cedo iniciou seu influxo. Refere Clóvis Bevilá- 
qua que, quando cursava o seu 4.° anno jurídico, em 
1881, a propósito de determinar a natureza juridica 
da posse e dos interdictos possessórios, o professor 
remettia seus alumnos para o tractado de Ihering, 
Fundamento dos interdictos possessórios. No prefacio 
do Direito das Cousas, de Latayette Rodrigues Pe- 
reira, livro, no Brazil, clássico para o estudo das ma- 
térias do quarto anno jurídico de então, citava-se o 
Espirito do direito romano. No mesmo anno de 4884, 
a Beviláqua consta que os estudantes de S. Paulo 
publicaram um pequeno jornal, tendo por titulo o 
nome do romanista allemão. Em 4887, o conselheiro 
Pinto Júnior começou a publicar uma versão do Es- 
pirito do direito romano, no Archivo brazileiro. A 
Lucta pelo direito foi também, no Recife, trasladada 
pelo já citado dr. João Vieira. Finalmente, em 4894. 
Clóvis Beviláqua dava á estampa a traducção de um 
dos opúsculos «mais eruditos do preclaro mestre — 
A hospitalidade no passado.» Quando insigne catáfcRr- 



IS 



330 O BRAZIL MENTAL 



dratico germânico falleceu, era 1872, com as condo- 
lências dos professores de direito da eschola do Re- 
cife, foram enviadas á universidade de Guettingen, 
vertidas para o allemâo, phrases previamente publi- 
cadas na Revista Académica e que são característi- 
cas. «No Brazil — diz-se ahi — é profundo o respeito 
em que c tido o másculo pensador; são fervorosas as 
sympathias que as suas idéas agremiaram, mormente 
entre os moços, e quem tem por si a mocidade é se- 
nhor do futuro, disse-o elle um dia: — Wer-die Jugend 
fiir sich hat, dem gehõrt die Zukaunft.» Assim, o jul- 
ga, nobremente fiel á sua admiração juvenil, Clóvis 
Beviláqua, ainda no 1897 que ha dias acabou. O seu 
ensaio acerca 'de Rudolf von Ihering tem por epigra- 
phe a enthusiastica divisa de M. de Jong: — Er ist 
der Jurist seines Jahrhunderts und der Zukunft. 

Porventura haja que reduzir; mas, no lance o 
que importa é a má tendência auctoritarista que, ape- 
zar de tudo, da doutrina basilar de Ihering deriva, 
sem remissão lógica. Apezar de tudo, dizemos e in- 
sistimos. Com implicita contradicção, o desfecho do 
conceito de Ihering nào quadra com a premissa, de 
que derivou pouco rigorosamente. 

Das Ziel des Rechts ist der Friede, o alvo do 
direito é a paz, elle o disse. Mas, mais lógico, To- 
bias Barreto proclama que o estudo do direito im- 
plica uma continua guerra defensiva, empregando a 
sociedade meios e manejando armas, entre as quaes 
está a pena. 

O atrazo e a iniquidade intrínseca d'estas dou- 
trinas e suas congéneres, ou divergentes mas sob 
critério similar, provêem de que nào derivam funda- 



O BRAZIL MENTAL 331 



mentalmente do único conceito realmente basilar: — 
o económico; em seus stratificados, últimos, sedimen- 
tos: — biológico. 

Consideram possivel uma sciencia do direito e 
este independente e de per si. Quando nào logra ha- 
ver mais do que uma, derivada, historia do direito; 
quando muito, uma lógica do direito. Integra-se essa 
philosophia na consideração preliminar e anterior 
que, única, nos pôde orientar. 

Assim, depois da de Hegel, succede ruina egual 
para a philosophia do direito mais poderosamente re- 
levante que tem destacado nos meandros da ideação 
do século; assim acontece ao systema de Ihering. 

Quanto, agora, á verdadeira chave da nova in- 
tuição, ella está na idéa finalistica que a domina. 

Foi escrevendo o Espirito do direito romano que 
Ihering encontrou essa idéa do Fim, que lhe foi de- 
pois, como elle o declara em sua obra derradeira, a 
estrella directriz. Ihering traçou o circulo dentro do 
qual a finalidade conserva um valor objectivo. Esse 
circulo é, segundo seu cogitar, tam largo como o da 
actividade psychica. Assim, o princpio de finalidade é 
tam universal no mundo psychologico como o é no 
mundo physico o principio de causalidade. 

Posto o conceito no cairel do declive que o dis- 
tingue d'alto, á imaginação prompta o deslisar por 
elle abaixo é deductiva seduccâo irresistível. Ce- 
deu-lhe logo, natural, logicamente Tobias Barreto. 
A intuição dê Ihering vinha perfeitamente integrar-se 
no monismo de Ludwig Noiré, que a Tobias Bar- 
reto parecia «dar melhor conta da realidade -das 
cousas.» 



^ 



332 O BRAZ1L MENTAL 



Suppunha o publicista brazileiro que «o monis- 
mo ~de Noiré, que pôde ter o nome de monismo phi- 
losophico em opposição ao naturalistico de Haeckel, 
assenta em base mais larga.» 

Nào eram capitães e não sào irreductiveis as 
divergências, como Barreto suppunha ; e o que ficara 
era a tendência a transportar para fora do espirito 
processos lógicos que só n'este poderiam ter aucto- 
ridade, porque só ahi foram reconhecidos. 

Por isso, Tobias Barreto assevera que «o mo- 
nismo philosophico é conciliável com a teleologfa, 
nào tem horror ás causas finaes.v* 

Naturalmente: desde que «a sua ideia directora 
é que o universo compõe-se de átomos, inteiramente 
eguaes, que sào dotados de duas propriedades, — uma 
interna, o sentimento, — e outra externa, o movi- 
mento.» i . 

O numero d'estes átomos é infinito e d'aquellas 
suas duas propriedades originarias, inseparáveis, re- 
sulta todo o desenvolvimento. 

Nada ha que reprehender na exposição que To- 
bias Barreto nos deixa explanada da summula do 
monismo que elle professa e propagou no Brazil. 
Está perfeita e completa. É assim mesmo. 

Somente, em sua Introducçao ao estudo do di- 
reito, depois de haver, como idéas propedêuticas, es- 
tabelecido a posição do homem em a natureza, To- 
bias Barreto houve de definir a lei geral do movi- 
mento e desenvolvimento de todos os seres. É a in- 
uição de Noiré que foi já apontada. Supponhamos. 
•>m o germanophilo Barreto não façamos disputas 
allemão. 



O BRAZIL MENTAL 333 



Mas, logo, elle viu-se forçado a declarar que a 
sociedade é a categoria do homem, como o espaço 
é a categoria dos corpos. Immediatamente corrigiu. 

«Em rigor, e de accordo com a philosophia Kan- , 
tesca — elle escreve — o espaço nào entra propria- 
mente na taboa das categorias; é uma das duas for- 
mas puras e originaes, em que a razão molda todo o 
material sensível. A outra é o tempo. Mas não have- 
mos mister desse rigor.» 

Na verdade, ao seu fim, o que alli servia era a 
idéa elementar de que os corpos não podem ser per- 
cebidos, quer em todas, quer em parte das suas pro- 
priedades, senão occupando um espaço. E, manifes- 
tando-se, succedendo-se ou coexistindo no tempo. 

Com effeito, estes conceitos do espaço e do tem- 
po constituiam, com o de infinito atómico, as con- 
cepções basilares em que deveria preliminarmente 
insistir a exposição de qualquer systema monistico, 
fosse elle materialista ou idealista, finalista ou efifi- 
cientista, íôsse ou não teleológico, n'uma palavra. 

A bem dizer, essa consideração prodromica é a 
condição indispensável de qualquer ideação, poisque 
seja o prolegomeno evidente de qualquer existência 
subjectiva. Sem ella, nem a objectividade se resolve 
na consciência nem esta permanece sequer. Tudo se 
afunde. 

Assim, Tobias Barreto procedeu em sua expla- 
nação com exacto rigor lógico. Integrou-se no mo- 
dulo mental contemporâneo, que procede ab ovo, e 
disseca até ás fibras profundas o seu assumpto. 

l^esfarte é que as especulações sobre as cate- 
gorias fundamentaes do espvrU.0, roíust^YròA ^as» ^as* 



334 O BRAZIL MENTAL 



condições originarias indispensáveis, estão, com a 
analyse d'esta, na ordem do dia. 

Mesmo, no seu typo concepcional, puro e extre- 
me, mathematico, ellas alargam-se poisque elastica- 
. mente extensivas, preenchendo-o, até o mais amplo 
campo metaphysico de dialéctica transcendental. 

^Ao parecer, reagem essas especulações contra o 
objectivo nominalismo da philosophia materialista 
moderna e pretendem reintegrar na elaboração 
mental coeva um escholastico realismo subjectivo. 

Ainda ha só dois annos, em Í896, appareceu, na 
collecçâo bem conhecida da Bibliotheca de philoso- 
phia contemporânea, editada, de larga data, pela casa 
parisiense de Germer-Bailliòre (hoje Félix Alcan), 
um volume typico para o sentido que procuramos 
frisar. É o Estudo sobre o espaço e o tempo, redigi- 
do pelo snr. Jorge Lechalas, engenheiro em chefe 
das Pontes e Calçadas. Obra de pouco tomo, mas de 
muita substancia, se bem ou se mal que d'uma ex- 
posição árida, presuppondo conhecimentos, simulta- 
neamente vastos e subtis. Isto torna a sua leitura 
muito difficil. 

Começa esse livro pela questão da geometria ge- 
ral ou não-euclidiana. Assente na analyse da propo- 
• sição, conhecida pela denominação de postulado de 
Euclides, sabe-se qual haja sido estabelecida a dií- 
ferença entre a Geometria real, ou experimental, e 
esfoutra Geometria fundada na negação do referido 
axioma, a que Lobatschewsky deu o nome de Geo- 
netria imaginaria, ou não-euclidiana. E não se 
gnora que do renovador critério derivam corolla- 



O BRAZ1L MENTAL 335 



rios de extremo alcance para os conceitos philoso- 
phicos do tempo e do espaço. 

Assim, o postulado celebre deu margem a uma 
critica, das que frisamos, aquellas que se referem 
em particular ás categorias do entendimento, isto 
é, como excellentemente definiu Tobias Barreto, quan- 
do explicou: «Na linguagem philosophica, a palavra 
categoria é empregada no sentido de uma forma, 
um schemma de pensamento, ou uma condição à 
priori, sem a qual nâo ha conhecimento possível.» 

Ora, afastando esse rudimentar apoio especialista 
tradiccional, afim de attingir a transcendente clau- 
sula da possibilidade do conhecimento, o auctor de 
que falíamos deriva logo para a discussão meta- 
physica das noções do espaço e do tempo. Immedia- 
tamente lhe intercala a consideração mathematica 
do numero, em sua sequente deducçâo, como o pro- 
cesso de um inquirimento de ordem transcendental. 

Na verdade, chegando com lógica, no seu capi- 
tulo v, á critica do infinito e do continuo, e antes 
que analyse es sophismas famosos de Zenão d'Elea 
contra o movimento, o snr. Lechalas encontra, natu- 
ralmente, em sua passagem, o conceito da contra- 
dicçào implicita na noçào d'um numero infinito. 

Eis este engenheirp congeminativo a braços com 
as argucias da metaphysica mais ambiciosa. 

Era o que deveria acontecer a Tobias Barreto, 
quando da exposição do seu monismo. Porque este 
é impossível sem o infinito d'aquelles seus átomos a 
que attribue o movimento e o sentimento. E a impos- 
sibilidade do numero infinito conduz, logicamente, 
segundo eminentes pensadores, a Deus». 



336 O BRAZIL MENTAL 



Mas a Deus, Tobias Barreto despede-o com uin 
aprumo, cujo cómico lhe nào pertence porém a toda 
uma eschola sufficientista. 

O philosopho brazileiro decide n'estas ridículas 
linhas: «Pelo que toca pessoalmente (sic) a Deus, ao 
Deus de nossos pães e do povo a que pertencemos 
— com o devido respeito: — nós o pomos fora do 
templo da sciencia.» 

É certo que o admitte «como objecto de poesia 
e de amor no templo da religião.» 

Mas a concessão é de lavor, porque Tobias Bar- 
reto ri grossamente do seu mestre Ihering, quando 
este, dada mesmo a ekactidão indubitável da theoria 
darwinica, affirma que isso não lançaria perturbação 
na sua crença em um pensamento finalistico divino. 

Chama, irrisoriamente, a esta idéa um «respeitoso 
tirar do chapéu á divindade.» Attribue-lhe o móbil 
interessado da pusillanimidade mental. Ihering íèl-o 
«para não cahir em contradicção com tanta gente, 
que está de cabeça descoberta.» N'uma palavra, o 
asserto do tudesco é «chocamente sediço.» 

Todavia, mantendo-nos no modo adoptado por 
Tobias Barreto, cumpre dizer que Deus não sahe, com 
essa presteza que Tobias deseja, mesmo «do templo 
da sciencia». Ha uma pequena difficuldade, que To- 
bias Barreto parece não haver suspeitado: essa da im- 
possibilidade do numero infinito para a construcção 
sufficiente do seu monismo finalistico. E essa difficul- 
dade deriva d' um theorema mathematico ou conside- 
rado tal. É, pois, de caracter scientifico. Seu arreda- 
mento deve ser a faina anterior e basilar de qual- 
quer monismo lógico. 



O BRAZIL MENTAL 337 



Cora effeito, sabe-se como do theorema da im- 
possibilidade do numero actualmente infinito se ex- 
trahe a chamada demonstração mathematica da exis- 

* 

tencia de Deus. 

Cremos que os leitores se recordam da classifi- 
cação feita pelo génio de Kant quanto ás provas da 
existência do Ente Summo. Pois bem: esta demons- 
tração mathematica tracta, na palavra d'um neo-cri- 
ticista, de enriquecer a prova denominada cosmolo- 
gica. • 

Abstractivamente, funda-se na antinomia, ao pa- 
recer, irreductivel, entre a idéa de numero e a idéa 
de infinito. 

Arithmeticamente, quem primeiro exhibira esse 
contraste parece que fora Galileu, mas a quem per- 
tence a tarefa de pôr em relevo o corollario meta- 
physico que resulta de tal conceito mathematico foi 
ao barão Cauchy, nos nossos dias. 

Mais tarde, retomou a proposição, com as suas 
philosophicas consequências, o rev.° Moigno, secun- 
dado, na replica aos contradictores, pelo seu confrade 
Guettée. 

Por seu lado, procuraram pôr embargos á ras- 
gada deducção, na Itália, o professor Govi, da uni- 
versidade de Turim; na França, Emilio Goubert e 
Guilherme Wyrouboff, russo de nascimento e co-di- 
rector, com Littré, da Revista de philosophia posi- 
tiva. 

Claro que marcamos as personalidades typicas 
no caso e os pensamentos fundamentaes. Outras in- 
dividualidades, porém, se assignalaram no assumpto. 
Pola banda propriamente mattYfcma.\x<^ ^otcsr^^ 



:- .»■ 



338 O BRAZIL MENTAL 



Guldin, Cavalieri, Newton, Leibnitz, Rolle, entre ou- 
tros. Pela banda especificamente philosophica, Gerdil 
e Th.-Henri Martin, por exemplo. 

Quanto ao theorema de Galileu, (Jesembaraçou-o 
da sua elementar structura arithmetica o especula- 
tivo francez contemporâneo snr. Milhaud. EUe pôl-o 
em toda a sua philosophica simplicidade conceituai. 

Pela maneira seguinte: 

Na formação dos números abstractos pelo espi- 
rito, cada um tem por definição ser um symbolo, 
succedendo ao ultimo em que o espirito se deteve e 
precedendo o que se ha-de seguir. 

Consoante esta própria definição, a creação d' um 
numero novo não implica jamais impossibilidade al- 
guma; não seria possivel, portanto, existir um nu- 
mero apparecendo depois de todos os outros, n'esta 
sequencia, e maior do que qualquer outro assigna- 
lavel; n'outros termos, emfim, um numero infinito. 

Quem diz numero diz numero finito, ou, antes, 
estes dois vocábulos, reunidos, não significam nada 
mais do que o primeiro, de per si só. 

O snr. Lechalas capitula esta demonstração de 
excellente. EUa é, com effeito, de uma clareza in- 
signe. 

O rev.° Moigno foi, porém, ainda mais contra- 
cto. Attingiu uma concisão perfeita. 

A expressão de numero infinito, diz elle, corres- 
ponde a quantidade finita-infinita. Conclue, d'es{,a 
contradicção, essencial e formal, que não ha passa- 
gem possivel do finito para o infinito, que não ha 
nenhum laço, nenhuma relação assignalavel entre o 
numero e o infinito. 



O BRAZ1L MENTAL 33.9 



Mas nem da passagem de Milhaud nem da do 
rev.° Moigno se percebe o corollario metaphysico. 
Ouer dizer, nào se vê patentemente o que tudo isto 
tenha com o problema santo da existência de Deus. 

É estranho que, tractando, em toda a sua com- 
plexa minúcia, estes formidáveis assumptos, ex-pro- 
fesso, o snr. Lechalas pareça ignorar os trabalhos, 
pró e contra, de Cauchy e Wyrouboff, de Moigno o 
Govi, Faa de Bruno e Goubert, que nunca cita. 

Nós tentaremos, no lance, offerecer certa idéa 
d'uma das formas iniciaes do processo lógico que do 
theorema mathematico de Galileu nos conduz á de- 
ducçâo philosophica de Gerdil. 

Começa a surgir assim : 

Sendo as coisas constitutivas do universo em 
numero, são um numero. Sendo um numero, sào fi- 
nitas. Sendo finitas, teem principio e fim. Logo, a 
matéria não pôde ser infinita, poisque infinitas não 
sejam as modalidades da substancia, consoante o vo- 
cabulário da ontologia. E infinitas não são, porque 
são um numero ; e está demonstrado, anteriormente, 
a impossibilidade do numero actualmente infinito. 

Logo, emfim, o infinito só se pôde consubstan- 
ciar na essência summa, que nem é quantidade nem 
numero, mas o Ente Períeito e Absoluto, isto é, por 
uma designação synthetica, Deus. Quod erat demons- 
trandum. 

Do intimo, theista; e humilde adepto do espiri- 
tualismo transcendente: na mesma mediocridade do 
caso pessoal, hoje acreditamos, com o experimen- 
talista Bacon, , que pouca sciencia e pouca medita- 
ção levam ao materialismo \ mxuta, *<£v&\rò&. *>\as&&»> 



340 O BRAZIL MENTAL 



meditação levam ao idealismo. Claro que, na hypo- 
these, não é o lance. Mas o que logra a capacidade 
ampla, consegue-o, relativamente, a aptidão restricta. 
Isto assim occorre, se o humilde lealismo, na busca 
da verdade possível, sinceramente acaba por domi- 
nar o absurdo orgulho: no sentido profundo do hy- 
brido mytho satânico, pae do peccado, mãe do erro. 

Todavia, a vereda por que segue com entono o 
padre Moigno é atalho desnorteado, que encaminha 
mal. A mesma jactância da attitude do transeunte o 
castigará, em sua altaneira pompa.' Não é por ahi: 
e, sobretudo, não é assim. 

Se, em sua misericórdia infinita, apiedando-se da 
nossa humana miséria, Deus nos consentir socego 
d'animo, opportunamente proseguiremos para conje- 
cturar como porventura deva ser. 

Mas, primeiro, se o tolerar, estabeleçamos como 
assim não é. 

O argumento mathematico da existência de Deus 
ficou posto, em sua generalidade períeita. Esclare- 
çamol-o, fazendo-o mais concreto. 

Diz-se que ninguém negará, com efíeito, que, 
sendo as estrellas, os soes, os mundos em um nu- 
mero qualquer, esse numero, por isso mesmo que é 
numero, é finito, é um certo, um determinado. Pois 
que, se na serie dos números, por exemplo, se jun- 
tar uma unidade a um elemento qualquer, segue-se 
i, para uma unidade superior; mas esta depende, evi- 
entemente, da antecedente e da consequente, visto 
le se pode d'ella passar por addição para uma e 
ar subtracção para outra. 

Assim, pois, o numero à$ homens» qyift existem 



O BRAZ1L MENTAL 341 



sobre a terra é limitado; o numero d'astros que gi- 
ram no espaço é também limitado ; a matéria, emfim, 
é limitada. 

Desponta, aqui, uma observação já. De que 
numero d'astros que giram perante nossos olhos em- 
bevecidos, o numero de homens que se arrastam so- 
bre á terra, o numero de formas, de modalidades da 
matéria seja finito, por ser numero, nâo se segue que 
a matéria mesma seja finita, porque a matéria, como 
a unidade substancial do universo ( se o é ), compre- 
henda todas essas secções, todas essas limitações, em 
numero, finitas, portanto. 

Antes de nós, independentemente, aliaz, o obser- 
vou o professor Govi, replicando ao rev.° Moigno. 

Na verdade, é precisamente o que affirmam uns 
tantos, quer dizer que a matéria nào seja, em sua in- 
tuição synthetica, uma somma d'unidades, simples 
total differenciado, mas um sommatorio coordenado. 
Emfim, nào é um numero obtido por áddições de tan- 
tos elementos a tantos elementos. 

A matéria, para esses, é um todo continuo, nào 
é unia somma de partes, de números juntos uns aos 
outros; e um todo continuo, por nào ser obtido por 
áddições, pôde ter um valor illimitado, conforme a 
serie do causas, no universo, não tem principio nem 
fim, e por isso mesmo não é finita, mas infinita, il- 
limitada. 

De se dizer que as diversas modalidades da ma- 
téria, do Grande-Sêr comteano, sào finitas, limitadas 
— não se pôde, logo, deduzir que a matéria, em cujo 
seio taes modalidades habitam, é finita, por ser a 
somma de tantas unidades, o que nào se, ç,Vsx?fei>. 



342 O BRAZIL MENTAL 



Isso importa um salto, tâo inexplicável que leva ao 
abuso lógico de affirmar que a matéria tem limites, 
quer dizer tem principio e fim, pontos extremos. Mas 
quaes ? Onde ? E para além d'esses pontos o que ha ? 
O nada?! Então existe a não-existencia? 

A diíficuldade procede de que o lemma de que 
a matéria nem é infinita nem eterna era precisamente 
o que se queria provar. Estamos, pois, enleados nos , 
íios d'uma petição de principio. 

Ao lance, objecta o rev.° Moigno, no appendice 
íructuoso que poz ás Sete lições de physica geral do 
seu mestre Cauchy. Pondera que a matéria não é 
um todo insecavel, continuo, que não passa d'uma 
somma d'atomos simples e actualmente separados. 

Pondera, mais, que, suppondo, por um pouco, o 
universo material continuo, dever-se-hia provar que 
o continuo é infinito. 

Pôde, talvez, objectar-se, quanto ao primeiro pon- 
to, que, de nós sabermos a matéria divisível, secavel, 
separável em átomos, não se segue que ella seja, phi- 
losophicamente, uma somma d'unidades. A palavra 
a continuo» tem aqui este sentido mais largo, quer 
exprimir não que a matéria seja um todo, por assim 
dizer, macisso, inseparável e inteiro, mas sim que 
ó que existe forma um grande conjuncto, em cuja 
essência tudo se encontra ligado intimamente. Não é 
uma somma separatista de partes, somma de núme- 
ros abstractos, que é a única somma digna d'este 
>me, mas uma grande synthese concreta, o maxi- 

sêr, a existência myriaforme. 
. Pois, se se lembra essa descontinuidade da ma- 
ia, marcada pelas propriedades phenomenalistas 



O BRAZIL MENTAL 343 



em que assenta a idéa de átomo e sua derivada mo- 
lécula, repare-se que isso, somente, forma o processo 
de composição, o modo como as diversas partes do 
ser se acham relacionadas entre ellas mesmas. Essa 
descontinuidade nào envolve, porém, a matéria, em 
si. Para as moléculas, isto torna-se evidente, pois que 
os poros sejam também modalidades da matéria, for- 
mas de variabilidade da substancia. 

Mostra-se franco o alcance philosophico da in- 
tuição dita, desde que se applique a attençào devida 
ao sentido da» lei de periodicidade dos elementos chi- 
micos descoberta em 4869 por Mendeljeff (que a 
monopolisou, por lhe darem exclusivamente o seu 
nome) e por Lothario Meyer. Ainda que ella nào 
seja rigorosamente precisa e victoriosos triumphem 
os reparos, já alludidos, de Schutzenberger. Mesmo 
que seja, como aliaz todas as verdades scient ificas, 
uma simples approximação do limite. Para o assum- 
pto basta o seu substractum philosophico. É o caso. 
Na massa ponderável primitiva, isso a que Crookes 
chamou o protylo inicial, os interstícios, poros ató- 
micos, enchia-os o ether primordial, oceano onde tu- 
do nada e que tudo embebe. 

Este ether pôde considerar-se como uma subs- 
tancia continua ou como composto, também elle, de 
particulas discretas. Cumpriria attribuir então a esses 
átomos de ether uma força intrínseca de repulsão, 
em contradita com a força attractiva inherente aos 
átomos da matéria ponderável. Assim se integraria a 
intuição, confusa, de Trémeaux. 

Mas, como quer que seja, o que nos importa, 
para o caso, é a proposição gravada, com a sua ma- 



\ Ti 

344 O BRAZ1L MENTAL 



ravilhosa nitidez expressiva, por Ernesto Haeckel na 
explendida conferencia que, sobre o monismo, im- 
provisou, a 9 de outubro de 1892, em Altenburgo, du- 
rante o jubileu do 75.° anniversario da «Naturfors- 
chende Gesellschaft des Osterlandes ». 

Torna-se, com effeito, incessantemente mais fun- 
dado o asserto de que não existe espaço vasio e de 
que, por toda a parte, os átomos primitivos da ma- 
téria ponderável ou da massa pezada são separados 
pelo ether universal, homogéneo, espalhado no es- 
paço connoxamente universal. Se recuarmos a in- 
vestigação, teremos sempre de chegar, para qualquer 
sub-ether, a uma noção análoga. 

Mas as partes que compõem o universo estão 
fora umas das outras, succedem-se, insiste Moigno. 

Succedem-se umas ás outras, decerto, e nem po- 
deria deixar de ser, mas não se succedem á matéria, 
o que é um pouco differente. Não estão fora da ma- 
téria, estão dentro d'ella, são aspectos d'esse irredu- 
ctivel todo. 

«A matéria é uma somma de partes.» 

Seja. Todavia, quem diz somma, no concreto, 
diz resultado independente, ás claras, das parcellas, 
postoque existindo por ellas; porém, existindo de per 
si, aparte d'ellas. 

Assim, o sulfato de zinco, por exemplo, é uma 
somma de tanto de enxofre, tanto de oxygenio, tanto 
de zinco. Comtudo, como uma somma de entidades 
concretas, tem uma existência aparte, independente 
do zinco, do enxofre e do oxygenio. 

Ora, o universo é isto assim por esfarte? Tal- 
vez não. 



O BRAZIL MENTAL 345» 



Se é uma simples somma, deve ter uma exis- 
tência aparte, fòra 3 das parcellas. Mas o universo, 
a matéria ( que é una, depois dos seis typos de Gus- 
tavo Wendt), o Cosmos, Pan — é a substancia toda, 
que nào pôde estar íóra das parcellas que a* consti- 
tuam. Antes, ellas é que estáo n'ella, sob a ordem 
infinita de causas a effeitos. 

Quanto ao segundo ponto, lembraremos que não 
é preciso provar, como pretende Moigno, que todo o 
continuo seja infinito. Basta que o seja o único que 
é verdadeiramente continuo — a substancia eterna e 
immensuravel, infinita no tempo e no espaço. 

Se isto é assim, porque não será infinito este im- 
menso continuo a que nem se concebe poder mar- 
car principio e fim, este grande todo, dentro de que 
se encontra tudo, do qual a apparencia objectiva pôde 
a si própria applicar-so a palavra sagrada que da 
substancia perfeita professa que n'ella somos, pensa- 
mos e vivemos? 

Na verdade, consoante acima frisamos, a expe- 
riência — e por esta entendemos não a experiência 
vulgar, mas a experiência scientifica ( onde os senti- 
dos são ajudados e quasi que substituídos por instru- 
mentos d' uma delicadeza e d' uma precisão inimaginá- 
veis) — , não logrará nunca verificar a divisibilidade 
indefinida da grandeza; não poderá nunca observar 
senão uma divisibilidade finita, para lá da qual ha- 
verá sempre a liberdade de suppor a continuidade 
absoluta. 

Não se argumente com o facto de que experiên- 
cia alguma pôde estabelecer a continuidade do espa- 
ço. D'ahi concluem certos geómetras, como IteAs*- 



346 O BRAZIL, MENTAL 



klnd, que a hypothese da descontinuidade do espaço 
real é muito plausível, tanto mais que ella não ex- 
cluiria, de necessário, a continuidade do movimento. 
Concomitantemente, philosophos vários, como Del- 
boeuf, sustentam que o espaço real nào é euclidiano, 
isto é, homogéneo. 

Isto tudo, porém, sào, por egual, emergências 
da dialéctica transcendente de Kant, com respeito 
ao espaço. Os que faliam assim confundem simples- 
mente a matéria heterogénea e descontinua com o 
meio homogéneo e continuo no seio do qual ella está 
situada e dispersa e da qual emanou, condensando-se 
em differenciacões successivas e diversas. 

Mas, proseguindo na accidentada rota, diz-se : 
Se, pois, o numero de estrellas, de homens, de mo- 
dalidades da matéria, em summa, é finito, claramente 
que houve uma primeira estrella, um primeiro ho- 
mem, uma primeira modalidade creada por Deus, 
d'onde deriva a exacção do* ponto de origem que se 
busca. 

«É impossível, escreve Cauchy, que o numero 
de termos, de objectos, de acontecimentos (na serie 
de causalidade de que temos íallado ) se tornasse os- 
tensivamente finito... Logo, houve um primeiro ho- 
mem, houve um primeiro instante em que a terra 
appareceu no espaço, e o próprio mundo começou 
também.» 

«O numero actualmente infinito é impossível; 

logo, o numero de homens que existiram sobre a 

"terra é finito e houve um primeiro homem, sahido 

brçosamente das mãos d' um Deus creador; logo, o 

lumero de revoluções da terra em volta do sol é fi- 

* 

V 



O BRAZIL MBNTAL 347 



nito, e houve uma primeira revolução e a terra íoi 
lançada na sua orbita por uma vontade soberana; 
logo, em todas e cada uma das ordens da natureza, 
houve um prototypo sem predecessores, e os seres 
nâo se succederam eternamente sobre a terra », addi- 
ta, com um prestigio de relevo de eloquência, Moigno. 

Mas, manso, manso. Devagar, que temos pressa. 

É, na verdade, interessante a divagação d'estes 
pensadores. 

Exemplifiquemos : 

Dizem: O numero de estrellas é limitado; logo, 
houve uma primeira estrella. 

Nâo reparam em dois embaraços. 

Consiste o primeiro em que, quando se mostra 
que um numero infinito é impossível, se reíere o de- 
monstrante ao numero que fixe uma grandeza, con- 
tinua ou descontinua, mas nâo ao numero de termos 
ou serie de números que se succedem uns aos ou- 
tros, formando um todo synthetico, e que nào é fi- 
nito, porque não se lhe pôde marcar limites alguns. 

Assim, um numero qualquer na extremidade da 
serie dos números não é o infinito, porque é um nu- 
mero, porque se pôde passar d'elle a outro, por mais 
a unidade ou menos a unidade. Mas a serie dos nú- 
meros, essa, é que é infinita, poisque não seja um 
numero especificado mas um conjuncto aonde os nú- 
meros se alojam, como os átomos dentro da molé- 
cula. 

É lastima que os devaneios metaphysicos, de emi- 
nências, aliaz, forcem ao tagarellamento de banalida- 
des de tal estofa. Todavia, essas subtilezas deram logar, 
na alta critica matheinatica e philosophica, ao recoAste» 



34$ O BRAZIL MENTAL 



o vasto conflicto entre finitistas e infinitistas, de que 
ha jíl hoje nas revistas especiaes e em volumes des- 
tacados uni catalogo enorme. 

1'omtudo, o simples bom-senso liquida o pleito. 
MVssarte, no universo material, sabe-se que é um 
irtunoro limitado, finito o numero de homens, e anto- 
Iha-se que o seja o dos soes, dos astros e asteroides. 
i ) universo material, porém, é que não é finito, por- 
que não é um numero determinado, mas a categoria 
dos números, sua condição, como um todo continuo, 
infinito, immenso, absoluto no sentido que compre- 
hende todos os infinitos possíveis, isto é, todos os in- 
definidos parciaes. 

O segundo dos embaraços annunciados reside em 
que, de o numero de modalidades da matéria ser li- 
mitado, passar para a noção da primeira modalidade 
não é tarefa tão corrente que lidima mente se derhna. 

Supponhamos umas tantas bolas de marfim, ati- 
radas juntas sobre o taboleiro d'um bilhar, onde vão 
girando em caminhos seus próprios. 

Segue-se que de estas espheras serem em nu- 
mero finito, limitado, houve, antes que todas as de- 
mais, no tapete, uma primeira? Não existiram, pelo 
contrario, alli simultaneamente; simultaneamente, al- 
li, não começaram de se mexer? Deduzir do numero 
d'ellas uma, antes da qual não havia outra, é con- 
fundir noções ou formas d'uma mesma intuição, su- 
bstancialmente idênticas, mas que muito cumpre, 
aliaz, differenciar. Emfim, é não distinguir o schema 
do espaço do schema do tempo. 

Mas não sejamos rixosos de pateos dialécticos. 

Concedamos. 



O BRAZIL MENTAL 349 



O numero de astros é finitcr; logo, houve um 
primeiro astro. 

D'aqui que se segue? Concluir-se-ha, como que- 
rem Cauchy e Moigno: — Logo, esse primeiro astro 
foi creado por Deus — ? 

Evidentemente que tal nâo é licito fazer, sem 
que primeiro se prove que as forças naturaes nâo 
podem, por si, explicar a formação d'esse astro; se- 
gundo, que a creação ex-nilrilo nào é absurda, por 
contradictoria. 

Note-se, ainda uma vez, que aqui não % detende- 
mos o materialismo nem atacamos o espiritualismo. 
Somente analysamos o valor lógico do argumento 
chamado mathematico, como o padre Buífler, por 
exemplo, negou o da prova de Santo Anselmo. 

Assim estando entendidos, repetimos que dizer 
que nâo é infinito o numero dos homens, e por isso 
Deus creou o primeiro homem — ; — nâo é infinito o 
numero das estrellas, e portanto Deus creou as pri- 
meiras estrellas — é um tal abuso dos mais rudimen- 
tares principios dialécticos que resulta manifesto. 

Se tal marcha fosse certa, poder-se-hia dizer: — 
O numero dos francezes nào c infinito; logo Deus 
creou do nada o primeiro francez. 

O senso-commum revolta-se contra esta usança 

* 

da doutrina; mas deve reparar-se em que o rev.° 
Moigno commette o mesmo erro. Recuar a applica- 
çào do principio para a formação do nosso globo é 
afastar o momento diíficil. qual o da adaptação do 
critério, mas não é justificar a sua certeza. 

O rev.° Moigno diz: — o numero dos homens é 
finito ; logo, houve um primeiro tvomçrce^ %ataÂ&â fcas* 



w*** 



350 O BRAZIL MENTAL 



mãos do Creadôr.* Todavia, o problema permanece, 
na sequencia da fluetuação universal. Assim, moder- 
nos sábios existem que se obstinam na consideração 
evolutiva dos diversos typos, apparecendo aqui e 
alli, e descendentes de outços incrementos, succes- 
sivamente rudimentares. N'este plano são celebres 
as curiosas tabeliãs do inventivo Haeckel, verbi gra- 
fia, que tam deslumbradôramente incitaram as quen- 
tes phantasias brazileiras. 

Na verdade, por isso que o appellido do profes- 
sor da universidade de Iena, novamente, nos brotou 
dos bicos da penna, demoremo-nos, breve, no lance. 

Consideremos, um elo qualquer de qualquer 
fauna extincta, o pterodactylo, por exemplo. Esse ty- 
po de organisação existiu em numero finito. D'aqui 
se vê, claramente, que o primeiro pterodactylo havia 
de ser feito do nada por Deus. Seria, como exclama 
e declama Moigno, um prototypo sem predecessores. 

Eis como imprevistamente se complicaria, em 
copia indefinida, o systema das creações á laia dos 
quatro typos de Cuvier e von Baer. Estes reduziram: 
mas agora augmentava-se sem fim, poisque em cada 
ordem da natureza o limitado numero de cada typo 
exigiria uma creaçào especial do prototypo sem pre- 
decessores. Volveria, complicadíssima, a theoria das 
revoluções geológicas, desthronada por Lyell. 

Mas, em contra, doutrinas subsistem que pre- 
tendem explicar a existência animal por processos 
naturaes, definidos pelas categorias criticas da dupla 
selecção (natural e sexual), da herança, da adapta- 
ção, da geração espontânea dos primitivos germens 
iniciaes. 



O BRAZIL MENTAL 351 



Serão tudo phantasmagoritfs ? 

Todavia, os creadores de variedades por inter- 
médio de selecções artificiaes, na zoologia e na botâ- 
nica, obteem, outrosim, essas suas variedades em 
numero finito. Dir-se-ha, á face do quadro, que houve, 
também para elles, um caso primordial de similhante 
variedade. Logo, entào, esse primeiro caso não foram 
elles, evidentemente, que o provocaram, á sombra 
das leis naturaes, de Deus emanadas e que o expli- 
cam. Foi Deus mesmo que* o creou \ex-nihilo, único- 
processo (se não intelligivel, possível, pelo menos) de 
creação; definição até do próprio vocábulo]. Por isso 
mesmo que tal caso seja o primeiro. 

Assim, de producção anonyma natural, o phyllo- 
xera vastatrix, que, destacadamente, ostensivamen- 
te, cognitivamente, enceta a sua existência ha uma 
vintena de annos, seria, segundo a implícita, inac- 
ceite lógica de Moigno, creado do nada por Deus. 
n'um primeiro typo, sem predecessores. 

Uuer "dizer : — continuamos na mesma. Em nada 
se provou que, de o numero dos modos de ser, abs- 
tractamente, sobre si, avaliados, da matéria serem 
finitos, ella mesma o seja. 

Vamos, porém, mais longe. 

Dado, com effeito, que tal se admitta, não se se- 
gue de se ser finito o corollario lógico de não se ser 
eterno. É proposição que pede também demonstra- 
ção, sui-generis, de per si. Porque, na noção do in- 
finito e na noção do eterno, a diversidade dos vocá- 
bulos nuanceia, como supra o irisamos, o matiz do 
pensamento. Ha que vôr que se discorre do espaço 



■ •;■- "^ 



.j 



"352 O BRAZIL MENTAL 



e do tempo, e que, portanto, urge proceder com dif— 
ferenciadora reserva. 

Conclusão final: — A questão quedou no seu pé; 
quer dizer: falta provar, 1.°) que a matéria é fini- 
ta, 2.°) que a matéria não é eterna. 

Cauchy prosegue na esteira do triumpho: «Em 
resumo, escreve, só Deus é infinito : íóra d'elle, tudo 
é finito. Os seres espirituaes e os seres corpóreos são 
-em numero finito e o mundo tem os seus limites no 
espaço, como no tempo. O infinito, a eternidade são 
attributos divinos, que não pertencem senão ao Crea- 
dôr.» 

Comtudo,» parece que ficou mostrado que, de- os 
seres espirituaes e corpóreos serem em numero fini- 
to, não se deprehende que o universo tenha limites 
no espaço e no tempo, consequência que Cauchy 
avança demasiado rápido. Parece que se mostrou 
que, de o mundo ser finito, em suas modalidades va- 
rias, seja o infinito somente Deus — equivale a sup- 
pôr que o mundo, finito mesmo, não pôde conee- 
ber-se, dialecticamente, como auctorisando-se a per- 
sistir, sob o critério substancial, de per si próprio, o 
que aliaz Cauchy não logrou ainda deixar fixo, em 
modo irretragavel. 

Não se acredite que nos empenhamos em sub- 
tilezas cavillosas. O mesmo Cauchy sentiu a lacuna 
•doutrinal que o prejudica. 

Assim, aqui, invocou, em seu amparo, o cardeal 
Gerdil. 

Este auxiliou-o pela forma seguinte: «É evidente 
que alguma coisa existe de toda a eternidade; porque, 
suppondo, por um momento, que nada existe, coisa 



O BRAZIL MENTAL 353 



alguma poderá começar a existir, visto que nada nào 
pôde produzir alguma coisa ... O que é pôde conce- 
ber-se existir de duas maneiras. A primeira é a d'um 
estado de immortalidade absoluta, e invariável a to- 
dos os respeitos; de geito tal que n'esse sêr nunca 
se dá mudança, nem quanto á existência nem quanto 
ao modo de existência. É sob esta ideia d' uma per- 
manência eterna, sem mudança e sem successào, que 
a theologia christâ nos faz considerar a existência 
de Deus. A segunda maneira de existir é a d' um ser 
sujeito á mudança e no qual um estado, um modo, 
uma situação succede ou pôde succeder a outro es- 
tado, a outro modo, a outra situação. Ora, a idéa de 
eternidade é incompatível com a existência de todo 
o sêr sujeito a variações e a successões. Logo, se 
existe alguma coisa de toda a eternidade, como se é 
obrigado a reconhecer, é preciso que o sêr eterno 
cuja existência é necessária, seja immutavel a todos 
os respeitos.» 

Este raciocinio é, incontestavelmente, bello. Mas, 
reparando, não é preciso muito attentamente, logo 
destaca que Cauchy, na piugada de Gerdil, abando- 
na, assim, prestes, o campo stricto das especulações 
puramente mathematicas. Acolhem-se ambos ao re- 
fugio dos postulados ontológicos, o que deve fazer, na 
hypothese, desconfiar, mais ou menos, da solidez es- 
sencial da argumentação. 

O brilho expositivo, a immediata clareza, muito 
impressiva, não são, também, de molde idóneo a se- 
gurar-nos. 

Com eífeito, a matéria soffre mudança no seu 
modo de existência, isto é, na construção ^as> ^^as, 



- h 



354 O BRAZIL MENTAL 



modalidades e na disposição d*ellas. Mas resta saber 
se a variabilidade formal ataca a substancialidade 
structiva. 

Ou, mais concretamente: com os progressos da 
cbimica quantitativa, estabeleceu-se, até ao logar-com- 
mum, que, no seio prolifero de Pan, nada se cria, 
nada se anniquilla. Tudo se succede, pois, é certo, 
mas sem alteração de existência; de essência, pois. 
Só de modo, as transformações equivalem-se. A syn- 
these encontra, no resultado, a somma dos elementos 
da analyse. As torças transmudam-se umas nas outras 
na ondulação de efíeito mecânico, na resolução de 
movimento, que ainda para a incoercivel luz o ap- 
parelho de Crookes se propôz revelar. 

A intuição metaphysica (corrigenda) de tal con- 
juncto observacional (corrigendo) determina, portan- 
to, o conceito syntbetico, para a matéria, da immor- 
talidade absoluta que demanda Gerdil. Na verdade, o 
primeiro dos primeiros principios é o da indestruti- 
bilidade da matéria, poisque a incapacidade que nos 
impede de conceber que a matéria venha a ser não- 
existente é a consequência directa da natureza mes- 
ma do pensamento. «É impossivel, conclue Herbert 
Spencer, pensar que alguma coisa venha a ser nada, 
pela mesma rasão por que é impossivel. pensar que 
nada venha a ser alguma coisa; e essa rasão é que 
«nada» não se pôde tornar em um objecto de con- 
sciência.» 

Sem embargo da mudança relativa ao modo de 
existência, attingiu-se, pois, aqui a idéa appetacida 
da permanência eterna. 



O BRAZIL MENTAL 355 



Substancialmente, é, mesmo, d'est'arte, o que 
importa em Deus. 

Gerdil não attende a que a permanência divina 
não pôde implicar inércia. A ideação (e sua conse- 
quente volição, pois) é o movimento da substancia 
summa. E toda a ideação implica (para nos ser in- 
telligivel) successão. Assim, as remodelações diffe- 
rentes nos quatro planos de Cuvier, as creações, ou- 
tras diversas, após as catastrophes alternadas, são 
íormulas que successivamente se escrevem e apagam 
na lousa dos tempos. 

Não se afasta a diffieuldade objectando que em 
Deus tudo é presente. Ao invez, as contrariedades 
accumulam-se e avolumam-se. 

Lechalas bem se conforta com que a primeira 
hypothese de Th.-Henri Martin, relativa ao modo do 
pensamento de Deus, se torne real, sendo effectivamen- 
te assim se não se considera senão a ordem das coisas 
contingentes. Mas resta a das verdades necessárias, 
das verdades mathematicas, por exemplo, que ne- 
nhuma intelligencia temporal poderia esgotar. Essas 
devem subsistir, pensa Lechalas, de conformidade com 
a orthodoxia christã, — devem subsistir no pensamento 
divino, só por uma forma, por assim dizer, implicita. 
Em verdade, a sua distincção, sob a nossa maneira 
costumada, de theoremas numerados e denominados 
leva á contradiccão do numero infinito. De maneira 
que nada ganhamos em querer fugir ao materialis- 
mo, pela guarida do theorema de Galileu. A substan- 
cia divina torna-se-nos, egualmente, contradictoria e 
impossivel, por isso que o numero das verdade v\òr> 
intellecti vãmente possua tôx\a í& s&rc vo&e&Xfc,^ ^ "s^- 



r v* 



35G O BRAZIL MENTAL 



mero infinito se declarou, preliminarmente, impossí- 
vel. Dizer que elle é implícito em Deus importa tomar 
uma liberdade lógica que, em matéria de postulados, 
a todas as theses antitheticas d'uma antinomia qual- 
quer é permittida com egual direito. D*onde se nào 
marcha. 

Nào se afastou por essa evasiva a difíiculdade, 
salvo confessando, com Comte e os positivistas, que 
tudo isto transcende as fronteiras da nossa cogniti- 
vidade, até mesmo da nossa simples e elementar com- 
prehensào. 

De íacto, com a mesma auctoridade lógica, iden- 
ticamente, poderíamos fallar da matéria, suppondo 
n'eila, considerada como aristotélica entelechia, tudo 
presente. Cem effeito, raciocinadamente, por marcha 
dialéctica, por processo philosophico e scientifico, 
acerca de Deus e da sua eternidade não podemos 
formar noções senào as que do mundo nos é licito 
extrahir. 

Quem nos assevera, pois, ser verdadeira a dis- 
tincção de Gerdil, de que em Deus a existência e o 
modo de existência são permanentes, emquanto que 
na matéria a existência nào é permanente, por ser 
uma serie de successões? 

Nào se vê que esta serie de successões implica 
o modo de os elementos do grande todo material se 
comportarem dentro d'elle, mas nào o modo substan- 
cial d'elle mesmo, que é tào permanente que nada 
d*elle se perde, nada se cria, antes tudo se conserva 
sempre e por maneira indefinida? 

Cauchy pretende, n'este ensejo, reforçar a es- 
taaclã. 



O BRAZ1L MENTAÍ, 357 



Diremos como. 

Cauchy redargue que é fácil estabelecer a certeza 
(Testa proposição, a saber que a idéa de eternidade 
é incompatível com a do sêr sujeito a variações e a 
suecessões. A matéria não pôde ser eterna, professa 
elle, por ser sujeita a variações e a mudanças em seu . 
modo de existência. 

Seja. Comtudo, ha aqui uma singular quebra de 
sinceridade lógica. Do género das que ficaram redu- 
zidas á expressão mais simples depois da implacável 
analyse de Kant, na Critica da rasão pura. É do 
mesmo typo. 

Na verdade, Cauchy deduz, da não-eternidade da 
matéria no tempo, a eternidade de Deus fora do tem- 
po. Esta aberração dialéctica é fundamental e insa- 
nável. 

Passemos, porém. Note-se, tão só, uma ultima 
vez, a singularidade da doutrina que affirma que uma 
coisa não pode ser eterna, por ser sujeita a mudanças. 

Volvamos a considerar uma d'aquellas bolas de 
marfim que, precedentemente, suppuzeraos arreme- 
dadas, de encontro ás tabeliãs de um bilhar, pela mão 
irada de um marcador ideólogo. 

Esse corpo, sob o critério do principio (physico, 
chimico, mecânico) da conservação da matéria, da 
perpetuidade da força, da continuidade do movimen- 
to, em toda e qualquer das mudanças por que passar, 
de um momento qualquer para deante (para dean- 
t<\ é claro, em referencia <i mente do observador), 
conserva o seu substractum essencial. Doesse instante 
para traz, como o principio persiste e as leis natu- 
raes não se suppuzeram alteradas, o corpo não dei- 



358 O BRAZIL MENTAL 



xou de persistir também. Atravez, pois, de todas es- 
sas formas, d'essas variações, d'essas successòes, tal 
coisa ganhou a eternidade, venceu o infinito no tempo. 

Esta concepção da permanência substancial na 
variabilidade formal constitue, por assim dizer, o cen- 
tro prganisador, o nexo formativo, o niso fixo do pen- 
samento contemporâneo. 

Todas as nossas idéas se pulverisam, caso essa 
concepção structiva fôr abalada. Por isso repizamos. 

Quem, primeiro, a formulou claramente fpi a 
inicial philosophia grega na ingenuidade do conceito 
de Heraclito. Tudo existe e tudo não existe. Chegou 
ao seu desfecho systematico em Hegel, cujo grande 
mérito consiste, no parecer marxista de Engels, em 
haver rehabilitado a dialéctica como a forma mais 
elevada do pensamento. Disciplinada pela positividade 
scientifiea, resolveu-se na theoria da evolução, que 
destaca como o culminante esforço da intellectuali- 
dade humana até hoje. 

É curioso e quasi incrível. Tudo ficaria prejudi- 
cado, prevalecendo a orientação critica de Cauchy. 

Elle escreve : « É fácil estabelecer a certeza d'esta 
proposição, de que a idéa da eternidade se não pôde 
applicar á existência d'um ser sujeito a variações e 
a successòes; por exemplo, á existência da terra ou 
de qualquer outro objecto material. Com effeito, como 
a terra, emquanto existiu, se poderia mover constan- 
temente na mesma orbita, é claro que a possibilidade 
da existência eterna da terra arrasta a possibilidade 
d'um numero infinito de revoluções actualmente ef- 
fectuadas por esse planeta.» 

Mas quem íallou na existência eterna da terra? 



O BRAZIL MENTAL 359 



Voltamos á semsaboria do costume? Pois volte- 
mos. Mas para nos despedirmos. 

Na verdade, segue-se então que da sciencia certa 
que possuimos da nào-eternidade da terra se derive a 
da nào-eternidade da matéria ? Segue-se, da nào-eter- 
nidade d'uma das modalidades da matéria, a nào-eter- 
nidade da matéria, que tanto é terra como nebulosa 
(d'onde, segundo Kant e Laplace, se desprendeu o 
planeta ) — como o modo precedente da nebulosa, co- 
mo o modo ulterior do planeta? 

Que importa que a terra nào seja eterna? Que 
o não seja a lua? Que o não sejam Saturno, Marte, 
Urano? Intere-se d'aqui alguma coisa? Prova-se d'a- 
qui que a matéria, de que se fez a terra, de que se 
fez a lua, de que se fizeram Saturno, Marte, Urano, 
todos os globos astraes que conhecemos e não co- 
nhecemos, seja também não-eterna, finita, haja tido 
principio e haja de haver termo, claudique entre li- 
mites? 

Parece, comtudo, isto ferir todos os principios. 
Quando no espaço se encontra um corpo novo; quan- 
do do campo da observação desapparece um ele- 
mento conhecido; quando a construcção se revela, 
ou quando a disposição se modifica, ninguém diz que 
o novo apparecido brotou do nada, que para o nada 
convergiu o que sé nos não antolha egual. 

Duma modalidade marchou (para outra diver- 
gente) porção certa da matéria, una, infinita, eterna. 

O ardil de Cauchy, de que a eternidade da 
terra traria comsigo a existência actual d'um numero 
infinito de revoluções, comprohende-se. Urge rever- 
ter a applicar o principio mathematico da impossibi- 



360 O BRAZIL MENTAL 



' 4 



Iidade do numero actualmente infinito. Mas não pro- 
cede, nem colhe. Bem se sabe que nem a terra é 
eterna, nem o numero das revoluções por ella reaii- 
sadas é actualmente infinito. 

Depois que Cauchy redigiu o seu opúsculo ha- 
via de calcular que a terra nào suspenderia seu mo- 
vimento. Augmentar-se-hia, pois, o numero das suas 
revoluções effectuadas já até então. 

Mas a outra difficuldade permaneceu também. 
Isto é, que de tal numero de revoluções ser finito 
não se demonstrou ainda que houvesse uma primei- 
ra, determinada directamente pela vontade do Crea- 
dor. 

Cauchy continua conquistando uma íacil victoria, 
por isso que nada impede de suppôr, diz elle, que, a 
cada revolução terrestre, uma intelligencia superior 
imprima um signal qualquer sobre um ponto dado 
da extensão. 

Porém, para que seria precisa essa marcação ? 

É para o infantil jogo, charada cuja chave se pos- 
sue previamente, de se derivar a conclusões em que 
intervém o theorema fundamental sobre as series, 
vasta e complicada elaboração critica — inopportu- 
na e descabida. Tudo emergindo d' uma supposição 
que não está Cauchy auctorisado a permittir-se. 

Com effeito, é essa intelligencia superior que elle 
pretende deduzir. Portanto, andamos, parece, em tor- 
no da questão ; não avançamos terreno. 

Sobre o lance, ha para observações. Mas a nós, 

em nosso departamento e zona apprehensiva, isto nos 

■ baste, óra. Repetimos a phrase desconfiada do espi- 



O BRAZIL MENTAL 361 



rituoso Courier: «Deus nos livre das bexigas e da 
metaphora.» 

Assim, recapitulemos, que vai sendo tempo. 

Resumindo e condensando: 

l)iz-se: — O mundo nâo é infinito, por taes e taes 
rasòes, já analysadas. Cònclue-se: — Logo, só Deus é 
infinito. 

Admitíamos (apezar de todas as considerações até 
á data por nós produzidas) o primeiro termo do ra- 
ciocínio. Segue-se, da exacção da proposição, ser ver- 
dadeiro seu corollario? Quer dizer: logicamente pro- 
cede do finito do mundo o infinito de Deus? 

A consequência nâo é legitima. Afastemos o abu- 
so phraseologico, que confunde o espirito. Reduzamos 
a questão ás proporções mais simples. Descarnemos 
o syllogismo. 

Tracta-se de provar que Deus é o infinito, con- 
tra o asserto de que o infinito nâo é Deus, mas sim 
a matéria. 

Cahimos, pois, numa forma simplista de argu- 
mentação. Movemo-nos no estreito âmbito d'um di- 
lemma. 

Isto c: ou Deus é egual ao infinito, ou a maté- 
ria é egual ao infinito. Mas sempre, em qualquer das 
hypotheses, para que dialecticamente se attinja con- 
clusão, caso o infinito da primeira egualdade seja 
egual ao da segunda. 

Ora, aflirma-se que se mostrou que a matéria 
não pôde ser o infinito; e que, logo, infinito só pôde 
ser Deus. Mas que infinito? Evidentemente, o que se 
provou não poder convir á matéria e, em consequên- 
cia, por exclusão de partes, pertencer só a Deus. 



■'■■! 



362 O BRAZIL MENTAL 



Porém, se logo depois se accreseenta que o in- 
finito da matéria, supposto provisoriamente possí- 
vel, nâo é, substancialmente, o infinito de Deus, tor- 
na-se claro que se nâo pôde concluir que, de a ma- 
téria nâo ser o infinito, Deus seja o infinito linha, 
differente de o infinito. A argumentação deixa de ser 
uma argumentação por exclusão de partes, para se 
resolver n'um tranco erro de marcha. 

Com effeito, o infinito, que convenha ou nâo 
convenha á matéria, estabelece-se, primordialmente, 
por definição, que não é o que convém a Deus. Quer 
dizer: suppondo Deus infinito, este infinito de Deus 
não é aquelle que se negou na matéria. Na matéria, 
o infinito procurado, no especifico momento dialécti- 
co, é o infinito condicionado nos conceitos subjecti- 
vos do espaço e do tempo, referido a dimensões e a 
successòes, emquanto que em Deus o infinito é a 
plenitude da existência, sem dimensões e fora de 
successòes, dentro da categoria, única e exclusiva e 
suprema, que se define na palavra ultima de o Sêr 
Perfeito. 

Acceite, o raciocinio de Cauchy levaria a crer 
que em Deus existe, por não poder existir na maté- 
ria, o infinito que a esta era attribuido erroneamente, 
dizia-se, pelos sensualistas, ou seja o infinito no espa- 
ço e no tempo. Attingir-se-hia o cumulo de que só 
Deus é, o quê? O numero actualmente infinito. 

Os ontologistas distinguiram sempre, aliaz,;aquillo 

que designavam por infinito mathematico e aquillo que 

lenominaram infinito metaphysico. De essência, nas 

modalidades pensantes, a sua destrinça residia, syncre- 



O BRAZIL MENTAL 363 



ticamente, entre quantidade e qualidade. Cauchy aca- 
bou por baralhar tudo, num embroglio abstruso. 

Se, pois, o infinito de que Cauchy despojou a ma- 
téria para o transferir para Deus ( que d^elle nào ca- 
recia, naturalmente), se esse infinito é o infinito ma- 
thematico, esta passagem de attributos implica con- 
tradicçâo com toda a metaphysica espiritualista clássi- 
ca e com toda a theologia christã. Sabe-se que, contra 
Newton e Clarke, ambas repudiaram sempre em 
Deus o infinito da matéria no espaço, a eternidade 
da matéria no tempo. 

. De resto, se Deus possue o infinito presupposto, 
de começo, poculiar na matéria, a objecção opposta 
a esse infinito da matéria, pela difficuldade da pos- 
sibilidade do numero actualmente infinito, persiste, 
comtudo, em Deus. Importou deslocar o problema; 
transportal-o do immanente para o transcendente; 
recuar o enigma. Mas foi só isto. Affastou-se o caso, 
o que envolve uma injustiça critica e uma iniquida- 
de lógica. 

Ponderando, em lance similar, o russo Wyrou- 
boff, no folheto La science vis~à-vis la reUgion, re- 
gistra que «despojar dos seus attributos um obje- 
cto em proveito d'outro, é acto d'uma parcialidade 
evidente; é mais; é, simplesmente, uma carência de 
lógica.» Confessa, com franqueza, que é «assaz cego 
para não ver por que razão lógica Deus seja infinito, 
e não assim a matéria.» 

A confusão de Wyrouboff deriva do mixtiforio 
engendrado por Cauchy. í) erro dialéctico d'este é, 
no fim de contas, o mesmo erro geral da metaphy- 
sica clássica, com a applicação extra e hyper-objectiva 



364 O BRAZIL MENTAL 



do principio da causalidade, na serie das provas da 
existência de Deus, cosmologicas chamadas. Depois 
que Kant concluiu esse prodigioso monumento da 
Critica da razão pura, custa a crer que estes des- 
vios de conducta analytica se reproduzam ainda. 

Mais estranhos são, por exemplo, da parte do 
moderno Renouvier, que, com todos os neo-criticis- 
tas, no exame da noção de continuidade, applicando 
o eterno theorema de Galileu, incorre em idênticas 
abusões. 

Para o conceito do Ente Sumrao, sob o incor- 
recto modulo clássico, pôz, consoante já o frisarqos, 
em relevo a contradicçâo implícita, na adaptação im- 
manente do theorema reíerido, o recentíssimo Le- 
chalas, com a nota idónea de seu livro ultimo. 

Não procrastinando o debate por agora, resulta 
o resíduo final. 

Quer dizer que, se o infinito de Deus não é o 
infinito mathematico, porque o infinito em Deus não 
seja, como na matéria, successão, dimensão, variação, 
duração, etc, não seja, emfim, no tempo e no espaço, 
não se segue, conforme parece haver-se visto, que, 
sendo a matéria finita, como successão, dimensão, va- 
riação, duração, etc, Deus seja infinito, não na suc- 
cessão, dimensão, variação, duração, etc, mas fora da 
successão, fora da dimensão, fora da variação, fora 
da duração, etc: quer dizer que, de não ser a matéria 
infinita no tempo e no espaço, Deus seja infinito mias 
não no tempo nem no espaço. 

Proceder assim (como Cauchy, como Moigno, 
como Gerdil, como Th.-Henri Martin) é proceder o 
mais illogicamente possível. 



O BRAZIL MENTAL 365 



Depois, consoante se antolhou, os absurdos im- 
plícitos n'esta prova (irrefutável ao materialismo e 
ao pantheismo. a conceito de Pillon) não param aqui, 
antes se topam a cada passo. 

Nâo licou, pois, pelo menos mercc de tal ordem 
de considerações, prejudicado o lemma de que o 
mundo seja um grande todo, sem principio e sem 
fim, continuo e eterno, infinito no espaço e no tempo. 

Ouanto aos argumentos adduzidos contra a hy- 
pothese da continuidade da matéria pela memoria de 
Saint-Venant e pelos cálculos de Poisson e de Cau- 
chy, os quaes se compraz em citar Renouvier, ainda 
que valor destrinçadamente philosophico possuíssem, 
nenhum teriam para o nosso caso de agora. Isto é, em 
modo algum elles confirmam a «prova racional pu- 
ra», isto é a pretensa demonstração mathematica e 
à priori da impossibilidade do numero infinito, e, por 
consequência, da grandeza continua. Muito menos o 
seu corollaKo transcendente para o caracter limi- 
tado do universo. 

Kste assim nâo é. 

Ao contrario. Porventura o caracterisasse perfei- 
tamente aquelle fabuloso Pascal, quando lhe chamou 
unia incominensuravel esphera de que o centro está 
por toda a parte e a circumferencia em parte al- 



guma. 



A imagem é bella e mereceu a sancção plausível 
da contemporaneidade e da posteridade do mais il- 
1 ustre dos de Port-Royal. Todavia, deriva da mesma 
imperfeição psychica de que procederam o erro da 
demonstração chamada mathematica e a illusão im- 
potente de que ella emerge. 



j 
366 O BRAZIL MENTAL 



Com effeito, esse erro e essa illusào procedem 
diurna impossibilidade orgânica insanável, que uni- 
fica todas as objecções do typo observado. É ella, essa 
impossibilidade, a de construir a idóa de infinito na in- 
tuição sensivel. 

Mas tal scopo, chimericamente, se pretende sem- 
pre. Com lúcida perspicácia, caracterisa Couturat esta 
freima de, como elle diz, « querer poder-se figurar o 
infinito.» 

Somente, talvez nào apercebesse análogo desvio 
lógico, quando o seu enthusiasmo trasborde perante 
as consequências da tbeoria dos conjunctos e dos 
números infinitos, recente, de Jorge Cantor. O al- 
cance restricto da humana cerebração nâo permitte 
largas ensanchas, a partir do eliminarnento dos da- 
dos da intuição sensivel; e, assim, revela a impossi- 
bilidade inicial todo e qualquer conceito idêntico do 
typo da equivalência do conjuncto a n dimensões a 
um conjuncto linear ou da revertencia afinal do novo 
numero transcendente to, representativo d' uma col- 
lecçâo de objectos distinctos. As series de Cantor re- 
integram a difficuldade, e a formula de Santo Agos- 
tinho, por elle citada e que Couturat qualifica justa- 
mente de bella (se bem que nada contenha de impre- 
visto), com se repetir, de categoria a categoria, não 
faz senão reproduzir o problema de começo e a im- 
possibilidade de inicio. 

Um horisonte de intimas suggestòes se rasga 

entro era nós, ao golpe de intuições similares, ííias 

>ncretamente demonstral-as e amostral-as implica 

>ntrariedade insanável. O exame do thema das su- 

erficies de Rieinann, e a urtAiveâ» \Jc^w\r& te> 0*.uss 



O BRAZIL MENTAL 367 



i 



condiriam com o asserto, ventiladas conveniente- 
mente. 

Este sentido exterior cumpria que o apercebesse 
Milhaud quando, na segunda edição, revista, do seu 
reputado ensaio sobre as condições e os limites da 
certeza lógica, discutiu as consequências philosophi- 
cas da geometria nâo-euclidiana. Nenhum auctor re- 
ferente ou afferente lhe escapou: nèm Bolyai, nem 
Beltrami, nem Klein, nem o subtil e elegantissimo 
Poincaré ( que restabelece a alta gloria da tradição 
mathematica franceza). nem Helmholtz, nem Lie, nem 
o reverendo Broglie, nem, finalmente, o eminentissi- 
mo Calinon, o qual elaborou as definições essenciaes 
que. podem servir de base para uma geometria do 
espaço a três dimensões, geometria geral, de que a 
de Euclides não seria mais do que um caso inteira- 
mente particular. Só n'este sentido se poderá adhe- 
rir á conclusão de Milhaud, de que o idealismo bem 
como o empirismo se não devem lisongear de desco- 
brir nos trabalhos mathematicos de geometria não-eu- 
clidiana qualquer argumento decisivo que lhes seja fa- 
vorável. 

Identicamente cumpriria a Milhaud distinguil-o 
quando a Tannery toma, do prefacio da sua basilar 
introduccão á theoria das íunccòes d'uma variável, o 
lemma de que Tannery julga que não é licito fazer 
mysterio em mathematica e concernente á noção de 
infinito. De resto, havendo reformado, além das alte- 
rações de minúcia, da primeira para a segunda edi- 
ção do seu trabalho, o critério respeitante á deducção 
do axioma de Euclides, prejudicada pelos neo-geome- 
tras, ao cabo da ultimada reforma tev^ o t«otòK&ssfck» 



368 O BRAZIL MENTAL 



de haver sido ainfla, por vezes, demasiado exclusiva- 
mente lógico. Assim se viu obrigado a prometter 
segundo volume que siga servindo d'uma espécie de 
complemento. Na verdade, hirto, tarde o lógico viu 
substituir-se á immobilidade statica do principio de 
identidade a identidade viva e dynamica do pensa- 
mento. Quer dizer, á maneira germânica, que, subs- 
tancialmente, seu conceito fora mais metaphysico do 
que dialéctico, consoante, aliaz, assim é que convinha. 

Tudo isto, como theorema inicial e como corol- 
larios derivados, demandaria longas explanações. 

Mas, para agora, do que se tracta é de frisar que 
á matéria se pôde, sem discrepância lógica, attribuir 
a eternidade e a infinidade. 

Dir-se-ha, porém, á laia do sorbonnico Paulo Ja- 
net, que o infinito não indica independência nem o 
eterno existência por si mesmo? 

Mas revertemos á explicação de vocábulos? A 
philosophia reduzir-se-ha a lexicologia? Teria rasão o 
sceptico Montaigne, com sua indifferença structiva de 
judeu portuguez? Todas as pendências serão verbaes? 

Pois, então, não se percebe que Deus, que é in- 
finito e eterno, não será, graças a similhante rasão, 
não será, por aquelles caracteres, nem independente 

• 

nem .de per si-mesmo ? E, não o sendo por força de ra- 
ciocínio, por que o será demonstrativamente ? Se a de- 
ducção não basta, chegará a definição, lisa e extreme? 
Á definição reduz as proposições geométricas ba- 
silares, estudando o entendimento nas suas relações 
com a linguagem, Paul Regnaud quando resenha o 
seu resumo de lógica evolucionista. A etymologia 
iadica-lhe o verdadeiro caracter distiuctivo de lemmas 



O BRAZIL MENTAL 369 



que, ainda nas mais árduas subtilezas metaphysicas, 
se reduzem, d'ess'arte, a puras tautologias. 

Na generalidade, é discutível; mas aqui vê-se 
nítido o exemplo. 

Isto é : recahe-se na pretensão, primeira e ultima. 
Almeja-se por íugir, em Deus, á applicação d'esse 
principio de causalidade que, com correcção e in- 
correcção, se não perdoa á matéria. Soffregamente, 
eis-nos, de novo, no ponto-de-partida. 

Com prejuízo irremediável da lógica e da dialé- 
ctica, da metaphysica e da psychologia; sem embargo 
das divagações mathematicas, ou preniaturas ou es- 
cusadas. 

Também, sem o escrúpulo doestas e congéneres 
rninudeneias preliminares ou subsidiarias, constituiu 
Tobias Barreto o seu systema philosophico. Elle me- 
recia particular attenção, porque depois do positivis- 
mo orthodoxo íoi o monismo heterodoxo a doutrina 
que mais influenciou na moderna geração transatlân- 
tica. A ellas duas, as theorias de Comte e de Noiré ca- 
raeterisam o hodierno Brazil mental. E curioso que, 
dos dois progonos levantados nos escudos americanos, 
um. Comte, estivesse esquecido na Europa, e ó outro, 
Noiré, aqui fosse e continuasse a ser quasi ignorado. 
Na Inglaterra, ninguém faz caso da sua laboração e 
a mesma Itália, tam penetrada de germanismo, des- 
denha-o rudemente. A sufficiencia franceza, no vasto 
repositório que tornou ridículo o íallecido Floquet 
por o citar, isto é no armazém onde enfardou scien- 
cia e literatura, de commandita, Pierre Larousse, á 
conta dr >loirê dedica duas magras linhas relem.- 
brando-1 •> nome. Diz-se d'e\lfc <\v\fò ^tç>ç,w£«w «sNã.- 



?WI 



370 O BRAZIL MENTAL 



belecer uma concepção monistica do mundo, apoian- 
do-se sobre a philosophia de Spinosa e de Schope- 
nhauer e sobre as theorias dos naturalistas modeiv 
nos.» Eis tudo. Pouca coisa. 

Na verdade, a importância elevada de Ludwig 
Noiré deriva de zona de mais restricta amplitude. 
Foi quando expoz, nào ha muito tempo, sobre a ori- 
gem da linguagem (Der Ursprung der Sprache) 
uma theoria nova, que recebeu, salvo algumas reser- 
vas, a approvaçào do illustre Max Múller. 

Quanto á essência da doutrina de philosophia 
linguistica de Noiré, encontra-a Penjon ( na recensão 
que fez do livro do professor de Moguncia) toda con- 
densada n'um celebre pensamento contractamente 
expresso. É que « a humanidade explica o homem ». 
A quem pertence esta phrase synthetica e summular, 
a dentro da qual se contem. toda a ettiica agora des- 
enrolada pelo russo de Roberty, o qual, no seu neo- 
logismo bárbaro de o « psychismo social », considera a 
moral como sociologia elementar? Pertence ao fran- 
cez Augusto Comte. 

Na pormenorisada derivação de suas interpreta- 
ções, Carrau entende que a theoria de Noiçé explica 
muitas coisas mas que não explica tudo. Conclue, 
pois, com Max Muller, que, se Noiré descobriu uma 
fonte nova e importante; — um rio tão grande, tão 
largo e tão profundo como a linguagem humana po- 
deria bem possuir outras que elle, quiçá, um tudo 
nada por demais desconhecera. 

É certo que o que encontrou, valioso se antolha 
ainda hoje á muitos dos competentes. Assim o ve- 
mos nos resolutivos teul&mçKi*, ^^valistamente 



O BRAZIL MENTAL 371 



orientados por um critério monistico geral, em que 
o professor Karl Abel, nos nossos recentes dias, pro- 
cura demonstrar a affinidade etymologica das línguas 
egypcia e indo-europeas. Começa o eminente glotto- 
logo por estudar os phenomenos da troca do som 
(Lautwecfisel) e do accrescimo do som (Lautwu- 
chs) com troca de som ( Lautwechseln der Lau- 
tiouchs). Ora, ás variações de som e de sentido são 
associadas outras: o som opposto (Gegenlaut) e o 
sentido contrario (Gegensinn). 

Chegamos. Quanto a este thema do sentido con- 
trario, é facto que, desde Heraclito e Aristóteles até 
Spinosa e Hegel, a sciencia lógica reconheceu como 
a única possível a formação das nossas idéas pelos 
contrários. E similhantemente, em seus recentes tra- 
ctados da philosophia das línguas, vários publicistas 
exímios declararam abertamente que este mesmo 
processo não era tão só possível mas, por absoluto, 
necessário para a concepção das idéas. 

Entre estes, Abel reporta-se aos trabalhos de Noi- 
ré. Mas conjuga-os com os do compatrício Duboc, e 
ainda com os do inglez Bain. 

Até aqui, n'estes terrenos, estava perfeitamente 
bem. Agora, como aptidão consummada .philosophica 
geral, elle foi, Noiré, uma gloria tudesca de expor- 
tação. Para o Brazil. A orgulhosa Germania-mater 
não estranha. Já teve outra. A de Krause. Para a 
Hespanha e para a Bélgica. 

Do monismo de Noiré, os espíritos despreoccu- 
pados sentiam-lhe as lacunas. 

E Sylvio Romero pretendeu substituir-lhe um 
singular amalgama, onde a intuição ite\\fòt\^\V^s^- 



"• T>1 



372 O BRAZ1L MENTAL 



cer predominava. A tentativa data logo dos come- 
ços de sua dedicada propaganda proselytica. A obra 
de messiânica iniciação é A philosophia no Bra- 
zil. N'ella se empenha Sylvio Romero em tornar co- 
nhecida do grande publico brazileiro a renovação 
litteraria, a revolução philosophica operada por To- 
bias Barreto. Seu propósito de reveladora homena- 
gem é tam insistente e firme que o snr. A. H. de 
Souza Bandeira Filho considerou a obra como vi- 
sando a esse único alvo. 

Pois, apezar de tudo, Sylvio Romero conserva 
indemne a autónoma integridade do seu espirito, sem 
embargo de, injustamente, aquelle seu antagonista 
(que mais tarde com elle e a nova intuição se havia 
de reconciliar) o suppôr, á data, uma simples super- 
fe tacão de Tobias Barreto. 

Era injustiça de Bandeira Filho. O conceito an- 
tihomico pelos dois amigos formado acerca de Her- 
bert Spencer, sua obra e influxo mostra nitidamen- 
te a divergência fundamental que os separa. 

Sylvio Romero resume as suas idéas geraes nas 
seguintes palavras: «O meu systema philosophico 
reduz-se a nâo ter systema algum, porque um sys- 
tema prende e comprime sempre a verdade. Sectário 
convicto do positivismo de Comte, nâo na direcção 
que este lhe deu nos últimos annos da sua vida, mas 
na ramificação capitaneada por Emile Littré, depois 
que travei conhecimento com o transformismo de 
Darwin procuro harmonisar os dois systemas n'um 
criticismo amplo e fecundo ... Eu nâo sei si ainda 
haverá, entre homens que se occupem com philoso- 
phia, quem ignore que Hsrt^YA, â^ttctrót, <\vl<í como 



O BRAZIL MENTAL 373 



pensador é mais profundo do que Littré (apezar 
deste nào ser só para mim o que delle disse Mi^ 
chelet), e cujo monumento philosophico tomado no 
seu todo é mais imponente do que o do próprio Com- 
te, eu nâo sei si ainda haverá, digo, quem ignore 
que elle abraçou muitas idéas deste ultimo e repel- 
liu outras, e que também desenvolveu e fecundou 
sua doutrina pelo darwinismo, de que foi até um dos 
predecessores. 

«Eis ahi a possibilidade da juncçâo harmónica das 
duas correntes de idéas, sem duvida alguma, as mais 
fecundas que o nosso século viu surgir... Sou eu, 
pois, sectário do positivismo e do transíormismo ? 
Sim; entendendo-os, porem, de um modo largo, e não 
sacrificando a minha liberdade de pensar a certas 
imposições caprichosas que os systemas possam por- 
ventura apresentar.» 

Mas Tobias Barreto nào se contentou com não 
sacrificar sua liberdade. A Herbert Spencer brin- 
dou-o, da Escada, em Pernambuco, com o mais so- 
lemne desprezo. Cota-o entre os vulgarisadores, ao 
lado de Letourneau e Le Bon! 

Nunca Sylvio Romero logrou o effeito. de hypno- 
se philosophica com que á mocidade hrazileira a fas- 
cinava Tobias Barreto. Por isso, a intuição spence- 
riana não abriu larga carreira no Brazil. Travava-a o 
attrito da propaganda diffamatoria do orthodoxismo 
comteano, de resto. No seu livro acerca de Benjamia 
Constant, o paulista Teixeira Mendes, acrysolado po- 
sitivista, tom esta petulância. Chama a Spencer o su- 
perficial Spencer. 

A tanto se não chegou, mesmo em Inglate*^ 



374 O BRAZIL MENTAL 



que as nào perdoa aos seus filhos mais dilectos, e 
onde hoje em dia é moda, nas revistas pedantescas, 
desfazer em Spencer. Mas por seu substancial idea- 
lismo, nunca por sua superficialidade. Elle é accusado 
de imprudências temerárias, não de empirismo exí- 
guo. Ao contrario; essa, a causa de seu actual des- 
crédito. 

Mas, no Brazil, pelas rasões ditas, é que de cre- 
dito, largo e seguro, nunca se gabara o philosopho 
cujo livro de Os Primeiros Princípios ficará, apezar 
de tudo, como um dos marcos milliarios do século. 

Assim, quando rompeu a sua violenta campanha 
ultima \ contra positivismo e positivistas, Sylvio Ro- 
mero viu-se quasi abandonado, sentindo logo a ne- 
cessidade disciplinar da agrupação solidaria. Pré- 
gou-a; implorou-a. 

José Veríssimo irisou a inanidade do anceio de 
Sylvio Romero. Este aconselha «com inteira con- 
vicção aos sectários do naturalismo evolucionista, 
cuja formula synthetica pôde ser bebida em Herbert 
Spencer, a que se organizem também em um centro 
do propaganda e procurem reagir pelo jornal, pelo 
livro, pela conferencia, pela lição oral contra o neo- 
jesuitismo (é como designa o positivismo).» Com re- 
servado empenho descendo ao âmago da destrinça, 
José Veríssimo contesta a exequibilidade do anhelo. 
«Não é possível, escreve, não é razoável pretender 
substituir, para os eííeitos práticos — e são os effeitos 
práticos que visa no seu livro (Doutrina contra dou- 
trina) o snr. Sylvio Romero — a doutrina positivista, 
que abrange todas as relações humanas e determina 
regras de conducta para todas as manifestações da 



O BRAZIL MENTAL 375 



actividade humana, — pelo evolucionismo que é me- 
ramente um critério critico, um methodo scientifico 
e uma generalisação philosophica.» 

Aqui ha um sophisma de bôa-fé. Em primeiro 
logar, a José Veríssimo cumpria ser preciso. Evolu- 
cionismo é expressão vaga. Sylvio Romero propoz o 
spencerismo. Ora, o spencerismo, além de tudo o que 
Verissimo desenrola, é também uma moral e uma 
politica. 

Somente, o caracter caracteristicamente liberal 
da doutrina evolucionista não convém á hora de 
coníusa organisação por que passa o Brazil. In- 
conscientemente, todos se inclinam alli para as theo- 
rias da força. Sylvio Romero não ficou isento d'esta 
corrente tendencial da hodierna intelliguentia brazi- 
leira. Prova-o o modo por que interveiu na politica 
de Sergipe; a espécie de prologo em que, no seu 
volume, versa o thema está, na verdade, em fla- 
grante contradicção com todo o livro, encontra-se em 
manifesta incoherencia com toda a sua obra, consoan- 

r 

te severamente julga José Verissimo. 

Porém não contradiz as necessidades inconscien- 
tes da civilisacâo brazileira no momento histórico 

« 

actual. Não é sem um significado genérico que o 
principio da auctoridade esteja sendo representado 
no Brazil, em nossos dias, quasi permanentemente, 
conforme o registrou Oliveira Lima, pela dictadura. 
Todavia, as dictaduras são sempre odiosas, por- 
que, em sua essência, significam a declaração de in- 
capacidade, vibrada contra a maioria nacional, como 
inapta a governar-se e imprópria a cuidar, de per si, 
dos seus destinos. 



?* 



376 O BRAZIL MENTAL 



Essa incapacidade, historicamente realista, tran- 
sitória, pois, no processo dialéctico do werden uni-, 
versai, o comtismo acostumou a mentalidade brazi- 
leira á deplorável obstinação improgressista de a con- 
siderar permanente e irreductivel. O propagandista 
de A politica republicana^ de 1882, Alberto Salles, 
no sou volume de 1891, Sciencia politica, considera 
como uma completa theoria politica, — santo Deus! — 
o quê? Esta blasphemia de Augusto Comte, de que: 
«Seria absurdo que a massa quízesse raciocinar.» 
Pois bem! O talentoso paulista, no seu estylo bru- 
nido e engommado, luzente e secco, assegara de tam 
revoltante máxima que: «A democracia não tem ou- 
tra cousa a fazer senão applical-a ás instituições.» 
Isto importa declarar eterna a desegualdade, cujo 
extirpamento gradual é precisamente a única func- 
cão da democracia. 

Quando a politica se tiver tornado uma sciencia 
positiva, cré Augusto Comte, e com elle Alberto Sal- 
les, que o publico deverá depositar nos publicistas 
a mesma confiança em relação á politica que elle 
deposita actualmsnte nos astrónomas em relação á 
astronomia, nos médicos em relação á imdicina etc. 

Não se attente na infantilidade do sinile e não 
se recorde o preceito escholar de que comparações 
não provam, tão sô aclaram, quando nxo confundem, 
deslumbrando com a intensidade d'um ío*o fátuo, 
consoante na chamma irónica e epheimra do magné- 
sio, com que as creanças brincam. 

D3scuidõ-se o coefdciente do erro pessoal do in- 
eresse, conforme no caso dos astrólogos, que liam 
as doze casas do ceu os horóscopos dos monarchas, 



O BRAZIL MENTAL 377 



como a Luiz XÍV, ou no dos médicos envenenadores, 
como Palmer, cujos a confiança em suas sabedorias 
o publico lh'a offerta n'uma tira de cânhamo á roda 
do pescoço. 

E repare-se só em que, feita a politica uma scien- 
cia rigorosa e incontestável, ella se torna didactismo 
que se aprenda nas aulas. Vulgarisado o ensino, todos 
resolverão de per si os problemas sociaes postos, á 
laia de contas de caixaria que, adquiridas na classe 
primaria, dispensam, durante o percurso da vida, a 
intervenção egoistica de professores. 

Augusto Comte, porém, não perdoa o intromet- 
timento dos publicistas, análogo á intervenção dos 
médicos. Só com esta differença, entretanto. É que 
ao publico «deverá exclusivamente competir a indi- 
cação do íim e a direcção do trabalho.» 

Mas como? Se a massa não sabe e se seria ab- 
surdo que ella quizesse raciocinar?! 

Deixe-so a espantosa contradicção ; e consigne-se 
só a de Alberto Salles, que, nas conclusões de sua 
obra, se não exime das mais acres objurgatorias con- 
tra o parlamentarismo, elle, discipulo de Augusto 
Comte, o qual deseja, aliaz, que o publico indique o 
fim social e a direcção do trabalho a preencher para 
o attingir. 

Assim, o que se ensina é não só a necessidade 
irreíragavel como a bondade intrinseca das dictadu- 
ras. Detestamol-as, por serem aprendizagem de escra- 
vidão, eschola de fâmulos. Isto, se seu principio abso- 
luto procura, radicadamente, estabelecer-se. 

A persistência, com essas dictaduras, da liberda- 
de civil não contraria, antes corrobora, o asserto. Ten- 



/ ■■"'-" 

378 O BRAZIL MENTAL 



dendo a perpetuarem-se, cristallisando, tomando cara- 
cter duradouro e permanente, as dictaduras consti- 
tuem o famoso absolutismo illustrado, que, puro, era 
a chimerica esperança dos pensadores philanthropos 
do meado do século findo. 

Coexistem, com o integro mando supremo, taes 
quaes garantias, e com o absolutismo politico coadu- 
na-se certa liberdade civil concordante. 

Mas isto mesmo é uma das feições distinctivas 
do governo absoluto, que já não seja o despotismo, ex- 
treme e simples. Ninguém confundirá a aringa d'um 
soba africano com a tenda d'um conquistador tárta- 
ro : o estado social em que a lei é o único capricho, 
ephemero e diverso, do autocrata — e aquelle mo- 
mento, já mais alto, da humana civilisaçào quando 
despontam os rudimentos d'um conjuncto de precei- 
tos que protegem o homem e lhe asseguram a exis- 
tência e a autonomia. 

A liberdade civil existe, e bem ampla, no único 
governo absoluto europeu; existe na Rússia, onde 
existe aliaz a descentralisação administrativa, onde o 
principio do jury dignifica a sentença dos tribunaes. 

Esse typo especifico do absolutismo illustrado foi 
já o ideal de sociedades 1 avexadas por seculares e in- 
comportáveis tyrannias. Emergiu das aspirações das 
almas oppressas e dos doutrinarismos dos tractados 
philosophicos; realisou-se; consummou-se na effecti- 
vidade concreta. Ha uma serie de soberanos, glorio- 
sos nas recordações históricas, cujo nome está vin- 
culado a esse momento da evolução politica geral. 

Quem se nào lembra de José II na Áustria? De 
t Carlos III na Hespanha quem se nào recorda? 



O BRAZIL MENTAL 379 



Sem embargo, essa tutoria, por intelligente e leal, 
degrada, como um conselho de família posto a um 
adulto interdicto. 

N ? este sentido, as dictaduras são sempre funes- 
tas, porque o seu exercicio tende a radicar nos es- 
píritos a convicção de que as leis bastem a modificar 
as condições sociaes, podendo o progresso não só pro- 
mover-se como executar-se exclusivamente por ini- 
ciativa, persistente e systematica, dos que governam, 

jyes^arte se forma a chimera do Estado-provi- 
dencia, que redunda na mais tremenda decepção, ape- 
zar dos sacrifícios que, de sua liberdade e de sua di- 
gnidade, hajam os cidadãos feito ao idolo dominador. 

Todavia, circumstancias históricas se produzem 
em que as dictaduras são indispensáveis, como acon- 
tece na transição, após o êxito revolucionário, d'um 
regime governativo para outro differente. Então ha. 
que cavar fundo, que dilacerar interesses tanto mais 
relapsos quanto menos legítimos; ha que proceder 
com rapidez e com energia, com descaroabilidade de 
sentimento e com múltipla simultaneidade de golpes. 

Assim se justificam a dictadura de Mousinho da 
Silveira, que destruiu o velho Portugal; a dictadura 
militar do Brazil, que, ha oito annos, autonomisou, real 
e effectivamente, uma situação nacionalista indistin- 
cta e sempre deixada vaga; a dictadura do caboclo 
Floriano Peixoto, — Juarez menos puro na procedência 
politica, mas, como seu rival mexicano, salvando a re- 
publica; a dictadura popular da França que, em 1848, 
não conseguiu fundar solidamente a generosidade das 
suas aspirações, por lhe não sobrar tempo, em sua 
curta passagem pelo poder; a dictadura de Gamhet- 



380 O RRAZIL MENTAL 



ta, recuperando para o estandarte da pátria a honra 
mareada. 

Mas nem só n'estes lances decisivos da historia 
das nacionalidades podem as dictaduras exercer eí- 
feitos salutares e benéficos. Períodos surgem em que 
os erros, accumulados pela incapacidade ou pelo des- 
leixo, carecem de prompto remédio e os povos, aba- 
tidos, se mostram incapazes de prover, de seu alve- 
drio espontâneo, á sua própria salvação. 

Urge então que ou génios impressivos e inventivos, 
suggestionaveis e suggestionantes, promptos, imme- 
diatos, creadores; ou, na sua falta, vigorosas capa- 
cidades criticas, vastas illustrações, secundadas, como 
'aquelles, por uma vontade inflexivel, se apoderem do 
timão do Estado, sob pena de que tudo se perca. 

Foi o que aconteceu com a visinha Hespanha, 
ao terminar na, irresponsável própria, imbecilidade 
supersticiosa de Carlos II (o Enfeitiçado) o domínio 
da casa de Áustria. Chegara Castella ao mais es- 
pantoso grau de humilhação, decadência e vergo- 
nha. Se as coisas continuassem assim, bastava por 
mais uma geração, a sociedade desorganisar-se-hia 
em completo. Á semi-civilisaçâo anarchica de Hespa- 
nha succederia a barbaria selvática, franca e final. 

Veio interromper essa fatalidade o advento da 
casa de Bourbon, que, na serie dos três reis, Philip— 
pe V, Fernando VI e Carlos III, se empenhou em reor- 
ganisar a administração e em fomentar o trabalho, 
promovendo os melhoramentos materiaes mais am- 
plos e efficazes. 

Os historiadores philosophos condemnam este 
processo de civilisação. Asseguram que é nulla, ou 



O BRA.ZIL MBNTXL 381 



quasi, a acção dos políticos e que, se o progresso di- 
mana dos dirigentes, sem acquiescencia e sem von- 
tade dos dirigidos, elle será prejudicado irremedia- 
velmente, desde que appareça um estadista reaccio- 
nário, que use, para o mal, da força de que os seus 
antecessores se serviram para o bem. 

É notável, ainda que conhecida, a meticulosa cri- 
tica, a este respeito, no exame da condição social da 
Hespanha nos séculos xvii e xvui, feita pelo inglez 
Buckle. 

Como quer que seja, as dictaduras representam 
sempre uma tam grande responsabilidade, mental e 
moral, assumida pelos que as exercem — que é, em 
muito e muito, reprehensivel a leviandade com que se 
tomam as coisas, por vezes, demasiado frequentes, no 
Brazil. O caso Valladão, tão esmerilhado por Sylvio Ro- 
mero, é documento idóneo, se bem que grosso e reles. 

Comtudo, em grande, ser dictador, porque acre- 
dite um César, um Napoleão em sua estrella; porque 
se ufane um Robespierre de sua virtude; ou se or- 
gulhe um Cromwell de sua piedade: é admirável até 
certo ponto, explica-se e, se se não justifica, pôde re- 
dundar em utilidades que ú usurpação contrarestam 
os prejuízos. 

Mas que a mediocridade cubice os previlegios 
excopcionaes do fecundo génio; que a impostura im- 
piamente se pretenda investida da graça: é o que 
não podo tolerar-se. Que se suspenda a normalidade 
da lei, politica d'um povo, para se decretarem nece- 
dades e despauterios: eis o que contraria não só o 
direito publico mas o simples bom-senso. 

Quando Cromwell mettevi no \n\sa fc. v3ç\as^ ^&> 



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382 O BRAZIL MENTAL 



parlamento, deu-se, ipso facto, a si próprio a obriga- 
ção de fazer da Inglaterra a primeira das nações ma- 
rítimas e mercantis do mundo. Quando Bonaparte nào 
sossobrou, envolto dos seus granadeiros, livido aos 
gritos vingativos que o exterminavam para fora da 
lei, é porque se sabia destinado a conduzir as legiões 
da pátria até os confins da Europa. 

ínvestir-se quem quer que seja de mandatos es- 
peciaes, revindicar-se da tradicçâo dos Césares, para 
elaborar simplesmente diplomas reaccionários ou fa- 
bricar medidas orgânicas ineptas, importa temeridade 
tam condemnavel que menos vae pensar na violência 
moral dos incapazes tyrannetes do que na incons- 
ciência vaidosa com que se propõem representar um 
papel para que nào estão habilitados. 

Eis o caracter de repetidos lances da genérica 
dictadura federal brazileira. Eis o aspecto de varias 
das suas localis tas dictad uras estadoaes. A de Ser- 
gipe tem importância relevante, pela significação men- 
tal d'um dos seus fautores, o publicista Sylvio Ho- 
mero. 

Todavia, sem embargo a intuitos e a méritos, o 
que fica d' essas, no tundo do cadinho, é mediocridade 
irreductivel. Mediocridade pedante. 

Áurea, ao menos? 

Responderá, adeante, com uma pergunta Clóvis 
Beviláqua. Sob a sinceridade d'uma alma límpida, 
como de direito áquelle que na classe chamavam, pe- 
los primores de seu coração, o meigo Clóvis. Mais tar- 
de, chegado á plenitude da mentalidade representati- 
vamente social, Beviláqua, na abundância de seus li- 
vros, conservou, infelizmente, traços da precipitada 



O BRAZIL MBNTAL 383 



leviandade do adolescente. Por este aspecto, elle é ca- 
racteristicamente brazileiro. Prompto a acceitar todas 
as novidades. Com uma leitura mais ampla do que 
cuidada. Mesclando a uma originalidade sadia temeri- 
dades d' um ethnico mau-gosto insigne. Assombrando, 
por súbitas revelações de ignorâncias inacreditáveis. 

A todo o instante, commette erros de mera mor- 
phologia grammatical. Confunde a preposição a com 
a terceira pessoa do singular do presente do indica- 
tivo do verbo haver. Emprega o vocábulo escorço 
no sentido de esboço, á laia de litteratos de quarta 
classe em Lisboa, como o defunto, ainda que vivo, 
Pereira Rodrigues n' um apontoado de notas biogra- 
phicas de cantores italianos, famosos era seus leoni- 
nos tempos de platea de S. Carlos. Ignora que está 
estabelecido, de sempre, como regra indiscutível, que 
o nome' do jurista írancez que se celebrisou a esmi- 
uçar o direito romano n'um intuito mais rasgado do 
que o extreme propósito pratico se escreva á latina. 
E. todavia, Beviláqua reporta-se, frequentemente, como 
de justiça, á obra, monumental, de Laíayette Rodri- 
gues Pereira sobre O Direito das Cousas. Ahi, a todo 
o momento, encontraria, aliaz, a lição adoptada, como 
quando, no volume 11, a pag. 57, se assegura que 
Cujacio, sobre a L. Balneum, concernentemente ver- 
sando a hypotheca, interpretara mal os textos, sem 
embargo de que o sigam Troplong e outros. 

É mau, poisque perigoso seja, citar de citações. 
Comtudo, strictas probidades, qual a do nosso Ale- 
xandre Herculano, cahiram n'esse engano. Augusto 
Comte tornou-se réu de delicto maior, com criticar 
Kant. vindo a confessar, afinal, co\&» w& «jas^ftaV»*» o^ 



■ "V 



384 O BRAZIL MENTAL 



nunca o tinha lido, o que destroe basilarmente as 
conjecturas de Clémence Royer. Mas Beviláqua vai, 
ingenuamente, mais longe. Acredita na realidade do 
Manu do código de leis attribuido ao primeiro dos, de 
começo, considerados sete personagens divinos que, 
segundo as idéas dos indianos, governaram succes- 
sivamente o mundo, e denominado Swàyambhuva, 
istb é emanado do Sêr existente de per si-mesmo. 

Na verdade, originariamente — o nome de Manu 
designa, para os criticos modernos, quatorze ante- 
passados mythologicos da humanidade, dos quaes 
cada um governa a terra durante um periodo de 
306.720:000 annos, chamado Manvantara ( uma edade 
de Manu). O ultimo traductor francez das leis de Ma- 
nu, o snr. G. Strehly, considera a theoria de Manu 
visto coma pae da humanidade antes philologica do 
que bràhmanica; mas, na verdade, não se concilia 
este asserto com a, justa e exacta, afflrmativa que 
^lle mesmo faz concernentemente ao facto de se at- 
tribuir o livro alludido ao semi-Deus Manu. 

Com effeito, desde os primeiros tempos, o my- 
thico Manu, o antepassado primordial da humanidade, 
a quem -7 consoante frisan temente o registra Strehly, 
os allemães chamariam o urmensch — , era conside- 
rado como o fundador da ordem social e moral, o 
regulador dos ritos religiosos e das máximas legaes. 
Já no prefacio da edição do 1833, escholiando 
sua traducçâo, Loiseleur Deslongchamps registrara 
dubitativamente a existência d' um antigo legislador 
chamado Manu; e, ahi mesmo, recordava que havia 
proximamente então quarenta annos que, em a ver- 
são ingleza por elle dada, na peculiar annotação 



O BRAZIL MENTAL 385 



William Jones approximara esse nome de Manu dos 
de Menes e de Minos. Do de seu caboclo Mani, cuja 
linda lenda da invenção da mandioca elle refere, 
agora a Beviláqua lhe cumpria approximal-o, por sua 
vez. Mas o mais curioso está em que com Manu con- 
juga Beviláqua a Vishnu, julga-os uma só e mesma 
individualidade, e a Vishnu, o segundo deus da tri- 
murti brahmanica, tomou-o por um personagem his- 
tórico, capitulando-o de emérito jurisconsulto. 

Apezar de tudo, Beviláqua possue um real ta- 
lento, e sua prosa pertence a espécie das realisações 
íormaes de que chispa espontaneamente uma conti- 
nua sympathia communicativa. Cedo se abalançou 
aos graves cogitares. Pois já em dezembro de 1885 
concluirá elle um estudo lúcido, frisando o sentido 
exacto e particular de Uma lei natural no domínio 
da economia politica. 

Tractava-se da questão do bimetallismo e dedu- 
zia-se a prevalência tyrannica do ouro. «Ao deixar 
este assumpto (Beviláqua exclama) sinto-me um tanto 
magoado em meu patriotismo. Si a moeda nos dá a 
medida das energias vitaes de um povo, o que pen- 
sar d'aquelle que vive submergido em ondas de pa- 
pel irresgatavel ? » 

Desesperadamente se nào pôde pensar, comtudo, 
desse povo, quando elle possua os prodigiosos ele- 
mentos de riqueza que o povo brazileiro possue. So- 
mente, o que ha de necessário é que, na esphera 
dominadora das theorias professadas pelo alto pen- 
samento orientador do conjuncto social, um critério 
susceptível de derivar em praticas applicações pre- 
valeça. Urge que surja uma coucfcçfcâfc ^waNx\»sx>». 

«Sb 



386 O BRAZIL MENTAL 



que se afeiçoe ás precisões concretas. Observar-se-ha 
no Brazil qualquer tendência abstractiva seguindo 
este sentido positivo? 

Observa; e é curioso que decorra da intuição do 
mesmo monismo, d' uma apparencia tam transcenden- 
tal e metaphysica como elle se enxerga. 

Mas succedeu que um pensador, de certa origi- 
nalidade, tractou no Brazil de lhe cercear as arestas 
que o teleologismo, vago em sua transcendência 
atheista afinal, de Tobias Barreto lhe deixara. Foi o 
snr. Fausto Cardoso, auctor d'uina obra assignalavei 
por mais de um titulo. É a Concepção monistica do 
universo, como introducçào ao cosmos do direito e 
da moral. 

A intuição mecânica de Haeckel, que o dr. Fausto 
Cardoso abraçou como, segundo elle, única explica- 
ção possivel do mundo, fornece-lhe a base para a sua 
concepção do direito. 

O publicista considera o universo como um to- 
do unitário, um monon, que apresenta no espaço três 
aspectos distinctos: — o physico, o orgânico e o social. 

Cada um doestes aspectos se resolve n'um sys- 
tema especial de forças. 

Do conflicto das forças resulta uma forma cor- 
respondente de equilíbrio: — a gravitação no mundo 
physico e a consciência no mundo physio-psycholo- 
gico. 

No mundo moral, o conjuncto das associações 
humanas — famílias, classes, Estados — constitue um 
conjuncto de formas coexistentes e interchocantes 
que demandam, a seu turno, uma harmonia. Esse 



O BRAZIL MENTAL , 387 



estado de equilíbrio, esse modo coexistencial : — é o 
direito. 

A concepção, nos seus primórdios, nada tem de 
novo nem mesmo de elevado. Mas Fausto Cardoso 
soube penetrantemente extrahir-lhe consequências de 
alcance, pelo que toca á evolução do direito. 

Cahiu, com o ímpeto da mocidade, em exaggero ; 
mas foi seguro na vereda da derivação das formas 
jurídicas, promanadas de causaes anteriores. 

Assim, no seu capitulo sobre a philosophia do 
direito, elle iptegra-se na doutrina mais recente em 
êxito. É quando estuda a lucta das classes, concer- 
tando-se successivamente por pactos provisórios. Ahi 
nào transparece o influxo do marxismo, concordante 
e obstinando desde a juvenil critica da philosophia 
do direito de Hegel; mas distingue-se uma definição 
de classe, que é achado primoroso, a única compatí- 
vel com a egualdade civil moderna. 

Assim, engana-se irreflectidamente J. C. de Souza 
Bandeira quando a suppõe inintelligivel; mas Fausto 
Cardoso não poude chegar mais adeante pela falta 
de preparação na leitura dos diplomas da philosophia 
politica hodierna. Esta, a causa actual da interrupção 
dos seus estudos, assaz engenhosos, sobre a Sciencia 
da [historia. Não poude ultrapassar a concepção me- 
sologica de Buckle; e a influencia abstractiva de To- 
bias Barreto continuava exercendo-se funesta. Destaca 
na excessiva consideração prestada aos esboços da 
demopsychologia, tentada por Lazarus e Steinthal. 

D'ess'arte, como com Comte e Spencer, se prin- 
cipiava a casa pelo telhado. Todavia, o exemplo es- 
tava dado pela biologia. Explicado fe^taNfe ^ ^t^^vss 



"*§ 



388' O BRAZIL MENTAL 



de estudo e constituída se encontrava a sciencia como 
a natureza, de cuja secção especial havia a dar con- 
ta. Vulgarisara-se, pata aprendizagem, nos manuaes, 
qual esse correndo de mão em mão, desde a dadi- 
vosa de Letourneau. Ia elle dos phenomenos primor- 
diaes da vida até aos da innervacão. 

A sociologia prestes aproveitou o critério; e a 
nova comprehensão ha-de chegar alfim ao Brazil, 
tanto mais rapidamente quanto suas condições so- 
ciaes, próximas e futuras, a reclamam com instante 
urgência, como a theorica idónea d'uma objectivida- 
de a definir. 

Caracterisemol-a rapidamente. 



IV 



CONCLUSÃO 



Como se sabe, na classificação dos phenomenos 
sociaes, duas poderosas escholas dividiram, em nos- 
sos dias, os espíritos. Elias tiveram — muito principal- 
mente uma, cujo influxo foi decisivo — uma acção 
vasta e profunda no Brazil. 

A primeira foi a de Augusto Comte ; outra foi a 
de Herbert Spencer, de cujos princípios fundamçn- 
taes, desde os Primeiros até á moral, acaba de fa- 
zer um excellente apanhado para o publico portu- 
guez o snr. Caldas Cordeiro no volume que, idonea- 
mente, intitulou Summario da Filosofia evolucionista 
de Herbert Spencer. Quanto á doutrina de Augusto 
Comte, também fora em Portugal proselyticamente 
condensada em dous volumes, subordinados ao titulo 
genérico de Principios de Philosophia positiva^ pelo 
snr. Teixeira Bastos. Este resumo, mais contracto do 
que o já hoje clássico de Jules Rig, é, aliaz, perfeito. 



390 O BRAZIL MENTAL 



O primeiro (Testes systemas concedeu a primasia 
á idéa ; o segundo, ao sentimento. Entendeu Augusto 
Oomte que, na hierarchia do progresso, as civilisa- 
ções se difierenciavam á medida que as idéas, domi- 
nando o conjuncto da actividade, iam successiva- 
mente seguindo por uma das três phases irreducti- 
veis das maneiras do humano pensar : a phase theo- 
logica, ou da ficção; a phase metaphysica, ou da 
abstracção; finalmente, a phase positiva, ou da rea- 
lidade. 

Combatendo o critério, demasiadamente racio- 
nalista, de Augusto Comte, o philosopho inglez Her- 
bert Spencer procurou demonstrar que, na vida do 
individuo, como na existência das sociedades, as 
idéas tinham uma menor importância do que os sen- 
timentos, e que era, mais especialmente, por effeito 
d f estes que a evolução geral das coisas se operava. 

Emquanto que as duas escholas antagónicas se 
degladiavam, sem decisiva victoria para nenhum dos 
lados, ia crescendo obscuramente uma doutrina, ins- 
pirada em intuições de procedência por completo di- 
versas, e que deveria abrir caminho amplo e orgu- 
lhoso. 

É a chamada concepção materialista da historia. 
Se a dogmática sociológica de Comte derivava da 
cultura das mathematicas, a de Spencer provinha do 
cultivo da biologia, com o da psychologia, mais em 
particular. Porém, a nova doutrina procedeu do es- 
tudo prolongado e subtil da economia politica. Seu 
fundador determinativo c o hebraico Karl Marx. 

Baseia-se ella no simples facto de bom senso, 
de que, antes que tudo, o homem precisa do comer. 



O BRAZIL MENTAL 391 



Toda a theoria que esquece esta consideração preli- 
minar é chimerica. Ella contraria o preceito irreme- 
diável : Prirnum vivere 9 deinde philosophari. 

Posto isto, o exame das condições económicas 
d'uma sociedade qualquer é a analyse, inicial e ul- 
tima, a que deva entregar-se todo aquelle que simi- 
lhante sociedade pretenda estudar, inquirindo-lhe do 
passado, apreciando-lhe o presente e prognostican- 
do-lhe o futuro. 

A velha concepção idealista da historia, que 
ainda sobrevive, aliaz, não conhecia, olympicamen- 
te, interesse algum material. A producçào e todas 
as relações económicas, d'ella não recebiam (com- 
menta, explicando-nos, o amargo Engels) senão um 
olhar desdenhoso e furtivo. Elias não eram, com ef- 
feito, mais do que elementos secundários da historia 
da civilisação — a seu aristocrático parecer. 

No ponto-de-vista da concepção materialista da 
historia, a structura económica d'uma sociedade dada 
íórma sempre, pelo contrario, a base real que se 
deve estudar para se comprehender toda a superstru- 
ctura das instituições politicas e jurídicas. Sobre ella 
assentam as maneiras de vêr religiosas, philosophicas 
e outras que próprias e idóneas lhe sejam. 

O citado Engels caracterisou perfeitamente o 
juizo differencial que assignala esta nova intuição 
histórica, dizendo que ella é a explicação da maneira 
de pensar dos homens d'uma epocha determinanda 
pela sua maneira de viver, em vez de querer ex- 
plicar, como até então se tinha feito, a sua maneira 
de viver pela sua maneira de pensar. 






392 O BRAZIL MENTAL 



Conforme com este relance fundamental, o dia- 
léctico Karl Marx estabeleceu seguidamente que, se 
a vida social (religiosa, politica, philosophica, etc.) 
dependia, n'uma sociedade considerada, da sua con- 
dição económica, esta, a seu turno, derivava do modo 
da producção. Apurar como essa se comportava era, 
pois, o alvo a que devia convergir o esforço scientifico. 

Aqui começaram a surgir as dissidências, as 
quaes, todavia, nào prejudicaram a concepção essen- 
cial, que, ella, se manteve integralmente. 

O mais illustre dos rebeldes á orthodoxia mar- 
xista foi, em nossos recentes dias, o italiano Achilles 
Loria, espirito subtil mas paradoxal. Este insigne 
pensador publicou o conjuncto das suas meditações 
n'uma obra capital, intitulada Analisi delia proprietá 
capitalista, em dois grossos volumes. O primeiro dos 
compendiosos tomos occupa-se das leis orgânicas da 
constituição económica; o segundo desenrola as suas 
formas históricas. 

Não é este o sitio para demonstrar as affinida- 
des que a Loria o approximam de Marx e as repul- 
sivas contrariedades que d'elle o affastam. Comtudo, 
para o leitor brazileiro, a theoria basilar de Loria, 
pelo que toca ao processo capitalista, emanado, em 
ultima analyse, da apropriação da terra livre, tem 
uma importância especial. 

Estudando o lucro com a base da escravidão, e 
da servidão depois, nas colónias e na Europa, os er- 
ros de facto de Loria não devem invalidal-o, para o 
exame. Ainda mesmo enganos estranháveis, como 
quando, firme sobre um antigo ensaio do precipitado 



O BRAZIL MENTAL 393 



Réclus, elle suppòe no período de 1665 a 1672 ins- 
tituído no Brazil um systema feudal completo. 

Então a íl proprietário, spesso titolato, ha un po- 
tere politico e giudizario sul suo domínio, ha i suoi 
vassali e non riconosce per sovrano che...» 

Quem? 

«L'imperatore e il Congresso di Rio -Janeiro.» ! 

Nào se repare. 

Porque o que nos importa, no lance, é a éorre- 
lacionação que, com o germânico, o italiano estabe- 
lece entre a evolução geral e o factor económico. 
Assim, as revoluções politicas dimanam sempre, a 
seu parecer, d' uma causa económica, ou patente ou 
dissimulada. 

Constituiu este um dos themas d'um livro espe- 
cial, escripto com o mais vehemente ímpeto e que 
teve um êxito de livraria extraordinário. Na verda- 
de, seu mérito é relevante. O seu titulo importa sua 
resenha: As bases económicas da constituição social. 
Na primeira parte, expòe o douto professor as bases 
económicas da moral. Na segunda, as bases econó- 
micas do direito. Na terceira, emfim, as bases eco- 
nómicas da constituição politica. O capitulo iv d'esta 
parte terceira é particularmente interessante. Ahi, 
estuda Loria as revoluções do reddito ' e do poder 
publico. Sua doutrinal propaganda obstina-se. Elle 
se nào cança de definir a diííerenciaçào imprescin- 
dível. Assim, suas sympathias vào naturalmente para 
a recente eschola de juristas que Loria entende que se 
poderia chamar a eschola do socialismo jurídico. Como 
precursores d'esta eschola considera elle a Fichte, 
a Ogilvie, a Proudhon, a Stuart Mill, Toullier e Las*- 



\ 

394 O BRAZIL MENTAL 



sale, entre outros. Um desenvolvimento mais exacto 
e uma exposição mais scientifica da doutrina só se 
encontram, porém, em alguns juristas modernos, que 
a têm desenvolvido ex-professo em muitas obras no- 
táveis. Entre elles basta recordar Menger na Alle- 
manha, e Gianturo e Salvioli na Itália. Mas Loria 
volta a preconisar que a reforma deve ser, antes de 
tudo, económica e não jurídica, como o defende o 
socialismo juridico. Repete, d'est'arte, o theorema 
fundamental da nova intuição. Ella se generalisou 
pela cultura europea hodierna. Á nossa affastada 
península chegou já. Assim, a Hespanha acompanhou 
o movimento que vae arrastando as sciencias jurí- 
dicas, lá-fóra, pelo fecundo sulco rasgado com a re- 
lha do empirismo. 

Um dos actuaes publicistas, mais engenhosos e 
reflexivos, da boa litteratura philosophica franceza, 
G. Tarde, ufana-se com a traducçào para castelhano 
que, do seu volume sobre as Transformações do di- 
reito, realisou o professor da universidade de Ovie- 
do, snr. Adolfo Posada. O snr. Tarde argumenta con- 
tra Loria; e Posada commenta Tarde, diz este que 
sabiamente. 

Em 1891, já, publicara o professor auxiliar na ía- 
culdade de direito na universidade de Salamanca, 
snr. Pedro Dorado Montero, uma lúcida exposição das 
modernas doutrinas jurídicas e económicas dos italia- 
nos. Chama-se El positivismo en la ciência Jurídica y 
social italiana. Algumas das suas paginas com maior 
vivacidade conduzidas destinam-se, por signal, á ex- 
planação critica do systema de Loria, exactamente, 

Se na Allemanha, com Marx, e na Itália, com 



O BRAZIL MENTAL 395 



Loria, nós deparamos strenuos e auctorisados defen- 
sores do critério segundo o qual o factor económico 
é o segredo dos episódios politicos da historia, — tam- 
bém a Inglaterra sábia nos nào desauctorisa em 
nosso asserto sobre a generalidade crescente da nova 
doutrina. 

Com effeito, o notável professor de economia po- 
litica na Universidade de Oxford, e de sciencia eco- 
nómica e estatistica no Collegio Real de Londres, o 
ha poucos annos fellecido James E. Thorold Rogers, 
dotou a litteratura especial do seu paiz com uma 
obra afeiçoada a idêntica disciplina. Intitula-se The 
economic interpretation of history ; e está redigida 
com essa reserva prudente que é peculiar ao espirito 
britannico. 

Diffundido o conceito exposto (ou integro, ou em 
concordantes aspectos parcellares), a erudição fran- 
ceza exerceu-se em applicaçòes restrictas. 

Gomei inquiriu das Causai financeiras da Revo- 
lução; Blondel foi a mais remota data e apurou a 
Historia económica da conjura de Catilina. 

Seu critério geral ha-de um dia também ada- 
ptar-se á critica da historia do Brazil, tornando-a con- 
nexa com a de Portugal. Sem o concurso reciproco, 
separatistamente ellas são inintelligiveis, uma e ou- 
tra. E nenhum exemplo da necessidade indispensá- 
vel da interpretação económica da historia tam ca- 
bal e completo como o da historia de Portugal, com 
o seu appendice colonial do Brazil, ou como o da 
historia do Brazil com a sua indestacavel dependência 
chamada Portugal, politicamente, na apparencia, au- 
tónomo. 



396 O BRAZIL MENTAL 



periodo transcorrido da vida nacional já per- 
mitte aos brazileiros os prolíficos resumos de coti- 
juncto; quanto mais a nós, velhos e caducos. 

Na verdade, até epochas relativamente avança- 
das da evolução humana, os acontecimentos que se 
foram, uns após outros, succedendo não poderara ser 
considerados senão pelo seu matiz episódico. Sobre" 
elles não era licito exercer mais do que as aptidões 
rudimentarmente estheticas da faculdade narradora 
própria e reencontravel ainda nos povos d' um des- 
envolvimento psychico primordial. 

Assim c que a erudição vae registrando os es- 
boços, cada vez menos imperfeitos, da historia nar- 
rativa que se compilou em chronicas. Façanhas, dos 
guerreiros, graciosidades da corte, a petulância do 
sangue fresco, enrubescendo em combates ou acry- 
solando-se nas galanterias d' uma linguagem conco- 
mitantemente ingénua e pretenciosa, todo o relato 
do drama humano, por ahi se fica e de ahi não pensa 
ultrapassar. Só mais tarde, quando a sequencia d' uma 
tradicção se fundamenta no tempo — é que surge a 
presumpção de que, nas suas linhas geraes, por certa 
maneira, a acção social se repercuta similarmente ; e, 
então desponta nos cérebros innovadores a temerária 
suspeita de que pôde bem ser que a relembrança dos 
successos passados contenha mais do que as fúteis 
vantagens d'um entretenimento ocioso e romanesco. 

Eis ahi o primeiro passo dado para a constitui- 
ção ulterior da philosophia da historia, isto é, d'a- 
quelle corpo de doutrina que nos adverte, pelo que 
se ultimou já, da provável tendência do que ainda 
está por acontecer, fornecendo-nos, d'est'arte, não só 



O BRAZIL MENTAL 397 



avisos salutares como admoestações fecundas, se nos 
fòr permittido o aproveital-as. 

Similhantes especulações do espirito seriam in- 
teiramente inúteis com respeito aos vastos interesses 
concretos, se da sua pureza theorica não derivassem 
logicamente conclusões que, tarde ou cedo, cum- 
pre imprimam á conducta cívica, e mesmo á orien- 
tação particular de cada um, seu movimento pecu- 
liar, cuja trajectória haja de ser estrictamente defi- 
nida e cujo objectivo se determine prefixo, com uma 
incontestável nitidez. 

Equivale isto a dizer que momentos destacam 
na marcha das nações em que, a não importa quem, 
se impõe a necessidade de recapitular o passado po- 
litico do conjuncto collectivo a que pertence, afim 
de (cada qual, na medida das suas forças) propellir 
a massa commum no sentido que, não sendo segui- 
do, se substituirá por outro, a cujo termo não se 
avista conscientemente senão a ruina commum. 

Em palavras porventura mais accessiveis, occorre 
que certas gerações são, mercê d'uma fatalidade que 
se não definiu ainda, chamadas a resolver destinos 
complexos que escaparam á attençâo de outras, se 
bem que melhor dotadas pelos privilégios do talento 
ou pelas heroicidades da vontade. 

É o que passou hontem no Brazil, antes de 15 
de Novembro de 1889; é o que passa hoje em Portu- 
gal, depois do 31 de Janeiro de 1891 e antes de ... ? 

Sob pena de inépcia ou de hypocrisia, é inillu- 
divel confessar-se que todos, mais ou menos rigoro- 
samente, sentem que isto não pôde continuar; que 
se entrou, de vez, para dentro das grandes ?*ss^s*s&.- 



398 O BRAZIL MENTAL 



bilidades e que está na nossa mào, com a cruel ine- 
xorabilidade dos momentos únicos, ou interromper, 
entravando-a, a desmoronada do aggregado ou assis- 
tirmos, todos, inertes, ao desfecho irremissível da 
annullaçào de mais uma nacionalidade continental. 

N'estes termos — que ninguém de boa-fé contes- 
ta — a politica deixou de ser a occupaçào especiosa 
de classes limitadas, referindo a sua existência ás ra- 
bulices de expedientes transitórios. Não é, mesmo, 
mais nem o vicio de lunáticos esquecidos de si para 
esterilmente se occuparem dos alheios interesses, 
nem é a explosão intermittente de paixões nobres e 
de idéas doutrinarias. 

Reduziu-se; mas, reduzindo-se, penetrou-nos a 
todos, a todos nos envenenou; nada lhe foge ao in- 
fluxo, humanisou-se, volveu-se na carne da nossa 
carne e no sangue do nosso sangue. 

Sabemos hoje, por exemplo, que, tractando do 
orçamento do Estado, é do orçamento da nossa mo- 
desta casa que tractamos ; sabemos que, se um does- 
tes quaesquer gabinetes fizer definitiva fallencia, so- 
mos nós que havemos de entregar os nossos bens 
próprios á penhora cosmopolita, e não nos é licito 
ignorar, já, que, se os poderes públicos houverem de 
perder a sua independência internacional, na subàl- 
ternisação de estranhas fiscalisações, os que hão-de 
soffrer os aggravos e os vexames são determinadas 
categorias de nossos concidadãos. 

Assim, tractar da vida publica é, agora, tractar 
da nossa vida; e o patriotismo chegamos a ponto que 
não é hoje mais do que egoteovo. 

Esta pobre gente poxtugvifeTA \fô«v \&bw&& *\».- 



O BRAZIL MENTAL 399 



cessivamente tudo : a alienação dos seus bens distan- 
tes, que não conhece; o extermínio das suas liberda- 
des próximas, que não preza. Se consentisse, ao me- 
nos sem protesto, no restante, ella offereceria o es- 
pectáculo original de não se doer sequer n'aquellas 
fibras extremes em cujas radiculas embebe o instin-, 
cto da conservação, motivo e garantia da simples 
animalidade. 

Será de crer? Todavia, repugna, racionalmente, 
concebel-o. Acaso o defeito proceda menos das von- 
tades do que das comprehensões. Educados na atmos- 
phera viciada d' um sem-numero de preconceitos ; 
sobretudo, vibrantes sempre, desde a mocidade, nos- 
sos ouvidos com os clangôres da charanga marcial do 
século xvi, uma certa indolência nativa predispõe-nos 
a não acreditar facilmente nos pânicos pessimistas 
dos raros, que, de longa data, nos teem vindo adver- 
tindo da proximidade do desastre e da emergência 
da catastrophe. 

Todavia, o momento parece attingido em que. 
peze o que peze, custe o que custe, força é con- 
siderar que estamos quasi perdidos. Se, por felicida- 
de, a nação se possuir a tempo doeste sobresalto, que, 
infelizmente, tudo justifica, um esforço de revives- 
cência não só se torna previsível, como é, mesmo, a 
única força que, legitimamente, se deva esperar. 

Povo de densidade insufficiente para o relativa- 
mente largo espaço da zona terrestre occupada, os 
hábitos militantes a que a divergência ethnica e re- 
ligiosa nos afeiçoou nos primeiros estádios da nossa 
autonomia revestirara-nos d'um caracter impróprio 
para as benéficas lides do trabalho tranquilto. Íte\s>®v.- 



■ -!^ 



400 O BRAZIL MENTAL 



neira qup, logo nos cyclos iniciaes da nossa indepen- 
dência, se constata tenaz repulsa pelo mister agrícola. 
Ella .forçou os primeiros reinantes a disposições coer- 
citivas, d'uma severidade que se quedou na letra dos 
decretos. Este é o geito por que tem de ser inter- 
pretada, na cellula ovular, a famosa lei das sesma- 
rias, segundo seus capítulos especialmente referen- 
tes aos camponezes, de seu trafego. Executada com 
precisão, exacerbando-se naturalmente no decorrer 
dos tempos, graças ás rebelliões dos opprimidos e aos 
interesses dos privilegiados, essa lei, integralmente 
applicada, terminaria, nos seus implícitos corollarios, 
por constituir, para es trabalhadores ruraes, uma 
servidão de gleba. Tal qual como as disposições in- 
glezas sobre o domicilio legal (Latos of settlement) 
que faziam d'aquelles uma pertença da parochia. Con- 
cordam no espirito ( conforme o viu a perspicácia 
histórica do socialista Marx) com o famoso edito do 
tártaro Boris Godunov na Rússia. 

Este primeiro tentamen de íomento agricola, en- 
kystando o homem na terra, prejudicou-se pela suc- 
cessiva expansão afora das fronteiras e no longe dos 
mares. Abriu-se o capitulo das aventuras; a raça — 
se raça se deva chamar — transformou-se de agra- 
riamente submissa em commercialmente, permuta- 
dor aménte, vagabunda. Ganhou, de seguro, em li- 
berdade pessoal, vantagem incomparável, quando, 
como no caso, economicamente garantida. Mas per- 
deu, ao mesmo tempo', em condições reaes de dura- 
doura estabilidade. Nada gerava; não possuía indus- 
trias; não creava agricultura. Vivia da troca usurá- 
ria de productos naturaes exóticos pelos artefactos 



O BRAZIL MENTAL 401 



que tinha de ir buscar ao centro civilisado da Euro- 
pa. Viveria, se nào se lhe defrontassem concorrentes. 

Não os teve por certo espaço, emquanto, por um 
lado, o occidente se degladiava em prélios intestinos ; 
emquanto, por outro, a homogeneidade da obediên- 
cia não se fragmentou com a dilaceração da unidade 
da fé. Sanccionada, pela suprema auctoridade ponti- 
fícia, a divisão dos mundos descobertos e repartidos 
entre nós e a Hespanhá, restava a nossa ociosidade 
largamente satisfeita e garantida. 

Desde, porém, que o constrangido accordo de me- 
ridionaes e septentrionaes, submettidos á unanimi- 
dade de idêntico jugo, se íez pedaços, a recupera- 
ção dos mares, usurpados por nós, em nosso exclu- 
sivo proveito, havia de ser uma das consequências 
da ruptura com Roma. É assim que a antipathia pe- 
ninsular em contra a Reforma, além de outros, mais 
nobres, se fundamenta em motivos de necessário 
egoísmo. Ingenuamente, se podem ver desdobrados 
no nosso canonista Serafim de Freitas, logo que se 
esfarrapa nas arestas do rodisio dentado da lógica de 
Hugo Grocio, defendendo a liberdade das aguas ma- 
rítimas. O paroxysmo da dominação castelhana, no 
acceso da pugna com os Estados-Geraes, não tem 
valor essencial. É um thema superfetado, poisque o 
que se deu então sob esse pretexto e ainda com esse 
motivo se daria logo depois, sob outro qualquer. E 
com a constante causal da lei do menor-esforço, que, 
em economia, nacionalista ou internacional, se define 
pela. dispensa dos escusados intermediários, cujo ágio 
se poupe no orçamento geral dos gastos. 

O que se apura com justeza c que, t\&nxvb&& ^- 



402 O BRAZIL MENTAL 



rasitariamente da alheia vida as próprias .energias, 
deveríamos liquidar então. Os derradeiros annos do 
reinado de D. Pedro II deveriam ser os nossos der- 
radeiros annos. Não succedeu, porém, assim, mercê 
d'um accidente inopinado: a descoberta das minas 
do Brazil. Ulteriormente (graças a similhante episo- 
dio) assim não aconteceu, mercê da formação d'uníi 
núcleo, extra-continental, nas terras de Santa Cruz, 
de íabricadores de géneros que se appellidaram co- 
loniaos, o assucar de preferencia. 

Deixamos de viver da índia; passamos a viver 
do Brazil; mas não aprendêramos a viver de Portu- 
gal, ainda. 

Tudo isto era instável, frágil, ephemero. De pre- 
ver se tornava que, densificando a grande colónia, 
não nos poderia nem nos quereria aturar mais, no 
nosso parasitismo de soffregas sanguesugas; mas a 
nossa consuetudinária apathia ia-se congratulando na 
rotina da solução quotidiana, á laia do jogador que 
não cura do dia immediato. O desenlace precipitou-se, 
mesmo, com o episodio intercalar da cautelosa reti- 
rada da íamilia reinante, attonifa sob o crugir das 
águias napoleónicas. Um tratado do commercio in- 
declinável abriu os portos que ciosamente cerrára- 
mos atélli. E, quando o civismo inexperiente de 1820 
tentou reagir contra a opportunidade histórica, a se- 
paração encarregou-se de confirmar as necessidades 
triumphantes. 

Derivara, esse civismo inexperiente e egoísta, de 
circumstancias de existência atrozes para Portugal, 
empobrecido e governado pelo estrangeiro. 

Era, na verdade, bem vil a condição moral por- 



O BRAZIL MENTAL 403 



tugueza então; era bem desastrosa a situação poli- 
tica e económica do paiz, bem precária a sua sobe- 
rania. 

A posição financeira deíine-se dizendo que não 
se pagava ao exercito. 

Havia corpos onde os prets tinham sete mezes 
de atrazo. 

Como viveria o povo? 

Em exposição dirigida para o Rio-de- Janeiro, pe- 
dindo providencias afim de melhorar o miserável es- 
tado da fazenda publica, João António Salter de Men- 
donça, a 26 de Outubro de 1819, exclama: «Estamos 
nas mais terríveis e dolorosas circumstancias em que 
nunca nos vimos, achando-se o erário falto de meios 
para despezas tão excessivas; o povo, pobre; sem 
pagamento dos seus vencimentos e vexado sem com- 
mercio, sem navegação, quasi sem numerário.» Tal 
como hoje, com a differença para melhor : que a íalta 
de numerário era então quasi completa. Hoje desap- 
pareceu o quasi. 

Consoante hoje, Salter de Mendonça propõe me- 
didas extremas de salvação publica. Uma d'ellas con- 
sistia em suspender o provimento dos logares dos 
tribunaes, relações e òfíicios que não fossem de abso- 
luta necessidade. 

A soberania era atacada por forma que o com- 
inando superior do exercito portuguez pertencia ao 
marechal inglez Beresford. Os regimentos eram diri- 
gidos por generaes, coronéis e officiaes subalternos 
— todos britannicos. Era governador das armas do 
Minho o general Wilson e parte dos militares — de tal 
modo vivia na inconsciência d^sta. a&tfrcta. <as&s> ^ 



404 O BRAZIL MENTAL 



gloriosa revolução de 2i de Agosto de 1820 esteve 
para talhar, resolvendo-se n'uraa catastrophe, porque, 
á hora critica, no agudo do momento psychologico, 
os soldados do 6 de intanteria se recusaram a sahir 
da caserna, caso não levassem com elles o seu coronel, 
Maxwell Grant. 

A perversão do espirito publico vinha de tão 
longe e fora systematisada pacientemente por forma 
que não havia que espantar em face dos mais incon- 
cebíveis absurdos. Como hoje, os portuguezes racio- 
cinavam erróneo e sentiam falso. 

Ha coisas que, mesmo agora, n'esta cynica de- 
gradação que nos approxima do modo de ser d'a- 
quella epocha e nol-a torna intelligivel, que mesmo 
agora não chegamos a comprehender. 

Assim, tendo fugido o chefe do Estado para o 
Brazil, abandonando o seu povo á sanha do inimigo 
francez, que avança furioso, sedento do sangue das 
carnificinas e ávido do ouro dos saqueios, o povo 
portuguez continua, comtudo, a venerar o seu rei 
como ura pae. Interpreta a ida para o Brazil como 
um serviço publico! Com uma imbecilidade que roça 
pela cachexia senil ou pela idiotia do nascença, cahe 
na ratoeira que lhe armam as proclamações e expli- 
cações interessadas da corte. 

Ao bondoso príncipe burilam-lhe hymnos herói- 
cos, lavram-lhe epopeas. E não são nenhuns laga- 
lhés os auctores. São os primeiros artistas, os primei- 
ros poetas nacionaes. 

O hymno pertence nada menos do que ao grande 
compositor Marcos Portugal-, dirigindo-se ao autocra- 
ta, diz o ritornello da Mtva*. 



O BRAZIL MENTAL 405 



Aos mares vos destes 
A bem dos vassallos. 



É fabuloso. Mas seria pouco. Ha mais. 

A epopea ; com efíoito, a epopea ; a epopea (pro- ' 
fundo Deus!) deve-se a Santos Silva, de quem Costa e 
Silva cantava ser o digno rival de Camões. O poema 
intitula-se Braziliada. Segundo nos refere Innocencio 
Francisco da Silva, esteve para ser Napoleada, tendo 
por thema, prenuncio da paz geral, a batalha de Aus- 
terlitz. Mas, pela refalsada e hostil conducta subse- 
quente de Napoleão, passou a ser Braziliada. 

Sua acçào, diz o poeta constar da judiciosissima 
evasão de S. A. /?. para os seus estados do Brasil. 
Ou isto ou Austerlitz. 

Sobre os méritos da obra asserta Camillo Cas- 
tello Branco que «a epopea fundamentada em suc- 
cesso de tam pedestre heroísmo define-se cabalmente 
só pelo titulo.»- 

O que nos importa n'este lance nào sào os títu- 
los litterarios do cartapacio. É a perversão moral, a 
abjecção collectiva, a desorientação, a inconsciência, 
a miséria de sentimentos que elle representa em seu 
propósito. 

Ser possível. Acceital-o o publico. Que pavoroso 
documento humano! Até onde tínhamos descido! 
Onde chegaríamos, se mais descêssemos? 

Mas a melgueira do Brazil acabou. 

Então appellamos desesperadamente para o pe- 
cúlio recolhido. A cubica do Estado em crise lançou 
as miradas para a accumulação primitiva, cristalli- 
sada no mysticismo improdvielwQ Aas> çc«ft&R&^s&scNs- 



406 O BRAZIL MENTAL 



cas religiosas, stereotypantes <}o génio melancholico da 
raça. Saquearam-se as egrejas; desbarataram^se os 
conventos^ o ouro appareceu, circulou. E — conse- 
quência muito mais maravilhosa, por isso que du- 
radoura — surgiu-nos o credito. 

Soffregamente, corremos a abeberar-nos n'esse 
torvo manancial moderno. l)'elle usamos ; d'elle abu- 
samos; sorvemos a inauditos haustos; até ao lodo 
nos impaludamos d'essa agua salobra e pérfida. 

1 D'este systema íalso da vida económica recente 
do Portugal contemporâneo derivou um corollário, 
qntre outros, nefasto, aquillo que, impropriamente, se 
chama a empregomania, como se onde abastem os 
processos naturaes da occupação da actividade, pela 
industria, pelo commercio, pela terra e pelo capital, 
onde elles abastem ao augmento e á cultura cres- 
cente da população se podesse originar uma exclu- 
siva escolha por fainas officiaes, em regra mal retri- 
buídas, de accesso obstruido, de subida difficil e de 
futuro confinado nos benefícios vexantes e chimeri- 
cos das pensões e montepios ! 

Ora, por nossa desgraça — por nossa desgraça? 
— occorre que o expediente exposto do empréstimo 
exterior cobrado pelo Estado e por elle redistribuído 
na nação, esse mesmo, em virtude da própria lógica 
das coisas, que não tolera indefinidamente situações 
absurdas, esse mesmo se esgotou. 

Brutalmente, sacodem-nos do nosso lethargo se- 
cular, risonho e manso; intimam-nos não só a que 
vivamos de nós, mas a que de nós retiremos o que 
falha para, progressivamente, satisfazer os enormes 
encargos dos compromissos qyvfò a&tw*^- 



O BRAZIL MENTAL 407 



das saccaram a descoberto sobre o nosso trabalho, 
sobre o nosso decoro, sobre a nossa liberdade inte- 
rior e sobre a nossa independência internacional. 

Havemos de saldar a conta da festa, solver a 
prodigalidade dos que nos precederam e pôr em nos- 
sos hombros a cruz que esses bons amigos tiveram 
a amabilidade de largar a meio do caminho, á nossa 
espera, que havíamos de chegar. 

Não nos valerão evasivas, desculpas de maus paga- 
dores; nem argucias de aproveitados discípulos de je- 
suítas nem feros de desaproveitados netos de heroes. 

Ao contrario: cumpre que encaremos com ma- 
gua mas com firmeza a terrível situação em que nos 
encontramos e que, na sinceridade das nossas refle- 
xões, topemos com um methodo claro e exacto, pre- 
ciso e uniforme, que nos desembarace do meandro 
que, dia a dia, nos constringe e illaquea. 

N'este sentido, a primeira pergunta que, espon- 
taneamente, brota no nosso espirito é se os vícios e 
os erros que nos trouxeram a similhante contusão 
são d'aquelles que, não interessando essencialmente 
os grandes typos orgânicos de que depende a vida 
funccional do Estado, se corrigem ao de leve com 
alterações superficiaes e se curam com mesinhas epi- 
dérmicas. Ou, se, pelo contrario, existem indevida- 
mente, opprimindo as energias reactivas e salutares 
da nação, — sobrepostas e abusivas, stratificaçòes ins- 
titucionaes que só conseguem prolongar a existência 
sacrificando a do paiz mesmo e prohibindo-lhe a mo- 
delar reconstituição nas categorias sociaes compatí- 
veis com as urgências do mando e com as necessi- 
dades da civilisaçâo geral. 



408 O BRAZIL MENTAL 






Se isto não pôde proseguir, será isto susceptível 
de uma correcção parcellar; ou b problema só será 
resolúvel com a clausula, necessária e sufficiente, 
mas imprescindível, de uma reíundição integral? 

As populações portuguezas, em sua subjacencia 
rudimentar, não se preoccuparam com a solução da 
problema aqui. Elias nào podiam, naturalmente, es- 
perar. 

Assim, resolveram o seu caso pessoal — emi- 
grando. 

Debandaram e debandam aos magotes. 

E, na verdade, é um tremendo quadro, esse do 
êxodo çollectivo, quasi, da nossa população agrícola 
e urbana. Portugal despovoa-se. 

Emquanto os subsídios do governo brazileiro á 
emigração duraram, foi um desapparecer continuo 
de gente. Depois, no acabamento d'essa ajuda de 
custo, voltaram-se para a Africa, para onde o go- 
verno portuguez ou emprehendimentos administra- 
tivos locaes destinaram essa sobrepopulação já não 
encaminhada para o Brazil. 

Assim, houve um momento desesperado. No Por- 
to, em Outubro de 1894, sabia-se que estavam ins- 
criptos novecentos emigrantes, que se destinavam á 
Africa, como colonos. Eram chair à cânon; regi- 
mento de miseráveis votados ao extermínio; iguaria 
opípara para banquete de devorantes febres. 

Creados de servir, caixeiros desempregados, ope- 
rários das pequenas industrias urbanas em domicilio 
— que iam elles fazer para a Africa, sapateiros, al- 
faiates, ourives, encadernadores? O que foram. 

Morrer á fome. Mas morrer á íome por morrer 



O BRAZ1L MENTAL 409 



á fome, porque não preferiram acabar aqui a triste 
vida? Se lá nào ha industria, se tudo se importa 
feito da Europa, se o commercio paralysante está 
servido de empregados: que queria aquella desgra- 
ça? Encontrar um louco expediente ao problema for- 
mulado nas linhas que precederam. 

Para a Africa se precipitaram, pois. 

Para a Africa, onde, até para o serviço de re- 
mendagem, o operário preto, pela barateza da mâo 
de obra,' não permitte logar ao branco! 

Santo Deus! Metter-se-ia em cabeça áquelles 
colonos ir fazer as terras, trabalhar na lavoura, sob 
o sol d' Africa, mortal ao pelem europeu? Á compita 
com o negro? Não tinham idéa alguma. Fugiam á 
tôa. Deitavam-se d'um muro abaixo, desvairados na 
carreira. 

Ou doidamente para a Africa, ou ajuizadamente 
para o Brazil, o certo é que a debandada proseguia. 
Hoje dissimulou-se, mas prosegue. Disse-se, até, ser ur- 
gente o crear especial policia repressiva da emigração 
clandestina, afim de reter os menores ainda sujeitos 
ao recrutamento para o serviço militar. Houve que 
negociar, acção commum com o paiz visinho, de cujos 
portos se ia então em demanda, na difficuldade do ac- 
cesso aos nossos. Tudo é baldo. A despovoação mar- 
cha, marcha. 

Então era patente. No mesmo mez e anno refe- 
ridos, appareceram publicados nos jornaes de Lisboa 
uns annuncios reclamando trabalhadores e operários 
para as linhas férreas do Brazil ; e ao pedido limitado 
acudiram em maioria, não dezenas de pretendentes, 
não centenas, mas muitos milhares, qua se> *$sJ&\&fò- 



ri - 



410 .OJHtAZIL MENTAL 



raram na rua do Ouro, á porta do dr. Silva Sanches, 
encarregado d'esta missão pela Companhia Férrea 
Brazileira, sendo preciso fechar as portas do escri- 
ptorio e tornando-se necessária a intervenção da poli- 
cia, para convencer os pretendentes de que o numero 
preciso de operários já estava mais que completo. 

E, ao mesmo tempo que isto alli succedia, as fo- 
lhas de Coimbra annunciavam que ia lá grande aza- 
íama com o preparativo de milhares de emigrantes 
que, d'aquella cidade e subúrbios, partiam para a 
America nos próximos paquetes d'aquelle mez. 

Também, por egual, diziam da Guarda que, ul- 
timamente, tinham sido requisitados muitos passa- 
portes no governo civil d*aquella cidade. 

Depois, tem ido sendo conforme Nosso Senhor 
é servido. 

N'uns pontos mantem-se o typo tradiccional da 
nossa emigração. 

Parte o homem valido e esperançado, deixando 
a familia cá. Na zona céltica do paiz, regressa-se aos 
costumes primitivos da raça. Volve a mulher a effe- 
ctuar os trabalhos pezados do homem. 

Mas é uma lastima. Por maior necessidade, o que- 
rer nâo substitue o musculo ; e pôde a mulher pegar 
na rábica do arado? De modo que a cultura desíallece, 
a productividade definha. Em sitio aqui do Porto 
bem perto, nas cercanias de Barcellos, havia, á data, 
uma povoação importante onde tudo era íeito já ex- 
clusivamente por fêmeas, a sacha, a poda, a vindi- 
ma, a piza nos lagares, os carretos. Os homens fo- 
ram todos para o Brazil. Querem saber quantos jor- 
f nateiros havia n'esse ponto? Por junto, quatro. 



O BRA2IL MENTAL 411 



Mas esta maneira antiga da emigração é hoje 
rara. Hoje vae tudo, marcha a família inteira. 

Nào é como noutros tempos: a ida de emigran- 
tes, que isoladamente partiam a procurar fortuna, 
deixando cá a casa; são familias completas e numero- 
sas que abalam para longínquas terras, com o firme 
propósito de lá se estabelecerem, fixarem, não vol- 
tarem mais. 

E não já unicamente das classes trabalhadoras, 
mas de camadas mais altas socialmente e mais cultas, 
no peculiarismo individual. Personalidades isoladas, 
tem sido um despegar de Portugal de innumeros re- 
presentantes. Alguns, até, notáveis; alguns, mesmo, pri- 
macialmente eminentes: Bettencourt Rodrigues, Chris- 
piniano da Fonseca, Rodrigo Soares, Ricardo Severo, 
José Barbosa, Julião Machado, Celso Herminio, Pinto 
Coelho, Henrique Bravo, Joaquim Leitão* Eugénio da 
Silveira, Cunha e Costa. Ao acaso da reminiscência. 

Mas ainda íamilias inteiras. 

Com effeito, nos últimos tempos têm-se exilado 
voluntariamente muitas familias portuguezas, algu- 
mas bem conhecidas e cujos chefes occuparam po- 
sições distinctas, como as de deputados, governadores 
de possessões ultramarinas, advogados, médicos, nego- 
ciantes e outros qualificados. Foram em busca, além- 
mar, dos recursos da vida que aqui não encontravam, 
abandonando a pátria, madrasta para elles. Mas não 
para os sanguisedentos egoismos burocráticos, nos 
altos cargos, accumulados ainda, que monopolisam 
esses fartos talheres á meza do orçamento a que, com 
amarga freima, se reportava uma gazeta lisbonense, 
desolada perante o facto que frisamos. 



412 O BRAZIL MENTAL 



Se ao Brazil se dirigem, ajuizadamente procedem 
os que fogem. 

Dissemol-o e repetimol-o, no abandono da Africa, 
que o Estado desleixa. Doutrina, de resto, já susten- 
tada por Oliveira Martins. 

É exacto, na verdade: primeiro, por elles; depois, 
por nós. Primeiro, pelo justo egoísmo da conserva- 
ção do individuo, quando para salvação da família; 
depois, pela solidariedade para com a pátria, a lín- 
gua, a religião, os costumes e leis, a lltteratura e 
a raça portugueza. 

Não é agora pelas armas, como no tempo de 
Maurício de Nassau ou de Villegaignon. É pela infil- 
tração pacifica, lenta mas continua, que o perigo re- 
apparece. Hollandezes e francezes já não escorvam 
os mosquetes; mas italianos e allemães açambarcam 
as enxadas dos campos, os covados dos balcões, os 
copiadores dos escriptorios, a ferramenta dos mestres, 
os pregões das ruas. Pela mão hábil do eminente 
Koseritz e outros confrades compatrícios, até já as 
pennas das redacções. 

Entre nós, não se pensa na gravidade de todos 
estes problemas e de como elles interessam o porvir 
de Portugal no caracter do porvir do Brazil. 

Nos começos do anno indicado, o espirito escla- 
recido do pernambucano Adolpho Carneiro chamara 
— em S. Paulo — a attençâo de distinctissimas perso- 
nalidades para o problema que tanto nos affecta, alar- 
mado como se encontrava pelo espectáculo da inun- 
dação, extravasante, da Lombardia. Não foram des- 
attendidas ou menosprezadas as suas judiciosas pa- 
lavras, sob a inspiração de um critério previsôr. Al- 



O BRAZIL MENTAL 413 



gumas deliberações ficaram, mesmo, -apontadas em 
mente para ulterior adopção na devida opportunida- 
de, afim de remediar um mal que, mais, de futuro, 
ameaça, interessando linguas, raças, nacionalidades. 
Alli se frisou a necessidade de importar de Portugal 
sangue bastante a restabelecer o equilíbrio, obstando 
á hegemonia da gente italiana. Depois d'isso, deplo- 
ráveis conflictos, que promoveram até a intervenção 
do gabinete de Roma, confirmaram as receosas pre- 
sumpçòes. 

Mas serão os portuguezes bem recebidos no Bra- 
zil ? Não os aguardará alli a reviviscencia de sopitados 
rancores ? 

Havendo o advento da republica dado a preva- 
lência ao elemento nativista, as colónias europeas 
resentiram-se de sua diminuição politica. É assim 
que se explicam as sympathias da população íran- 
ceza no Rio pelo movimento monarchista de Custodio 
de Mello. Mais se entendem as cumplicidades por- 
tuguezas nas tentativas de restauracionismo. 

Isto reaccendeu as cóleras. Creou-se um partido 
anti-portuguez, que teve órgão especial na imprensa 
e possue representante idóneo. Elle chama-se Dio- 
cleciano Martyr, e o grupo que capitanea intitula-se 
jacobino. 

Mas o jacobinismo brazileiro coisa é difíerente 
do jacobinismo portuguez. 

Com efíeito, usa-se agora em Portugal na im- 
prensa officiosa e, mesmo, na da opposição, ainda 
quando da chamada liberal, em vaia diffamatòria, 
como se labeo fora, o epitheto de jacobinismo, appli- 
cado ás affirmações democráticas recentemente de&- 






'i 



414 O BRAZIL MENTAL 



envolvidas na propaganda do credo republicano, que, 
no Brazil, mais feliz do que nós, é já uma realidade. 

Mas a accusatoria manha vem de longe. 

O caso foi oriundo do finado Marçal Pacheco, 
então deputado pelo Algarve, ou da copa do chapéu 
alto do ministro do reino sahido, com os seus ca- 
maradas, os granadeiros da maioria, fieis, agradeci- 
dos e disciplinados, manobrando certos a uma voz. 
Da ignominia, cynicamente se prezava; e, com um im- 
pudor incrível, proclamou, em sessão, o feitio cara- 
cterístico das massas parlamentares onde se inte- 
grara. 

Pois bem! Apezar de tudo, esto homem teve, 
uma vez, a audácia de, nas camarás lusitanas, elle, 
regenerador em publico e conhecido nas conversa- 
ções pelo exaggerado de seu real indifferentismo po- 
litico, teve a audácia de alli dizer que em Portugal 
nâo havia republicanos mas tam somente jacobinos. 

Por vezes viu-se depois e vê-se agora produzir 
esta accusaçâo de jacobinismo contra os democratas 
lusitanos e mais geralmente contra a mesma idéa 
republicana. Ella nâo sahe, essa proterva accusaçâo, 
do vago de certas formulas litte*arias que, parecen- 
do conter uma profunda significação philosophica e 
critica, nada representam com eííeito, pois ou ser- 
vem de disfarçar, pelo emprego de clichés inexami- 
nados, a preguiça cerebral de ir ao intimo das ques- 
tões, analysando-as e resolvendo-as ; ou, peior ainda, 
ellas não passam, como no caso sujeito, de justifica- 
ções theoricas de sentimentos inferiores. 

O modo de ser politico, económico, moral e re- 
; ligioso dos nossos dias é por tal forma incompati- 



O BRAZIL MENTAL 415 



vel com o largo desenvolvimento das sciencias e das 
lettras no nosso tempo, por tanta maneira offende o 
critério positivo que circula nos entendimentos ho- 
diernos, por tal modo representa a fanática ignorân- 
cia peculiar ao passado — que perturba e irrita uma 
éra erudita tal como a nossa. 

Por consequência, certos espíritos cultos em 
quem a independência de caracter, ou o desprendi- 
mento do egoismo em typo moralmente injustitica- 
vel, não acompanhou a evolução mental sentem-se 
envergonhados de que os tomem por solidários e 
conniventes com o que está. Mas, como este pudor é 
exclusivamente intellectual, succede que, longe de 
lhes retemperar a coragem, para abertamente rom- 
perem com o existente, elle não lhes suggere mais 
do que a anciã de colorir com razoes de ordem 
scientifica o que, no fundo, não passa da fallencia 
da moralidade politica. 

Nào se lhes dá que os tomem por cynicos, pois 
do cynismo fazem gala ; mas irrita-os que os tenham 
á conta de estúpidos ou ignorantes. É uma simples 
questão de vaidade pessoal. 

E então procuram demonstrar que, se não são 
republicanos, é porque o republicanismo está con- 
demnado pela sciencia e elles tenham deante dos olhos 
um horisonte muito mais vasto do que a simples 
eliminação d' uma realeza qualquer. Idêntica illusão 
perturba alguns espiritos, esclarecidos aliaz, no Bra- 
zil. É exquisito que incorresse Tobias Barreto n'este 
erro, duplamente estranho na sua qualidade de mo- 
nista. Partidário da unidade da matéria, já obstinada- 
mente defendida pela alchimica (conforme ao uaç&b 



«:■".<* 



416 O BRAZIL MENTAL 



publico escolar o expôz cora insigne elegância expres- 
siva o mallogrado Ferreira Girão, nos seus trez capí- 
tulos de physica geral), custa a comprehender como 
Tobias Barreto nào visse que a íórma de governo se- 
ria essencial n'uma doutrina sob cujo critério todas 
as variedades existenciaes se nâo podem interpretar 
senão como questão de forma. Os factos da allotropia 
e da isomeria, precedentemente frisados, não serão, 
é claro, mais do que aspectos flagrantes d' um con- 
ceito cuja amplitude é, írisadamente, geíierica. Tobias 
Barreto, na sua independência dos partidos, era ura 
espirito sincero. Mas o facciosismo combatente e des- 
peitoso do snr. Eduardo Prado (Frederico de S.J es- 
gotou, até á saciedade, o interesseiro thema. Com elle, 
cá e lá, diversos outros publicistas, de varia intelligen- 
cia e mérito vario, todos teimando na mediocridade 
do intuito da doutrina republicana. 

Mas a perfídia d'estes entendimentos é logo pu- 
nida, porque, se se lhes pergunta o que é que que- 
rem então, nada de definido, de claro, de immediato 
e pratico apresentam, refugiando-se no confuso tu- 
multo de contradictorias aspirações (fingidas, aliaz) 
d' um caracter socialista, mais ou menos, indistincto. 

Sabem de onde vem esta categoria que se pre- 
tende applicar á doutrina republicana, classificada de 
Jacobinismo ? 

Tem a sua origem histórica no celebre club dos 
jacobinos da primeira revolução, o qual foi uma so- 
ciedade de patriotas, constituida logo pouco depois 
da abertura dos Est^dos-geraes, e que se intitulou 
modestamente Sociedade dos amigos da Constituição. 

Acompanhando o rei de Versailles para Paris, 



[ 



O BRAZIL MENTAL 417 



o club installou-se, primeiro, n'uma vasta sala, ser- 
vindo de bibliotheca, no convento dos frades domi- 
nicanos da rua de Saint-Honoré e, depois, na própria 
egreja do convento, em seguida á destruição da or- 
dem. Como os frades dominicanos eram mais geral- 
mente chamados jacobinos, radicou-se o costume de 
assim appellidar os amigos da Constituição e elles- 
mesmos não tardaram a decorar-se d'essa etiqueta. 
Ora, como o club veio a assignalar-se pelo ardor das 
suas convicções, pela intemerata intrepidez nas re- 
soluções tomadas, pela sua fidelidade aos principios 
revolucionários, a reacção universal, possuída de pa- 
vor, tez, na sequencia, da palavra de jacobinismo o 
anathema ao espirito novo. Jacobino era o republi- 
cano, o livre-pensador ; mas, depois, na restauração, 
mesmo o simples constitucionalista, até ao mais baço 
liberal. Era um horror europeu, o espectro da con- 
sciência attribulada do velho-mundo. 

Até nós chegou a fama do nome execrado e sa- 
be-se como a plebe, fanatisada, trucidava sem pieda- 
de, por jacobinismo, aquelle cujo nivel intellectual e 
moral, cuja aspiração progressista não era já o da 
turba ignara. Exemplo, o caso de Bernardim Freire 
de Andrade, assassinado, apezar dos esforços tímidos 
do barão d'Eben, pelas ordenauças e populaça de 
Braga. 

Mal se comprehende como aos nossos dias che- 
gou a ridícula accusação e como é que, em pleno 
parlamento, a expendia então um homem culto e in- 
telligente. 

Não ha republicanos, diz-se novamente agora, 
quando a feira está a desfazer, — ha jacobino*. .^fo& 



418 O BRAZ1L MENTAL 



que exprimem estas palavras? Que representam? Que 
querem ellas dizer? 

É um enxovalho histórico e cTesfarte se preten- 
de infamar a democracia d'este tempo, ligando-a á 
tradição do club victimado pelos janotas da reacção 
thermidoriana ? 

Mas, pondo de lado o que ha de infantil em as- 
sociar os republicanos portuguezes a uma responsa- 
bilidade histórica da França, affigura-se, porventura, 
aos nossos adversários que nos peja a antecedência 
dos jacobinos? 

Note-se que,, restrictamente no lance, a ignorân- 
cia insanável, e que já com felicidade se denominou 
encyclopedica, dos nossos antagonistas, mais uma 
vez, cruamente se patenteia. 

Com effeito, os realistas, na flagrância da revo- 
lução, nào era para os jacobinos que, de começo, re- 
servavam os seus furores. As suas imprecações di- 
rigiam-se, de preferencia, para a Gironda. 

É, exclama o vidente Michelet, o tropheu dos 
girondinos, são a sua coroa e os seus lauréis. 

Na verdade, elles mereciam bem similhante hon- 
ra. Foi a imprensa girondina que fundou a republi- 
ca. Os jacobinos commettiam o erro, frequentemente 
reproduzido, de acreditar, mesmo, em 91, que a ques- 
tão da monarchia e da republica é uma questão de 
forma accessoria e exterior. Robespierre dizia ainda 
n'essa epocha: «Eu nào sou nem republicano nem 
monarchista.» 

Todavia, aos nossos adversários de hoje, diremos 

que, pelo contrario, sem que nos envergonhemos dos 

jacobinos, não lhes accdtanta s «\\«tSa, çhw& <a> QS - 



O BRAZIL MENTAL 419 . 



se, a tantos e tantos respeitos, nào os repudiamos 
nem engeitamos, também. 

A sua tradição honra-nos. 

Pois, realmente, o que fizeram elles, esses he- 
diondos jacobinos ? 

Responderá um dos inimigos mais violentos da 
França revolucionaria, Chateaubriand, que, então 
emigrado, escrevia, em 1797, no seu Essai sur les 
rêvolutions, que esses monstros evadidos do inferno 
tinham todos os seus talentos, pois força lhe era con- 
fessar que «foram elles que deram á França exércitos 
numerosos, bravos e disciplinados; que foram elles 
que acharam meio de os pagar, de abastecer um paiz 
sem recursos e cercado de inimigos; que foram el- 
les que crearam uma marinha como que por mila- 
gre, e conservaram, por intriga e dinheiro, a neu- 
tralidade d'algumas potencias; que foi sob o seu do- 
mínio que as grandes descobertas na historia natural 
se fizeram e que os grandes generaes se formaram; 
que, finalmente, haviam dado vigor a um corpo ex- 
gotado ». 

Se se está na supposição de que houve, ou ha 
ainda, um corpo de ideas politicas conhecidas, no 
seu conjuncto, pelo nome de jacobinismo, isto é um 
erro de tal amplitude que nos nào deteremos, um 
instante, sequer, em sua consideração. 

Os jacobinos não professaram nunca senão os 
princípios da revolução mesma; começaram por um 
constitucionalismo bem moderado; e, se chegaram ao 
implacável doutrinarismo de Couthon e Lebas, se se 
systematisaram nas rígidas proposições em que era 
eminente e typico Saint-Just, foi e&%&. fc ttot*. fcas> ^- 



- ■"" VI 



420 O BRAZIL MENTAL 



cumstancias históricas, que, do ministério Necker, se 
vae desenrolando até á proscripçào engendrada nos 
conluios de Tallien. Os successos sào no Brazil hoje 
meandricamente conhecidos, após a resenha que das 
memorias de Barras fez o elegante e claro talento 
de Oliveira Lima. 

Se se entende por jacobinismo a intolerância 
das opiniões radicaes, o exclusivismo do modo de 
vêr, o desconhecimento das necessidades do instante 
e da fatalidade dos compromissos em politica, pela 
só obediência a uma linha ideal traçada, a questão 
não é de doutrina, é de methodo; e quem diz aos 
monarchistas lusitanos que o processo, ulteriormente 
seguido pelos republicanos portuguezes, seja o de que 
os estão, antecedentemente, increpando? Tam in- 
trinsecamente catholicos ou tam, exteriormente, ad- 
dictos á Egreja, esqueceriam que é peccado que brada 
aos céus o íazer juizos temerários? 

Ou imaginam, realmente, que iremos acordar a 
sombra de Fouquier-Tinville, para vir lôr fúnebres 
libellos accusatorios ? Que se decretará a guilhotina 
em permanência e que decapitaremos os pansudos 
burocratas que povoam as secretarias da Arcada? 

E, todavia, a traição á pátria com que liquida a 
monarchia era credora d' um d'esses castigos expiató- 
rios que justiceiramente constituíram a phase apo- 
Galyptica do Terror. 

Como se illudem, sem embargo, julgando-nos tam 
sanguinários ! 

Mas, então, que é, afinal, esse jacobinismo im- 
próprio de poderosos espíritos, em que o saber mo- 
derno distillou a sua n\a\% xvea essência ? 



O BRAZ1L MENTAL 421 



Ah! Sim. Bem sabemos. Vão-nos fallar da m(H 
nographia do jacobinismo, por Proudhon deixada 
n'uraa das suas numerosas obras em que a gente 
tem de tudo e para tudo, cérebro poderoso feHdo de 
impotência pela lenda da contradição, gordurosa in- 
filtração destruidora. 

De modo que, na presença, tristemente acabru- 
nhada, de nós-outros, pobres republicanos sem cri- 
tério, estreitos e atrazados, é com Proudhon que nos 
batem em brecha o systema das nossas concepções 
politicas. 

Mesquinha intelligencia a nossa! Nós a suppor- 
mos que Proudhon é, apezar da maior estima possivel 
pelas suas qualidades excepcionaes, um inconsciente 
metaphysico, cujo socialismo desconnexo e precipi- 
tado não pôde dar cohesão cerebral nem orientar um 
homem medianamente disciplinado pela sua mathe- 
matica, pela sua physica, pela sua biologia. E, afinal, 
é ainda Proudhon, com a sua these e a sua antithese; 
com o seu Hegel defumado pelo ensino de Grun, 
apud Marx; Proudhon, com o seu credito pródigo e 
o seu banco gratuito, — quem nos vem. encapotada- 
mente, sahir ao caminho! 

Uue nos quer elle, a nós, que partimos de Di- 
derot e que, por Augusto Comte, o maior colosso 
mental do século, chegamos á systematisação evo- 
lucionista de Spencer, ao socialismo scientifico de 
Marx, ás intuições sociológicas do americano Gi- 
ddings ! 

E, então, fazendo-se os interpretes da absurda 
sentença, apparecem-nos os periodistas monarcho- 
philos a chamar-nos jacobinos, a nós, cuja re^ç&a&r- 



J" - V 



422 * O BR AZIL MENTAL 



tacão do novo methodo applicado á politica se per- 
sonalisou na serie insigne dos estadistas, empíricos 
e concretos, que teem feito a força e a gloria da ter- 
ceira republica franceza! 

Sua pratica politica derivou já na construcção 
orgânica de conceitos de conducta; e todos os que 
acompanham a cultura hodierna leram, com ou sem 
reservas, o volume á Politica experimental consa- 
grado por Donnat. 

Nào ! Nós nâo somos jacobinos, no sentido, abs- 
traccionista e devaneante, que se quer dar á pala- 
vra. Nào íoi uma vaga sentimentalidade que nos fir- 
mou republicanos: mas uma convicção de natureza 
inteiramente scientiíica, exercendo-se pela persuasão 
e symbolisando uma necessidade social indeclinável. 
• Se o republicanismo no paiz não tivesse esta 
base positiva, como explicar o seu desenvolvimento 
crescente? Por uma creação ex-nihilo 3 da chimera 
d'um prurido innovador sem raiz na consciência pu- 
blica? 

O fallecido Marçal Pacheco, o ex-republicano, 
sentimental e idealista, do Trabalho, folha conim- 
bricense dirigida pelo positivista Emygdio Garcia, 
não chegou a esclarecer os democratas, empíricos e 
práticos, de quem motejou, n'uma assembleia que, 
como as suas congéneres, anteriores e posteriores, 
tanto expressava, moral e politicamente, que toda a 
gente era conhecedora de que a grande maioria dos 
seus membros devera o diploma, que lhes dera en- 
trada, á convergência salutar do sumo das uvas e do 
fumegante carneiro, lindamente ladeado de batatas. 

Em sua memoria, o deixaram ficar mal, não me- 



O BRAZ1L MENTAL 423 



lhormente procedendo com uma demonstração estri- 
cta e para nós fulminante, os que continuaram, e 
continuam, a sua polemica, nossos contradictores 
de hoje. 

O jacobinismo brazileiro, porém, é outra coisa. 
É a reflexão e a expressão do ódio ao portuguez. 

Em sua propaganda feroz, encontra-se mesmo, 
deploravelmente, servido por portuguezes expatria- 
dos, fazendo interesseira causa commum com os na- 
tivistas, á laia do jornalista lisbonense Eduardo de 
Salamonde, secretario de periódico em obediência fiel 
ás inspirações do ex-romancista Quintino Bocayuva. 
Esse movimento de hostilidade á colónia «portugueza 
acaba de attingir o seu paroxysmo com o recente at- 
tentado commettido contra o presidente da republica 
Prudente de Moraes e os acontecimentos que se lhe 
seguiram. O relatório de inquérito sobre o triste suc- 
cesso de 5 de Novembro do ánno findo attribue 
responsabilidades na cumplicidade dos assassinatos 
políticos a nada menos do que Manoel Victorino, 
vice-presidente da republica; Francisco Glycerio, 
chefe da opposiçâo; Barbosa Lima, antigo governa- 
dor de Pernambuco ; senador João Cordeiro e outros 
parlamentares do partido íederal, que suggestionaram 
o capitão Diocleciano Martyr, director do Jacobino e 
membro activo da conspiração, a armar o braço de 
Marcellino Bispo para este assassinar Prudente de 
Moraes. 

Abstraiamos do rancor das paixões partidárias; 
não acceitemos nem deixemos de acceitar a exacçâo 
das accusaçòes que reciprocamente se jogam os gru- 
pos em peleja. Resta sempre um residuo ma.Uftx«s^.\ 



424 O BRAZIL MENTAL 



o odio ao portuguez. Esta, a base e a força do ja- 
cobinismo brazileiro ; o que, por íóra e acima das hy- 
pocrisias convencionaes, derivadas da subalternisação 
económica, a seu turno proveniente das differencia- 
ções do temperamento e do caracter, lhe confere o 
titulo de ser o único partido verdadeiramente na- 
cional. 

N'este sentido, elle integra-se no conceito geral 
do americanismo, entendido como definição de hos- 
tilidade substan e subsistencial contra o europeismo. 

Reappareceu agora, com poderoso relevo, pelo 
accidente de Cuba. Esse pôde ter uma importância, 
mesmo, que geralmente se lhe nào arbitra. 

O que transparece^ de ostensivo, é o seu iuime- 
diato caracter de conflicto com a Hespanha. Por este 
aspecto, o problema resulta insolúvel. Mas o mais 
grave ainda é a consequência geral do conflicto, 
possivelmente derivado, do americanismo chocando-se 
com o europeismo. Pôde bem ser esse o corollario da 
intervenção dos Estados-Unidos da America do Norte 
no de Cuba. 

Desde todo o começo da insurreição, era de ad- 
vertir a diversidade das condições exteriores da ro- 
volta, comparado o meio ambiente que hoje a cerca 
com aquelle que, pela sua indifferente frieza, abafou 
o esforço, immenso aliaz, do vasto movimento de- 
cennal que, de 1868 a 1878, comprehendeu nada me- 
nos de três regimens politicos, dois monarchas e al- 
guns presidentes de republicas. 

Por esse lance, os Estados-Unidos da America 
do Norte começavam a emergir da passageira pros- 
tração em que a laTga tom&w&Rta ^^tat*^ «^ 



O BRAZIL MENTAL 425 



os cruentos sacrifícios da guerra da seccessào; e Cuba 
era um estado escravagista. A sua estrella jiegra não 
cabia entre as estrellas áureas que luzem no esquar- 
telado canto do pavilhão federal. 

De outra banda, supprimir de*olpe a escravi- 
dão nas grandes Antilhas o mesmo seria que con- 
demnal-as á morte súbita, fulminante e irremediável. 

Assim, idealista e pratico, o yankee absteve-se; 
contou, logicamente, com que a força das coisas, a 
marcha das idéas e a imposição das necessidades da 
civilisação cosmopolita acabariam, a breve trecho, por 
obrigar a Hespanha a ser ella que se encarregasse 
de abolir a escravatura, o que, com effeito, aconte- 
ceu, havendo parte relevante, como se sabe, no hu- 
manitário propósito o nosso douto amigo, don Rafael 
Maria de Labra. 

Varrido assim o terreno, d'ess'arte simplificado 
o problema, os Estados-Unidos não perderiam o en- 
sejo de favorecer um movimento que lhes é sympa- 
thico e que, dado mesmo que se affirmasse pela via 
d'uma separação absoluta, lhes seria útil, quando mais 
não fosse, pela insistente affirmação do principio, fun- 
damental, de que a America seja para os americanos. 

De principio, logo, não negou a diplomacia dos 
Estados-Unidos a sua cumplicidade moral com os in- 
surrectos; antes, altamente, a proclamou, com orgu- 
lhoso calor. E, quer alentados os revoltosos pela força 
da acquiescencia que da federação do Norte lhes ad- 
vinha, quer simplesmente inspirados pelo enthusiastico 
fervor que lhes procede do entranhado ódio que aos 
seus dominadores continentaes elles votam, o certo 
é que os desastres hespanhoes se foram avolvivaaxsàss» 



- -1s 



426 O BRAZIL MENTAL 



e accumulando, como em tardia satisfação ás atro- 
cidades de que. Cuba ha sido victima, da parte dos 
tyrannos que, deshonrando o generoso cavalheirismo 
da fidalguissima Hespanha, teem vindo occupando o 
supremo goverrii) em Cuba. 

Nào esqueceremos nunca o frémito de cólera, de 
indignação e de dôr, que um nosso amigo illustre, 
o di\ Alves da Veiga, provocou, a uma meza de ho- 
tel particular, em Paris, citando, a propósito de qual- 
quer episodio da historia contemporânea do visinho 
reino, o nome do general Caballero de Rodas. Um ho- 
mem moço, de olhos azues, transparentes e profun- 
dos, a barba loira e a mão fina, teve um estreme- 
cimento convulso ; e ao nosso amigo,, que não co- 
nhecia, rogou, como obsequio penhorante, que não 
continuasse a citar similhante besta-fera, cujo só no- 
me era sufficiente para o pôr doido de ódio e deses- 
pero. 

O joven cubano chamava-se don Jacobo de la 
Pezuela e possuia, de par com uma grande fortuna, 
uma séria illustração. Contou-nos, reprimindo lagri- 
mas que lhe tomavam a voz, atrocidades espantosas: 
o tusilamento das creancas accusadas de arrancar as 
coroas depostas no cemitério, em honra dos volun- 
tários ao serviço da Hespanha; o celebre galante feito 
dos referidos voluntários entrando inopinadamente 
na sala do theatro, n'um sarau de festa autonomista, 
a cruzar o fogo das suas espingardas para os cama- 
rotes, em cujo bordo ria a palpitação dos leques das 
senoritas. 

Que culpa tem o povo hespanhol; que responsa- 
bihdâde assiste á Hespanha n'estes horrores? A mes- 



O BRAZIL MENTAL 427 



ma que a nós-outros, portuguezes, nos erros e abo- 
minações da nossa administração colonial. Isto é, 
quasi nenhuma. 

Todavia, mau e justo seja é que os povos ve- 
nham a liquidar, em seu detrimento, os desmandos 
e os abusos, a ignorância e a maldade, de uns diri- 
gentes que não representam senão o favoritismo es- 
pecial, e nunca a confiança espontânea que só os re- 
gimens democráticos possam offerecer. 

Vê-se agora como, detendendo a autonomia de 
Cuba, o nosso eminente amigo Salmeron tinha, como 
sempre, razão, e como eram absurdos, como sempre, 
os remoques que, porque fora sincero, o capitularam, 
tolamente, de mau patriota. Tarde, após a justiça li- 
beratória do fanático Angiolillo, o pseudo-liberalismo 
dfe Moret, sacrificando os interesses da industria al- 
godoeira de Barcelona, explicativos dos furores da re- 
sistência, impoz ao incoherente Sagasta o plano au- 
tonomista em cujo tentamen se anda. Agora surgiu 
mal, porque resultou como o corollario da injuncção 
da nota diplomática ao governo de Madrid entregue 
pelo embaixador americano, general Wortfoord. 

Era, de resto, bem de prever. 

A questão exacerbara-se, com effeito, ganhando 
o seu feitio hyper-agudo com a eleição de Mac-Kinley 
para a presidência da republica dos Estados-Unidos 
da America do Norte. 

Graças á energia temerária d'este perfil politico, 
sua eleição marca data. Ella inicia phase nova e 
abre cyclo melindroso. 

É, já agora, incontestável. 

E, comtudo, pelo que se refira á politica ert&a*- 



428 O BRAZIL MENTAL 



rior, os partidos republicano e democrata nos Esta- 
dos-Unidos da America do Norte mal se differenceam. 
É certo. É certo que desde Monroe conservam a sua 
formula para as relações com toda a America, e a 
sua invariável platefor me para as relações com a Eu- 
ropa. Mas, um ou outro presidente caracterisa com 
mais ou menos relevo esta tendência geral. A mesma 
designação especifica d'esse critério genérico o de- 
monstra. Chama-se-lhe, do nome de um definidor, o 
principio de Monroe. Monroe íoi um d'estes homens 
afortunados por opportunos. Pertence ao numero dos 
que teem a dita de encontrar a expressão própria 
para designar certo conjuncto de idéas e aspirações 
communs. Proporcionam, assim, corpo a um anhelo 
indistincto e acabam por passarem por ter inventado 
aquillo a que deu origem, aliaz, a ideação anonyma 
da collectividade inteira. Por sua bôcca, d'elles, falia 
a alma da multidão, e é por isso que a raça a que este, 
Monroe, de nascimento pertence lhes chama, com ra- 
são, em sua peculiar linguagem : representative nien. 
Isto é, homens representativos, symbolicos e synthe- 
ticos, que recebem do destino o mandato imperati- 
vo de emprestar forma e imprimir consistência aos 
pensamentos e aos desejos dos seus contemporâneos e 
concidadãos. 

Quanto á doutrina celebre que deve o seu no- 
me ao presidente dos Estados-Unidos cujo appellido 
encabeça o postulado, tornou-so a regra fundamen- 
tal da politica da grande republica americana. Veio 
a sêr a norma especial com respeito ás potencias es- 
trangeiras que tivessem velleidades de se immiscuir, 
intervindo, nos negócios ào eoY&metote v^w^S^atóRa. 



O BRAZIL MENTAL 429 



Froduziu-se ella, quando, ein 4823, a Europa es- 
tava em plena reacção absolutista. Entào, havendo 
Canning communicado em Agosto os desejos das 
potencias a prol da Hespanha, Ruth, ministro dos 
Estados-Unidos em Londres, escreveu ao presidente 
Monroe, para o informar de que a Santa-AUiança. 
pretendia estender os seus tentaculos, pseudo-mora- 
lisadores, por de sobre as vagas do golfão, em de- 
manda de povos recemlibertos, que convinha sub- 
metter de novo á disciplina d'uma sabia tyrannia. 

A opinião publica, nos Estados-Unidos, commo- 
veu-se profundamente com similhante noticia. Mon- 
roe appellou para um dos venerandos patriarchas 
da redempção, a soliicitar o seu alvitre; e Jefferson, 
em replica, remetteu-lhe uma longa carta, protestan- 
do que, emquanto o antigo continente trabalhava 
por se constituir no covil do despotismo, todos os 
esforços da nova civilisação deveriam convergir para 
fazer do seu hemispherio a residência da liberdade. 

Retomando a phrase do sábio de Monticello, era 
imitar o papa Alexandre VI, lançando sua bulia 
para traçar uma linha divisória em pleno Atlântico 
entre as possessões de Hespanha e as de Portugal, e 
fixar os limites inultrapassáveis dos dois hemisphe- 
rios. 

As expressões " de Jefferson são bellas, na sua 
soberba, philanthropica altura, em contra do despo- 
tismo vigente na Europa; e tornou-se irreíragavel 
sua sentença. 

Ahi se resume toda a doutrina, que Monroe for- 
mulou na celebre mensagem, endereçada ao Con- 
gresso, a 2 de dezembro de 1823, documento csjxa 



430 O BRAZIL MENTAL 



Francis de Pressensé qualifica de « demasiado longo, 
verboso, diffuso, onde as duas declarações essenciaes 
estão afogadas n'uma onda de palavreado supér- 
fluo. » 

Logo, as republicas da America do Sul se en- 
carregaram de lhe dar uma sancção, erigindo-a em 
laudo de direito publico. No congresso convocado 
para Panamá, em 1826, os delegados d'essas repu- 
blicas affirmam a doutrina de Monroe, por meio d'uma 
declaração solemne. 

Em 1853, similhante doutrina recebeu nos Es- 
tados-Unidos uma estrondosa consagração, ao lance 
' dos conílictos sobrevindos na America. Sob a appre- 
hensào d'uma guerra entre a America e a Inglaterra, 
o congresso de Washington alistou-se, por completo, 
nas fileiras da opinião de Seward, o qual definiu ex- 
plicita, com rude arreganho, em toda a sua hostili- 
dade implicita, a formula discutida. 

Foi também, de novo, em nome da doutrina de 
Monroe que o presidente dos Estados-Unidos protes- 
tou, de começo, contra o estabelecimento d' um im- 
pério no México, pelo governo írancez. Acabou, ainda 
em seu nome, por obrigar o ministério de Napo- 
leão III, com a ameaça de uma declaração íormal de 
guerra, a retirar as suas tropas, em 1867, abando- 
nando o infeliz Maximiliano de Áustria á desventura 
da sua sorte. Obstinou-se, por ponto-de-honra, o ro- 
manesco príncipe; íoi cruel, por systema, imposto pelo 
medo; victima da felonia d'um favorito desleal, aguar- 
dava-o a escolta que o fusilou no quadrilátero de Que- 
retaro, eníre os generaes Tomás Mejia e Nicolas Mi- 
ramon, personagem fatal, em svj& ^\\\\n wa ^$px* ^ 



b. 



O BRAZIL MENTAL 431 



homem bonito, querido das danías, jouisseur e traidor. 

Eis, a traço larguíssimo, a procedência e a phy- 
sionomia do principio politico cujos corollarios, in- 
directamente a nós, directamente a amigos nossos, 
interessam, no momento que foge. 

Nào foi o seu qualificador, Monroe, homem de 
uma inteliigencia e talento superiores. O visinho Ver- 
neuill (que compila, na presença de Irving, Spencer, 
Oreeley etc.) limita-se e contenta-se com assegurar 
que elle possuia em alto grau a firmeza, a prudência 
e mui bom juizo, se bem que pessoa lenta fora, dis- 
tinguindo-se, sobretudo, por sua perseverança. 

No nosso paiz, o vehemente parlamentar e fo- 
goso jornalista António da Cunha Pereira de Sot- 
to-Mayor, que morreu embaixador de Portugal em 
Stockholm, depois de o haver sido em Washington, 
fallou de James Monroe como de um estadista judi- 
cioso. É no segundo volume do seu livro acerca de 
Os Estados-Unidos, esboço histórico (consoante mo- 
destamente o etiqueta o auctor) que comprehende 
desde a descoberta da America até á presidência de 
Johnson, quer dizer desde 4492 até 186ó. 

Ahi relembra que a administração de Monroe foi 
uma das mais populares, e consigna que os seus 
actos, pela mór parte, receberam a approvaçào da 
turba. 

N'este capitulo de applauso, entra, primacial- 
mente, a doutrina, sua chamada. Com effeito, ella 
consubstancia o pensar e o sentir, aqui, homogéneos 
em todos os americanos. 

O mesmo significado teve a eleição de Mac-Kinley, 
como dissemos. 



432 O BRAZIL MENTAL 



Pessoalmente, da audácia de Mac-Kinley for- 
mou-se juizo pela intrépida insistência que pôz em 
obter a adopção do seu famoso bill. Resultava, com- 
tudo, na estratégia económica, uma como paralella 
de cerco, levantada em face da Europa. Ao seu pé, 
em confronto, o bloqueio continental, com que Napo- 
leão tentou sitiar a Grã-Bretanha, é, no seu formi- 
dável orgulho, plano quasi acanhado e mesquinho, 
ainda embora. 

Cumpria, pois. a partir do primeiro instante, di- 
rectamente a uns, indirectamente a outros, estudar, 
até aos mesmos leves accidentes, esse caso da elei- 
ção presidencial ultima nos Estados-Unidos. 

Para nós outros, peninsulares, em suas multi- 
plices e transcendentes consequências, convinha, en- 
tão, com especialidade, considerar esse facto, oc- 
corrido remotamente. Nenhuma influencia parecia 
exercer sobre os nossos destinos. Sua acção, com- 
tudo, porventura, resultará, para o modulo particu- 
lar da existência politica hispano-portugueza, decisivo 
e fundamentai. 

As consequências podem ser até mui mais am- 
plas, dado que a Europa reaja contra os Estados- 
Unidos; e, unida, lhes prohiba intervir, decisivamente, 
em Cuba. Então, qualquer que seja o desfecho do 
gravíssimo pleito, entrou-se em nova phase da po- 
litica internacional, abriu-se cyclo novo da cosmo- 
polita cultura. 

Por todos os motivos, pois, marcara data a elei- 
ção de Mac-Kinley. 

Assim, acontecimentos na apparencia de relativa 
importância possuem intYvws&c&m«tt\fò vhxvn^sk *«!&- 



O BRAZIL MENTAL 433 



pcional. Qualificam epocha e fixam o caracter da his- 
toria. Abrem periodo novo na evolução da humani- 
dade. 

Foi o caso com o recontro de Valmy, por exem- 
plo, que, sem ser uma períeita victoria para os fran- 
cezes e não passando, estrategicamente considerado, 
d'um simples canhoneio, teve, não obstante, bem maior 
importância do que uma grande batalha ganha. 

Em seu inicio, por theor similhante a victoria 
eleitoral de Mac-Kinley. 

O seu competidor Bryan distinguira-se, de resto, 
nos seus discursos, por certos resaibos de socialismo, 
manifestado hoje em quasi todas as nações do mundo, 
mas com idêntico intenso motivo produzido na Norte- 
America, onde agora já surtem effeito as propagandas 
industrialistas realisadas com soffrego empenho desde 
Hamilton até Patten. No capitalismo fabril creado, 
rebentam já as crises dos operários, cujas reclama- 
ções expendeu Bryan. 

Sua derrota, porém, nada representa de sequer 
duradouro a este respeito. A onda socialista ha-de 
proseguir alastrando. Ella já invadiu mesmo a Ame- 
rica do Sul. Debalde, os theoricos, como Sylvio Ro- 
mero. pretendem contrarestal-a, argumentando. E que 
os factos concretos prevalecem, em sua inexorabili- 
dade. Assim para o Brazil. 

O Brazil tende, com eííeito, a entrar hoje, tam- 
bém, na phaso industrialista. Já escriptores especiaes, 
na moderna geração, se lhe consagram ao estudo, 
como Getulio das Neves, por exemplo. O typo agri- 
cola tradiccional obliterar-se-ha. Serão satisíeitos, ain- 
da para o Brazil, os sonhos <te Cwe^. K. ycàss^^ - 



434 O BRAZIL MENTAL 



dencia fabril em íace da Europa também para o Bra- 
zil será realidade. Mas crear-se-ha o proletariado, que 
reclame o seu logar ao sol da justiça. Finalmente, no 
Brazil, também, explodirão as bombas anarchistas. 
Da America vieram. A propaganda peia idéa lá co- 
meçou, com o tudesco Most, na Freiheit. A propa- 
ganda pelo facto lá começou também, com os de Chi- 
cago. 

Será o corso e ricorso no espaço. 
-. Ora, quando se lêem as espantosas noticias que 
o telegrapho nos remette acerca dos successivos at- 
tentados dos anarchistas, desde logo duas questões 
se nos apresentam ao espirito. Uma reíere-se á legi- 
timidade dos processos usados para fazerem vingar 
suas theorias; a outra comprehende, naturalmente, 
a doutrina, de per si mesma. 

Pôr a primeira d'essas duas questões, é nào só 
conhecei-a como resolvel-a. Nào passará pela cabeça 
de ginguem discutir a racionalidade e a moralidade 
d'um methodo propagandistico que consistiu em, pe- 
riodicamente, fazer pedaços alguns seres humanos, 
cuja responsabilidade nos males sociaes não se pen- 
sou sequer em inquirir e que tanto podem ser da 
classe dos satisfeitos como da categoria dos oppri- 
midos. Por uma ironia atroz, — como nos casos do 
café Terminus e do restaurante Foyot, de Paris, ou 
no do theatro Lyceo, de Barcelona — d'est' ultima ma- 
neira aconteceu com frequência, inda a morte esco- 
lher, precisamente, d'entre proletários e famintos. 

Os processos anarchistas são, assim, offensivos 
da justiça e violadores tos TOsfôn^teras princípios 
humana equidade. ¥.wlxe%OTv * <ra&%* fc» *v 



O BRAZIL MENTAL 435 



pressores ao acaso. Formam uma espécie de juizo-de- 
Deus, atheu; constituem a ordalia da dynamite. Offe- 
recém holocausto humano, de que o druida materia- 
lista (pontificando a theoria que o coliegio sacerdotal 
praticamente depois applicasse) seja Bakunine. 

Ora, portanto, a que insaciando Moloch sacrifica 
a superstição fira-de-seculo ? Ella é, sem embargo, o 
grande facto social, o formidável symptoma typico 
do encerrar d'este cyclo, que parecia, aliaz, chama- 
do á iniciativa das vastas concordias e das largas 
fraternisações. Mas apure-se o substractum doutri- 
nário. 

Qual é a theoria, emfim, dos anarchistas? O que 
é que essa gente quer alcançar, atravez da cruelda- 
de fanática dos seus procedimentos? A truculência 
sanguinária que derruba os outros, — a elles, com 
heróico e selvático sacrifício, os trucida, egualmente. 
Seu ideal, que tanto demanda e tanto consegue, de- 
ve, pois, ser altíssimo e nobre. É-o, com efíeito. É a 
felicidade pela liberdade. 

O seu rotulo, d'elles, acraticos, o diz. Ahi, a utó- 
pica, uchronica chimera. Porque querem, desde ago- 
ra, na sociedade humana a anarchia. 

N'isto, manifestamente, por seu primeiro aspecto 
ostensivo, ha um jogo de palavras; existe uma am- 
biguidade proposital. 

Se ao vocábulo de anarchia se dér o sentido da 
phraseologia commum, aquelle que se encontra no 
diccionario de todas as línguas: se o tomarmos na 
accepçào de desordem, cahos, confusão, tornar-se- 
nos-hia incomprehensivel que podesse hayer eschola 
politica, grupo de perversos ou seita da YH&ros&tafe> 



436 O BRAZIL MENTAL 



que se atrevesse a proclamar similhante lemma e a 
inscrever em sua bandeira uma tal blasphemia. 

A coisa é, pois, outra; a palavra toma diverso 
sentido e pretende significar theoria differente. 

Assim é; foi posta em circulação, na sciencia 
politica e na propaganda jornalística, por um dos so- 
phistas mais argutos e mais perigosos, ainda quando 
paralogismando, que a humanidade pensante, tem 
procreado. l)eve-se a Pedro José Proudhon. 

Este homem não era, na profunda e alta recti- 
dão exigente do termo, nem um erudito nem um 
philosopho; mas possuia os recursos d'uma vasta lei- 
tura superficial. Escrevia a língua como um clássico 
e emprestava-lhe os lampejos românticos da indigna- 
ção mais vehemente e da cólera amarga e inten- 
sa. A sua imaginação scientifica era abundante, tor- 
rentuosa; na polemica, percorria, de fora a fora, to- 
da a arena do saber das gerações. Por isso ? o his- 
toriador das almas, Michelet, o definiu dizendo que 
elle era o maior remexedor de idéas que tem des- 
lumbrado e confundido os entendimentos. 

Como todos os espiritos, um tanto pathologicos, 
da sua espécie, era, um pouco, afíectado da doença 
que os psychiatras capitulam de mania raciocinante. 
Discutindo a propósito de tudo, e arrastado para o 
mar largo dos systemas e das transcendencias das 
philosophias pelo mais chilro regato dos accidentes 
da vida sua contemporânea, Proudhon gostava de 
vestir a própria verdade da túnica sulfurada do pa- 
radoxo. Era um d'estes homens que experimentam 
certo goso intimo, m^mo ciando a justiça lhes as- 
~iste, em ter rasão ri uma lta\s&. itoa ta &sas&fe ta 



O BRAZIL MENTAL 437 



vulgar do publico. A sua originalidade congratula- 
va-se em encontrar formulas syntheticas, por inter- 
médio das quaes exprimisse pensamentos que, toma- 
dos á letra, sob a mascara com que appareciam co- 
bertos, espantassem pelo absurdo apparente, ou re- 
voltassem pela immoralidade exhibida. 

D'este incongruente feitio procederam as três 
grandes pkrases, impostas como axiomas, e que, no 
tempo, tantas cóleras irritaram contra o escriptor: 
Deus é o mal; a propriedade é o roubo ; o governo 
modelo é a anarchia. Historicamente, é exacta a se- 
gunda, como processo, presente ainda, de acquisiçâo, 
desde suas formas primitivas, conforme do extracto 
de Laíargue ; é exacta a primeira, como modulo pas- 
sado de instinctiva psychologia, consoante do resumo 
de Roisel; sel-o-ha a terceira, como intuição actual 
e prospecto do futuro. 

Mas o que se queria era, de logo, o effeito. E elle 
estava produzido; a attenção, tam difficil de captar 
em França, essa attençào publica que é a esperança 
e o desespero da intelligencia aux abois, na depen- 
dura, e que busca lançar-se, resultava conquistada. 
Á forca. Brutalmente. Mas vencida e reduzida. Por 
isso, Pelletan qualificou essas tiradas famosas de ti- 
ros de pistola para o ar disparados na rua. 

A meio da via publica, o estardalhaço era entào. 
como oxalá fora ainda, a fingir, em arremedo, de pól- 
vora sêcca. 

Pediam-se, emfim, explicações e, contente do seu 
truc, o polemista fornecia-as, sorrindo pezadamente. 
em copia de fartas glosas. 

A sua vaidosa teima recalcitrava, com tudo, c^w-r 



••■• ■■•■«nn 

438 O BRAZIL MENTAL 



tra o burguezismo de chatas retractàções ; nos tor- 
cicolos da sua sophistica ingénua, a sinceridade, po- 
rém, acabava por topar cora a luz: 

Assim, para as proposições concernentes a Deus 
e á propriedade, ainda no anno do seu íallecimento, 
1865, Proudhon escrevia, sem idoneamente se aba- 
lançar á larga explicação inclusa, que lhes mantinha 
o sentido litteral. Mas accrescentava logo : « Sem que 
por isso eu cuide em suppôr um crime a fé em Deus, 
como nào pense também em abolir a propriedade.» 

O mesmo occorria com respeito ao restante theo- 
rcma: de que o modelo dos governos é a anarchia. 

Que desejava Proudhon exprimir com coarcta-r 
da tal? Uma coisa bem simples, bem comesinha e, 
até, bem insignificante. 

No exame dos governos que teem existido sobre 
a terra, o pensador reconhecia dois principios fun- 
damentaes e antitheticos, a que sempre, alternada- 
mente, hajam obedecido todas as organisações so- 
ciaes : o principio da auctoridade e o principio da li- 
berdade. Pensa elle que sempre e alternadamente 
obedecessem, quando o principio da auctoridade tem, 
aiiaz, sido o prevalecente. Mas seja. 

Ora, d'estas duas noções primordiaes, segundo a 
preferencia ou a predilecção concedida a uma ou á 
outra, deduzem-se dois regimens diversos, o da au- 
ctoridade e o da liberdade. 

Demais, diz elle, sendo a sociedade composta de 
indivíduos, e no ponto-de-vista politico, podendo con- 
ceber-se a relação do irjdividuo para cõm o grupo, de 
quatro maneiras differentes, resultam quatro formas 
governantes, duas para cada regimen. 



O BRAZIL MENTAL 439 



No da auctoridade : 4.°) governo de todos por 
um só, monarchia ou patriarchado; < 2.°) governo de 
todos por todos, panarchia ou communismo. 

No da liberdade: 1.°) governo de todos por cada 
um, democracia; 2.°) governo de cada um por cada 
um, anarchia. 

Cá a temos, afinal, a famosa anarchia, pedante- 
mente com um traço discriminante, para se lhe lo- 
brigar a structura grega: an-archia. 

A anarchia, isto é a liberdade; isto é a adminis- 
tração de cada qual por si próprio; isto é a divisão 
dos poderes no apparelho social; isto é a indepen- 
dência dos grupos; isto é a descentralisação admi- 
nistrativa e a federação autonómica politica. N'uma 
palavra, — aquillo que os inglezes chamam, parrana- 
mente, sem grego erudito mas com o claro bom-sen- 
so, mero e simples: Self-government. Comtudo, o ló- 
gico Herbert Spencer desvariou em maneira análoga 
no seu opúsculo celebre, cujo titulo é toda uma expo- 
sição: O individuo contra o Estado. Mas o pensa- 
mento britannico geral conservara-se nas justas me- 
didas. E d'ellas, derivava, afinal, a truculência appa- 
rente do polemista de Paris. Era menos que muito. 

Mais geral e remontadamente, o que Proudhon 
queria dizer na sua é que a humanidade não nasceu 
livre, como no sonho de Rousseau, revindicador da 
collectiva dignidade. Ao contrario, procede de tyran- 
nias iniciaes, que lhe vergaram, integra, a activi- 
dade, desde as aííeiçòes expansivas da íamilia até 
aos sentimentos occultos da religião. A base de todo 
o conceito critico geral tem de ser, interpretativa- 
mente, o medo. Este critério imprescindível escapou, 



440 O BRAZIL MENTAL 



por completo, a Letourneau quando estuda, sob uma 
forma grosseira e objectiva, a evolução dos typos de 
escravatura. Mas até o próprio Mosso, na sua rele- 
vante monographia, se bem que, de passagem, fri- 
sasse o quanto o phenomeno psychologico do medo 
prejudica quasi insanavelmente toda a doutrina dar- 
winiana, não logrou dar amplitude idónea á sua idea- 
ção. 

Preliminarmente, apuramos que procedemos 
d'uma tyrannia inicial. Ora, essa tyrannia primeira 
era indispensável para conter e reprimir a ferocidade 
nativa do homem, a impulsão do. egoísmo selvático. 
Todavia, á medida que aquelle se foi civilisando, o 
principio de auctoridade tem vindo perdendo sempre, 
emquanto que o principio, contrario, da liberdade 
vai alastrando e delindo as peas anteriores. 

No futuro, a evolução, tanto quanto a perfecti- 
bilidade no avance, relativamente, a tolera, estará 
ultimada ; a auctoridade desapparecerá, no limite, por 
inteiro; a liberdade individual será plena o comple- 
ta. As relações sociaes manter-se-hão, de per si, mer- 
cê dos pactos espontâneos, contractuaes, mútuos, cujo 
esboço se apercebe desde hoje no principio politico 
da federação, nas leis civis e commerciaes das com- 
panhias, nas associações moraes de soccorro c pre- 
vidência. 

. Mas isto é o limite ideal da selecção da espécie; 
é a perfeição abstracta, para que ainda rasteja, no 
desmesurado longe, a grosseira condição hodierna. 

Transformar similhante aspiração lógica n'um 

corpo de doutrina politica concreto e immediatamente 

adaptável, importa nâo ^uteiAet ^ ax\Rtayre&v ec^ui- 



O BRAZ1L MENTAL 441 



vale a trelêr nos mestres ; é o desvairamento mental 
(nos cultos e nos repousados, ricos e philosophantes, 
Réclus, Kropotkine) mais inconcebível que se possa 
apprehender, na crepuscular região das chimeras, 
utopias ou hypotheses, inopportunamente, do somno 
enlevado, tentadas trazer á realidade da vigilia ás- 
pera. 

Para que a anarchia, com ou sem traço, a li- 
berdade integral, luminosa e pura, do céu crystallino 
dos philosophos, onde revoam os archetypos immar- 
cessiveis das idéas, baixe sem mancha a esta terra 
betuminosa, torna-se irremissivel uma mesquinha 
clausula prévia. E que a lei moral, pelo reconheci- 
mento dos direitos alheios, dos deveres próprios, do- 
mine no coração do homem, com uma tyrannia em 
tal guisa absoluta que nunca poude conseguir simi- 
lhante o principio exterior da auctoridade, nem com 
todas as suas masmorras, nem com todas as suas 
forcas e polés. Como quer que seja, afim de que nos 
approximemos d'esta miragem sublime, decerto é li- 
cito prescindir do monstruoso assassinato mensal dos 
freguezes dos botequins, apanhados, de súbito, á mão 
de semear; ou, mesmo, dos actos de justiça, em con- 
ciliábulo mystferioso, sentenciada. Á laia de sobrevi- 
vência dos tribunaes secretos, das santas-vehmas, dos 
írancos-juizes. 

Entretanto, o Brazil está indemne. Elle se con- 
serva no typo tradiccional, agricola o mercantil, a 
íjue a invasão do industrialismo prestes virá pôr 
termo. 

Esse typo o creou a iniciativa, sobretudo, de José 
da Silva Lisboa, principal instigador do txasta&s ^^ 



i 



442 O BRAZIL MENTAL 



1810, com que o príncipe regente abriu os portos do 
Brazil á livre intromissão das mercancias europeas. 
É curiosa a ingenuidade do egoismo inconsciente de 
Portugal pela bôcca do historiographo Soriano, quan- 
do, a propósito, accusa o visconde de Cayru da pe- 
cha de ingratidão para com a velha Lusitânia. 

Ao Brazil esta lhe era antipathica em summo 
grau; e legitimamente. O facciosismo dos liberaes de 
1820, querendo fazer voltar o reino-unido ao puro 
regime colonial, choca pela contradicção. Assim, o 
brazileiro que, em 1852, com notas de um bahiano, 
discorreu sobre o Monopólio estrangeiro, desenro- 
lando as misérias brazileiras, referindo-se ás cortes 
de 1820, e increpando os portuguezes, diz, com triste 
verdade: «Eram nossos inimigos por tal modo, que 
no tempo em que restauravam a liberdade em sua 
pátria, planejavam impôr-nos os grilhões que arran- 
cavam de seus pulsos.» 

Ha que distinguir ; não era bem assim : inimigos 
dos brazileiros não eram os portuguezes; eram ami- 
gos de si-mesmos. E ao seu interesse sacrificavam a 
equidade. 

Mas todos são assim, emquanto vamos moure- 
jando na ascencional escala. 

D'ess'arte foi a Inglaterra, cuja amizade o Brazil, 
mal liberto de Portugal, logo teve ensejo de apreciar 
de que quilate era e a que móbil obedecia. 

Abolida a escravatura em suas colónias, o impe- 
dimento da acção da lei da concorrência, que lhe era 
imposto por sua anterior iniciativa, reflectiu-se im- 
mediatamente no Brazil pela vilta de incomportáveis 
vexames. 



O BRAZIL MENTAL 443 



Votado o inacreditável bill Aberdeen, começa- 
ram as buscas dos cruzeiros; e ao estadista Eusébio 
de Queiroz coube a honra de integrar o Império nos 
estímulos da' verdadeira e sincera philanthropia. 

A publicistica brazileira não tardou a dar fé da 
perfídia britannica; e as reclamações da justiça suc- 
cederam-se, em obras por são critério inspiradas. 

Em 1844, na Bahia, publicava o dr. A. J. Mello Mo- 
raes, chronista estimado, um opúsculo elucidativo so- 
bre a Inglaterra e seus tractados ; era trabalho rápi- 
do e perfunctorio, se bem que condensadamente n'elle 
tudo o de essencial se resumisse. Mas, em 1868, appa- 
recia, no Rio-de-Janeiro, discutindo a questão do tra- 
fico dos africanos, uma obra vasta, acerca das rela- 
ções entre O Brazil e a Inglaterra. Em suas lau- 
das, eruditas e indignadas, o conselheiro Tito Franco 
d' Almeida, positivamente, esgotava o assumpto. 

Destas considerações, basilares, indispensáveis, 
sobre o condicionalismo do trabalho agricola, che- 
garia tempo em que os brazileiros reparassem no ex- 
clusivo typo a que os votava, confinados n'esse mes- 
mo trabalho, o ardil especioso da doutrina britannica 
do livre-cambio. Estribada em abusiva applicação da 
lei da divisão do trabalho, o seu sophisma intrinseco 
havia de destacar, mais tarde ou mais cedo. 

Destacou. Começou-se pelas timidas reflexões op- 
postas em folhetos anonymos, como o opúsculo que 
sobre o Proteccionismo estampou Francisco Rebello 
de Carvalho, no Rio-de-Janeiro, em 1882. Educou-se 
o espirito nas lições da sciencia geral, consoante as 
que vulgarisou o advogado Alberto da Rocha Miran- 
da, vertendo para sua linguagem os %\\%%<s$tàN^ ¥A»- 



444 O BRAZIL MENTAL 



mentos (fesse Mac-Leod cujo relevo especial consiste 
em haver reconduzido toda a economia politica á 
doutrina da troca, e em ter esteado a definição do 
valor unicamente sobre a relação entre a offerta e a 
procura. Finalmente, nos nossos dias, attribuindo im- 
portância primacial, no seu paiz, ás industrias extra- 
ctivas, nâo lh'a attribue exclusiva o dr. Caminhoá. 
Esquiva-se, pois, do tremendo corollario exhaustivo, 
que Carey poz em relevo; e confoge para o axioma 
económico que elle diz que nâo devem os brazileiros 
esquecer. E é que, n'um ponto-de-vista de utilitaris- 
mo, financeiro e politico, importa: «industria nova, 
riqueza nova para o thesouro.» Também, o próprio li- 
vre-cambista Lourenço de Albuquerque, que entende 
que o «proteccionismo é repellido pela sciencia e nào 
se concilia com o espirito democrático do tempo », ar- 
rastado na corrente, faz restricçòes e acceita o sys- 
teina protector das tarifas alíandegaes, «como expe- 
diente ou medida de excepção» em prol das indus- 
trias brazileiras «outrora tào modestas e agora tão 
ambiciosas.» 

Alargado o âmbito de acção do trabalho, me- 
lhórmente se antolha o recurso que o portuguez no 
Brazil busca á sua miséria de casa. 

Alli não vae esmolar, nem sequer pedir favores; 
antes augmentar a riqueza collectiva por o simples 
effeito da sua actividade individualista. 

A economia portugueza se resentirá benefica- 

mente d'este transporte de actividades, que, se não 

no todo, em parte refluirão para este paiz, a titulo 

gratuito, como pensões, subsídios, ou integral rever- 

teneia de redditos lá adqvvvnàos. 



O BRAZIL MENTAL 445 



l/esta dependência nos temos valido até agora. 

Valer-nos-ha ainda? 

O que seria se assim nào fosse, hoje que a cir- 
culação metallica desappareceu entrenós, stigma d'um 
depauperamento profundo dos tecidos economicamen- 
te connectivos ? ! 

Ora, são já hoje geraes os clamores, que se le- 
vantam na presença da angustiosa situação publica, 
demonstrada pelo crescente aggravamento cambiai 
e testemunhada por mil documentos da atroz miséria 
de que softrem as classes populares, sem remédio a 
seus males nem consolações sequer em suas angus- 
tias. 

Entretanto, com uma inconsciência que toca as 
raias do cynismo mais alvar, poisque proceda e se 
firme n'uma estupidez fundamental, crassa pela igno- 
rância e odiosa pela petulância, os governos prose- 
guem em sua rota triumphal, desde a ominosa data 
do ultimatum inglez, n'uma dictadura permanente, 
altivos como se marchassem, entre palmas e sauda- 
ções, sobre a estrada augusta que conduz os vence- 
dores ás consagrações das apotheoses. 

investidos de todas as faculdades; despreoccu- 
pados de quaesquer opposiçòes; havendo rasgado, 
com uma solercia espantosa, cada um sua tira, o có- 
digo essencial das mediocres liberdades constitucio- 
naes, — a responsabilidade, moral, politica e histórica, 
dos dirigentes, de então para cá, é prodigiosa. 

Todos, elles se substituíram aos restantes cida- 
dãos portuguezes, afim, diziam, de salvar a naciona- 
lidade, resgatando a pátria de calamidades tremendas 
de que só elles se julgaram, Ql <s»\ t&s&\&s^ <5.^«n*a> 



446 O BRAZIL MENTAL 



de nos livrar. Tâo grande confiança parece que, al- 
ternativamente, depositaram em seus méritos que nào 
toleraram, nem uns nem outros, conservadores cha- 
mados e chamados progressistas, reaccionários am- 
bos, não toleraram a discussão das suas palavras, 
nem permittiram o exame dos seus actos. 

Armaram-se de poderes draconianos; persegui- 
ram, a torto e a direito, os seus adversários; alle- 
garam, para justificar arbitrios e abusos, as neces- 
sidades implacáveis da gravissima situação do paiz ; 
e, afinal, o que é que fizeram em bem da pátria, 
ameaçada de ruina; que conta darão, no tribunal da 
historia, da audaciosa temeridade da sua permanente 
dictadura ? 

A resposta é triste para elles, poisque attesta a 
radicai nullidade de seus merecimentos. Nenhuma 
grande medida, rasgada, fecunda e patriótica, proce- 
deu da iniciativa dos successivos ministros, e aos con- 
selhos dos gabinetes successivos presidiu, com lasti- 
mosa insistência, a mais lamentável de todas as inó- 
pias criticas. 

Assim, lentamente chegou-se a um ponto des- 
esperado e desesperador. Queixa-se a agricultura; 
lamenta-se o commercio : e geme a industria. Mas as 
officiosas folhas affectas ás deplorandas situações of- 
ficiaes ainda teem o desplante de attribuir as culpas 
ao paiz, accusando-o de assustadiço sem razão nem 
motivo, e de chimerico em suas pessimistas presum- 
pções que, por ventura, nenhuma rasão tenham de 
existir. 

Todavia, a penúria attingiu os extremos pavoro- 
sos em que parece renovaxfcm-s& t^^amo^s, ç&*qs tre- 



O BRAZIL MENTAL 447 



mendos desastres periódicos das grandes fomes que 
assignalaram o sombrio pezadello da edade-media. 

Suppunha-se que só a Rússia ofíereceria hoje, no 
extremo oriente, espectáculo tam tragicamente accu- 
sador da incapacidade dos governantes. 

Mas, no extremo occidente, as populações ru- 
raes de Portugal revindicaram essa abominável ori- 
ginalidade. Não é só o mugich slavo que succumbe 
de pura mingua na desolada steppe; aqui, também, 
sob um céu esbrazeado, o camponez alemtejano dis- 
puta aos porcos, na morta charneca, os instantes 
breves que lhe aííastem a extrema inanição. 

Para que o paiz chegasse a apresentar este pa- 
norama de desespero, que acorda ímpetos de raiva 
nos corações mais tranquillos, é que nos cercearam 
quasi todas as liberdades; e esses nefastos ministé- 
rios, de janeiro de 90 para cá, pompearam e pom- 
peam na affrontosa gala de nos insultarem com to- 
das as violências, collectivas ou pessoaes, dissolvendo 
associações, encarcerando publicistas, prohibindo o 
que lhes appetece e permittindo, táo só, o que muito 
bem lhes dá na gana, incoherente e bizarra. 

Nào só esses governos não pensaram em accudir 
com remédio idóneo á crise financeira que, desde o 
negregado empréstimo dando por hypotheca uma ga- 
rantia especial, a do rendimento dos tabacos, abriu a 
bancarrota. Mas á crise económica que vem lavrando 
no paiz, agravaram-a com os seus constantes absur- 
dos tributários e nepotismos politiqueiros. 

Os ministros do interior (do reino) distingui- 
ram-se, então, pela sua faina. O empenho d'elles con- 
sistiu em corromper, ainda m&\&, «sta& \k \sxssl fcs»r- 



448 O BRAZIL MENTAL 



moralisadòs cidadãos (?) portuguezes. Assim, des- 
onvolveu-se prodigiosamente essa immunda praga da 
policia secreta, isto em um regimen, aliaz, de paz 
podre, de tranquillidade absoluta e perenne. 

Creou-se d'est'arte uma nova íórma de anichar 
protegidos e alargou-se o favoritismo por um pro- 
cesso, senão novo, pelo menos ainda não systemati- 
camente usado. 

Dos protervos gabinetes coevos,, um dos males 
sociaes, de sua obra e gestão, mais perniciosos é, por 
certo. este. Assim se depravou ainda para peor o ca- 
racter nacional, imprimindo pusillanimidade n'uns e 
villania n'outros. Assim, se apartou o paiz em duas 
castas de gente, uma de medrosos, outra de espiões. 
E para esta desgraça, para se obter tão grande ca- 
lamidade publica, não se olhou a gastos; despen- 
deu-se, despende-se. despender-se-ha (até quando!) 
com largueza, opulência e prodigalidade. 

Entretanto, os lavradores do Alemtejo susten- 
ta in-se de bolota. Mas uma infecta canalha, escoria 
das escorias, vai cobrando, ás escondidas, pingues 
honorários, para cujo pagamento nunca o thesouro 
se confessa em carência de recursos; ao contrario. 

Ah! Quando bem se considera na degradação 
a que toda esta sociedade portugueza chegou : sem 
riqueza, sem credito e sem liberdade; quando se 
pensa que se vive ou, antes, se vegeta, á mercê, na 
falta inteira de garantias liberaes; quando se cal- 
cula não só quanto distamos dos cidadãos estrangei- 
ros mas até quanto descemos na posição, quer de 
relativa felicidade matoilaV <\\m>a % de, relativa digni- 
dade moral, que, ainda a», aç*' 1 *** ^^^^^>- 



O BRAZIL MENTAL 449 



zares, occupavamos, ha, tào só, coisa (fuma escassa 
dúzia de annos, se muito, antes de se iniciar este 
feroz movimento de reacção, em cujo apogeu, se, 
porventura, nos não encontramos hoje, quiçá amanha 
nos encontraremos: quando tudo isto se pondera e 
medita, uma onda do sangue da vergonha só não 
tingirá a face d'aquelle que íôr, completa e radical- 
mente, estanhado! 

Quem teria a audácia de acoimar-nos de exag- 
gerado nos conceitos de que derivamos? Haverá quem 
negue, impiamente, a verdade conhecida por tal? 

As tristes provas estão patentes. E o lacto é que 
o clamor de desgosto é intenso e unanime. 

Por isso, desesperando da própria terra, ancia- 
damente se olha, primeiro, para a pátria aífin. De 
Portugal repellido Portugal, o Brazil, também, o 
aguarda. Com a Africa, a America absorverá a Eu- 
ropa. 

Já o Brazil, official e social, como que sugges- 
tionado pelo inconsciente, que o sollicita, começa, 
intermittentemonte, de tornar menos duras as condi- 
ções moraes de recepção dos adventicios. 

Assim, o puro conceito, radical e extreme, do 
americanismo principia, no Brazil, sem embargo do 
nacionalismo do jacobinismo, de soífrer, d'onde a on- 
de, sensatas restricçòes. No movimento, accentuou-se, 
por obediência doutrinaria, entre os novos critérios, 
o positivismo. 

¥a\\ suas Soluções positivas da politica brazi- 
leira, o dr. Luiz Pereira Barreto, sustentando a eligi- 
bilidade dos acatholicos, o que integraria na socieda- 
de brazileira todo o copioso etarnewto ^OTeasxàR»./^ 



450 O BRAZ1L MENTAL 



propugnava pela grande naturalisaçào, a qual seria, 
a seu parecer, o meio de supprimir o problema odio- 
so do commercio a retalho. O monopólio d'este ramo 
da actividade pelos indigenas, oífendendo todas as 
leis civis de todos os povos cultos, custa a crer co- 
mo, em seus Estudos brasileiros^ um homem illus- 
trado e intelligente, qual o paraense José Veríssimo, 
viesse a consideral-o viável. Melhórmente o inspira- 
va o positivismo ao dr. Barreto, quando o tazia con- 
fessar que tam estrangeiro era no Brazil afinal o bra- 
zileiro como o portuguez. Somente, residia alli ha 
mais tempo. Nada mais. O commercio a retalho de- 
veria monopolisal-o, pois, o selvagem das ribas do 
Amazonas. 

Felizmente que o preconceito de revindicta na- 
cionalista se vai esbatendo, apezar das odientas e 
odiosas revivescências como as dos últimos mezes, 
n'um systema de idéas melhórmente humanas e ra- 
soaveis. Assim, conforme dissemos, a intuição geral 
do americanismo cede o passo a uma comprehensào 
mais vasta e equitativa. 

Em ensaio de não mais tarde do que ha dois 
annos, 1896, e especial, precisamente sobre esse 
thema de O espirito americano, Magalhães de Aze- 
redo reconhece que «a Europa ha-de ter ainda por 
muito tempo a missão augusta de mestra do uni- 
verso». E o seu anhelo por que a America se esforce 
por attingir o ulterior equiparamento com a Europa 
não representa senão uma convergência de utilidade 
incontestanda na cultura geral. 

Aos trocos miúdos, nos simples problemas de 
deíalhe, nos aspectos ^atcfcY\iMe& <te uma questão 



O BRAZIL MENTAL 451 



ampla e genérica, é grato ir vendo a orientação scien- 
tifica predominar crescentemente sobre as grosseiras 
impertinências d' um nativismo desatremado. 

Relevam os estudos de grammatica portugue- 
za — nas columnas da 3. a serie da Revista Brazilei- 
ra insertos pelo snr. M. Said Ali. Exhibem a transi- 
ção entre o ponto-de-vista politico da pseudo-scien- 
cia de um Paranhos da Silva para uma livre doutrina, 
independente de antipathias ou sympathias de nacio- 
nalidades. Assim, na questão da collocação dos pro- 
nomes pessoaes na linguagem corrente, Said Ali, da 
sua analyse, conclue que a regularidade lusitana é 
correcta em Portugal; a liberdade de collocação é 
correcta no Brazil, «conforme (diz) já está sanccio- 
nada na linguagem litteraria pelos escriptores bra- 
ziieiros.» 

Ainda ficou atrazado; mas já avançou caminho. 
Esquece que escriptores brazileiros existem corre- 
ctíssimos a propósito. Ou por sciencia do idioma, con- 
forme Machado de Assiz; ou, por influxo ethnico de 
procedência, consoante Varnhagen. A abolição da es- 
cravatura e o consequente eliminamento do factor ne- 
gro, cuja influencia domestica se oblitere e cujo refle- 
xo social se annulle, como corollario, — eis o que ha- 
de tender a approximar o portuguez-braziloiro do por- 
tuguez-portuguez. Então, emancipada de influencias 
deletérias inferiores a linguagem, é que poderá se- 
guir o seu independente curso, que porventura seja 
rythmico, consoante o cuida o recentíssimo Victor 
Henry, cuja theoria interpretativa do monosylabismo 
chinez, á face do exemplo das regressões nas &ra«L- 
maticas do allemão e, com es\fec\a\VtaAA, ^a Vasêsn*^ 



452 O BRAZIL MENTAL 



particularmente engenhosa e interessante, contribuin- 
do para resolver a contradicçào que já impressiona- 
ra Quatrefages com respeito ao desconnexo conflicto 
de superioridade reciproca entre raças e idiomas. 

Porém só então. E nào só pelo que toca á lingua- 
gem, mas ainda pelo que á gente, mesma, respeito diz. 

Á lei litteraçja, de Syivio Romero: de que o bra- 
zileiro constituiria um typo mestiço, elle mesmo se 
encarrega de lhe fixar o alcance transitório, mos- 
trando como o elemento europeu ha-de desembara- 
çar progressivamente, cada vez melhor, o Brazil so- 
cial dos elementos caboclo e negro. 

Na verdade, um factor de afinamento heteroge- 
neista, de differenciaçào progressiva existe que rea- 
ge, sem inquirir por que, graças a um inconsciente 
estimulo, contra todos os prejuizos e contra todos os 
interesses do aggregado politico estabelecido. Esse 
elemento é a mulher. Ella busca, de preferencia ir- 
resistível, o macho de raça superior; sem o saber, o 
casamento é um posto de padreação anthropologica; 
ahi se apura a raça. 

Assim, não duram hybridos humanos; assim, se 
não constituem civilisações mestiças. A convergência 
é, sempre, para a raça pura mãe e, de escolha, para 
a superior. A identidade da linguagem dará a pre- 
valência, d'entre os brancos, ao portuguez. E a uni- 
dade, syncretica, emfim synthetica, para que se mar- 
cha, vencerá os attritos que lhe opponha o estúpido 
orgulho antagónico dos portuguezes contra os bra- 
zileiros e dos brazileiros contra os portuguezes. É a 
mulher brazileira quem tatvta ^ rovtaAda. 

isso, a percuclcrtite \>««ç\çaà\& ^ \xw*\&r- 



O BRAZIL MENTAL 453 



pular divisou, nas terras de Santa-Cruz, com clareza 
plena, o cachopo dos rancores tradiccionalistas e so- 
ciaes. O refrenij raivoso, grita ao portuguez, que, 
pela familia constituída, se torna sedentário no Brazil : 



Oh gallego, pèdi-chumbo, 
Calcanhar, di frigideira, 
Quem ti deu atrevimento 
Di casar com brasileira? 



Foi ella, a brazileira mesma, quem lhe deu esse 
atrevimento, que encolerisa. Poi ella, a brazileira 
mesma, cujo amor, servindo a raça, serve a causa 
do Brazil. 

Tobias Barreto escreveu algures que a brazilei- 
ra c mais intelligente do que o braziléiro. 

A interpretação, oriunda e derivada, nào servi- 
ria, porém. O caso é outro. 

Elle está explicado desde Schopenhauer, em sua 
Metaphysik der Geschlechtsliebe, que, sem embar- 
go, elle tinha, realmente, rasào de considerar como 
«uma pérola». 

Abordando, o temeroso problema do amor, o my- 
santhropo mostrou que esta paixão é especifica, de 
sua natureza. O individuo nào passa, na verdade, de 
um instrumento. As gerações presentes tratam, in- 
conscientemente, das gerações vindoiras, ra e recti- 
ficadas. É a hypothese do lance. 

E d'ess'arte se enxertou Portugal no Brazil. D'es- 
s'arte encetou o Brazil sobre Portugal seu psychico 
influxo. Hoje, este já se resolveu, até, em fa.cto& ^ss^- 



454 O BRAZIL MENTAL 



cretos. Já determinou successos. Já inspirou com- 
mettimentos. 

A influencia da Nova-Lusitania nos destinos da 
velha transcendeu, na verdade, da simples região 
económica; ella se accentuou nos dominios da aspi- 
ração social e da pratica politica. 

O êxito magnificente da mutação, como de sce- 
nario de magica, do ló de Novembro de 1889 des- 
pertou o prurido das imitações. Pensou-se possivel a 
substituição institucional por meio da revolução sem 
sangue. Assim se produziu o 31 de Janeiro de 1891. 

Mas o destecho do tentamen só o pode comme- 
morar o c 2 de Novembro de cada anno. 

Dobram então os sinos, implorando a piedade 
dos homens para a lembrança dos seus irmãos já cha- 
mados a contas; e o campo-santo touca-se das tris- 
tes grinaldas do luto. 

A multidão saudosa acode aos cemitérios, em 
severa visita, cuja pratica, nos últimos annos, imita- 
tivamente tomou dos costumes francezes. Adoptara 
(sem o conhecer, decerto, aliaz) o conselho que, de 
volta da sua primeira digressão á capital do mundo 
civilisado, lhe suggeriu, enternecido do ineííavel en- 
canto da novidade, relatando o que, maravilhado, alli 
vira, o snr. Pvamalho Ortigão, no seu volume Em 
Paris, impresso por 1868. 

Pelos mortos, badalam, então, longo, moroso, 
cavado, fundo, os sinos, chamando-os por um ins- 
tante á vida, fremente nas doloridas almas que os 
amaram. 

Pelos vivos, também os campanários retumba- 
ram, /i'aquella fatal maàmgaà&, e\v^\xv^cÀa-^ ^n^l 



O BRAZIL MENTAL 455 



á morte, gloriosa nos aimaes das civicas dedicações. 

Sobre a relva rasa choram entáo os olhos affli- 
ctos; também n*esse brumoso crepúsculo cahiram 
sobre as cabeças dos combatentes as lagrimas do 
céu compadecido. 

Noite de esperança, noite de angustia, menos 
caliginosa e turva do que o claro dia subsequente, 
ensolelhado, em demoniaco sarcasmo. 

Noite eníebrecida e cruel, onde o clangôr ama- 
rello do rebate, afeiçoando-as, poz nas almas em so- 
bresalto a nota romanesca das catastrophes. Noite 
densa, noite escura, ai de nós, a noite luminosa 
e viva. 

Noite de sonho, noite de anhelo, em que pelo ar 
espesso perpassou a cândida imagem da liberdade e 
fulgurou, crepitante, o ciarão sagrado do futuro. Noi- 
te de pozadello, noite de agonia, em que rangeram 
os ferrolhos das prisões, ávidas da pitança, e o anjo- 
da-guarda da pátria, soluçando, escondeu o rosto, na 
dôr, desesperada e allucinante, da derrota. 

O anjo-da-guarda da pátria! Da pátria? Sem ella 
não podemos subsistir, na verdade. Mas será esta 
bem a nossa? 

Assim como se não pôde viver sem pão, diz o 
poeta que também se não pôde viver sem pátria. 

Porém entendamo-nos: — a Pátria não é uma zona 
qualquer onde accidentalmente nascêssemos, povoa- 
da por gente que comnosco não participe idéas e sen- 
timentos, que ria da nossa afflicção e rejubile com a 
nossa desdita. Um homem não está preso pelo pé ao 
húmus como uma hortaliça, e a terra d'onde pro- 
veio é-lhe bem indifferente, se essa leira, dus** *» \ssr- 



456 O BRAZIL MBNTAL 



• grata, nem sequer se deixa infiltrar de suas corrosivas 
lagrimas. 

A Pátria é um principio de solidariedade colle- 
ctiva. A Pátria é uma religião. Ora, se no templo nào 
temos ingresso, consoante no campo nào soffrem que 
construamos a tenda, somos, evidentemente, de mais. 
A hostilidade moral expulsa os que escapem á inti- 
mação económica de prompto despejo. Para outros é 
que luz o sol; escorraçados como leprosos infectos, 
mendigos moraes, teremos de deitar a sacola aos hom- 
bros, volver as costas, partir. 

Nós, republicanos, estamos hoje, na sociedade 
portugueza legal, proximamente como n'ella se acha- 
vam os christâos-novos no século xvu. Curiosa con- 
tradicçâo, que a nossa pusillanimidade explica. Cons- 
tituímos, de secção consciente, a maioria, e não te- 
mos direitos; somos provisoriamente permittidos, por 
tolerância e como que por caridade. Mas não fallare- 
mos, não escreveremos, não nos associaremos, sob 
pena de purgarmos na cadeia o delicto de possuir 
sangue na cabeça para conceber idéas, sangue no 
coração para as propagandear. 

Com a pressão governativa em cima de nós; á 
nossa roda com a indifferença besta de certa parte 
do publico e a covardia mórbida d'outra parte: a si- 
tuação, dia a dia, tinha de ser para cada triste diabo 
de jacobino (o qual ingenuamente viu irmãos em 
conterrâneos, dos quaes uns se converteram em algo- 
zes cruéis, outros em gelados espectadores do sup- 
plicio inflingido) tinha de ser, para esse macillento, 
chimerico jacobino, a situação moral, dia a dia, mais 
nrecaria e insupportaveV s Yi\i\\í\YbaB\fò ^ ^taRKztta.. 



O BRAZIL MENTAL 457 



Como quem d'um sonho de felicidade primave- 
ril despertasse na algidez das catacumbas, peza-nos, 
de ha muito, sobre a consciência (que deveria ser 
autónoma, de cidadão livre) peza-nos uma abobada 
salitrosa, em cujo recôncavo esvoaça a aza immensa 
e negra da morte. 

Urge irromper, por vida nossa!, da masmorra 
hedionda em que começou a agonia do nosso espi- 
rito. Na tarefa periodistica, já descendo alguns dos 
immundos degraus d'uma escadaria lúgubre, roja- 
mos a dignidade do pensamento, esquivando-o, afrou- 
xando-o, reduzindo um pharol oceânico ao bruxulear 
supplicante d' uma lamparina de alcova. Degrada- 
mo-nos n esta inglória íaina ; envilecemos, sem o sus- 
peitarmos, sequer, que nào, bofe, por o querermos; 
talvez já tenhamos sido abjectos sem dar por isso; 
prostituimos o talento e, coactos, perdendo mesmo no 
simples renome de escriptores, a nossa prosa abas- 
tarda-se, deroga no tom, empallidece, murcha, como 
um jasmim aos effluvios d'uma cloaca; sem liber- 
dade, somos os castrados do ideal. 

Assim — nâo, não, nào! 

Nào é uma facha de terra, ingrata e dura, que 
nem sequer tolera que se lhe infiltrem suas lagri- 
mas, a pátria do judeu, até hoje disperso aos quatro 
cantos do mundo. Seus filhos, amamentados na dôr, 
batidos do vendaval furioso' no recesso do coração 
erguem o altar sublime, que não demanda pedra, 
que não requer paramentos, que o incenso nâo per- 
fuma; mas d'onde se evola até á Providencia o ho^- 
sanna, prolífico de bênçãos. De pro fundis clamavi ad 
te, Domine! 



458 O BRAZIL MENTAL 



Não tinham pátria os protestantes que Luiz XIV 
acossava da França; não tinham pátria os heréticos 
sobre cuja tremula cerviz São Domingos arrancara 
do fanático gladio da sua Inquisição; não tiveram 
pátria os crentes jamais, os dedicados, os innovado- 
res, os homens de progresso e de justiça jamais. 

Que muito que a não tivéssemos nós agora tam- 
bém? Que muito, quando nos não aconteça senão 
reatar uma tradição de honra e dignidade e bene- 
merência para o paiz? 

Ainda não correu mais de meio século depois 
que portuguezes, de tão acrysolada fé como a que 
nos sutura, íôram expiar na ver mina de Plymouth o 
haverem imaginado para a sua terra uma éra de 
ordem, de trabalho, de prosperidade. 

Geração íatal, o insondável destino não nos con- 
cede o pousio dos periodos, por isso normaes. Al- 
guém determinou que proclamássemos um credo 
novo; que alarmássemos os interesses illegitimos; que 
fôssemos a esperança dos opprimidos; que nos sa- 
crificássemos pela redempção alheia; e que nos pu- 
nisse na civica virtude, na abnegação e na lealdade 
todo um mundo a que trouxéramos o verbo do res- 
gate. 

É a velha historia, que paira no azul, quando o 
combatente se chama John Brown e salda, pelos ne- 
gros, no triangulo da forca; que topeta no céu, quan- 
do ao lidador (ungindo-o da fé e da esperança) lhe 
chamam o Christo e paga pela humanidade inteira, 
na vertical da cruz. 

Alguém o determinou, sim; mas esse alguém é 



O BRAZIL MENTAL 459 



A severa sentença nâo nos faz, todavja, sossobrar. 

Que importa? 

Vbi libertas ibi pátria; onde a liberdade, ahi a 
pátria. 

Onde o pensamento não esteja á mercê; onde á 
segurança não a sobresalte a suspeição; onde o or- 
ganismo moral possa, sem attritos, expandir-se: onde 
a palavra escripta não sirva de antecâmara ao er- 
gástulo; onde não seja crime, vulgarisar opiniões; 
onde uma atmosphera de sympathia intelligente vi-r 
vifiqiie o espirito individual: — ahi é que está a pá- 
tria. N'outra parte, nunca! 

O nativo. d'um paiz de tyrannia, se revindica 
os direitos ingenitos, não lhe pertence, porque na 
cidade do despotismo ha somente fâmulos. Estran- 
geiro na sua nação, o homem de caracter é, n'esses 
momentos, como se nado íôra nas terras da liberda- 
de. O exilio não o apavora, porque prefira ser um 
cidadão faminto a um escravo gordo. 

Mas para quê? Nâo haverá necessidade, ainda, 
de tal. Não bateu quiçá a hora irreversível. 

Faciamus hominem. Faciamum patriam. Á deusa 
sobranceira, ainda a invoquemos; confiados ainda: 

— Oh Liberdade, virgem-mãe ! Apieda-te dos teus 
pobres filhos. Bronzea-lhes o peito; tempera-os na 
hora da provação, que vai longa; tempera-os no ins- 
tante do martyrio, que talvez vem breve. Modera-os 
e ennobrece-os no minuto do triumpho. Não desvies 
d'elles teus olhos. Que as dobras da tua bandeira 
sacrosanta os cubram e incitem, se é necessário com- 
bater; que ella lhes sirva de mortalha, se é necessá- 
rio morrer! — 



460 O BRAZIL MENTAL 



Novamente; como a essa luzida vanguarda que 
já cahiu. 

Na quietude libertadora dos cemitérios repou- 
sam agora os vencidos, menos mortos, pois que a 
historia os consagra, do que os vivos que aguardem 
os vilipêndios das gerações vindoiras, que seu egois- 
mo e sua covardia sacrificam. No descontentamento 
de si próprios, arrastam, os que vão vegetando, a in— 
comportável grilheta que chumba, nos corações ti- 
moratos e frios, a inexorável severidade da con- 
sciência, incorruptível e insubornavel juiz. 

Das campas ascende o effluvio da magnanimi- 
dade, que espiritualisa o pus, e nas faces descar- 
nadas dos cadáveres paira o sorriso, mysterioso e su- 
blime, que divinisa os heroes. Mas. cerram-se os lá- 
bios dos vivos, como que sepulchros ambulantes, a 
dentro dos quaes, consoante os do Evangelho, só ha- 
bitam a podridão e o negrume. 

Decerto que vivem a vida superior, a única pró- 
pria do ser consciente, aquelles que, na característica, 
profunda palavra do poeta, por obras valorosas, sa- 
dias e puras, se vão libertando da lei da morte. As- 
sim os que legaram lição e exemplo; assim os que 
contormaram, até o desinteresse radical e extreme, 
as suas idéas com os seus actos; assim os que, pela 
abnegação, demonstraram a sinceridade exacta e a 
lealdade perfeita. 

Entretanto, prostrados e abatidos, capitulando 
sem pelejar, fazemo-nos surdos, porque não quere- 
mos ouvir; e cegos nos fazemos porque teimamos 
em nào vér. 

Forcejamos por nos ç&toateart vvtv\t ta^\a&çfa& «o~ 



O BRAZIL MENTAL 461 



bre festejos; esturdiamos; dansamos; rimos as garga- 
lhadas. Qual o desgraçado que um cancro roe ou 
uma decepção acabrunha, e que nos venenosos va- 
pores do álcool busca a ephemera illusão d'um es- 
quecimento vingativo. 

Bem sabemos ; bem calculamos ; bem conhece- 
mos que estamos perdidos, se nos não dispuzermos 
ao arranque d'um Ímpeto salvador. 

Mas uma atonia desorganisante impossibilita-nos, 
paralysa-nos na polé da tortura. Comprehendemos, 
mas não queremos. O mal não é da intelligencia; é 
da vontade. Nós não podemos querer; santo Deus!, 
nós não podemos querer. E, assim, não sabemos 
viver nem sabemos morrer. É atroz. 

D^esfarte, a propaganda resulta quasi estéril, 
porque as convicções estão feitas, mas os ânimos é 
que não estão dispostos. Covardes, covardes que so- 
mos! 

Em sua allegoria a antiguidade clássica represen- 
tou altivamente a emergência do pensamento — fazen- 
do brotar da fronte do pae dos deuses Minerva-arma- 
da. A idéa, porém, nas gentes apalpadas pelo castigo, 
nasce escrophulosa e coxa, envolta nas íaxas fétidas 
de medicamentosos pensos. Sabe a insípido; mas 
cheira a iodoformio. Engulha. 

Não é a idéa que Hegel viu, com assombro, a 
dominar o mundo; periclitante, ella, essa pseudo- 
idéa arrasta, viscosa lesma: não íorça as intelligen- 
cias; não reconstitue os caracteres; antes, estes vêem 
dotados, naturalmente, do um azedume estéril, que 
se irrita em aggressòes contra aquelles que insistam 
na exhibição das desgostantes verdades. Amua-sa\ 



462 



O BRAZIL MENTAL 



acceita-se a abjecção; preferem-se as acquiescencias 
vergonhosas, mas nào se quer que nos mostrem a 
própria indignidade; afflige-nos que nos incitem á 
acção, mansos e quietos, já costumados, no esterqui- 
linio. Porem, por que sejamos assim, tam medíocres, 
tam insusceptíveis, tam aviltados, tam pobres e tam 
frouxos, — não é razão para que nol-o digam. Ah o 
indiscreto, o inconveniente, o mal-educado que, nos 
flagella com a nossa mesma conducta e nos adverte 
,d'aquillo precisamente de que nós repudiamos as 
admoestações ! 

Será indefinidamente á laia ? Deixem-nos não o 
crer. Deixem que nos inspiremos de certa máxima 
que um tam poderoso conhecedor das fluctuações 
históricas, como Alexandre Herculano, deixou regis- 
trada, para consolo dos que lograram a desdita de 
apparecer em epochas, congéneres, de relaxado in- 
differentismo. Elle profundou o sentido lógico dos 
acontecimentos; elle esmerilhou-os com escrúpulo. 
Julgamos assim, ao menos. 

Tobias Barreto, no Brazil, julga-o indigno, é certo, 
da camaradagem de Ranke. Mas Mor se Stephen, na 
Inglaterra, entende que «the. modern school of his- 
torians, which derived its first impulsion from Nie- 
buhr and Ranke, found a brilliant representative 
in Alexandre Herculano.» Comparando-o com Schae- 
fer, não decide como Tobias Barreto; ao contrario, 
exactamente. Diz : « Herculano undoubtedly owed 
much to Heinrich Scháfer...; but he went much 
further than Scháfer.» 

Ora, do seu longo, acurado, indefesso exame, 
Herculano extrahiu conclusões praticas, como regra 



O BRAZIL MENTAL 463 



de conducta e alento dos ânimos. Por isso, profes- 
sou, á luz de múltiplo exemplo, que «ainda no cai- 
rel do vórtice, uma crise oppurtuna pôde fazer d'um 
povo extincto uma grande naçào. 

Nós mesmos o verificamos repetidas vezes: com 
o advento do ramo de Aviz; em 1640; nos muros de 
Tolosa ; quando, no memorável dia d'agosto de 1820, 
formaram em quadrado os regimentos insurrectos a 
meio do campo de Santo Ovidio; sobre as linhas do 
Porto, promettido a saque pela realeza tradiccional. 

Portanto, sursum corda! Aprendamos a proce- 
der. Aproveitemos, para as civicas exhortações, todos 
os ensejos. Bem como, a todas as datas, as aprovei- 
temos, ainda áquellas dedicadas ás piedosas invoca- 
ções. Recordemos, então e sempre, os nossos heroes 
obscuros, os nossos inolvidados martyres ; para que a 
grande sombra dos seus espectros queridos povoe 
d'uma indignada nobreza o terreno safaro onde se 
remexe o inquieto chatinismo das nossas mesqui- 
nhas preoccupações. 

Que as lapides funerárias sejam inscripções voti- 
vas; que a melancholia dos cyprestes se transmude, 
a dentro das imaginações, no fragrante jubilo das 
accacias que enfloram os jardins de Academus. Em 
seus penetraes, venham, logo, .as novas gerações ad- 
quirir os fortificantes themas d'uma philosophia va- 
ronil. 

«Isto dá vontade de morrer»? Vibra certo o 
pungente grito? Teria rasào o pessimismo final do 
nosso hirsuto solitário? 

Pois bem. Que a morte nos ensine a vida e que 
os túmulos fiquem livro aberto. 



461 O BRAZIL MENTAL 



Mora liberatrix? Nào. Mors-vita. 

De certo. Seguramente. 

Porque, na vida dos povos, como na dos indiví- 
duos, surgem instantes providenciaes, quando os pró- 
prios interessados menos os esperam e nada os pre- 
sumem, os quaes os alevántam da dôr curtida, e do 
abatimento, supposto inexorável, os redimem. Propel- 
lem-os, esses momentos salvadores, em caminho no- 
vo, que lhes ha-de premiar os esforços pelo explen- 
dôr da sancçào das victorias. 

O jesuitico tentamen do trespasse definitivo, sob 
disfarçada forma, como acabou de nol-o prevenir o 
Figaro y ou mesmo cránement ás claras, a alienação, 
por qualquer maneira, de Lourenço Marques será o 
desfecho, conforme foi o preludio em 1881 ? Á ma- 
neira da Grécia, o controle financeiro vingará vencer 
a sopitante modorra? 

Por que será? Como será? 

Seja por que íòr e como quer que seja, o certo 
c que uma lei de justiça governa o orbe moral, con- 
soante, egualmente, uma íorça de attracçào regula- 
risa, outrosim, o mundo planetário. E impossivel que 
cm definitivo a força sobrepuje o direito; e que a 
virtude civica seja de eterno o escarneo dos infames. 
Para o azulado dos céus acabariam por se erguer 
maldições, quando, desde a candidez (diminuida, 
aliaz, por o renovador Bergaigne), desde a, mitiga- 
da, candidez do Hepta-Sindu, a humanidade encon- 
trou, na sua consciência e na observação da corres- 
pondente analogia objectiva, motivos para entoar 
psalmos e hymnos como assas maravilhosas endeixas 
que, reveladas â Kurov& cvi\\&, teiaswv ^. \^^èSir«^- 



O BRAZIL MENTAL 465 



•cia ingénua do primeiro dos quatro livros santos dos 
Vedas. 

Todas as aspirações de verdade, todos os anceios 
<le equidade, as reclamações do animo afflicto, as 
fúrias da miséria impotente, a necessidade suprema 
da harmonia progressiva e da concórdia civilisante, 
em cada momento da humana evolução se concre- 
tisam n'uma palavra symbolica e synthetica, poisque 
toda a causa, doutrinaria e pratica, careça d*uma 
formula typica. Sobre qualquer legião combatente 
urge que fluctuem as divisas legendas d'um estan- 
darte definido. 

N'este instante do nosso lusitano desenvolvi- 
mento collectivo, o mote revelador está encontrado. 
Tam manifesto e evidente elle se antolha que os 
próprios estranhos que de nós, eventualmente ( con- 
soante ha dois annos a imprensa italiana), de fugida, 
se occupam, o descortinam também. A imprensa ita- 
liana, ha dois annos. Ha dois dias, no periodismo 
hespanhol, Alfredo Vicenti. No jornalismo francez, 
Paul Ginisty. 

O lemma enxerga-se ostensivo. 

E elle o da Republica, esperança final, cujo abor- 
to significaria indefectivelmente a morte da nacio- 
nalidade. 

Se ella não succumbir antes do advento da repu- 
blica; se politicamente nào terminar ás mãos d'uma, 
mais que fiscal, administração estrangeira, longe de 
provocar a insurreição, acceite, com infâmia de clero, 
nobreza e povo; acatada pelo rei e pela grey; obede- 
cida pelo exercito e pela marinha. 

Para que tal monstruos\&&d& t&fc «fe\t, ^ \fwas» 



466 O BRAZIL MENTAL 



que a Republica seja. A Republica é, pois, o recurso 
in extremis. Não ha outro. 

Ou volveríamos ao absolutismo, pelo principio de 
que o bom filho a casa torna? Mas, em nossa gan- 
daia constitucionalista fômos mais que o filho pró- 
digo, fomos o filho indecente e relaxado. Da ban- 
dalheira passada, só rigorosa provação nos limpará. 
E, purificados, carecem os nossos pulmões de ar oxy- 
genado e livre. Na parca atmosphera viciada da le- 
gitimidade, asphyxiariamos. 

A Republica não é, portanto, já uma utopia de se- 
ctaristas ferrenhos, de puritanos, absorvidos pela ló- 
gica dura de princípios, hierarchicamente, dialécticos. 
A Republica é hoje a aspiração final, a expressão da 
angustia commum, o esforço ultimo do moribundo 
que appella para o remédio extreme, cuja, ,unica, sy- 
nergia o poderá, só, soerguer do miserando catre. Eis 
q (derradeiro) estimulo por que se affirme essa vir- 
tude curativa da natureza, transposto o esforço do 
inconsciente para os dominios da historia, a guiar a 
therapeutica social, a corrigir a pathologia collectiva. 
Assim, sob teleológico critério, se demonstre o opti- 
mismo immanente, que não logrou vencer a deses- 
perança irreductivel de Hartmann, já professando em 
1869, se antes de Sédan depois de Sadowa, mórbida 
tendência da raça, submissa, musical, enlanguecida 
e lagrimejante. O caracter activo da gente latina, 
fundadora do direito, romanamente politica, de sua 
condição structural. grave-se, uma vez mais, em 
contraste, com ^pujante relevo, como cumpre e é, 

não indispensável, mas s\m xut^rcta. ^\^^-^ ^ois, 

a Republica. 



O BRAZ1L MENTAL 407 



O critico fluminense da Pátria, por Guerra Jun- 
queiro, ri, comtudo, do republicanismo portuguez, 
poisque elle seja ainda um messianismo sebastianista- 
<cO Dê Sebastião agora chama-se Republica, não como 
um resultante da evolução histórica, lima necessi- 
dade social, mas como um remédio magico, uma 
formula mystica.» Como se todas as raças não ti- 
vessem tido, não tenham o seu I). Sebastião! Como 
se a Republica não houvesse sido, ha meia dúzia de 
annos, o 1). Sebastião da lépida e intrépida cariocada 
do Rio! Sua combatividade deveria servir, aliaz, de 
exemplo á sufíiciencia infundada dos que, finando-se 
de susto, teem o topete de chamar bananas aos brazi- 
leiros, por sua supposta molleza. Os factos se encar- 
regam de pôr em destaque a bravura de populações 
que se batem com encarniçada fúria; frequentemente, 
mesmo, com a ferocidade peculiar ao aborígene de 
cujo sangue gira a percentagem de uns tantos havos 
em suas cobreadas veias. Confessemol-o : os bananas 
somos nós, abundosos de arremettidas e feros, mas 
cuja leiva ainda não conseguiu parir um marechal 
Deodoro e um almirante Vandenkolk. Por isso, ca- 
locio. Até ver. Prudentemente. Circumspectamente. 
Não obstante, também, por sua banda, os criticos 
brazileiros leve se precipitem em suas temerárias pre- 
sumpçòes. Assim, não julguem que a Republica em 
Portugal seja um artificio mystico de cérebros ardi- 
dos, sem raizes naturaes e espontâneas. Não. Ao con- 
trario. 

Não. O motivo da aspiração rebenta de profundo. 

Parece, na verdade, que é demasiado ; a todas as 
almas bem nascidas affigura-se affrontosa uma insen- 



4G8 O BRAZIL MENTAL 



sata farândola similhante á actual, cujo cynismo ape- 
nas encobre a structiva imbecilidade. Indefinidamen- 
te, tyrannia no interior, humilhações no exterior; in- 
definidamente, a involuntária insolência inaproveita- 
da dos exemplos nobres lá-de-fóra — dos quaes o mais 
deprimente foi o que archivou a vexante lição, á nossa 
prosápia educativa e iniciadora, inílingida pela, em 
geral, inesperada e surprehondente, pois, iniciativa 
do Brazil. Inaproveitados e inúteis, estéreis e infe- 
cundos, tantos e tantos: termina por cançar. 

Dado mesmo que longamente se demorasse (► 
resto — que está á porta. 

Ora, tào baixo desceríamos que não possamos 
reassumir jamais, se não uma posição gloriosa e do- 
minante, pelo menos uma situação meritória e di- 
gna — eis o que, no fim, seja intolerável. Não declame- 
mos, monotonamente, acerca de passados triumphos; 
aprendamos a proceder de modo a habilitar-nos a que 
de nós mesmos com honra se falle. 

Respeitemo-nos, que nos respeitarão. No intimo,, 
determinemo-nos, que conseguiremos victoria, ainda 
que remota; obteremos triumphb integral, ainda que 
longínquo, reconstruindo-nos, porém, recompondo-nos 
e galardoando-nos, elle, com nova actividade remu- 
neradora e remunerada. Assim se haja de N coroar a 
intemerato dos esforços sinceros. 

Sursum corda! Haut-fes-cceurs ! 

Rompamos com os maus hábitos; calquemos aos; 
pés. em vergonha e em fúria, as tradições enervan- 
tes; reorganise-se o nosso ser subjectivo; façamos 
sacrifício e remodelemo-nos na eschola terrível onde 
E se reeduque quem abandonado, revoltoso e colérico, 



O BRAZIL MENTAL 469 



das illusões. Aprendamos a ser outros; que um fu- 
turo amplo e radiante nos compensará da momen- 
tânea, ou mesmo longa, agonia que nos perturbe o 
dilacere. Mal acabemos de rasgar as entranhas, fica- 
remos em paz comnosco mesmo. Palavra cruel, pa- 
lavra divina. Se tanto á tradição queiramos; — que 
não ha, na verdade, de que. Eis, comtudo, estranha 
realidade essa a do fascinado deslumbramento da vi- 
ctima. Ella beija, grata, a mão do algoz. 

Mas haja força. Rompamos. Rompamos com a ty- 
rannia, com a traição, com o egoísmo. Reconheçamos 
o amor, prezemos a amizade; porém extirpem-se 
os parasitismos ; porém reajamos contra a preguiça, 
contra os nossos vicios próprios. Castiguemo-nos. Que 
venceremos. Nobilitemos os outros; nobilitar-nos-he- 
mos a nós. Elevemos e eleveino-nos. Saibamos apren- 
der e saibamos ensinar. Vida nova — para todos. 

Sursum corda ! Haut-les-cwurs ! 

Confiança e trabalho. Paciência e persistência* 
Que o nosso orgulho seja feito de humildade e a hu- 
mildado se amasse na dignidade reciproca. 

Deus nos não abandonará. Elle nos veja e nos 
julgue; misericordiosamente nos ajudaria sua graça. 

Ha, para o impio duvidoso, ovante exemplo. 

É, até, a recuperadora honra da França contem- 
porânea. 

Batida, derrotada, vilipendiada e escarnecida; 
com a sua capital profanada pela invasão do inimigo 
secular; rebentando na avenida do Grande-Exercito 
os estrépitos sábios da marcha que á victoria sagrou 
o génio de Wagner; desfilando, cautelosamente, aliaz, 
desconfiados, de resto, os uniformes pardos dos ca- 



470 O BRAZIL MENTAL 



beças-quadradas pelas beiras do entaipado Arco-do- 
Triumpho, caricatura grotesca da apotheose que, cer- 
to, fez sorrir de desdém as mascaras trágicas dos 
grupos de Rude ; retalhado seu mappa ; exhaustos os 
'cofres do Estado: — eil-a, essa França, inicial e pro- 
motora, de pé e respeitável, á sombra e sob a égide 
do systema politico que ella teve o mero bom-senso 
de preferir, para sua recomposição preliminar e para 
seu ultimo remodelamento. 

Os povos disse alguém que só se resignavam á 
verdade depois de haverem esgotado todas as forças 
do erro. 

Mas nós, pobres portuguezes, vimos fatigando a 
paciência do destino, poisque de bom grado esgote- 
mos as fezes do cálice immundo. 

O tripudio é já hoje excedente. 

Demais tem fervido o sol para a canalha. 

Principia a ser tarde. Logar emfim, logar para 
os homens de bem. 

Revindiquemol-o, aqui mesmo? O revindicamos, 
sim, — poisque de necessidade urgisse que encerrás- 
semos idoneamente estas paginas especiaes. 

Discorrendo do Brazil, d'um paiz novo falíamos; 
e, discreteando a propósito de gerações tocadas da 
aspiração (parcellarmente realisada), com a effecti- 
vidade da fé, no acto se consummando, incorremos. 

Que este livro terminasse, pois, já nào com uma 
palavra do esperança, mas sim com um grito de 
combate — era mais que um direito, era um dever. 

Retiramo-nos satisfeito. Cumprimol-o. 



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ÍNDICE 



Pag. 

Nota preambular v 

Advertência expositiva vn 

I — Introducção 1 

II — O positivismo 101 

III — O monismo 299 

IV — Conclusão 389 



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JOÃO DE LEMOS 

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